terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Detonando o Japão







Enquanto esperava pelo jogo Santos e Barcelona, que assisti com o som da tv desligado, fiquei rememorando as últimas informações que os jornalistas esportivos nos deram em suas entradas ao vivo, desde o Japão,e nas transmissões dos jogos anteriores. Eu disse “informações”?  Já comecei mal.
 Não são fatos o que trazem esses jornalistas e sim uma enciclopédia de estereótipos já consagrados. Por eles só fico sabendo da educação estremada do povo japonês, da sabedoria oriental, do respeito aos mais velhos que aquela cultura exalta, da limpeza das ruas, da enorme tecnologia presente até em seus vasos sanitários. Sobre episódios recentes da vida japonesa, nada. Fukushima jamais existiu no imaginário de nossos patrícios que exercem a crônica esportiva.
Quando em setembro de 1945 os japoneses assinaram a rendição na segunda grande guerra, seu imperador Hirohito foi obrigado a fazer uma aparição pública e renunciar à sua divindade.Pela primeira vez na milenar história daquele país, o povo pode ver a face de um imperador. Imagino a decepção. O líder que por anos os fizera lutar em nome das tradições japonesas e repúdio ao domínio ocidental no oriente, apareceu num palanque de madeira sem adornos, mais parecendo um patíbulo que outra coisa. Trajava uma ridícula casaca que o fazia parecer-se a um besouro anão e seria motivo de riso até para a barata do Kafka, no rosto levava um bigode mal aparado em nada parecido às extravagâncias capilares dos samurais e shoguns e na cabeça um chapéu mais ocidental que o rebolado de Rita Hayworth. Ainda por cima vinha dizer que não era deus na terra e, com a graça dos americanos, seria apenas chefe de estado. Seus generais já haviam sido enforcados por crimes de guerra em seu lugar. Ele, que até o fim dizia que a rendição seria inaceitável, a aceitara em troca de seu pescoço imperial e divino. E é claro, devido à evidência que “fat man” e “little boy” mostraram.
Entre Hiroshima e Fukushima, o Japão tornou-se potência tecnológica e econômica e nos é mostrada como uma espécie de shangri-lá com terremotos pela televisão tupiniquim. Mas o que os olhos vêem o estereótipo apaga e nossos “enviados especiais” sequer enxergam que a simpatia reservada aos turistas é tão universal quanto à coca-cola. De Xerém a Kobi o gringo é bem recebido porque traz a grana. Que o respeito aos mais velhos é na verdade um respeito aos mais ricos.Lá e cá. Velho pobre tem que se valer da segurança social que sempre se mostrou mais evidente nos países ocidentais.O convívio de várias gerações sob o mesmo teto nada tem a ver com respeito à sabedoria e sim com falta de aposentadorias dignas que tornariam os velhos independentes da chatura de noras e netos adolescentes.
Mas para nosso espanto, ficamos sabendo que nas ruas do Japão não se encontra nem um fio de cabelo no chão e que poucos dias após o tsunami, estradas inteiras haviam sido reconstruídas.Pouco importa se crianças comeram carne contaminada inspecionada e liberada pelo governo e que a demora de um mês em ampliar a área a ser evacuada em torno da usina atômica avariada, fez com que milhares de pessoas ficassem expostas, desnecessariamente, à radiação. Tudo para evitar a desordem que uma fuga em massa dos locais contaminados provocaria. Os japoneses odeiam a desordem.  Sofisticados equipamentos de detecção de radiação diziam o contrário mas o governo japonês ordenou que ficassem em casa. Uma simples dose de iodo poderia ter evitado a contaminação radioativa.(O iodo não radioativo ingerido antes ou pouco tempo depois do contato com isótopos radioativos de iodo impede que a radiatividade seja absorvida pela tireóide) Em poucos anos saberemos os resultados dessa conduta governamental.
A ordem com que se comportam os japoneses também é motivo de admiração para os jornalistas esportivos brazucas que visitam aquele país. Quem os ouve tecer tantos elogios ao comportamento ordeiro, pensaria que essas pessoas jamais jogaram lixo na rua ou estacionaram seus carros em local proibido. Para eles é digno de nota que até para se suicidar os japoneses são ordeiros e respeitam as tradições. Mas como o Japão é o recordista mundial em suicídio infanto-juvenil, algum deslize deve-se esperar dos que praticam a milenar tradição do harakiri em tenra idade. Má influência ocidental, de certo.
No entanto se há algo em que o Japão se destaca é na tecnologia, e não só na tecnologia inútil dos jogos de vídeo e outros que tais. Os japoneses são bons em máquinas e equipamentos e no mundo das telecomunicações encontram poucos concorrentes.Como isso é fato inconteste, muito me surpreendi quando vi no canal japonês por ocasião do desastre nuclear de Fukushima, que durante as reportagens de rua e nos estúdios apareciam cartazes escritos que eram manipulados por algum ajudante do repórter. Mesmo durante as entrevistas coletivas com os responsáveis pela usina nuclear acidentada, que sempre vestiam uniformes muito grandes para seus corpos diminutos, havia os tais cartazes. Se a cena já era patética pelas caras de passarinhos tristes que todos ostentavam e pelos uniformes comprados, de certo, pelas mães dos diretores da usina nuclear, (as mães sempre compram roupas um número maior pensando no rápido crescimento dos filhos mesmo que estes já tenham 32 anos) os gráficos e dizeres, mostrados dessa maneira tão rudimentar, davam ao todo um aspecto de pobreza tecnológica da televisão dos anos 60 e me fazia lembrar da TV Tupy, da propaganda do sabão Rinso e, claro, do National Kid.
Talvez o problema dos japoneses é que apesar de terem contribuído para o mundo com muitas coisas realmente geniais, o ocidente cisma em destaca-los por suas bobagens. Assim é com seus “anime”. O nome não disfarça o que é, mas pelo menos não temos que dizer “desenho animado” para algo tão desanimado. São desenhos que nada têm de movimento, pelo contrário, são figuras estáticas cujo único esboço de animação fica por conta de uns olhos enormes que abrem e fecham a cada quadro.(Os japoneses crêem que possuem olhos como aqueles) Mas se visualmente são feios, o que se pode dizer dos enredos?  São dramalhões que fazem novelas mexicanas parecerem um baile gay de carnaval. Quem sabe aí não esteja um dos fatores que levam tantas crianças ao suicídio naquele país?
Parentes dos “anime”, os “mangá” também são uma febre no Japão. Certa vez li que 50% do papel para impressão japonês é usado para editar essas histórias em quadrinhos. O número me parece exagerado, mas se estiver correto, livros, jornais, revistas, folhetos, cartões de visita, notas fiscais e propagandas em geral, dividem a outra metade. Dessas publicações há para todos os gostos. Infantis, juvenis, adultas, cômicas, trágicas, eróticas e históricas. Na terra de Mishima e Kenzaburo Oe, quem manda é Gocu.
 O fascínio pelos heróis mascarados talvez baste para explicar porque sempre vemos, em cenas filmadas nas ruas do Japão, pessoas usando estúpidas máscaras cirúrgicas. Esse infantilismo contagiou outro ser pouco amadurecido e a figura de Michael Jackson usando uma máscara na cor preta sempre me vem à mente quando assisto as notícias referentes ao julgamento do médico do “rei do pop”.
   Porém nada mais fascinante para os parvos ocidentais que a tradição.Pode-se dizer que a maior tradição japonesa é a tradição. Para todos os atos humanos há uma prática tradicional. Mesmo que essas tradições se mostrem ridículas como o cerimonial que se deve seguir para tomar o chá em minúsculas xícaras, a arte das gueixas ou a inutilidade do bonzai. Não importa. Os japoneses souberam vender seu peixe cru e mesmo quando os recebemos no ocidente, suas frescuras são seguidas aqui também. Grandes empresas dão cursos para que seus executivos não molestem os clientes ou fornecedores japoneses com atitudes ocidentais. Mas se agradam por aqui, entre seus vizinhos do extremo oriente, sua fama está mais ligada ao imperialismo, aos massacres, como o de Nanquim,.e ao racismo. Para os chineses, a melhor tradição japonesa é a bomba atômica.





sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Artilheiros







Mário Vianna foi uma grande figura do futebol brasileiro. Árbitro, técnico e comentarista de arbitragem durante décadas, seu nome sempre esteve ligado ao folclore do esporte. Em uma crônica dos anos 70, João Saldanha conta um episódio bem característico da personalidade de MárioVianna. Morador da Urca ele se vestia de Papai Noel pelo Natal e distribuía presentes para as crianças do bairro. Um dia enquanto fazia seu périplo natalino pelas ruas do belo recanto carioca, algum engraçadinho fez uma piada de mau gosto referente às suas vestes. Mário não conversou, desceu do Jeep que o conduzia e deu uma tremenda surra no gaiato. Justificou-se dizendo que não era por ele e sim pela imagem do bom velhinho.Isso ocorreu quando já era comentarista da Rádio Globo.
O povo lhe tinha enorme carinho e disso fui testemunha quando assisti em Gal Severiano o jogo Botafogo X Bangu no início dos anos 70. Nem me lembro qual foi o placar. O Botafogo venceu. Desse jogo, que deve ter sido um dos últimos que o alvinegro carioca mandou em seu estádio, lembro-me bem que quando Mário Vianna  intervinha na transmissão com seus famosos “la mano” ou “banheira”, a torcida voltava-se para a cabine de rádio e o saudava como se fosse um de seus atletas e ele retribuía acenos e sorrisos. Alem desse fato, recordo que devido ao mal estado do gramado, o juiz torceu o pé e teve que ser substituído.
Muito antes, na Copa do Mundo de 54, Mário Vianna estava na Suíça como representante da arbitragem brasileira. Terminado o jogo Brasil 2X 4 Hungria, que eliminava nossa seleção da competição, ele, assim como muitos brasileiros ficara indignado com a atuação do juiz da partida e, em repúdio, tentou arrancar o escudo da Fifa que trazia preso ao bolso superior do paletó e como o emblema não cedeu, todo o lado da vestimenta foi rasgado e ele perambulou colérico pelo gramado de Berna aos farrapos. Essa escutei de Sandro Moreira num bate papo esportivo promovido pelo IBAM do Rio antes da copa de 82.
Mas a passagem de que mais gosto, quem contou foi o Mazola numa entrevista que assisti pouco tempo atrás e se refere  ao Mário Vianna que tentou a carreira de técnico no Palmeiras. Dizia Mazola que Mário sempre lhe pedia que pressionasse o goleiro nas saídas da meta, mas ele não era muito disso. Era um jogador técnico que não tinha por hábito dividir bolas com o arqueiro. Mas houve um jogo, no Ulrico Mursa, em que Mário, suspenso, comandava seus jogadores detrás do alambrado. Era uma noite de chuva e o técnico de voz possante berrava para ser ouvido pelos atletas dentro do campo e insistia para que Mazola apertasse o goleiro. Talvez já cansado de ouvir a gritaria, Mazola obedeceu e dividiu uma bola que vinha cruzada na área. Não deu outra, o guarda metas soltou a bola molhada e o artilheiro esmeraldino fez o gol. Mário Vianna não se conteve e virando-se para o público bradou:_”Esse gol é meu, esse gol é meu”.
Claro que a frase tem muito a ver com o Mário Vianna que distribuía presentes nas ruas da Urca, vestido de Papai Noel .Mas tem gente da qual não se espera algo assim. É o caso do Mourinho.
O treinador português nem de longe lembra o folclórico Mário Vianna. Ganha milhões, anda de Mercedes Bens, veste-se como um manequim de loja fina e usa perfumes caríssimos. Já provou, por onde passou, que é bom técnico. Não passa temporada sem título. Nem de longe provoca simpatias.  Finda a temporada passada, o treinador do Real Madrid teve que se contentar com a Copa do Rei (estamos no século 21 e ainda se joga uma copa do rei). Nas outras duas competições que seu time disputou, teve que ver o rival Barcelona como campeão espanhol e amargou uma desclassificação da liga dos campeões da Europa pelos pés dos catalães. Sobre esse fraco desempenho (fraco para os padrões do Mourinho) o treinador falou à imprensa que apesar de tudo a temporada havia sido boa. _ “Foi o campeonato em que fiz mais pontos, e a temporada em que fiz mais gols.” Pois é, assim como Mário Vianna, Mourinho acredita que faz gols. Já não lhe bastam os louros que a imprensa oferta aos treinadores. Táticas, estratégias, esquemas, qualquer um concebe. Mourinho faz gols. Quando as glórias esportivas já não lhe bastem ao ego, o grande treinador luso não se aposentará, pendurará os sapatos de 800 euros com os quais balança as redes adversárias. Mas antes disso ainda o veremos gritar à beira do campo, para nosso espanto:_ “Este golo é meu, este golo é meu”.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Colunista





Em um grande jornal houve um pedido de cancelamento de assinatura. Como o pedido havia sido feito por um dos mais antigos e fiéis assinantes, o departamento comercial do diário mandou que um funcionário fosse pessoalmente inquirir sobre o motivo do cancelamento. Encontrado o homem, perguntou-lhe o enviado do jornal:_ Afinal o que o fez cancelar sua assinatura? Foi a mudança na linha editorial? Alguma falha na entrega? Algum artigo o incomodou? _Nada disso, respondeu o outro, é que eu me aposentei, vendi a peixaria.
 Confesso que não leio jornais. As informações que busco , encontro na internet, na televisão, no rádio. Faço dos jornais impressos, que me caem nas mãos, uso semelhante ao do antigo peixeiro. Forro as latas de lixo. Claro que dou uma olhada nas manchetes, e se há alguma coluna com foto do colunista, leio por alto, sem buscar os óculos. Colunista com retratinho é irresistível.
 Roberto Arlt, o maior escritor argentino de todos os tempos e estilos, escrevia uma coluna jornalística intitulada “Águas fuertes porteñas” que era a mais lida em Buenos Aires, mas, seu rosto era desconhecido. Não havia retratinho encimando sua coluna. Quando morreu, em 1942, circulavam lendas sobre ele. Diziam que de tão alto, seu caixão não passara pelas curvas das escadas do prédio em que morara e foi necessário baixa-lo por cordas. Hoje saberíamos o número de seu sapato. Sua escrita não seria suficiente para imortaliza-lo. Nos nossos dias o escritor e o jornalista devem ser reconhecidos nas ruas. Daí os retratinhos.
De manhã ao forrar a lata de lixo com o lixo impresso, deparo-me com a coluna (retrato e tudo) do Sr. Cacau Meneses. Este “jornalista” mantém, além de página inteira no “Diário Catarinense”, alguns longos, intermináveis minutos no “Jornal do almoço”, noticioso que é exibido pela televisão pertencente ao mesmo grupo empresarial do diário. E é uma celebridade na província. Gaba-se de ter sido narrador esportivo aos doze anos mas esquece-se de dizer que a rádio, na qual fazia-se de locutor, pertencia a seu pai. Em sua coluna trata de politicagem local e festinhas de grã finos. Em um número da semana passada, sob o título “Esqueceram o metrô”, o Sr. Cacau nos brinda com o seguinte: _“Que a maquete da quarta ponte impressionou, isso ninguém tem dúvida. Que ela vai ser construída, saindo do mundo virtual para o mundo factível, isso é outra coisa que não tem mais como ser protelada”
 Ora, uma maquete é a visão de algo factível. Lá está, em escala reduzida, algo que pode ser feito. Algo factível. Acho que ele quis dizer “do mundo virtual para o mundo real” mas, talvez achasse que a imagem já está demasiado gasta e resolveu usar seu vasto vocabulário. O resto da frase também é um desastre. Mas continua o Sr. Cacau: _”Afinal, o trânsito há muito que já não atende à mínima necessidade para uma mobilidade razoável.” Que confusão do cacete.
Mas não pára por aí. Na mesma edição de 5 de novembro de 2011 agora sob o título “Floripa sem miséria (1)” o Anselmo Góes da imprensa catarinense manda a seguinte letra que não resisto a reproduzir na íntegra: _”O presente e o futuro da Capital, convenhamos, tem sido discutidos em torno das classes A,B e C. As classes menos favorecidas ou têm sido esquecidas ou entram no contexto estatístico, ou seja, ao se analisar os grupos com maior poder aquisitivo, engloba-se, automaticamente,os de menor renda. A partir dessa constatação, cuja veracidade teria que ser confirmada por estudos mais aprofundados, pergunta-se: o Programa Brasil sem Miséria, lançado pelo governo federal, precisa ser aplicado na Ilha da Magia? Reiterando: é uma questão para análise”
Amigo, você que alem de ter bom coração, possui o dom da inteligência, cursou uma boa faculdade e já mergulhou nos confins da metafísica, poderia me explicar que porra é essa? Por mais que me esforce não consigo entender o que quis dizer o aprofundado Cacau Meneses. Seria uma crítica às estatísticas? Um questionamento sobre a política do Governo Federal? Ressaca? Overdose de santo daime?
Bem, talvez você não possa me ajudar ou nem mesmo queira, afinal pode estar pensando: _Olha quem fala. Pontua mal, conjuga que é um despautério, craseia como um chimpanzé e quer falar mal do outro. Mas aí, embora concorde, trago mais uma estorinha jornalística em meu socorro. Lá pelos anos trinta nos Estados Unidos, um proprietário de um tablóide sensacionalista foi questionado por um colega da imprensa “séria”: _Como você pode publicar um jornal tão ordinário? Respondeu o outro sem perder a pose: _ É ruim, eu sei, mas só custa 10 centavos . Pois bem, é o mesmo caso. Para ler o Sr. Cacau Meneses há que pagar 2 reais, enquanto que aqui é de graça.


domingo, 27 de novembro de 2011

Lições de Espanha






Algumas lições podemos tirar da última eleição espanhola principalmente agora, quando discutimos nossa reforma política. Claro que estamos apenas fazendo uma tímida reforma eleitoral, mas, é justamente nesse campo que os espanhóis nos mostram algumas coisas interessantes.
A primeira delas se refere ao comparecimento às urnas. Cerca de 75% das pessoas aptas a votar depositaram seu voto no último dia 20. Se levarmos em consideração que o voto lá é facultativo e não é de se crer que alguém saia de casa para votar nulo ou em branco quando seu comparecimento não é compulsório, verificaremos que o número de votos válidos se aproxima muito com os aferidos no Brasil nas últimas eleições daqui. Seria este um argumento para quem defende o voto facultativo no Brasil. O eleitor depois de tantos anos de obrigatoriedade já se acostumou ao dever cívico e já não seria mais necessário tange-lo para as urnas. Na minha humilíssima opinião esta questão não é tão importante para o aperfeiçoamento democrático. No entanto os números das eleições espanholas mostram que tampouco a obrigatoriedade do voto se mostra necessária.
Outra questão que me parece importante é a da representatividade. È comum, no Brasil, que vozes se levantem para criticar o excesso de partidos representados no congresso nacional. Ao fim das eleições espanholas 13 partidos conseguiram assento no legislativo daquele país. E isto se deu em um momento de grande polarização entre Psoe e PP. A restrição ao grande número de agremiações nas nossas casas legislativas vem acompanhada da proposta, já rejeitada no STF, da cláusula de barreira.
Segundo escutei do advogado e ex-deputado Marcelo Cerqueira, a cláusula de barreira só existe na Alemanha e foi imposta pelo governo de ocupação estadunidense ao fim da segunda guerra mundial, com o intuito de criar dificuldades eleitorais para os comunistas. Aqui seus defensores têm finalidade parecida pois semelhante restrição traria enorme prejuízo aos pequenos partidos de cunho ideológico.
E as lições ficam restritas ao campo, digamos, administrativo pois no que concerne à política os ibéricos demonstraram total incompreensão dos motivos da crise que assola toda a Europa e à Espanha em particular. E nem se trata de algo vindo de passado remoto. Foi ontem mesmo que a bolha imobiliária nos EE.UU detonou a crise que se alastrou pelo mundo por contágio. Governos saíram em socorro dos bancos cujos cofres possuíam mais derivativos e outros papéis podres que o do Tio Patinhas em moedas e cédulas.Nada foi suficiente para estancar a sangria financeira desatada  pela falta de regulamentação dos mercados especulativos. Esta desregulamentação era o carro chefe de um modelo econômico neo-liberal que na Espanha tem como seu principal defensor,  justamente, o Partido Popular.  Vencedor, por acachapante maioria, no pleito de domingo passado tem agora o partido do Sr. Rajoy  a  faca e o queijo (ou seria o garfo e a  paella?) para impor aos trabalhadores daquele país mais sacrifícios a fim de que seus grandes exportadores e casas de agiotagem não sofram com as mazelas criadas por um modelo de política econômica cujos primeiros beneficiários seriam eles mesmos. Creio até que o tamanho da vitória será um incômodo para os liberais espanhóis. Como não haverá necessidade de negociações ou alianças, o ônus do fracasso que se aproxima recairá sobre Rajoy e sua administração. Nos primeiros tempos poderá se sustentar com o discurso da”herança maldita” e continuar usando o nome do canastrão Zapatero para justificar alguma coisa, mas passada a lua de mel o povo irá cobrar pelos sacrifícios feitos e se os espanhóis já demonstraram que votam mal, por outro lado sabem cobrar direitinho.
Dificilmente o novo governo espanhol tomará medidas tão drásticas quanto às tomadas por seus vizinhos portugueses. Se Portugal já estava sob intervenção dos organismos internacionais, a Espanha ainda tem crédito na praça. Crédito que remunera com juros cada vez mais altos. Mas se o tamanho de sua economia é fator de maior autonomia econômica frente aos banqueiros, fica claro que não há dinheiro para salva-los caso isto se mostre necessário.
Por último, as eleições espanholas podem nos ensinar que não adianta um governo dizer-se de esquerda ou progressista, precisa agir como tal. E que as políticas de direita dos socialistas espanhóis, foi o que levou o eleitorado a troca-los  pela direita de verdade.

sábado, 26 de novembro de 2011

Prêmios







Estamos chegando ao fim do ano e a sensação que tenho é que estou assitindo o canal 37 da Sky, o “Viva”. Tudo é repetido. Tudo. As mesmas ofertas imperdíveis das Casas Bahia, as mesmas mensagens natalinas com “Imagine” de John Lennon tocando ao fundo, a mesma decoração pavorosa de lojas e casas e... os prêmios. Prêmios para todos. O melhor crítico de teatro da televisão, o melhor crítico de televisão do rádio, o melhor comentarista de turfe, o melhor atleta de jogos eletrônicos, etc. E etc e etc.
Alguns desses prêmios já começaram a sair e em breve serão entregues com transmissão direta das televisões fechadas caso algum de seus contratados seja o vencedor, ainda que na categoria de melhor sonoplasta.
Outro dia, assistindo O “Roda viva” na TV Cultura, fiquei sabendo que o Datena já ganhou dois prêmios Vladmir Herzog de jornalismo. Imagino, que até hoje, quem votou no nome do robusto paladino do cadáver fresco, deve viver dando explicações para mulher, filhos, empregada e para o padeiro da esquina por conta desse voto. Mas não foi só o abatatado apresentador que abiscoitou prêmios da crítica “especializada”. Antero Greco também já foi eleito por seus pares como melhor comentarista esportivo da imprensa escrita. Nunca o li, mas julgando pelos comentários que faz (ou fazia) na ESPN Brasil, não vejo como poderia ganhar um prêmio que não fosse o de comentarista mais acaciano da televisão.
Mas como ia dizendo as premiações deste ano já começaram e Mauro Betting  foi eleito pela associação paulista de críticos de qualquer coisa, como o melhor comentarista esportivo de rádio. É a sexta ou sétima vez que o filho de Joelmir Betting é premiado nessa categoria. Sem contar que por três vezes foi eleito como melhor comentarista esportivo de televisão pela mesma confraria. Jamais o escutei pelo rádio, mas o escuto durante as transmissões dos jogos da liga dos campeões da Europa na Bandeirantes, e penso que o único prêmio ao qual faz jus é o de melhor filho de Joelmir Betting. E olhe lá. O cara é o tipo acabado do chato. Ri das próprias tolices e conta anedotas explicadas. A coisa mais sem graça que existe é anedota explicada. Alem do mais, sua voz, apesar de grave, soa afeminada.
Outro filho premiado em anos anteriores é o André Kfoury. Este rapaz prova que filho de peixe pode ser jaboti ou jacaré. Se o “Turco” não chega a ser cativante, pelo menos é brasileiro e comenta o futebol daqui com a paixão que este merece. Já o filho ostenta um ar de soberba quando fala de nossos jogadores e times.. Uma vez chamou o Guiñazu de “monstro”. A bobagem pelo menos rendeu uma coluna do Tostão que foi obrigado a provar por A mais B que o botinudo argentino não passava de um meio campista aplicado e viril, em suma, um botinudo argentino. Este ano eu não sei se o Pequeno André está indicado para algum prêmio.
 Ainda na categoria filhos, destaca-se Luis Alfredo, filho de Geraldo José de Almeida, cujo nome soa muito familiar para os de minha geração. Foi o narrador da copa de 70 e merecedor do nunca instituído prêmio do melhor puxa saco esportivo da ditadura. Mesmo hoje, passados tantos anos, lembro dos bordões de que era pródigo o narrador. Escutei do próprio filho que este prometera à mãe que não utilizaria os bordões do pai. Deve ter morrido a tal senhora, pois tenho escutado “quê que é isso minha gente” durante as transmissões dos jogos do campeonato inglês na Rede TV. Fora o uso da herança paterna, Luis Alfredo tenta criar seus próprios bordões, não lhe sai. Infelizmente para ele, o prêmio de melhor narrador esportivo já tem donos. Galvão Bueno e Luciano do Valle dividem os galardões conforme o patrocinador.
Não sei, todavia, quem será premiado como melhor comentarista esportivo de tv por nenhuma das 318 associações de cronistas espalhadas pelos quatro cantos do país, mas um nome aparece como forte candidato; Neto. O ex-jogador tem tudo para ser laureado. Fala muito mal o português, não tem a menor coerência e muda de opinião cinco ou seis vezes durante um simples jogo.Um escanteio mal batido transforma o crack de cinco minutos atrás no maior perna de pau da história do futebol na visão do ex-quase crack do passado. Ou seja, Neto faz o que todos fazem, mas com a ênfase que só seu sotaque é capaz de dar. Pelo menos na Associação de cronistas esportivos de rádio televisão e meios eletrônicos de Santo Antônio de Posse, seu nome é tido como certo para levar as honras.
Para desespero geral, não é só o jornalismo esportivo que entrega prêmios à granel. A indústria fonográfica também não economiza em estatuetas, troféus, discos de ouro e outros penduricalhos. O problema é saber por qual categoria seu ídolo concorre. Os sambistas não são listados como “música popular brasileira”. Sua especificação para efeito de premiação e nas prateleiras das lojas de cds , é “samba e pagode”. A denominação me faz pensar que Os oito batutas, se vivos, estariam concorrendo com o grupo Molejo e Alexandre Pires seria forte candidato contra Nelson Cavaquinho.
Não sei se já temos a categoria “sertanejo universitário”. Torço para que sim, aí talvez eu saiba o que diferencia os caipiras bacharéis do caboclo comum e corrente em termos musicais. Mas uma coisa é certa, Luan Santana estará entre os ganhadores, nem que seja como o Frankenstein revelação. Como trunfo o jovem leva seu cabelo “emo” sua cara de cdf tarado e o inconfundível sotaque à Chitãozinho e Chororó.
Entre as divas Ivete Sangalo levará algo para sua coleção de troféus. Como ainda não foi instituído o prêmio Marcha Soldado por performance nos palcos, a bahiana deve ganhar como Secretária Gostosa do ano.









Agoniza mas não morre


          “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe” Assim começa um samba bossa nova que tem por autor da letra o “poetinha” Vinícius de morais. E desses versos quem poderia discordar? Alem do mais são muito óbvios. A afirmação soa quase falsa de tão exata. Mas segue versejando o poeta até dizer o que tinha a intenção de dizer desde o princípio.”Fazer samba não é fazer piada e quem faz samba assim não é de nada”. Pronto, ficamos sabendo que Noel Rosa não era de nada, pois o que seria “Conversa de botequim” senão uma grande piada, uma típica anedota carioca? E toda a tradição do samba de breque criado e imortalizado por Moreira da Silva?_ Não é de nada, segundo o poeta de Ipanema. Mas e o samba jocoso, tão presente na obra dos maiores do gênero? _De nada. Diria Vinícius de Moraes, poeta e nome de rua.
Ainda nessa mesma canção Vinícius continua dando receita de como fazer samba. “É preciso um bocado de tristeza senão não se faz um samba não”. Nada mais falso. Nada mais falacioso. Ouvi de Nelson Sargento em um documentário que homenageava o bamba mangueirense, justamente o contrário. Dizia Nelson que não precisava estar alegre pra fazer um samba alegre nem triste pra fazer um samba triste.Se o depoimento do poeta de “Agoniza mas não morre” fora pouco, poderia recorrer a linda letra do samba composto por João Nogueira no qual o portelense do Méier descreve o poder da criação.”Não precisa se estar feliz nem aflito, nem se refugiar em lugar mais bonito em busca da inspiração”. Fico com os dois sambistas.
Acontece que Vinícius de Moraes, neófito no samba, quis mostrar conhecimento de causa numa seara que não era a dele. Iniciado na arte popular já maduro, queria, ademais de ensinar sambista a fazer samba, demonstrar fidelidade aos que lhe o acolheram no mundo do samba carioca. E sem nada conhecer do assunto chamou São Paulo de “túmulo do samba”. Nem foi maldade, foi ignorância mesmo. Duvido que ele conhecesse a obra de Geraldo Filme ou de Germano Mathias.E mesmo se conhecesse não creio que se emocionasse com a história de Geraldo que aos treze anos, incomodado com seu pai que não valorizava o samba paulistano, compôs um samba cujo refrão “Somos paulistas e sambamos pra cachorro , pra ser sambista não precisa ser do morro”,eu considero uma preciosidade pela singeleza de seus versos. Versos de menino.
 Duvido que o poeta do copo de whisky já ouvira falar do samba de Pirapora com seus tambores ancestrais. Mas Adorinan Barbosa já era nome consagrado quando Vinícius entrou na música popular. Ainda assim creio que o desconhecesse. Ou quem sabe os versos de “Saudosa maloca” ou de “Iracema” não lhe falassem ao gosto apurado de poeta acadêmico.
 Sempre que as classes privilegiadas entram em contato com o que é popular, dele se apropriam e chegam a acreditar que o melhoraram. Recentemente vendo um documentário sobre a música dos anos sessenta, ouvi de Nara Leão que as letras da música popular brasileira ganharam qualidade naqueles tempos pois pela primeira vez os compositores tinham nível universitário e citava Tom, que era arquiteto. Ora bolas, estou para descobrir o que faz de um arquiteto bom compositor, que aliás, é o caso do grande Tom Jobim. Mas se Tom é o maravilhoso melodista que conhecemos, tenho certeza que isso nada tem a ver com suas horas passadas na faculdade de arquitetura. Alem do mais um curso universitário não dá bom gosto a ninguém. Muito menos talento musical. Preciso lembrar que nos dias de hoje temos um novo gênero musical chamado sertanejo universitário? (Desculpe, peguei pesado)
Mas voltando ao tema. Nem Nara Leão, com sua total falta de graça e sua voz de apartamento, nem Vinícius de Moraes, contribuíram com o samba. Nada do que fizeram nesse gênero musical se igualou ao que já havia sido feito antes ou viria a ser feito depois. Mesmo Baden Powell  que com Vinícius fez os “afro-sambas”,apenas colheu de vindima alheia sem que o vinho produzido soubesse melhor ao paladar do terreiro. Estas composições são para sala de conserto de gringo.
Por falar em gringo, vale a pena salientar que essa apropriação indébita do lavor popular também se dá em outras plagas.
Quando o jazz começava a agradar aos estadunidenses, alguém da indústria fonográfica, também iniciante, resolveu convidar artistas daquele estilo musical para gravar. O escolhido foi um trompetista negro que fazia furor com seu talento levando multidões ao Harlen para ouvi-lo tocar. Mas o músico, além do grande talento também era possuidor de enorme vaidade. O virtuose tocava com um lenço sobre o instrumento para que outros músicos não vissem os movimentos dos seus dedos. Portanto ao receber o convite meditou e recusou a oferta pois acreditava que tendo seu som gravado, outros poderiam copia-lo. Com a recusa, os homens da gravadora foram atrás de um grupo de brancos que também tinha muita aceitação no mundo do jazz. Estes foram contratados e em pouco tempo já desbancavam o grande vendedor de discos da época, o tenor italiano Enrico Caruso.. Esta banda pioneira nas gravações, durou mais de cinqüenta anos e seu líder e fundador morreu jurando que o jazz nada tinha de negro, que estes apenas copiavam a arte criada pelos brancos. Se alguém lhe dava crédito, eu não sei.






quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O filósofo






Como sou casado há quase trinta anos com uma mulher judia, desenvolvi o hábito de falar sozinho. Pois se em sua religião as filhas de Abraão são relegadas ao segundo plano, assim como em todas as outras religiões, em seus lares as coisas funcionam de maneira totalmente diversa. Não sei o que veio primeiro, mas, me parece que quando os clérigos israelitas segregaram as mulheres nas sinagogas foi para que elas não os interrompessem durante alguma liturgia, para mencionar o custo das celebrações ou o bonito corte daquele kaftan ou ainda que a menorá não foi bem polida. Não sei. Talvez tenha sido o contrário e a posição subalterna nas cerimônias religiosas fez da mulher judia, rabino e talmudista em suas casas. É ela quem interpreta a Torá e faz-se de juiz rabínico entre as pedras do lar.
Mas se por um lado adquiri o costume dos monólogos interiores, qual um James Joyce da periferia, sou um ser humano e como disse Nelson Rodrigues, “a utopia de todo ser humano é um par de ouvidos”. Sendo assim, aqui estou batucando no teclado umas palavras que talvez sejam lidas.
Você,que me honra com sua atenção, já notou que tenho cá muitos problemas com a gramática. O vernáculo me é adverso. Ainda assim não consigo consultar os compêndios que versam sobre a língua culta enquanto escrevo.Prefiro ir ao “correr da pena” como se desculparia alguém do século dezenove, tão leigo como eu nos afazeres da escrita. Ainda posso agregar, a título de escusas, meu pouco tempo de vida escolar e inexperiência em transmitir idéias por meio das letras. Mas este sou eu,. inculto e amador. Deve-se exigir mais de quem é docente de uma faculdade e põe tintas em  jornais. Neste caso pode-se cobrar, senão talento, pelo menos um mínimo de clareza e bom uso da língua portuguesa.Refiro-me ao Pondé, o filósofo televisivo.
Tomo por base um texto que li outro dia na internet e nem sei onde foi publicado originalmente. Mas como o sítio me parece confiável, dou fé. Se lhe parece injusto julgar um pobre filósofo por apenas um de seus textos, devo aclarar que nunca ofereço justiça, apenas ponderações.
Pondé, como sabemos, ama as câmeras e por elas é amado.Isso tem contribuído para que ele não se faça de rogado quando as lentes o chamam para opinar sobre qualquer coisa. Fissão nuclear ou reprodução de artrópodes, tudo é matéria para sua verborragia. Quanto à escrita, o mesmo se aplica. Tanto assim que no artigo referido, ele busca nos distúrbios da USP conexão com Foucault e seus colegas docentes. Escracha  professores, alunos e o filósofo. Sempre tendo por base uma posição conservadora que quer se fazer passar por ultra moderna pois é pós politicamente correta. E aqui está o segredo de Pondé,
O filósofo preferido das estrelas encontrou um nicho de mercado que estava vago desde as mortes de José Guilherme Melquior e Paulo Francis; intelectual de direita. Desgraçadamente, não possui nem a elegância do texto daquele nem o sentido de humor deste. Francis escrevia como poucos e J.G. Melchior  tinha a clareza na argumentação que falta ao pensador representante da Avenida Paulista.
A idade, inimiga dos prazeres, deu-me, como prêmio de consolação, ao menos o poder de respeitar a opinião alheia. Mas no caso de Pondé, vou abrir uma exceção, pois não se trata de opinião meditada, estribada em profunda reflexão. Isso fica claro pela pressa que os acontecimentos exigem para serem comentados. E Pondé é e será sempre requisitado para dar sua douta opinião. Jamais ouviremos daqueles lábios risonhos um estimulante “não sei”. Nunca veremos naquele rosto adornado pelo soberbo cavanhaque, uma expressão de dúvida. Pondé só duvida da dúvida alheia. Só descrê o que crê o outro. Em sua filosofia prêt-à-porter não há lacunas a serem preenchidas por outro pensar.
Mas se o pensamento do calvo filósofo é bem aceito por muitos e até admirado por seus alunos, e isto é comprovado pelos comentários feitos na internet em razão da publicação do texto já mencionado, fica também claro que sua escrita é indefensável.  Faz lembrar justamente os comentários postados na rede de computadores por ocasião de um concerto de música pop ou do último escândalo de corrupção. A linguagem é a mesma. Mistura de xingamento e achincalhe. Quase dá para sentir os perdigotos na cara.
E se a linguagem beira a deselegância ,o estilo não poderia destoar e em dado momento o grande filósofo contemporâneo nos brinda com um “no sentido de”.Esta expressão é o sucedâneo do “a nível de” como podemos constatar pelo uso indiscriminado e massivo nos meios de comunicação. E se há pouco tempo era comum ouvirmos de nossos craques que sentiam uma contusão à nível de joelho, hoje sabemos que alguém vai à padaria no sentido de comprar pão. Mas é até estranho que um sábio tão pós pós- moderno como Pondé use o termo, pois este já está sendo substituído pelo “onde”. Esta nova locução pode ser usada em qualquer lugar e se referir a qualquer coisa. “Um jogador onde”... “uma música onde” ...etc. Uma maravilha que não há corretor ortográfico que dê jeito.Contudo não creio que o risonho pessimista vá usa-la. Já seria demais.
Se por acaso os olhos míopes do guru da Paulista recaíssem, cansados dos sérios estudos, sobre meus nada valorosos escritos, eu lhe daria apenas o conselho de quem já viu muito Professor cair do cavalo pelo excesso verbal. Pondé, calce as franciscanas sandálias e se case com uma boa mulher judia.