quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Seleções




Fim de ano, campeonato no fim e começam as listas. Numa precária imitação da mania estadunidense de escolher o melhor em qualquer coisa, nossas revistas, rádios e canais de televisão elegerão o melhor jogador do campeonato , a revelação, o melhor técnico etc. Ao contrário de outros anos em que os nomes eram diferentes para cada órgão de imprensa, este ano Neymar deve ser o vencedor em todas as listas..
Ademais do prêmio entregue pela CBF em associação com a Globo, o canal Sportv também do grupo Globo, entrega o troféu Armando Nogueira para o melhor jogador do campeonato. A votação é feita rodada a rodada e notas são conferidas aos jogadores que, pela média, são escolhidos É só uma brincadeira, mas eles levam a sério
Até semana passada, Neymar levava grande vantagem sobre o segundo colocado que era o Motillo do Cruzeiro. E é aí que eu não entendo. Ora, o cara é o armador do time. O time está na beirada da zona de rebaixamento, mas mesmo assim nossos comentaristas esportivos o acham o máximo. Faz lembrar a piadinha dos anos sessenta: _ O filme é uma droga, mas o diretor é genial. Claro que estas eleições são só pra encher lingüiças e eu estou fazendo o mesmo, pois quero falar de outra coisa. Mas o Montillo se encaixa no tema.
Trata-se da xenofilia que toma conta dos meios esportivos. Não há transmissão de futebol que não fale das maravilhas do futebol estrangeiro em detrimento do nosso. Mesmo que o jogo transmitido seja da segunda divisão do brasileiro._ Mas isto não é nenhuma novidade, você dirá. Concordo. Mas é que agora a coisa chegou às raias do ridículo.
 Se qualquer amante do futebol pode reconhecer no Barcelona uma força poucas vezes vista ultimamente, o mesmo não se aplica nem à seleção espanhola nem tampouco ao futebol jogado naquele país. E mesmo se tratando do Barcelona há que ponderar. Sim, pois se no último título europeu ganho pelos catalães houve uma incontestável supremacia destes, coisa que o Mourinho não concordaria, na penúltima conquista houve o maior afano esportivo que se tem notícia desde que os jogos passaram a ser transmitidos por televisão. Foi na semifinal contra o Chelsea. Nada menos que cinco pênaltis não foram assinalados a favor dos ingleses. Ainda assim há que se reconhecer o grande futebol que praticam os liderados de Guardiola. Agora, outra coisa é o campeonato espanhol, chamado apropriadamente por Paulo Vinícius Coelho, de “o melhor gauchão do mundo”, e a seleção espanhola.
Essa seleção é a mais medíocre campeã de todos os tempos. Marcou sete goals em sete jogos durante o mundial da África do Sul. Menos que o Ronaldo fez sozinho na Copa de 2002. Talvez você venha dizer que os galegos fizeram oito goals em sete jogos. Você está errado. O oitavo goal foi marcado na prorrogação do último jogo. Então...
Mas não é só na quantidade de tentos que eles são fraquinhos, seus resultados também são apenas medianos. Senão veja. Eles perderam para a Suíça na estréia da Copa. Eu sei que é difícil vencer os suíços, mas é mais difícil perder para eles. Os caras não atacam. Têm verdadeira ojeriza às redes adversárias. Ainda assim ganharam dos espanhóis. A contra gosto, mas ganharam.
No jogo contra Honduras, os comandados de Vicente Del Bosque, receberam de presente da ex -colônia os dois tentos que lhe valeram a vitória. No primeiro goal o arqueiro hondurenho foi até o meio de campo para passar a bola ao adversário que foi decidir sua passagem à segunda fase contra o Chile. Venceram os espanhóis por 2 x 1, no sufoco.
Enfrentaram Portugal e golearam por 1 x 0. Mas contra o Paraguai tiveram que contar com uma arbitragem amiga que anulou um goal legítimo dos guaranis e não mandou voltar a cobrança do pênalti perdido por estes quando houve uma flagrante invasão de área pelos espanhóis. Tudo isto quando o jogo ainda estava 0 x 0. No final, mais um resultado por placar mínimo Por fim fizeram dois bons jogos contra a Alemanha e Holanda vencendo o primeiro por 1 x 0 e empatando o segundo.
Depois da Copa perderam para a fraca Argentina, ganharam, roubado, do Chile com um pênalti inexistente no finalzinho do jogo, após estarem perdendo por 2 x 0, e  empataram com a grande Costa Rica  também depois de tomarem  2 x 0 no primeiro tempo. Ainda assim a seleção da Espanha é tratada por nossos analistas esportivos como algo a ser copiado Seu técnico que antes era chamado de apático quando dirigia o Real Madrid e não ganhava nada, agora é visto como “sereno” .Mas pelo menos os caras têm um título mundial. Coisa que não acontece com a outra maravilha que os comentaristas não cansam de louvar; a seleção uruguaia.
Esta seleção que comemorou o quarto lugar na Copa como se fora uma façanha, agora é tida como símbolo de tudo que é bom no futebol. Seu técnico é um gênio, muito embora escale um meio campo com três volantes e um só atacante, pois Forlan, elevado à crack aos trinta anos, tem de voltar para ajudar na armação do time. Seu goleiro reserva é o Castillo que foi defenestrado pelo Botafogo após montar uma granja em General Severiano. Na Copa teve três vitórias dois empates e duas derrotas. Chegou por acaso às semi-finais e voltou com duas bordoadas no lombo para ser recebido em sua pátria com banda de música, coro infantil e foguetório. No último amistoso venceu a Itália que se chegar disfarçada no campeonato brasileiro não faz goal nem no Avaí.
           





sábado, 19 de novembro de 2011

Visita de Manuel

Manuel não tem televisão. Mas isso não quer dizer que não assista televisão. Não que vá a casa alheia para faze-lo. Manuel assiste televisão em público. De uns tempos pra cá todos assistimos televisão em público. Mesmo nós que moramos em cidade pequena onde não há as imensas vitrines das lojas de eletrodomésticos com trezentos aparelhos ligados, assistimos televisão em público. Ela está em toda parte; nos bancos, para que esqueçamos que o atendimento demora mais do que é estipulado por lei, nas lojas de ferragens, para não nos darmos conta que os poucos funcionários estão contando parafusos para algum amante da bricolagem, nas repartições públicas, é claro, senão o que faria toda aquele gente do cabide de emprego, visto que nem sequer há mesas para que todos trabalhem? Mas há coisa pior. A televisão invadiu os bares. Não há boteco onde ela não esteja.
Foi num desses botequins que Manuel assistiu o programa CQC  enquanto aguardava que a chuva desse uma trégua.
No domingo eu tentei não saber o resultado do jogo do Galo para assisti-lo reprisado a 1 da manhã. Foi uma longa espera. Quando faltava meia hora para o início da reprise, ouvi o latido dos cachorros. Era o Manuel que assomava ao portão. Antes de atende-lo  verifiquei o resultado do jogo na internet. Tínhamos vencido. Era crucial este jogo contra o Palmeiras.
Manuel não quis entrar e tão logo tomamos o chão do quintal como assento, me perguntou se eu conhecia o tal programa, se via sempre. Disse que por três vezes havia tentado mas, a vergonha alheia me fizera trocar de canal. Vi-lhe um certo alívio no rosto. Quis saber que tipo de programa era aquele, pois não sabia como classifica-lo. Como temos a mesma idade, mais ou menos, entendi do que se tratava.
Anos atrás os programas de televisão eram divididos em humorísticos, jornalísticos, dramaturgia, infantis, esportivos, etc. Agora é um pouco diferente Há propaganda política nas novelas, humor (negro) nos noticiários, e total falta de graça nos humorísticos. Os programas esportivos falam de economia e os políticos fazem analogias com o futebol. Expliquei-lhe que o programa que ele havia visto era tido como humorístico ou de sátira política, sei lá. _Mas aqueles caras são humoristas ou jornalistas? Perguntou-me. _Nem uma coisa nem outra, respondi. Tive que explicar minha teoria sobre os apresentadores de televisão.
Tudo começa quando o garotinho, que tem uns 4, 5 anos, imita os programas idiotas da tv que está sempre ligada. A mãe acha uma gracinha a imitação do Silvio Santos e do Tiririca. Quando chega a visita a mamãe chama o filho e entre risotas pede-lhe que faça a imitação ou  a dança da boquinha da garrafa. O moleque, que já ostenta as manhas de celebridades, se faz de rogado, mas por fim perpetra a infame demonstração de seu histrionismo. A visita, constrangida sorri e comenta para orgulho de mamãe:_ Que gracinha. À noite, mamãe comentará com papai:_ Fulana morreu de rir com a imitação que o Júnior fez da Lady Gaga. Papai sorri satisfeito. Pronto, está iniciada a carreira de mais um apresentador que por décadas e décadas nos atormentará nas tardes de domingo enquanto esperamos o futebol.
Manuel desqualifica minha tese. O que mais detesta em Freud é esse negócio de meter a mãe em tudo. _E os apresentadores órfãos? Pergunta. _Nunca houve um sequer. Respondo convicto.





sábado, 12 de novembro de 2011

El reino del revés






Maria Helena Walsh foi a mais criativa e inteligente compositora de músicas infantis de que tenho notícia. Também escrevia estórias e cantava. Tudo fazia com requinte. Também escrevia canções de temática adulta mas confesso não conhecer essa faceta de seu talento. Há um disco seu que ademais de contar com letras divertidíssimas, cada uma das canções é composta em um ritmo distinto. Temos desde o “Twist del Mono Liso” até a “Chacarera de los gatos”. Mas não é da grande compositora argentina que quero falar, acontece que uma de suas canções me veio à mente enquanto ouvia notícias na televisão. Trata-se de “El reino del revés”.
Acontece que vivemos hoje neste reino onde tudo é o reverso do que deveria ser. Se não, vejamos. Assistindo um programa de cunho jornalístico, deparo-me com rasgados elogios a um produtor rural que exterminou uma plantação de bananas da propriedade que adquirira e passou a cultivar bromélias. Com isso estaria ajudando na preservação ambiental, protegendo mananciais. Ora bolas, banana menina tem vitamina, banana engorda e faz crescer. O homem é elogiado porque deixou de produzir alimentos, deixou de produzir a fruta rica da família pobre.Digno de elogios seria se conseguisse plantar bananas de maneira que não comprometesse os mananciais e demais recursos naturais. Certamente suas bromélias irão compor um lindo arranjo floral que adornará alguma mesa de reunião, onde estará sendo discutido o futuro do planeta. Lástima que as bromélias terão que disputar espaço à mesa com laptops e celulares, aparatos indispensáveis para nossos defensores do meio ambiente.
No mesmo fim de semana encontro na tv um largo programa tratando de construções ecologicamente corretas. É mostrada uma casa que gira para aproveitar melhor a luminosidade natural e assim, economizar energia. Nada disseram do tipo de energia que é usada para movimentar semelhante engenho, mas seja o que for, me parece que um motor capaz de mover uma casa deve consumir muito mais energia do que umas lâmpadas que deveriam ser acesas mais cedo caso a residência fosse fixa. Sem contar, é claro, que todo o mecanismo foi fabricado consumindo energia. Mas tanto o construtor como o proprietário e o repórter estavam contentíssimos com o projeto. Muita engenharia e pouca aritmética. Mas se estes exemplos parecem pouco representativos do “reino del revés”, vejamos o que acontece com a maior falácia do século; a reciclagem.
Talvez seja melhor falarmos de “reciclagens” pois assim estaremos fazendo a distinção entre o que é útil e economicamente viável do que é apenas uma afetação típica de nossos dias.
Quando, no final dos anos 60 o leite passou a ser vendido em saquinhos plásticos, as mulheres da classe pobre logo viram nas embalagens, um enorme potencial de matéria prima e em pouco tempo o plástico resistente e moldável se transformou em capas para fogões , botijões de gás, liquidificadores. Claro que a classe média via nesta criatividade o cúmulo da cafonice. Mas estava aí o engenho que sempre fez do pobre um reciclador. É a reciclagem direta que toma o material útil e o reutiliza para fins idênticos ou semelhantes. A transformação, quando há, é mínima. A energia gasta em seu reaproveitamento é sempre muito inferior a que seria despendida na fabricação do mesmo objeto ou no que dele deriva.O mesmo se dá com as colchas de retalhos ou o uso de frascos de conservas para armazenar outros alimentos. Mas isso é coisa de pobre. Não é chique. O socialmente aceito são as lixeiras coloridas nas quais a classe média pode depositar com orgulho suas garrafas de vinho importado.
Quanto ao outro tipo de reciclagem, em voga nos dias atuais, o processo é complexo e exige um gasto de energia muito superior ao usado na fabricação do produto original. Assim que na reciclagem de embalagens plásticas de refrigerante, por exemplo, desde a coleta passando pelo transporte até a planta de transformação, o dispêndio de energia é enormemente desproporcional ao valor do produto resultante do ciclo.Isso se dá principalmente porque o tipo de reciclagem que se pratica é descendente. A segunda fase de uso é sempre inferior à primeira. As garrafas são transformadas em cordões de sapato ou enchimento de bonequinhos que antes eram recheados de isopor. O papel mais fino retorna como papelão ou papel de embrulho e assim por diante. Os japoneses já conseguem fazer fios longos para a indústria têxtil a partir das garrafas plásticas, mas a tecnologia é cara e não é dominada por outras nações.
Já se fala de uma reciclagem que tornaria o segundo ciclo idêntico ao primeiro. A este tipo de reaproveitamento da-se o nome de ”berço a berço”. Mas também aqui há o problema da energia utilizada.
Mesmo em países que, como o Brasil, possuem uma matriz energética limpa, os custos de produção de energia são enormes. No caso das hidrelétricas o impacto ambiental já é fator desestimulante (veja o caso de Belomonte) embora a produção em si seja limpa. Nos países europeus cuja matriz ou é atômica ou por queima de combustíveis fósseis, depara-se com o problema de segurança (energia atômica) ou de poluição atmosférica e o conseqüente efeito estufa (usinas termo-elétricas).
É também interessante notar como os ambientalistas não fazem a relação entre os custos extras advindos da reciclagem com a riqueza que deve ser produzida para afrontar estes custos. O dinheiro não nasce de árvores organicamente plantadas e sim do trabalho e da criação de bens e serviços que por sua vez demandam recursos energéticos. Como exemplo vale citar que em Nova York a remoção de uma tonelada de lixo custa aos cofres públicos (impostos pagos pelo cidadão) 50 dólares, ao passo que a coleta seletiva supera os 100 dólares por tonelada. Ou seja mais que o dobro. Para arcar com este custo extra o cidadão deveria produzir mais. Em suma, gastar mais energia.
O que vemos neste “reino del revés”são ações que para livrar o mundo do problema dos resíduos sólidos, amplia o maior dos problemas que é o aquecimento global por conta da queima de combustíveis fósseis para geração de energia. As fontes alternativas de produção energética têm se mostrado pouco confiáveis, seja pelo fator custo, seja pela dependência de questões climáticas ou geográficas. Na Noruega, onde haviam construído em meio ao oceano, imensos cata-ventos para a produção de energia, a empresa responsável pelo projeto vai desativa-lo por não ser viável economicamente. Em lugares como a floresta amazônica , o uso da força dos ventos como gerador de energia também não se mostra adequado. No caso da energia solar, esbarra-se nos custos, mas ainda é o que de melhor se conseguiu como fonte alternativa. Claro que estas tecnologias podem ser usadas como fonte complementar mas ainda assim o grosso da produção energética continuará, por muito tempo, sendo a que até hoje conhecemos.
O problema dos resíduos sólidos é de menor impacto ambiental que a poluição atmosférica. Caberia usar o engenho humano para melhorar sua reutilização. (reciclagem direta) compactação e estocagem do que é inservível, e legislar para que os fabricantes de bens utilizem menos embalagens. E mesmo neste caso temos antes de pensar em realocação de mão da obra que seria dispensada da indústria de embalagens. Mas vale pensar que se uma garrafa de cachaça pode ser vendida tal como sai do alambique, por que uma garrafa de wisky necessita de uma caixa que a envolva?
Mas aqui chegamos ao centro do “reino del revés”; as sacolinhas plásticas. Os ambientalistas dizem que elas devem ser abolidas por demorarem centenas de anos para se decomporem na natureza. Se juntarmos os ”benefícios” da reciclagem com esta demora, teríamos o panorama ideal, pois há mais tempo para que sejam recolhidas e recicladas. Disto vou tratar proximamente junto com o problema do lixo tecnológico.








É proibido fumar





Lá por meados dos anos 70 eu ia com minha rapaziada buscar bagulho numa favela de Belo Horizonte. O bagulho não era endolado e tudo dependia do humor do vapor. A mesma grana que num dia comprava unzão , no dia seguinte rendia apenas um fininho de cadeia. Mas ninguém pensava em reclamar ou dar uma choradinha, afinal o cara andava com um 38 na cintura “pra quem quiser ver” como dizíamos então. Deixávamos para resmungar enquanto apertávamos um na caixa d’água, onde íamos curtir o majestoso pôr do sol das alterosas. O três oitão nos tinha reféns. O cara era o dono do morro.
Se houvesse um museu do tráfico, aquele 38 estaria lá como reminiscência de um tempo quase romântico,ao lado do saquinho de leite cheio de maconha e da joaninha dos home.
Daquele tempo pra cá o que mudou com relação ao trafico foi seu poder financeiro e seu armamento. Do 38 chegamos ao fuzil AR 15, às sub-metralhadoras, ao calibre 12 e até um lança granadas já foi usado em enfrentamentos com a cana. Um helicóptero foi derrubado. Do dono do morro passamos às grandes facções e esta fase já está sendo superada. Estamos caminhando para o que a grande imprensa deu de chamar de "mexicanização" da atividade criminosa.
 Da maconha dos anos 70 passando pela cocaína dos 80, chegamos ao crack. Tudo tratado pela lei como se fosse uma coisa só.Todas as substâncias atendendo por nomes genéricos de estupefacientes, drogas ilícitas, entorpecentes. Isso não mudou e o estado continua “combatendo” o tráfico numa verdadeira operação enxuga gelo.
Cada vez que se prende um grande chefe de facção, a polícia faz estardalhaço e o secretário de segurança da vez, fala em pesada perda para o mundo do crime. Assim foi quando nos anos 70 prenderam Meio Quilo e hoje depois da prisão de Nem. Passando por Escadinha e Fernandinho Beira Mar. Mas não há vácuo de poder e logo os traficantes presos são substituídos por outros que vão evoluindo nos estratagemas e sofisticando operações para que o enorme, gigantesco mercado seja suprido.
As tímidas modificações introduzidas na legislação, são para inglês ver. Hoje o playboy encontrado com bagulho já não é considerado criminoso e sim usuário mas continua passando pela polícia, que é, em última instância, quem determina seu status. Já o garoto negro e pobre que está apertando um, na encolha, no alto do morro, se dançar “vai ficar grampeado no 12” como diz o samba. Isso se não for sorteado por uma bala perdida ou inscrito no rol dos atos de resistência.
Nas operações de repressão ao comércio de drogas,como a polícia gosta de chamar também genericamente, impera o esculacho, a tortura a céu aberto,a intimidação de moradores dos morros e favelas. O triste é que aquelas mocinhas, vestidas de colete à prova de bala com o logotipo das organizações criminosas a que pertencem, nada disso vêem. Através de seus microfones escutamos relatos que mais parecem relatórios oficiais. Ao final de cada reportagem mostrada pela televisão vemos a designação das delegacias e a sigla da secretaria de segurança escrita com trouxinhas e sacolés, e as armas que portavam os traficantes mortos na operação. Mas este ridículo encerramento só é capaz de afirmar o poderio do tráfico, e os números divulgados apenas apontam para o volume do consumo que, supostamente, nosso sistema legal quer reprimir. Segundo a reportagem exibida por ocasião da prisão de Nem, só na Rocinha eram vendidos 200 quilos de cocaína por semana,o que movimentaria 100 milhões de reais por ano. Os números são de apenas uma favela, das dezenas que movimentam drogas no Rio. Claro, esta informação pode ser questionada.
Mas se existe um fato inquestionável, é que todo este poder foi construído sobre a maconha. O que possibilitou o acúmulo de capital dos traficantes e sua inserção no mercado internacional da cocaína e depois de crack, foi uma planta que nasceria em qualquer quintal, se fosse permitido seu cultivo e consumo. Mas se agora é tarde para evitar-se o mal causado pela inócua proibição, ainda é tempo de evitar-se que mais vidas sejam perdidas e mais recursos sejam jogados fora. Recursos que poderiam ser melhor utilizados para tratamento de dependentes de crack e cocaína.
Sei bem que nada do que aqui digo é novo ou já não tenha sido mais e melhor tratado por quem se debruçou sobre o tema. Só não queria me furtar ao assunto que considero da maior importância  no que concerne à relação do estado com o cidadão.






terça-feira, 8 de novembro de 2011

Se a vida lhe deu um limão...






Se a vida lhe deu um limão, um copo d’água, um punhado de açúcar, uma colherzinha e uma faca, faça uma limonada e vê se arruma uma pedra de gelo.
 Mas se a vida só lhe deu um limão, o melhor a fazer é romper a casca com os dentes e deixar que a língua e as gengivas conheçam o ácido. Sugar o sumo azedo e sentir que as lágrimas afloram aos olhos e esgares tomam conta do seu rosto.
 Se a vida lhe deu um limão, você estará prevenido do escorbuto e talvez nem se resfrie. Mas não faça frases edificantes, não se iluda, não iluda. Não cite exemplos de superação. Você não é um programa esportivo nas manhãs de domingo. 
Se a vida lhe deu um limão, espere a banda passar e esprema o fruto devagar e do alto, em frente ao cara da tuba.
Se a vida lhe deu um limão, aproveite seu limão e nem tente troca-lo por uma mariola. No mundo já tem muitos limões, para todos.
Se a vida lhe deu um limão não espere encaixa-lo na salada de frutas de ninguém. Outros já descascaram o abacaxi.
Se a vida lhe deu um limão, carregue-o com cuidado junto à bagana e aos fósforos, Nunca no bolso de trás.
Se a vida lhe deu um limão, chame-o de limão. Os cítricos detestam eufemismos.
Se a vida lhe deu um limão, não tente fundar um sindicato de proprietários de limões.
Se a vida lhe deu um limão, jamais odeie seu limão. Apenas admita diante de um espelho sem luz:_ A vida me deu um limão
Se a vida lhe deu um limão, não se orgulhe nem se envergonhe. Limões não ganham prêmios nem estão na lista dos melhores do ano.
Se a vida lhe deu um limão, use-o logo e não espere para fazer uma caipirinha na velhice.
Se a vida lhe deu um limão, ele terá seu sobrenome e cpf.
Se a vida lhe deu um limão, ele não saberá de você. Haja o que houver, será tudo platônico
Se a vida lhe deu um limão, não procure uma religião na qual ele seja adorado.
Se a vida lhe deu um limão, não o deixe na encruzilhada como oferenda.
Se a vida lhe deu um limão, não tente usa-lo como moeda. Os caixas de supermercado também não aceitam as balinhas que lhe deram ontem como troco.
Se a vida lhe deu um limão, não cante para ele uma música do Wilson Simonal que lhe faz referência. Há coisas que até os limões percebem.
Jamais dance para o seu limão, nunca sorria para ele e tampouco derrame sobre ele seu choro.
Se a vida lhe deu um limão, seja ao menos digno dele.


Meninos, eu vi






Se você tem 50 anos ou mais deve se lembrar do Partido Tancredista Brasileiro. Se não, deixe que lhe refresque a memória.
 Este partido foi fundado pelo finado Carlos Imperial que, pra quem não conhece, posso garantir que não é defunto para se gastar vela. Pois bem, corria o ano de 1985 e o país vivia um clima de euforia democrática depois dos anos de ditadura. A criação de partidos foi franqueada e surgiram as mais diversas siglas como o Partido da Juventude, mais tarde usado por Fernando Collor de Merda  para alçar vôo na política nacional, o Partido Humanista e muitos outros que a sepultura da história guarda sem lápide nem flores.
Havia um desses partidos que era liderado por um arquiteto ou urbanista, sei lá, que por mais que eu ouvisse sua fala no programa eleitoral, nunca fui capaz de entender nem uma vírgula do que propunha. Era apoiado por Scarlet Moon de Chevallier. Coisa fina.
Mas voltando aos Tancredistas. O nome da sigla já denota, é claro, o oportunismo de seu fundador que trouxera para a política sua clássica formação de pilantra profissional depois de exercer este mister na música, desde os tempos da jovem guarda. Entre muitos outros apelos este senhor pedia, durante a propaganda eleitoral gratuita, que seus simpatizantes saíssem às janelas e gritassem:_  “Eu não agüento mais”. Só mais tarde vim a saber que esse mote fora criado por um radialista americano que pedia a seus ouvintes que fizessem o mesmo e teve grande impacto na vida estadunidense dos anos cinqüenta ou sessenta. Para entrar no clima um amigo meu, sempre que ouvia o apelo, saía à janela e bradava: _ Eu não agüento mais o Imperial! Pelo menos servia para rir. Porém na eleição seguinte, filiado a um partido de verdade, o paladino da insatisfação popular foi eleito vereador no Rio.
Mas se falo destas coisas paleolíticas é porque fui provocado por um pequeno aviso que surgiu do lado direito da página inicial do facebook. Trata-se de uma propaganda convocando os indignados cidadãos a conhecerem um novo partido cujo nome é Partido Novo. Muito criativo, não? E rápido. Pois nem sequer a Globo andou tão depressa com suas manifestações anti-corrupção,
O logotipo da nova sigla é um típico fruto dos desenhistas gráficos de computador, cheio de listras paralelas e insinuantes voltinhas . Não dá para identificar as letras que compõem a logomarca, mas é bonitim.  O que não é bonito é o papel que nós, coroas, temos de desempenhar nestes episódios. E nosso papel é dizer: _ Meninos, este filme eu já vi e o final é melancólico.



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Manuel, o próprio






Que posso dizer do Manuel?  Quase nada, pois dele pouco sei. Nos conhecemos quando cheguei em Garopaba no começo dos 90. Era uma fria tarde de julho e a chuva me surpreendeu na praia do Siriú durante um passeio. Chuva pouco usual pra essa época do ano, veio com raios que clareavam o céu sobre um mar de chumbo Olhei para um lado e outro e divisei, a uns cem metros, os restos de um rancho de pesca onde poderia me abrigar. Quase não me dei conta que para lá também se dirigia alguém vindo no sentido contrário. Era o Manuel.
Sentamos lado a lado sob a palha escassa. Nos cumprimentamos e foi ele quem puxou conversa. Mas em vez de referir-se à chuva, falou-me da praia como se soubesse que eu era um recém chegado a estas belezas..Conversamos muito tempo sobre dunas e peixes. Dei-lhe meu endereço e em poucos dias ele me apareceu em casa numa hora que, depois soube, era seu costumeiro horário de visitas. Meia-noite e meia. Também, como é de seu costume, não quis entrar e ficamos charlando sentados sobre o murinho que dava do quintal para a rua. Naquele dia falamos sobre o silêncio.
Até hoje tento saber de onde ele é, mas é difícil. Às vezes seu sotaque é de manezinho da ilha, outras é tipicamente de biqüira garopabense, mistura palavras em castelhano tal qual os gaúchos da fronteira e constrói frases  como um alfacinha. Também não sei como ganha a vida nem onde mora. Nunca me disse. Creio que é pros lados do Capão.
Manuel não tem computador nem televisão, mas, como estava sentindo mais necessidade de informação do que antes sentia, construiu um rádio. Mas só ouve “A voz do Brasil”, o futebol e, de dois em dois anos, o programa eleitoral. Explicou-me que as músicas de que gosta não tocam no rádio. São as cantigas ouvidas na infância que lhe interessam. Jornais, só lê os velhos. Prefere os livros. E dos livros, os antigos. Também lhe interessam os santinhos de políticos e os panfletos publicitários.
Quando aparece para nossos serões vem pedalando sua bicicleta composta de peças de cinco marcas de quatro nacionalidades diferentes. Por referências que faz, presumo que tenhamos idade igual ou muito próxima. Manuel nunca aborda temas pessoais o que faz sua prosa rica e interessante.  Quando uma vez lhe disse que o mundo me interessava como palco e não como platéia, ele apoiou a definição e só se mostrou um pouco chateado por eu não me lembrar onde a havia lido.  Manuel é muito rigoroso com relação a isso e quando cita, diz o autor e sua contingência histórica. 
Semana passada eu estava em casa buscando alguma coisa na internet quando  ouvi os cachorros latindo, olhei o relógio e vi que os ponteiros estavam verticalmente alinhados. Fui ao portão receber o amigo. Embora chovesse copiosamente e ele viesse ensopado, preferiu não entrar. Ao invés disto abriu um enorme guarda-sol que trazia atado à bicicleta, fincou-o na terra encharcada e sobre dois tijolos nos sentamos para prosear.
Recusou a oferta de café e como nunca chega de mãos abanando, foi até a bicicleta e de uma cesta de vime, que está sempre presa ao bagageiro, retirou uma garrafa de coca-cola bem pequena , daquelas de vidro que já não circulam desde os anos 70. Um pedaço bem cortado de sabugo de milho servia como rolha e dentro havia uma cachaça de alambique curtida no butiá. Aproveitamos os eflúvios da cana para meter o pau nos políticos daqui e alhures.
Quando Angela Merkel e Agripino Maia deixaram de interessar, caímos na política local. Manuel tirou do bolso da jaqueta um saquinho de plástico com vários papéis e depois de vasculhar por uns minutos, tirou de lá um panfleto que fazia referência ao projeto 78. Trata-se de um projeto de lei do executivo municipal que modifica o gabarito das edificações na cidade. Disso muito falamos confrontando os argumentos pró e contra. Manuel refletiu e depois de mais um gole sentenciou: _ É briga de cachorro grande. Tem toda a razão.
Por um lado os que são a favor do projeto manipulam a população dizendo que sem o aumento do gabarito não seria construída uma escola técnica federal em nossa cidade e isto se daria porque o terreno que possui o governo para tal fim é pequeno exigindo construção vertical.  Ora bolas, nesse caso bastaria criar uma lei excepcional liberando o número de pisos para entidades de ensino ou prédios federais. O que na verdade defendem é o direito do maior hotel daqui ampliar para cima seu número de habitações. É uma lei dirigida, elaborada sem levar em conta questões como o esgotamento sanitário e o trânsito, que seriam alterados com o aumento de residências e prédios comerciais. Por sua vez os partidários da manutenção do gabarito nos atuais dois andares, trazem argumentos tais como a preservação das características da cidade. Se fossem sinceros não teriam vindo morar aqui, pois eles, assim como eu, ajudaram a mudar as tais características da cidade, transformando-a de vila simpática de pescadores num balneário tolo como os demais, sem vida própria sempre a espera dos turistas. Ajudamos a transformar pescadores em empregados da construção e ajudantes de cozinha. Claro que sem a ajuda dos especuladores locais, nada disso seria possível.
Sempre é a mesma coisa. Os interesses de poucos são colocados como se tratasse do interesse de todos. Por isso é que até hoje os gaúchos comemoram a guerra dos farrapos (uma briga de oligarcas) como se fosse uma revolta popular contra desmandos do governo central. E para esconder o mais elementar fato daquela guerra fratricida, a chamam de revolução farroupilha.