sexta-feira, 30 de outubro de 2015

No chão das ruas



Fundo de garrafa quebrada
mostrando a ferocidade de suas agulhas
Jornais amarelados navegando à deriva
Poças d’água quase límpidas que refletem luas
no côncavo negro  
Restos de cigarros que guardam a marca do beijo
Podridões sob o voejar verde-azulado das moscas
Dejetos, cusparadas.
Meninos que dormem sobre o papelão
envoltos em trapos.





sábado, 24 de outubro de 2015

Revivendo






Relendo O Chapadão do Bugre. Mário Palmério
que conheci aos quinze, dezesseis anos.
Pelos caminhos de Minas vou atrás daquele menino.
José de Arimateia me guia
Seu Valico Ribeiro me acoita.
Ói! eu montado na minha Camurça.
Mula nova, burro velho.





segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O sonho alegria me dá




No sonho você não estava.
Apenas me mandava uma carta.
Uma carta sem palavras.
Dentro do envelope dois corações recortados
em papel crepom roxo
e um pouco de maconha.





quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Vícios





Sincero te digo
Dessas garrafas e copos
Tristes e passionais

E dos cigarros confesso:
Já os apaguei com lágrimas





terça-feira, 6 de outubro de 2015

Quando eu nasci...



O anjo do Drummond era torto
O do Chico, safado
O da Adélia, esbelto
Mas o meu... Ah! meu pobre anjo bêbado
Naquele 3 de agosto curtia uma ressaca, acordou tarde
e nem deu as caras
Quando apareceu, muitos dias depois,
eu já tinha nome civil
Veio com as asas dobradas debaixo do surrado paletó
de funcionário público municipal
Balbuciou umas desculpas. Tinha olheiras, estava sem graça
Deixou um raminho de flores baldias e murchas
e se foi. Esqueceu-se dos vaticínios.

Nunca mais o vi.





domingo, 4 de outubro de 2015

Preciso de uma cidade



Eu preciso de uma cidade
com todas as suas luzes e violências. Preciso
de uma cidade com seu caos de sombras
Sua impossibilidade de silêncios

Preciso de uma cidade
e as improbabilidades de amor
Uma cidade com arestas e asperezas

Preciso de uma cidade sem lua
Com estrelas penduradas nos postes
e poças d’agua coloridas

Preciso de uma cidade
que não se sustente
que me sustenha no chão duro de pedra e carvão

Preciso de uma cidade
Uma
qualquer cidade onde chova encalorada
Calorosa e ríspida

Preciso de uma cidade para viver aos gritos
Para viver aos saltos, aos trancos
Uma cidade que me asile. Uma cidade exílio

Preciso de uma cidade, de seu odor doce de fumaça
de frutas podres de suores.
De velhos jornais voando amarelados

Preciso de uma cidade insone, sonâmbula
Cocainômana
Cacofônica e estridente. Preciso

De uma cidade em chamas
De uma cidade em greve em prantos
em petição de miséria

Preciso de uma cidade que arranhe céus
E crave as unhas no inferno. Preciso
De uns cemitérios

Preciso de uma cidade que colha os amanheceres
e os despeje sobre as cabeças dos que anoitecem
Preciso de uma cidade para morrer.






sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Minha palavra





Não quero minha palavra fora de mim
Quero-a dentro, encharcada
Criando bolor e hera. Musgo e mofo
E que ninguém ouse chamar 
de angústia tédio, rebeldia
ou qualquer outra abstração
minha palavra encharcada
Minha palavra não tem nomes, não nomeia nem define
Minha palavra definha
É morna é crua minha palavra e cheia de brotos podres
Minha palavra que recusa nomes é horrenda e marrom
Viscosa
Minha palavra me sufoca com sua ânsia de vir à tona
de transbordar, de livrar-se de mim