quarta-feira, 26 de março de 2014

O caso Cláudia


Seu nome era Claudia Lessin Rodrigues. Era uma moça da classe média carioca e foi assassinada, depois de uma festa de embalo e tentativa de estupro, por dois rapazes, Michel Frank, filho do milionário Egon Frank (relógios Mondlane, entre outros negócios), e George Kour, dono de um salão de cabeleireiro no Hotel Méridien. Seu corpo foi atirado dos penhascos da Av. Niemeyer, amarado com arames num saco cheio de pedras. Depois da fuga de Michel para a Suíça e da prisão de George por ocultação de cadáver, ambos foram inocentados do crime de homicídio.
O caso Cláudia chocou o país naquele 1977. Seus desdobramentos, mais ainda. Por vários meses a imprensa não cuidou de outra coisa. Cada  fato descoberto ou ocultado pela polícia, cada depoimento, cada detalhe do escabroso assassinato, era esmiuçado, destrinchado e comentado por jornalistas, curiosos e palpiteiros.
O detetive Jamil Warwar, que em 48 horas havia desvendado o crime, foi afastado das investigações, o laudo do Instituto Carlos Éboli, que dava como causa da morte, asfixia mecânica, foi ignorado, e mesmo o testemunho de um operário, que vira a desova do cadáver, foi posto de lado devido às relações do milionário Egon Frank. Michel Frank foi assassinado na Suíça 12 anos depois.
O assassinato de Cláudia Lessin Rodrigues virou filme estrelado Por Kátia D’Ângelo.
O assassinato de Cláudia Silva Ferreira, negra, pobre, auxiliar de serviços gerais, não está merecendo tanta cobertura jornalística quanto o de sua homônima loura, estudante, da classe média. Sequer acertam com seu sobrenome. Ainda que a reprodução de sua carteira de identidade, facilmente encontrado na internet, mostre claramente que é Cláudia Silva Ferreira, os órgãos da imprensa “séria” e até blogs e sítios informativos feministas, insistem em confundir seu nome. Cláudia Silva Ferreira é apenas a mulher que foi arrastada por um camburão.
Nos noticiários de TV, o fato de ela ter sido assassinada não é mencionado, usa-se o eufemismo “baleada” e dá-se como fato, uma suposta troca de tiros entre policiais e traficantes. Seu corpo, possivelmente já sem vida, foi arrastado por, pelo menos, 350 metros depois que o porta-malas do camburão, onde ela fora jogada, abriu-se. O advogado dos policiais envolvidos no crime, dá como desculpa para que Cláudia fosse transportada, supostamente para um hospital, como se fosse bagagem, o fato do banco traseiro da viatura estar ocupado por armas e coletes a prova de balas. A imprensa não questiona que as armas e coletes poderiam ter sido postos no porta-malas, dando lugar a Cláudia na cabine, tendo em vista que os policiais não se encaminhavam para nenhum confronto e sim para prestar socorro a vitima de suas balas disparadas a esmo na comunidade onde residia Cláudia.
Esse novo caso Cláudia não vai virar filme e já vai abandonando o noticiário.  Arnaldo Jabor e outros que tais, já tiveram falsos chiliques em rede nacional e já abusaram das frases de efeito e jogos de palavras. O laudo do Instituto de Criminalística sequer diz que tipo de projétil vitimou Cláudia. Os assassinos foram postos em liberdade pela justiça depois de menos de 3 dias detidos. As testemunhas do crime temem depor. Temor compreensível, pela soltura dos policiais envolvidos que, antes de matarem Cláudia, já carregavam nas costas mais de 60 ocorrências que resultaram em morte.
O assassinato de Cláudia Silva Ferreira vai cair no esquecimento assim como o de Amarildo e os de tantas outras vítimas da política de extermínio comandada por governadores e secretários de segurança, de todos os partidos políticos, em todos os estados da Federação. E, claro, com a conivência da imprensa, tão seletiva em sua indignação.



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