sábado, 5 de novembro de 2011

Botequim

Antes o bar era o lugar sagrado do descanso do guerreiro, o escritório do vagabundo, a fuga do sujeito que vivia com a sogra, a faculdade do pobre. Lugar da anedota, da conversa, da paquera.
 E do futebol. Foi num botequim que ouvi pelo rádio o Atlético ser afanado pelo José Roberto ... Writh? Wrigth? Uraite?.... que se dane, num jogo da libertadores. No mesmo bar ouvi Jorge Cury narrar o gol de Renato Sá que terminava com a invencibilidade de 52 jogos do Flamengo e bebi a vitória do Brasil sobre a Argentina em 82.
Num bar um amigo me contou da morte de John Lennon, ouvi, pela primeira vez, Meninas do Brasil de Moraes Moreira, li Drummond e namorei. Namorei muito em botequins.
O meu ficava na Barata Ribeiro quase esquina de Santa Clara, ao lado de uma verdureiria. O português, malandro, pôs na parte mais próxima ao bar, os caixotes de abóboras e chuchus. Limões e maracujás ficavam fora do nosso alcance, ainda assim vez por outra alguém alcançava uma fruta do conde e até um saco de laranja veio parar em nossas mãos. Não consigo lembrar o autor da proeza. Acho que foi o Dimas, tão quietinho...
Bar também era o lugar dos apelidos, das gozações. O Rui ficou sendo o Abestado, O Edmundo, Renato Sá, eu era o Mineiro e havia também o Gaúcho. Tinha o Sebastião do Brinco e a Colega, o Rei da Maluquice e a Janis Joplin.
Talvez o melhor de tudo é que não havia aparelhos de televisão. Era um mundo à parte, diferente do emprego e do lar. Sem as chatices das novelas e as tragédias dos noticiosos. Os problemas, quando havia, eram criados ali mesmo. Uma briga ou outra, o bote dos home, alguma bebedeira séria motivada por dor de corno. Mas nada de TVs. Só o rádio, que ao fundo  anunciava:_ “O Globo no ar” e era desligado automaticamente quando alguém de Brasília dava início à “Voz do Brasil”. Os tempos eram bicudos e censurados, não fazia o menor sentido ouvir a versão oficial de nada. Tudo era versão oficial. Só se prestava atenção mesmo na hora do jogo. O narrador alentava nosso consumo:_ “Bola de pé em pé, Antártica de copo em copo”. Alguns pagavam, todos bebiam.
A rapaziada que ali se encontrava tinha as mais diversas profissões. O Joel foi apontador de obra, vendeu “prata peruana” na calçada  da  Avenida Copacabana e a última vez que o vi estava escrevendo bicho. O Sebastião do Brinco fazia shows eróticos na Prado Júnior,o Gaúcho e o Adonis eram bancários. A Colega e a colega da Colega eram domésticas de dia e à noite faziam a vida. Tinha também um coroa quase cego que sempre aparecia com o violão debaixo do braço e conhecera Noel. Era amigo do Dimas, que tinha de acompanha-lo  à casa quando as pernas  e o violão pesavam demais. O Renato Sá trabalhava no arsenal de marinha e depois fez prova para a Petrobrás e foi viver em plataformas. O Xará era pequeno traficante mas também dava um balão apagado quando a situação era propícia. Tinha pintor de paredes, o gerente da loja de discos, uma bicha que morreu assassinada. O Rui roubou um carro e foi em cana. Claro. O carro era uma Mercedes branca e pertencia ao cônsul da Suíça. Quando foi preso estava comendo milho cozido na Cinelândia. A Mercedes ao lado. Ao sair da cana dura ganhou o apodo; Abestado. Havia comerciários e porteiros, enfermeiras e estudantes e muitos, muitos vagabundos.  Todo mundo dividindo uns poucos metros quadrados e um banheiro do qual nem quero lembrar. Bebia-se em pé, comia-se em pé. Na dureza eu pedia um pão molhado e um veneno. Ia levando, ia vivendo.
Parafraseando Drummond, hoje eu sei que minha vida naquele tempo, era mais bonita que a de Robson Crusoé.




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Aos vinte e poucos anos um sujeito tem de ir aos bares, ser de esquerda e escrever poemas senão fica um chato aos cinqüenta, falando de comidinha saudável e anti-tabagista. Aos vinte e poucos anos escrevi este poema em homenagem ao meu botequim.
      


                                          O bar


             O homem que toca violino
             O cáften aposentado
             O camelô abordado
             O streep-teaser acidentado
             A puta deusa de samba enredo
             O padre que parou para o café
             O bancário que conta lorota
             O idiota que finge sê-lo e o é
             O crápula mais que crápula, vil
             O negro que bebe calado
             O gerente da loja suando
             O policial sacana
             O poeta que inventou vinte e três novas maneiras de sofrer
             O suicida eufórico

             Todo o país no botequim



Palavrões






Não tenho nada contra o palavrão. Pelo contrário, sou um cultor dessa arte. Meu neto já reclamou várias vezes disso e minha mulher explicou-lhe que os torcedores de futebol são assim mesmo: xingam a televisão. Claro que nos últimos tempos os palavrões aumentaram. Também, com Magno Alves de centroavante você quer o quê? 
            Mas se xingamos juízes, centroavantes e goleiros  num dia, no outro os amamos. É coisa de família. Os que ficam de fora dessa irmandade -locutores e comentaristas- tentam entender e explicar nossos amores e palavrões. Como detesto gente que se mete em problemas familiares alheios, criei o hábito de assistir os jogos com o som da t.v desligado.
Porém, ainda não consigo ler as notícias nos sítios informativos da internet sem depois ler os comentários. É uma espécie de masoquismo. Sei lá.  Freud explica. Mas o fato é que cada vez que leio os tais comentários, fico ainda mais descrente na humanidade.
Em grande parte nem sequer são comentários e sim uma série de xingamentos e palavrões que são dirigidos principalmente aos políticos e aos esquerdistas em geral. Tudo acompanhado, é claro, do mais estreito preconceito racial, sexual e de classe. O Lula não era criticado por seu partido ter feito alianças espúrias e sim por ser nordestino, ex-operário e ter pouca instrução formal. A Dilma é chamada de ex-presidiária e terrorista já que não é possível atacar seu grau de escolaridade. Os exemplos que dou são apenas o pálido retrato do que é dito contando com o anonimato da internet. E é aí que o bicho pega. A questão do anonimato.
Nas suas madrugadas insones ou nas tardes ociosas, algumas pessoas dão vazão ao ódio e rancor, que publicamente escondem sob o manto da civilidade ou sob os auspícios do medo e soltam palavrões contra mães, esposas, filhos e a moral de qualquer um que não atenda aos seus critérios de homem bom e honesto. Eu disse “critério”? Pois bem, falei demais. Na verdade o que impera nesses comentários é a total falta de critério Em muitos casos a partidarização é o motivo dos palavrões, em outros, como já disse, apenas o preconceito puro e simples.
Há também os perfeitos. Os perfeitos idiotas que sequer conseguem dizer coisa com coisa, mas soltam os cachorros e as palavrotas de maneira indiscriminada sobre políticos, partidos, categorias profissionais, classes sociais etc. Os “perfeitos” também cultivam a mania de não serem brasileiros ou ao menos de sentir-se parte de uma elite da qual excluem todos os outros nacionais que não fazem parte de sua maravilhosa família ou sua “ilustrada” corriola. O Brasil é sempre tratado, por estes gênios da frase feita, com desprezo assim como qualquer conquista da nação ou de seus filhos. Sua marca registrada é a xenofilia. A palavra país, quando usada para designar o nosso, é sempre acompanhada  de outra que eles trazem no cérebro e na ponta da língua.
Mas, como já disse, nada tenho contra o palavrão. Muitas vezes ele nos ajuda a sintetizar o pensamento com relação aos juízes de futebol e certos centroavantes. O que me incomoda é a covardia, a pusilanimidade. É fácil dizer palavrões detrás do computador. Cara a cara, o palavrão pode ser respondido com o bofetão.











terça-feira, 1 de novembro de 2011

A paz






Nos últimos dias do século 19, um grande jornal de Nova York mandou um de seus repórteres entrevistar o chefe do departamento de patentes dos Estados Unidos. Imagino que fosse para engordar a edição de domingo. A missão do repórter era saber o que pensava aquele homem sobre novos inventos que surgiriam no século que começaria já que, o que findava fora pródigo em toda espécie de inovações. Mas o homem das patentes se mostrou cético. Para ele o século 20 seria muito sem graça naquele sentido, pois tudo que era importante já havia sido inventado.
Já bastante entrados no século 21, continuamos com o mesmo pensamento do homem das patentes. Sempre achamos que a humanidade está no auge de sua capacidade tecnológica, no ápice de sua cultura e que, por acaso, isso se deu durante nossa curta existência como seres humanos.
Outro dia um professor de Harvard lançou um livro no qual afirma que a humanidade nunca fora tão pacífica. Que os atos de terrorismo e guerras localizadas são apenas focos de violência que logo serão debelados e que caminhamos para a paz global. Não li o livro, devo confessar, e não pretendo lê-lo. Me fio nas informações divulgadas pelos telejornais. Não ria, o assunto é sério. Aliás, o que mais me deixou perplexo não foram as afirmações que os telejornais dizem conter no livro, mas a posição passiva dos mesmos. Nenhum debate, nenhuma voz interrogante partiu dos meios para, ao menos, jogar uma dúvida em quem ouviu a notícia.
Não tenho idéia dos argumentos usados pelo mestre de Harvard para justificar suas afirmações, mas para dizer o contrário eu tenho os meus. E afirmo que nunca a África foi tão violenta, que nunca o Oriente Médio foi tão violento. E que os povos continuam a ser tão oprimidos quanto sempre foram. E me refiro apenas a violência armada e não a que dela deriva.
Chechenos, que já foram perseguidos pelos czares, continuam a sê-lo por Medvedev. Os curdos são vítimas dos iraquianos e turcos que por sua vez já foram dominados e dominadores respectivamente. Os judeus, perseguidos e trucidados na Europa, perseguem e trucidam na Palestina ocupada. .Curdos, bascos, chechenos, palestinos, irlandeses e outros povos continuam sem pátria. Aos atos rebeldes desses povos, da-se o nome de terrorismo.
As potências ocidentais continuam com a mesma arrogância de sempre e se alguma voz discorda, um reizinho brada:_ Por que no te callas? Tudo se passa sob o olhar cúmplice da grande imprensa mundial concentrada nas mãos de poucos. Cada vez menos. Murdoch, depois do escândalo que abalou a credibilidade (?) da imprensa inglesa, pôs seus tablóides á serviço do governo daquele país para ajudar a identificar os revoltosos que sacudiram a Inglaterra com o som e as chamas de sua ira.
Cabe mesmo imaginar que o autor desconhece a ação intimidatória que os países da Europa ocidental estão perpetrando contra a Rússia com seu escudo anti-mísseis. Ou então ele acredita que quem quer a paz prepara a guerra.
No norte da África a “primavera árabe” põe uma interrogante quanto às ligações do Egito com Israel, antes estáveis e até cordiais. A Síria, “inimiga confiável” do estado judeu, também o será, tão logo caia o governo de Assad. E a Líbia pode se tornar um estado de muitos Kaddaf.
As relações entre os Estados Unidos e o Paquistão se deterioraram depois do assassinato de Bin Laden. Se por um lado os americanos não engoliram a estada do líder da Al Qaeda naquele país, dentro do Paquistão o anti-americanismo ganha força no seio do principal sustentáculo do governo, o exército.Como sabemos os norte americanos não são de discutir a relação, vão logo pra porrada.  Estas informações eu não as colho de fonte secreta e sim dos meios de comunicação mais comuns, confrontando opiniões e notícias às quais todos têm acesso. Mas parece que o professor de Harvard assiste outros canais. Faz lembrar os dias e semanas que se seguiram à queda do muro de Berlin quando a imprensa ocidental em uníssono  anunciou uma nova era de paz mundial e entendimento entre os povos. Naqueles dias eram travados dezenas de conflitos mundo a fora, mas nenhum que merecesse a atenção dos meios “ocidentais”.Logo após o episódio que começou a pôr fim ao império soviético tivemos, com o esfacelamento da Iuguslávia, um dos maiores genocídios da Europa. Enquanto na antiga União Soviética, as reivindicações de independência foram tratadas com os tanques à frente, situação que perdura na Chechênia.
Outro fato presente em todos os noticiários recentes é a perseguição praticada em todos os países da Europa e também nos Estados Unidos contra os muçulmanos. Estão acendendo o estopim, a explosão não tarda. A ascensão da direita ao poder nos diversos países em crise e o crescimento da extrema direita apenas agrega mais pólvora.
Se isto fora pouco, temos o azedume com que vêm se tratando os países europeus por motivo da crise. A Alemanha já não é bem quista. Países como Portugal e Espanha, antes tão europeístas nos noticiários de suas televisões, agora falam de si como “países periféricos”, “países do sul”. Outro dia assistindo a um programa da Deutch Welle falado em castelhano, pude constatar esse azedume quando o jornalista espanhol interpelava seu colega alemão.
Os augúrios de paz mundial, que a televisão diz conter na obra do professor, fazem lembrar o que diziam os belicistas de 1914. _ “Uma guerra para acabar com todas as guerras”. Depois da frase veio a história.




















sábado, 29 de outubro de 2011

Bossa nova






Não me entenda mal, eu gosto de bossa nova. A riqueza das harmonias, os arranjos elaborados e seus intérpretes, fizeram desse gênero musical uma referência de bom gosto e qualidade. Há melodias que chegam a doer de tão belas. E há também os poetas. Mas, como em tudo, há exceções.
No caso específico das letras encontramos aqui e ali algumas bobagens como em “Rapaz de bem”, gravação de Johnny Alf, cuja letra me parece cínica e classista ainda que possa ser interpretada como sarcástica. Também não encontro nenhum valor poético em “O pato”, que se fora música infantil teria sua graça. Não é. No tempo de sua gravação, música infantil era na base dos três porquinhos e chapeuzinho vermelho. Pior é a letra de “Lobo mal” carregada de um machismo, que mesmo para a época de seu lançamento, era rançoso. Mas temos pérolas como “Chega de saudade”, faixa título do primeiro disco de João Gilberto.
No começo de carreira o cantor bahiano ainda não transformava samba em mantra e deu á essa peça uma interpretação intimista como requeriam letra e música. A primeira estrofe é deliciosamente triste


“Vai minha tristeza e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Por que eu não posso mais sofrer”


Segue o poeta em seu pedido


“Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz não há beleza, é só tristeza
E a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai”


Da tristeza nasce o sonho do futuro idílico


“Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca”


Peraí... beijinhos?  Depois de tanto sofrimento, beijinhos?
Os beijinhos e os peixinhos traem o poema.


E talvez esteja aí o ponto fraco da bossa nova. Ela não tem paixão. Amor, ternura, afeto, sim. Mas paixão não. Isso se vê pelo excesso de “inhos”. O cantinho, o barquinho, o poetinha, o banquinho. Se a isso juntamos os peixinhos e os beijinhos...
Com diminutivos não se fala de paixão. Paixão, meu amigo, precisa de superlativos.






O juiz e o vernáculo

                                              



Era véspera de carnaval. O advogado do governador de Brasília impetrara junto ao Supremo Tribunal Federal, um “Habeas Corpus” para resgatar seu cliente da” masmorra”, que era como o causídico denominava um quarto com t.v  e frigobar em que estava preso o Arruda. O juiz que julgaria o pedido seria o Ministro Marco Aurélio. Temi. Afinal o grande magistrado, a quem devemos a criação da TV Justiça, é conhecido pela forma como ataca qualquer restrição à liberdade de ir e vir assim como não admite qualquer medida que reduza o direito à ampla defesa. “Mas isso está certíssimo” Você dirá. Sim, devo concordar que estes princípios devem nortear qualquer sociedade que queira gozar do estado de direito. Mas tem um senão.
Aqueles que merecem o douto voto do ilustríssimo ministro são apenas os que, através de seus bem remunerados advogados, conseguem levar seus pleitos ao tribunal supremo, justiça dos ricos e riquíssimos. Para preso pobre, algemas, cadeia e a cara estampada no programa do Datena.
Mas, surpreso, leio no “Congresso em foco” que Sua Excelência denegara o pedido em substancioso voto. O panetônico governador passaria o carnaval preso.
Com uma alegria sádica passo a ler a íntegra do parecer do Ministro Marco Aurélio e lá pelas tantas me deparo com a expressão “veio à balha.” O ministro errara tão grosseiramente? Para ter certeza fui ao “Aurélio” que tenho no computador  e constatei que só havia a expressão “à baila.” Quanto “à balha,” nada. Só poderia ter sido erro de impressão,ou algum secretário distraído   Fiquei pensando como pode um documento de tamanha importância vir à público com semelhante falha. O ministro estaria  indignado.
Passou o tempo e eis que um dia assistindo a um julgamento daquela colenda corte, escuto o nobre magistrado cometer o mesmo erro, desta vez de viva voz. Mais duas ou três vezes ouvi de Sua Excelência a mesma dicção. _Como pode? Perguntavam meus botões. Eu dava de ombros.
Semanas atrás, numa dessas tardes frias do sul, acompanhando o julgamento de um dos membros de nossa elite, ouço novamente e dos mesmos doutos lábios a citação e antes que pudesse retirar meu riso galhofeiro do rosto, o ministro aclarou:_“A expressão é vernacular , Balha com L H “ Desta vez, computador desligado, corri ao meu velho dicionário Lep edição de 1964 e lá estava;” à balha ; a propósito, vir à balha fazer-se lembrado de modo oportuno”. O Ministro estava certo e o “Aurélio” errado. E eu também e algum outro que por certo questionou o Ministro fazendo-o aclarar, em público, o uso da locução.
Ficou a lição. O meu desconhecimento não é prova da inexistência de nada.




sábado, 22 de outubro de 2011

Fatos do futebol brasileiro







                   Até 1958 os torcedores brasileiros viviam com complexo de cachorro vira-latas principalmente depois da derrota de 50. A imprensa esportiva da época havia plantado no inconsciente coletivo, a idéia de que estávamos fadados á derrota por sermos um país mestiço. Quem se interessar em pesquisar os jornais dos dias e semanas seguintes àquele 16 de julho de 1950 se deparará com o mais atroz racismo. Seríamos eternos perdedores por questões “antropológicas”. Mas veio 58.
Nelson Rodrigues escreveu que depois da vitória em gramados suecos, qualquer costureirinha de subúrbio se sentia uma Joana D’Arc. Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos haviam nos redimido. Em 62 fomos mais uma vez imbatíveis e quando chegou 70 o mundo viu a maior seleção de futebol de todos os tempos desfilar nossa incomparável destreza. O resultado da final contra os italianos conta bem a história daquela copa: 4 X 1 irretocáveis. Depois ainda vieram os títulos de 94 e 2002. Era de se esperar que nossa imprensa especializada botasse a viola no saco e se penitenciasse pela injustiça cometida com nossos craques de 50. Mas nada disso aconteceu.
Hoje, que todos os mais importantes campeonatos da Europa são mostrados pela televisão, nossa crônica esportiva voltou à velha xenofilia. Nossos jogadores, nossos técnicos, nossa arbitragem, nosso campeonato, tudo enfim, é tido como de qualidade inferior. O jogador só é bom se joga na Europa ou se por ele há interesse de algum clube europeu. Chega-se a afirmar que tal ou qual jogador aprimorou-se por jogar lá. É o caso do Anderson que jogava no Grêmio. De meia atacante, driblador e refinado, foi reduzido à mero cabeça de área no futebol inglês. Mas os cronistas dizem que lá ele melhorou e torno-se um jogador completo. Nada mais falso. Basta ver quantos goals ele marcou na última temporada inglesa. Foram poucos, pouquíssimos. Não sei como um jogador pode ser completo se não marca goals.
Mas as vezes essa mania de depreciar nossos craques chega às raias do absurdo. Outro dia ouvi de um jornalista esportivo que era convidado do programa Redação Sportv que o jogador brasileiro chutava mal. _” Como chuta mal o jogador brasileiro” enfatizava.Não foi contestado por outros jornalistas presentes.
Se este senhor se ativesse aos fatos constataria que só dois homens no planeta marcaram mais de 1000 goals, Pelé e Romário. Que Pelé marcou só de cabeça mais goals que Maradona marcou usando pés e mãos. Que em 2002 Ronaldo foi às redes mais vezes que toda a seleção da Espanha em 2010. Que Ronaldo é o maior artilheiro da história das copas. Que Romário, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká foram eleitos como melhores do mundo nos últimos tempos. Isso sem falar em Marta, por cinco anos consecutivos, considerada a melhor futebolista do mundo. Tudo isso chutando mal?
Mas se isso fora pouco nossa seleção disputou todas as 19 copas mundiais ficando por 10 vezes entre as quatro melhores. Em sete delas decidindo o título e conquistando cinco taças. Mais que qualquer outra seleção do planeta. Sem contar que os dois melhores resultados de Portugal em mundiais foram conseguidos quando os portugueses eram dirigidos por técnicos brasileiros, Oto Glória e Scolari. Na única vez que a Jamaica foi ao mundial, seu técnico era René Simões. Parreira é o técnico que mais copas disputou. Didi e Tim comandaram o Peru nas melhores participações da seleção andina em mundiais,70 e 82. São fatos que contam um pouco da história do futebol do Brasil.
Em dezembro o Santos enfrenta o Barcelona pelo mundial inter-clubes e lembrando das duas últimas vezes que clubes brasileiros enfrentaram o campeão europeu, estou a fim de casar um dinheirinho nos meninos da vila. Alguém se habilita?

 



















sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Corrupção

Na convenção do PSDB que oficializou o nome de José Serra como candidato do partido para a disputa presidencial passada, ouvimos da jornalista Eliane Catanhede, que falava ao vivo para o jornal das dez da Globo News, que se tratava de um evento de massa, mas “uma massa cheirosa”.
Esta pérola de preconceito está no youtube para quem quiser ver por toda eternidade
O que surpreende não é o reacionarismo da frase, mas a grosseria. Sempre se espera que mesmo as mentes mais conservadoras e preconceituosas tenham um mínimo de recato e compostura quando exercem o ofício de jornalista. Mas o fato aconteceu  quando a jornalista falava de improviso, sem um texto que disfarçasse  sua visão de mundo. No fundo foi melhor assim. Os telespectadores puderam ver realmente de que tratava a reportagem.
Os grandes meios de comunicação no Brasil e do mundo gostam mesmo é de massas cheirosas, comportadas. Vê-se isso muito claramente na cobertura que recebem as manifestações que tomam conta da Europa nos últimos meses.
Enquanto em Londres os manifestantes eram tratados como vândalos e marginais por terem promovido uma quebradeira, os jovens cheirosos e charmosos de Madri eram mostrados como indignados cidadãos. As reportagens de Londres traziam saques e agressões, enquanto os espanhóis eram entrevistados sobre os muitos comitês que haviam formado.( Tinha comitês demais para uma manifestação que queria mostrar-se como espontânea e sem lideranças.) Embora pacífica e ordeira  também foi reprimida pois estava atrapalhando o trânsito e o comércio no centro da capital. Não resistiram mais que uns dias.
Se sobre a Inglaterra nada foi dito sobre os fatores econômicos e sociais que deram origem ao quebra-quebra, no caso espanhol nada se questionou sobre a participação política daqueles que ali se manifestavam em pleno dia de pleito. Deu vitória folgada da direita nas eleições regionais. Embora indignados os eleitores daquele país estão prestes a dar nova vitória ao PP nas eleições para o parlamento nos  próximos dias.
Agora é a vez da Itália. No último fim de semana os manifestantes quebraram tudo em repúdio as novas medidas de arrocho que serão implementadas  pelo governo de Berlusconi, mas, delas pouco se falou. Nas reportagens dos jornais televisivos apareceram pessoas chorando, vitrines quebradas e carros incendiados. Seria até incoerente se a Globo ou a Bandeirantes fizessem restrições a essas medidas que os governos de Portugal, Itália ou Espanha estão tomando, afinal são as mesmas medidas que eles preconizam para nós: privatizações, diminuição dos gastos sociais, precarização do emprego e moleza para os bancos para evitar “uma crise sistêmica”.
Também no terreno doméstico a massa cheirosa ganha espaço nos noticiários com as manifestações anti-corrupção.. Senhoras com vassouras verde-amarelas são mostradas como símbolo da indignação popular frente aos desmandos e à roubalheira generalizada. Mesmo em seus trajes de faxina estas senhoras são chiques. Parece que saíram do movimento “cansei” promovido por João Dória e que esteve de moda no ano passado. Se esse movimento estava restrito à fina flor da burguesia paulista e tomava chá nos salões, o dos dias de hoje incorpora a classe média e vai às ruas. É supra-partidário, ou seja, é anti-governo.Após o último ato público que aconteceu no feriado de 12 de outubro, vi a entrevista de um dos “organizadores” no Jornal da  Cultura. Tratava-se do diretor da Ong  Contas Abertas, que ressaltando o aspecto supra-partidário do movimento, citou o fato de um manifestante que empunhava uma bandeira do Psol ter sido expulso e vaiado.. Quando questionado sobre o que origina as manifestações, respondeu que não é normal que quatro ministros sejam demitidos por corrupção em poucos meses de governo e isso levou à indignação  nossa população.
Ora, isso deveria ser visto como algo positivo. Mostra a disposição da Presidenta  de não tolerar tais fatos e em vez de manifestações anti-corrupção deveriam acontecer atos de apoio à Presidenta.. Mas não é disso que trata o movimento. Ele não quer acabar com a corrupção, quer ser contra o governo e o que ele tem de melhor que são os projetos sociais e a inserção de milhões de brasileiros na vida cidadã.
Claro que a maioria das pessoas que vão às manifestações o fazem de boa fé, imbuídos das melhores intenções. Mas estão servindo de massa de manobra para aqueles que plantam nas redes sociais esse movimento “espontâneo” A oposição de direita está adorando. Poupa-lhe do ridículo de empunhar uma bandeira contra a corrupção, único discurso possível nesse momento, já que os pontos negativos do governo passado e do atual, (reforma da previdência, manutenção do superávit  primário, submissão às regras do mercado especulativo etc) fazem parte do seu programa. Com as ruas ocupadas pelos indignados, a oposição pode restringir sua falação às tribunas do congresso, pois lá, mesmo ACM  Neto e Agripino Maia podem fazer-se de vestais. É do jogo.
O fato é que as pessoas de boa fé que acodem às manifestações anti-corrupção acreditam que passando pito nos corruptos vão tocar-lhes a consciência. Ou que denunciando-os vão fazer com que eles percam as eleições. Será que preciso citar o nome de um certo deputado paulista eleito e reeleito inúmeras vezes mesmo tendo contra si vários processos no supremo e um pedido de captura expedido pela Interpol?
Contra a corrupção somos todos, inclusive os corruptores que gostariam de desfrutar de benesses sem ter que pagar por elas ou pelo menos pagar propinas mais módicas.
Lá pelos anos 50, havia um político mineiro que respondia pela alcunha de Quinzinho (em mineirês; Quinzim). O apelido não era devido a ele se chamar Joaquim e sim por cobrar 15% de propina quando todos os outros corruptos cobravam 10%. O homem estava à frente de seu tempo.