quinta-feira, 17 de março de 2016
A vida seguirá
A vida seguirá
apesar dos cínicos e dos vis
dos covardes e dos solertes
a vida seguirá
Serão outros os abraços e afagos, mas
a vida seguirá
no mesmo rumo de nossos sonhos
a vida seguirá
Mais dura, mais árida
a vida seguirá
com os punhos cerrados, a garganta seca
a vida seguirá
Ainda que custe vidas
a vida seguirá
ainda que escondida e muda
a vida seguirá
Pela vontade, pela esperança
a vida seguirá
que não se apaguem os sorrisos, pois
a vida seguirá
Como um rio, como um vôo
a vida seguirá
inventando caminhos entre os muros
a vida seguirá
Por sobre o ódio e o medo
a vida seguirá
debaixo de escombros e ruínas
a vida seguirá seu inelutável caminho
quarta-feira, 16 de março de 2016
Velhas palavras
Abandonemos já as palavras da moda
antes que saiam de moda
matemo-las por abandono antes que se suicidem
pelo desgaste, pelo uso excessivo, pela insignificância
Deixemos que as velhas palavras se apossem de nós
elas, as pobres, que nunca frequentaram as bocas novidadeiras
que jamais viveram nos textos dos esclarecidos
lindas palavras subalternas, preciosas palavras vagabundas
Que venham em rancho, em passeata, em cordões
dos subúrbios, dos dramas dos circos, dos livros encalhados
dos poetas pouco estimados
e dos diários das meninas do ginásio.
Saudemos a volta das velhas palavras
com chuva de tremas e espocar dos hifens
terça-feira, 15 de março de 2016
Conselhos do Tiozão
Por conta das manifestações do 13 de março a direita botinuda, a classe média paneleira e as viúvas da ditadura estão muito assanhadinhas. Para os seguidores de Bolsonaro, fãs da Sheherazade e discípulos de Olavo de Carvalho, a parada já está ganha e eles já se sentem no poder. Na qualidade de tiozão do churrasco vou sugerir aos mais jovens alguns cuidados que devem ser tomados nesses dias interessantes que vivemos para evitar espancamentos, cusparadas e até mesmo a perda do emprego. Aí vão.
1º - Não leia em público. Segundo os neo-golpistas e seus aliados da classe média, ler (principalmente livros) é sinal de adesão às causas esquerdistas.
2º - No bar ou no restaurante jamais trate o garçom por "amigo" ou "companheiro". Não saber colocar a plebe no seu devido lugar pode ser visto como claro sinal de marxismo-hegeliano.
3º - Não dê bom dia para porteiros, faxineiros e babás. Isso pode ser interpretado por seu vizinho como uma sublevação da nova ordem.
4º - Se você for professor não mencione isso sob hipótese alguma.Os professores são tidos como propagadores das teorias comunistas de Paulo Freire, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro e portanto, não gozam de boa reputação perante a voz rouca dos boulevards.
5º - Quanto ao uso do idioma, não se deve abusar do português. Uma frase inteira dita na língua pátria irá denunciá-lo como anti-americanista e, consequentemente, ardoroso defensor da Coréia do Norte. Há que mesclar umas palavrinhas em inglês. De preferência no final das orações. (Causa mais efeito).
6º - Se você for poliglota evite a todo custo se manifestar em outro idioma que não seja o inglês. O castelhano fica totalmente descartado por se tratar do idioma de Che Guevara, Chaves e do Foro de São Paulo.O italiano é tolerável, mas o francês, segundo todos os sócios do Clube Militar, é o idioma oficial dos frescos, viados e pervertidos.
7º - No que se refere às cores você já sabe que o vermelho está proibido, mas não se esqueça que o rosa pode ser visto como provocação de simpatizantes do rubro-comuna ou, pior ainda, como uma manifestação do gayzismo totalitário.As cores mais aconselháveis são o azul pálido, o verde oliva e o marrom cocô.
8º - Cabelos e barbas longos não combinam com os novos tempos que estão por vir, portanto adote um visual mais "Donald Trump". Se você preferir pode usar o estilo caserna. Fica bem um corte de cabelo a la "Bolsonaro" combinando com uma camisa da CBF (oficial), coturnos e crucifixo.
9º - Espetáculos públicos podem ser perigosos. Evite shows dos Chicos (Buarque e César), filmes do Wagner Moura e peças da Fernanda Montenegro. Se alguém perguntar o que você fez no fim de semana, diga que ficou em casa vendo a novela (uma nova que não tem história de bicha) e lamente-se pelo cancelamento do show do Lobão por falta de público.
sexta-feira, 11 de março de 2016
Noblesse oblige
Ulisses Guimarães não fazia grandes campanhas, não era um campeão de votos nem mantinha comitê eleitoral. Sequer tinha uma zona de influência específica. Se elegia com votos que pingavam em todas as urnas. Dizia o Dr. Ulisses que em qualquer gaveta de comitê eleitoral havia irregularidades, havia dinheiro escuso ou mal havido. Caixa dois, no mínimo. Hoje, que as campanhas são milionárias, dificilmente se elegeria. Mesmo com sua história, mesmo com seu passado e serviços prestados à democracia, dificilmente se elegeria.
No entanto, quando morreu Dr. Ulisses estava a bordo de uma aeronave que pertencia a um empresário. Não digo que a carona aérea que resultou na sua morte toldou sua história, maculou sua vida. Não, não chego a tanto, mas, pelo menos para mim, foi decepcionante saber que o Sr. Diretas, o fiador da constituição cidadã andava recebendo mimos dos ricos. Pois disso se trata: mimos.
Para aqueles que ocupam ou ocuparam determinados cargos o recebimento de presentinhos, mimos, favores e empréstimos deveria ser proibido, se não pela lei pelo menos pela decência. Nem o mais ingênuo dos cidadãos crê no desinteresse dos que brindam tais coisas aos ocupantes de cargos públicos. Ainda assim a aceitação de tais regalos e benesses é largamente difundida entre nossa classe política. É tão comum que serve para explicar aquisições inexplicáveis, hospedagens onerosas e até pensões para ex-mulheres.
Ademais, esses favores e gentilezas nunca se referem ao urgente ou ao imprescindível. São sempre luxos, facilidades que só os muito ricos desfrutam. São diárias em hotéis caros, carros importados emprestados (quando não dados) aviões e helicópteros a disposição, sítios, iates, apartamentos de alto padrão. Tudo emprestado como se o dono não fizesse uso ou se abstivera de fazê-lo para agradar ao "amigo".
segunda-feira, 7 de março de 2016
O jeitinho brasileiro e o grego internacional
Lembrei de um artigo do João Saldanha publicado no Jornal do Brasil lá pelo fim dos 70. Saldanha comentava essa história dos brasileiros se sentirem mais malandros que outros povos. (Malandragem usada aqui e no artigo do mestre no sentido de esperteza, viveza, sagacidade). Escrevia que em todo mundo existia entre as populações o mito de se acharem mais espertos e sagazes que seus vizinhos próximos ou distantes. João citava povos realmente malandros, mas dizia que malandro mesmo é o grego internacional. Veja que não se trata de qualquer grego, mas do grego internacional. "Deixe um grego internacional nu no meio do deserto e depois de alguns anos você vai encontrá-lo dono de vários poços de petróleo e possuidor de um harém", dizia.
Se formos pensar que Onassis começou sua fortuna falsificando cigarros em Buenos Aires (ou catando guimbas, na versão de Nelson Rodrigues) e que Maria Callas arrastava um bonde por ele, temos de dar razão ao gaúcho mais carioca que já existiu.
Outro mito que gostamos de cultivar é o do jeitinho brasileiro. Nesse caso, o mito vem carregado do espírito udenista de nossa classe média. O termo é sempre, ou quase sempre, usado pejorativamente. O jeitinho seria, segundo esses homens e mulheres de bem, a causa de todas as nossas mazelas. Mostraria nossa herança macunaímica, nosso gosto pelo menor esforço, nossa falta de caráter.
Na Argentina o que chamamos de jeitinho brasileiro é conhecido por viveza criolla e eles também creem que são os inventores desse modo de vida. Não conheço outros países para afirmar que o jeitinho é tão universal quanto a pretensa malandragem, mas desconfio que deva haver um jeitinho alemão, um jeitinho norueguês, um jeitinho vietnamita e na Grécia, berço da filosofia ocidental e do grego internacional haverá, certamente, um jeitinho grego.
"Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido"
Eu tinha saído do trabalho em Botafogo, direto para o comício. Desci do metrô na Cinelândia para ver se encontrava algum amigo bebendo por ali. Como não achei ninguém entre a multidão fui descendo a Rio Branco, que estava fechada para os automóveis, rumo à Candelária. O vai e vem eta intenso. Mais vai do que vem. No caminho fui reparando nas mulheres que caminhavam pela avenida. Não reconhecia nelas as companheiras de outras passeatas e comícios que naqueles tempos eram quase diários. Não via os rostos jovens, os jeans, as cabeleiras ao vento. Não as havia visto no comício pela anistia nem nas passeatas pela legalização dos partidos comunistas. Nunca as encontrara numa celebração do 1º de Maio..Eram senhoras bem vestidas e penteadas. Eram madames, eram dondocas, eram (ainda que o termo não fosse utilizado) peruas e outras categorias indefiníveis que vinham se manifestar pelas eleições diretas.
Lembro que me ocorreu que aquelas senhoras, muito provavelmente, estariam na marcha da família com Deus pela liberdade vinte anos antes. O fracasso econômico da ditadura, a censura, a repressão que acabou por atingir também os filhos da classe média e da burguesia e as promessas incumpridas fizeram com que aquelas senhoras mudassem de lado ou, pelo menos, abandonassem as certezas da redentora e viessem correr os riscos da democracia.
Por uns momentos me senti deslocado no meio daquela gente chic. Os vestidos de botique, os penteados, a maquiagem das senhoras e das peruas me fizeram crer que eu estava no comício errado. Mas diante do palanque ouvindo o Doutor Sobral Pinto,do alto de seus oitenta anos citar o preâmbulo da constituição ("Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido") o incômodo que sentira por dividir o mesmo lugar com aquelas personagens desvaneceu-se e me emocionei: tive a certeza que sempre estivera do lado certo. O estranho no ninho não era eu.
Hoje, os que batem panelas desde suas varandas gourmet e insuflam o ódio à presidenta Dilma e ao ex-presidente Lula me fazem pensar naquelas senhoras descendo a Rio Branco. Se tudo sair como eles querem, se o golpe prosperar ou, como sonham os mais obtusos, houver uma intervenção militar, certamente os encontrarei na Rio Branco dentro de vinte anos.
sexta-feira, 4 de março de 2016
A prisão de Lula e o golpe que se prepara
Não é possível que a classe média brasileira não entenda que a prisão de Lula nada tem a ver com corrupção e sim com eleição. O espetáculo montado pela PF, com mais de 200 homens armados de fuzis e metralhadoras e com o apoio de 6 helicópteros foi apenas uma encenação para que a TV dos Marinho tivesse o que mostrar durante horas em sua programação golpista.
Se fosse uma condução coercitiva de verdade bastaria a presença de um delegado com o mandato judicial e um carro da PF. Lula não sairia correndo e atirando. Não haveria nenhuma mobilização de petistas, pois nem saberiam da operação até que ela já estivesse consumada. A prisão de Lula é o ensaio do golpe.
No sábado (05/03), durante o programa comandado pelo Willian Waak na Globonews, a pregação de golpe e a certeza do impeachment da Presidenta Dilma eram tratados com a mais absoluta naturalidade e dados como fatos consumados. Pondé, o macaquinho de realejo que faz as vezes de filósofo, estava num contentamento só, já cogitando da união dos canalhas em torno de Cunha e do PMDB para que Temer assumisse a presidência.
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