sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A noiva e o conferencista



Quando eu lia jornais de papel não deixava de ler os classificados. Sempre me divertia buscando por sítios que nunca compraria, por filmadoras usadas, por máquinas de costura, por quinquilharias em geral. Numa época me interessei por vestidos de noiva. Ainda me lembro de um anúncio que vi e me intrigou: “Vende-se vestido de noiva sem uso, manequim 42. Tratar...”
Hoje não leio os jornais, leio o facebook. E, à moda de classificados, leio as abas que me sugerem amizades, grupos de interesse, cura para a calvície e o novo santo graal do emagrecimento. Sem contar o “enlarge your penis” que anda por toda parte.
Na sua digital e proverbial falta de tato o facebook me sugeriu encetar amizade com uma senhora. Temos sete amigos em comum. Somos conterrâneos.  Acontece que a tal senhora já era minha amiga e foi assim (através dos classificados) que eu soube que ela me cortara do seu grupo de amizades e agora me era oferecida como amizade nova em folha. Me senti como o sujeito que descobre que é traído pela mulher numa edição do Jornal Nacional. Fiquei frustrado. Eu gostava das coisas que ela postava. Sempre versos, sempre de sua lavra. Eu compartilhava os poemas. Ela mandava uma carinha feliz e agradecia. Mas não me quer mais lendo seus versos. Cortou-me. Paciência.
Foi também por esses classificados que soube que a camisa que o comentarista esportivo da TV usava ontem e que me pareceu um atentado ao bom senso está na moda. São vendidas no atacado e em inglês por $25, 99 (dólares, claro).

Serviços profissionais também são oferecidos nos classificados do facebook. Disfarçadamente. Na forma de “páginas que podem lhe interessar”. Um senhor, por exemplo, anuncia-se como conferencista. O homem não se propõe a dar conferências sobre uma área específica de seu conhecimento e profissão. Não, o Leonardo contemporâneo dá conferências sobre um tudo. Imagino que o contratante possa escolher o tema da conferência a ser proferida como quem sugere um mote para um repentista.Tanta sapiência é quase tão intrigante quanto à noiva e seu vestido jamais usado.

domingo, 2 de agosto de 2015

Os frentistas comunistas e o astrólogo



O Brasil há que reconhecer, perdeu o juízo. Não sei se algum dia teve, mas definitivamente perdeu o juízo.  E não são apenas os políticos e os cidadãos, as donas de casa e os latifundiários, os intelectuais e os bicheiros. Não, até os paralelepípedos  das ruas e as pedras portuguesas das calçadas parecem ter perdido o senso.
Não passa dia sem que milhares de usuários da redes sociais e sítios informativos chamem o governo de comunista. Mesmo que todas as medidas tomadas, todos os fundamentos da economia, todos os membros do gabinete de ministros emanem o inconfundível fartum neoliberal, alguns de nossos concidadãos acusam a presidenta de ser comunista e, através do Fórum de São Paulo, orquestrar a tomada do poder pelas armas.
Segundo esses especialistas em tramas vermelhas e outras senvergonhices  os agentes do comunismo já se infiltraram no país disfarçados de médicos cubanos e imigrantes haitianos. Enquanto aguardam ordens para o levante armado os agentes trabalham como frentistas e atendem pacientes do SUS. Os americanos, que bisbilhotam até o que colocamos na sopa, devem estar perplexos com essa nova guerra fria que só existe aqui.
Mas o que melhor demonstra o grau de maluquice a que chegamos é que a atual direita brasileira quando tenta se informar sobre os acontecimentos políticos consulta um astrólogo. Pois é, um astrólogo. Entre um mapa astral e outro, Olavo de Carvalho usa de seu vocabulário chulo para falar de política. E há quem o escute e até o cite. Claro que ninguém o lê, mas seus livros de filosofia, política e astrologia vendem bem e adornam as estantes dos cidadãos de bem.
Nem nos piores tempos da ditadura e do obscurantismo a alguém lhe ocorria consultar o Omar Cardoso sobre as questões administrativas ou questionar a Zora Yonara sobre as votações do congresso. Era cada um no seu quadrado.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Do Mão Branca a Sheherazade



A Última Hora foi um grande jornal carioca até o golpe de 64. Seu apoio a Getúlio na crise de 54 indispôs o diário com aqueles que viriam a tomar o poder com a derrubada de Jango. Depois da quartelada, a Última Hora foi minguando tornando-se um jornal secundário.
No começo dos anos 80, distanciando-se de sua linha editorial muito voltada aos assuntos que interessavam ao funcionalismo público, a Última Hora publicou na primeira página matéria sobre um assassinato cujo autor seria um justiceiro que ao lado do cadáver deixara um bilhete dizendo que o morto era um bandido, enumerava os crimes cometidos pelo suposto malfeitor e assinava com a alcunha de Mão Branca.
Depois dessa reportagem outras vieram. Várias mortes nesse estilo foram atribuídas ao tal Mão Branca. Para corroborar a existência do personagem a Última Hora divulgava novos bilhetes deixados pelo justiceiro ao lado de cadáveres.  A população que se sentia acuada pelos altos índices de criminalidade na cidade do Rio e na Baixada começou a comemorar os feitos e fez do Mão Branca um herói.
As vendas do jornal dispararam e até um novo parque gráfico foi inaugurado.
Durante o período que durou o interesse dos leitores pelo Mão Branca, o esquadrão da morte nadou de braçada e matou à vontade. Ia tudo pra conta do Mão Branca.
Tendo como exemplo o justiceiro que defendia a “lei e a ordem” a população resolveu agir também e deu-se início uma série de linchamentos de supostos infratores. Diferentemente do Mão Branca que era quase que uma exclusividade da Última Hora, os linchamentos ganharam as manchetes de outros jornais mais experientes na cobertura do mundo cão. O modo como eram cobertos esses crimes (desculpando, justificando ou até mesmo elogiando os que deles participavam) ateava mais lenha à fogueira santa dos justiçamentos por conta própria.
Em outros momentos da história recente do país (sempre tendo como pano de fundo uma crise econômica ou política) esses atos de violência alavancaram a venda de jornais e a audiência dos programas policialescos da TV que por sua vez incentivaram (seja pela visão acrítica dos fatos, seja pelo apoio explícito) novos linchamentos, novas atrocidades.

Essa nova onda de linchamentos que agora assistimos teve início (é bom não esquecer) num episódio acontecido no Rio quando um rapaz foi espancado e amarrado num poste. O suplício do suposto ladrão foi aplaudido por Rachel Sheherazade em horário nobre da TV. O que veio depois é apenas conseqüência.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Volta Severino!



Um dia, um pensador, filósofo e estadista alagoano que ocupou a presidência do Brasil por um curto período disse citando não sei quem: _”O tempo é o senhor da razão.” Pois é, aquele sábio sabia das coisas. Por vias tortas, mas sabia. Apeado do poder ele voltou triunfalmente para a política e hoje ocupa uma cadeira no senado. É um pai da Pátria. O tempo, senhor do olvido, se ocupou de esfumar as graves acusações que pesavam sobre ele na época em que habitava a Casa da Dinda. Seu povo o reconduziu para as terras secas de Brasília. Lá, ele preside comissões, discursa no plenário e ilumina seus confrades com conselhos e frases edificantes.
O tempo, senhor das amnésias, é o responsável por essa e outras coisas da política brasileira.
Outro estadista, que ostenta o nordestino nome de Severino, não deixou citações quando foi removido da presidência da câmara, mas hoje, o tempo, senhor da justiça, lhe pede perdão.
Severino, embora ocupasse a cadeira de presidente da câmara e fosse o segundo na linha sucessória em caso de vacância da presidência, era humilde. Tudo que queria era um reforço salarial e para isso não recorreu aos cofres públicos. Foi pedir uma mesada ao concessionário do restaurante da câmara. Nada mais normal para os padrões daquela casa de leis. O homem do restaurante dependia do presidente da casa para continuar servindo aos senhores deputados suas frugais refeições. Nada mais justo, pelas normas jamais escritas da política brasileira, que retribuísse a benesse de Severino com algum cascalho. O sujeito mui mão de vaca não quis repartir seus vultosos lucros com o humilde Severino e fez um escândalo danado. Reclamou que estava sendo achacado por Severino. Deu entrevista coletiva ao lado de sua jovem (claro) mulher e chorou (quem não chora, não mama) para constrangimento da senhora esposa e de jornalistas presentes. Severino caiu.
Agora temos Eduardo Cunha na presidência da câmara e o tempo, senhor dos arrependimentos, mostra como fomos injustos com Severino quando exigimos sua destituição do nobre cargo. Diante de Cunha, Severino fica parecendo um menino travesso que, depois de repreendido, nos causa algo assim como ternura.
Severino pouco se importava com os grandes temas nacionais, queria apenas comprar mais umas cabras pro seu sertanejo rebanho, fazer um puxadinho no curral, comprar um votinho aqui outro acolá. O exíguo salário de deputado não bastava e ele teve de recorrer às práticas comuns e usuais na política brasileira. Por ingênuo foi pego.

Eduardo Cunha ainda não foi pego. Talvez jamais o seja. Apossou-se da câmara, dita a pauta do legislativo e acena para o executivo com um pedido de impeachment que ele pode ou não colocar na ordem do dia. Mestre dos golpes de mão, tornou-se imbatível nas votações daquilo que lhe interessa. Para ele nada está acima de seu querer; nem a constituição, nem o regimento interno, nem a vontade dos outros parlamentares. Jamais, mas jamais mesmo, a câmara esteve sob o jugo de alguém tão inescrupuloso, tão salafrário. Depois da ascensão de Eduardo Cunha só nos resta clamar: _Volta Severino! 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Operação gincana



O julgamento de Cesare Batisti na Itália foi uma farsa jurídica. As únicas provas dos assassinatos imputados a Batisti eram testemunhais. Testemunhos dados por antigos companheiros do militante que, culpando-o isoladamente pelos feitos inocentavam-se. Eram os beneficiários da delação.
A Itália vivia momentos de sede de justiça, eram muitos os casos de atos “terroristas” que deixavam os italianos em estado de constante prontidão e medo. A prisão, julgamento e condenação de Batisti traziam para aquela sociedade um falso sentimento de segurança e conforto. Era a resposta rápida do estado que a população exigia. Essa, como outras farsas ocorridas naquele país, serve até hoje de paradigma para os justiceiros e indignados daqui. A delação premiada dos ex-companheiros de Batisti virou exemplo a ser seguido. Pelo menos para o juiz Sérgio Moro.
É o que estamos vendo no caso da operação lava-jato e seu desdobramento jurídico.
Todo o caso, que deveria contar com o mais apurado serviço de Inteligência e investigação, visto que os implicados são detentores de grandes fortunas e força política, vem se tornando uma espécie de gincana de delações. Ganha quem mais delatar. Os pontos são contados em dobro quando o delatado faz parte do governo federal ou está filiado ao PT. A imprensa hegemônica comanda o show de prêmios no horário nobre da TV com direito a caras e bocas de seus “jornalistas” no melhor estilo Pedro Bial. E quando o show parece esfriar vem de encomenda uma nova delação tão imprecisa e filtrada quanto as que a antecederam.  (As delações são sempre feitas às sextas-feiras para entrar na edição das revistinhas semanais).
Num país como o nosso onde os direitos fundamentais são negados aos cidadãos mais pobres quando estes se defrontam com a justiça, parte da população acha natural que esses mesmos direitos sejam negados também aos ricos e poderosos. Não advoga pelo respeito aos preceitos que devem reger uma sociedade baseada no estado de direito. Clamam isto sim, pela cova rasa do atropelo do devido processo legal para todos.  A esse clamor os meios de (des) informação fazem eco.
Claro que os que detêm dinheiro e poder, diferentemente do povo pobre, recorrem das arbitrariedades na Corte Suprema e acabam ficando impunes quando os processos pelos quais respondem são considerados nulos por vício original. Foi o que aconteceu na Operação Satiagaha que teve esse fim depois de todo o esforço policial que indiciou graúdos do mais alvo colarinho. A Lava-jato vai pelo mesmo caminho.


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Saudade da direita que pensava



Nelson Rodrigues era um homem conservador, um reacionário segundo ele próprio. Sem embargo, cultivou amigos e admiradores entre o pessoal da esquerda. Sua obra falava por ele. Seu filho, Nelson Rodrigues Filho, nos conta que quando o velho Nelson ia visitá-lo na prisão formava-se uma roda de presos políticos para conversar com o escritor mais censurado do Brasil. Fazia-se uma festa.
Admirador de Kennedy e De Gaulle, Nelson Rodrigues adorava espicaçar Dom Hélder Câmara e todos os padres progressistas. Chamava-os de padrecos de passeata e dizia que qualquer dia um daqueles padres iria rezar uma missa na praia vestindo sunga e chupando um Chicabon. Para os amigos da esquerda, no entanto Nelson guardava delicadezas e tratava Antônio Callado, por exemplo, como “meu doce radical”.
Nelson era genial.
Tirante, é claro, os botinudos da ditadura, havia também entre os conservadores respeito por figuras ilustres da esquerda. Talvez o Brasil civil ainda cultivasse a cordialidade ou, pelo menos, a lucidez.
Hoje, se é que ainda existem conservadores lúcidos, estes devem estar escondidos no mais recôndito anonimato. Não é para menos, afinal nesses dias interessantes que vivemos quem tenta dar voz aos reclames da direita mata qualquer um de vergonha. De Bolsonaro a Lobão passando por Shehrazade, Olavo de Carvalho e Kim Kataguiri, o que se vê e se escuta é a mais espessa boçalidade. Boçalidade contagiante.
Depois de afirmar que o apoio de Chico Buarque à Presidenta Dilma é interesseiro, essa direita de estrebaria agora deu de atacar Jô Soares. O motivo: uma entrevista feita pelo Gordo com a Presidenta.
Entrevistar com exclusividade o dirigente máximo de qualquer nação é algo que nenhum jornalista desprezaria. Jô, que comanda um programa de cunho jornalístico, conseguiu a entrevista. Talvez o que tenha desagradado aos relinchantes é que Jô tenha entrevistado Dilma com a cortesia e o respeito que deve merecer quem está no poder ungido pelo voto livre, democrático e universal.

No Brasil atual, quando gente como Aécio Neves é alçado à categoria de liderança política, quem não relincha recebe coices.

sábado, 6 de junho de 2015

O ovo



Esta semana veio à luz o maior escândalo do futebol de todos os tempos. O que muitos sabiam e todos desconfiavam agora é mostrado sob a lupa dos investigadores do FBI.  Esquemas foram destrinchados, foi dado nome aos bois. Dirigentes foram presos (entre eles José Maria Marin, o homem que apontava comunistas nos tempos da ditadura) e o poderoso chefão da FIFA renunciou ao mandato poucos dias depois de reeleito.
O escândalo de alcance mundial ganhou manchetes em todos os órgãos de informação pelo mundo afora. Eu disse “todos”? Pois me enganei. A revista Veja trouxe na capa de sua última edição um ovo.
Não era um ovo metafórico ou filosófico que questionasse primogenituras ou antecedências. Era um prosaico ovo e do ovo se falou. Tratava a matéria de fundo do semanário, pelo que pude perceber lendo apenas a chamada de capa, da reabilitação do injustiçado ovo.
A revista que dá capa e manchete para o escândalo do primo do ministro que deve a prestação das Casas Bahia segundo fontes ligadas ao porteiro do prédio, dessa vez não se interessou pelo farto material divulgado pela polícia americana.
Talvez porque esteja tudo provado através de confissões (como a do empresário mafioso J. Havila), escutas telefônicas e documentos. Veja parece preferir o disse-me-disse, o falatório de corredores e a denúncia anônima para manchetear. E há também o fato do escândalo não envolver ninguém do governo. A solução foi apelar para o ovo.
Na edição digital da revista, Constantino escreveu algo sobre o escândalo da FIFA. O que disse Constantino? Eu não sei, eu não leio o Constantino.
O que me intrigou foi mesmo o ovo. Por qual motivo Veja trata assim seus leitores negando-lhes uma capa que abordasse o tema que todos comentam?
 Creio que foi a empáfia que levou a publicação a falar do ovo. Veja crê que têm domados seus leitores e que esses vão se interessar pelo ovo se assim a revista desejar. Veja os manda bater panelas e eles batem, os manda para a rua aplaudir Bolsonaro e outros golpistas e eles vão. Por que não comprariam o ovo como prato principal?