segunda-feira, 11 de junho de 2012

Bandidos







Em seu livro, Viventes das Alagoas, Graciliano Ramos dedica 7 dos 39 textos ao Cangaço. Em um deles, intitulado “Dois cangaços”, o escritor compara os primeiros cangaceiros com Lampião e sua gente. A comparação, ainda que sem enfeitar demasiado os primitivos, deixa o Capitão Virgulino Ferreira em posição desvantajosa. Em feitos, em honra e mesmo em coragem. Acentua Graciliano o tamanho dos bandos que de poucos homens ou apenas envolvendo pessoas da mesma  família em fins do século 19 e começo do século 20, passou a enormes colunas chegando, segundo ele, a duzentos combatentes na invasão de Mossoró em 1927 (Graciliano data o episódio em 1926).
Em um momento da narrativa o autor de Vidas secas, que chegou a pertencer ao Partido Comunista, usa o termo “rebotalho social”, para referir-se a Lampião e seus cabras. Quando fala das moças defloradas pelos cangaceiros, se compadece das brancas que “inutilizam-se para sempre” pois “nenhum sertanejo de família vai ligar-se a uma pessoa ultrajada” ao contrário das moças da classe baixa que, segundo ele, não se aviltam por isso e recebem frascos de perfume, cortes de seda e cordões de ouro e casam-se como se nada houvesse acontecido.
Os crimes cometidos pelo bando de Lampião são destacados do contexto social do sertão. Temos a impressão, lendo o relato, que os cangaceiros inventaram a degola, o estupro, a castração, a mutilação. Essas práticas eram comuns e ainda são embora não cause indignação quando são perpetradas contra a população pobre, seja do sertão seja da favela.
Graciliano faz um relato estribado na sua condição de homem da classe média que se sente mais próximo ao proprietário, ao senhor. Embora condene a situação de penúria do povo trabalhador e veja nesse fato a origem do cangaço de seu tempo que ele distingue do cangaço de “origem social” de tempos atrás, não pondera que a atuação desses homens é apenas reflexo do entorno. Atos como os cometidos pelos cangaceiros eram comuns no sertão. A diferença era quem os cometia.
Acontece que nossas elites e os que se sentem próximos a elas, odeiam quando o povo resolve agir abolindo as leis que essas elites fizeram para se proteger. Assim que hoje em dia um traficante de drogas é mostrado como o pior dos celerados quando não faz mais que imitar o modelo de negócios dos grandes cartéis de armas, de bebidas ou de agrotóxicos. É na violência policial que busca inspiração para seus atos de repressão e punição para os que tentam enfrenta-los. Na corrupção do estado se ampara, na ausência do estado, reina.
Quando o Capitão Virgulino Ferreira resolveu ser o governador do sertão nada mais fez do que assumir as funções para as quais estava mais apto que os eleitos por currais eleitorais. Tinha a força das armas e o sentimento popular via nele o justiceiro de que carecia o sertão. É certo que espalhava o terror e uma traição era cobrada com requintes de crueldade exemplar. Mas o fato é que tanto no sertão como nas favelas, o poder estabelecido pela sociedade é muito mais cruel, sua presença só se faz notar quando reprime, humilha, segrega.
A rebeldia popular nem de longe se parece com o ideal romântico dos que querem orientá-la, conduzi-la. Não é uma força libertária, não busca alianças estratégicas. Apenas entra no jogo para ganhar. Não apóia a greve dos professores nem quer um meio ambiente sustentável. Não se importa com a imagem do país no exterior, não pensa num futuro melhor para as gerações vindouras. Quer afirmar-se como força social, anárquica e caótica.
A resposta da sociedade estabelecida é, e sempre será, a repressão. O melhor exemplo disso é Canudos. Os crimes ali cometidos tiveram total apoio social desde o início, quando as primeiras forças da ordem foram dar fim aos sertanejos que desafiavam a república e seus ditames. Nas cidades, cidadãos bem pensantes estavam plenamente convencidos que o extermínio de mulheres e crianças serviria para que a sociedade moderna e progressista seguisse seu passo. Os seguidores do Conselheiro seriam o atraso, o empecilho para que a nação confirmasse seu destino.
No caso dos cangaceiros havia que retomar o monopólio da crueldade, do estupro, da degola. Claro que as mocinhas brancas estariam em segurança, os negociantes poderiam seguir pondo preço na fome, os coronéis continuariam seu reinado despótico. Tanto em Canudos como no fim do Cangaço, cabeças foram cortadas mas isso não impediu grande regozijo das elites da época e dos que dela se sentiam próximos.
Hoje, mesmo que as polícias pacificadoras continuem matando meninos nos morros e favelas, as grandes redes de televisão seguirão fazendo reportagens elogiando o serviço de "limpeza". Armas e drogas serão prontamente exibidas para mostrar a todos que o morto era traficante e ousou enfrentar a polícia assim como Lampião enfrentava os macacos das volantes.
A verdadeira história de Canudos já pode ser contada sem encher de pejo a sociedade que se vê distante do terrível massacre. O culto a Lampião e seus seguidores é franco entre os sertanejos pobres embora, para não deitar idéias, os bem formados continuem louvando os que cortaram suas cabeças.
Os traficantes das favelas seguem sendo mostrados como a própria encarnação do mal e sua imagem associada à degeneração do tecido social. Os assaltantes de joalherias e os arrombadores de caixas bancárias aparecem no horário nobre da TV como inimigos públicos de primeira linha. Querem fazer crer que os investimentos em segurança aumentam o custo Brasil e praticamente explicam o alto valor das taxas cobradas pelos bancos de seus correntistas.
A recente publicação de pesquisa feita pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP, nos dá uma idéia de como a sociedade brasileira vê aqueles que ameaçam seus bens. Se em 1999, 71,2% da população rejeitava o uso da tortura pelas forças de repressão, em 2010 esse número caiu para 52,5%. Quase metade da população brasileira apóia o uso da tortura pela polícia para “investigar” crimes.
Ora, a tortura é muito mais um ato de punição do que outra coisa e a sociedade sabe bem disso. Sabe e concorda. O que assusta nesse número, é que cada vez mais pessoas aderem ao pensamento repressor das elites. Isso talvez advenha do crescimento da classe média em nosso país. Cada vez mais pessoas têm o que perder e o ladrão de carros recebe uma carga de ódio que não vemos sendo dirigida ao estuprador ou ao pedófilo.
Certamente os programas televisivos de cunho policialesco têm sua parcela de responsabilidade quando, na corrida por índices de audiência, chegam às raias da insanidade com seus apresentadores e “repórteres” falando da impunidade dos bandidos.  Fato que a superpopulação carcerária desmente. Mediante a suposta impunidade, que os ditos programas proclamam como falha da justiça e não da valorosa polícia, a tortura teria o condão de punir aqueles que atentam contra o patrimônio. Pois disso se trata.
Os crimes contra a vida têm menos repercussão na TV que assaltos a joalherias de “shoppings” ou explosões de caixas eletrônicos. Nesses casos sempre é destacada a ousadia dos bandidos como uma ofensa à sociedade. Chacinas cometidas por milícias e grupos de extermínio ocupam os poucos minutos que são necessários para criminalizar as vítimas. Os mortos são tratados, invariavelmente, como pessoas ligadas ao tráfico de drogas ou viciados. Ajuste de contas é o veredicto dado por “jornalistas” e policiais enquanto os corpos ainda estão no chão de bares e biroscas da periferia.
Canudos e o Cangaço teriam muito que ensinar mas para isso a sociedade teria de deixar de ver pobres e favelados como rebotalho social.




quarta-feira, 6 de junho de 2012

Ronaldinho Gaúcho







Muitas vezes recorro às minhas lembranças de outros tempos para pensar sobre fatos atuais. Creio que é coisa de quem vai ficando velho e sabe que os dias vindouros serão poucos comparados aos passados. Muita coisa que ouço, vejo e leio, tem o gosto, o aroma, a pele do déjà vu (desculpe o estrangeirismo). Ontem mesmo, estava feliz pela contratação de Ronaldinho Gaúcho pelo Galo e escutando nossa crônica esportiva comentar o fato, me lembrei de Afonsinho.
Em 74, o jogador do Botafogo conseguiu na justiça o passe livre e se tornou o primeiro jogador de futebol a ser dono de sua vida profissional. Antes disso, enquanto travava uma batalha judicial pelo seu direito de ir e vir, a crônica esportiva da época implicava até com sua barba. Estávamos no período mais negro da ditadura. A rebeldia de Afonsinho tinha de ser punida de qualquer maneira e na falta de argumentos sua barba servia de mote para críticas de jornalistas que deveriam escrever sobre futebol. O jogador, estudante de medicina, podia freqüentar seu curso e fazer dissecações usando sua volumosa barba, mas jogar futebol, não. Claro que o problema era outro. Um jogador de futebol ousara pensar.
 A imprensa, principalmente a esportiva, em sua grande maioria é servil e careta. Sempre foi assim. Naqueles tempos até a polícia política perseguia Afonsinho e há relatórios do serviço secreto da ditadura dando conta das excursões do Santos quando o jogador se transferiu para o time peixeiro, já dono de seu passe. Certamente os boçais agentes da boçal ditadura viam no fato de Afonsinho ser universitário e rebelde, um claro indício de ligações com o comunismo internacional. A imprensa fazia eco e ajudava na marginalização do atleta. Exceção feita a João Saldanha que sempre defendeu Afonsinho e os jogadores em geral.
A bola da vez é Ronaldinho Gaúcho. Não que o craque tenha atitudes rebeldes e contestadoras. É apenas um cara que gosta de festas e mulheres. Bastou. Qualquer falha sua nos gramados desata uma indignação da imprensa que deveria ser usada, por exemplo, no caso do menino Wendel, que morreu durante uma peneira do Vasco. Não foi.
Assistindo o programa Linha de Passe da ESPN Brasil (?), pensei ter voltado no tempo. Vi-me de novo diante da inquisição moralista dos anos de chumbo. A contratação de Ronaldinho pelo Galo foi tratada por Juca Kfouri como “insânia”. Daí em diante evocou-se Freud, a Constituição, Marx e o escambau para desqualificar o jogador, seu irmão e procurador, Assis, o presidente do Galo, Alexandre Kalil e os torcedores atleticanos contentes com a contratação daquele que por duas vezes foi eleito o melhor jogador de futebol do mundo, jogou duas copas e foi campeão de uma delas.
No programa, Paulo Vinícius Coelho, abrindo o manual do bom mocismo, detalhou os passos que Ronaldinho deveria ter dado no episódio da ruptura com o Flamengo. Kfouri, para acompanhá-lo, disse três vezes a palavra moleque, referindo-se ao jogador. O balbuciante Calazans, que não assiste um treino desde o primeiro de Garrincha em General Severiano, afirmou que mesmo querendo Ronaldinho não consegue mais jogar futebol. Márcio Guedes, comentando o salário que o craque receberá no Atlético, citou duas importantes rádios do Rio que afirmaram que o Gaúcho iria ganhar 20%  mais do que o Flamengo ficava lhe devendo a cada mês. Você já ouviu a programação esportiva das principais rádios do Rio? Conhece algo pior? Acha que alguma informação veiculada por essas rádios merece ser citada em conversa do botequim?
Mas não foi só. O tom das críticas foi subindo à medida que esgotavam os argumentos e o xenófilo comentarista Mauro Cézar Pereira torceu os números e antes que alguém (em sua casa, no estúdio reinava a mais burra das unanimidades) pudesse argumentar que Ronaldinho marcou 14 gols pelo Flamengo no campeonato brasileiro do ano passado e foi protagonista numa das melhores partidas de futebol já jogadas no planeta, chamou isso de brilhareco. A tudo, Nerso da Capitinga, o condutor do programa, assentia.
Paulo Vinícius Coelho também falou do “produto” Ronaldinho. Kfouri mencionou sua falta de carisma comparado-o a  Ronaldo Fenômeno. Mister Magoo balbuciou algo sobre o olhar de robô do R 10.  Foram unânimes: Ronaldinho Gaúcho não era um bom profissional.
Se Ronaldinho fosse um assíduo freqüentador de programas esportivos não se falaria de sua falta de carisma. Se fosse garoto propaganda das marcas patrocinadoras das emissoras, sua vida fora dos gramados seria esquecida. Se fizesse o discurso do atleta de vida regrada, poderia viver no departamento médico de chinelinho como ocorre com muitos jogadores “sim sinhô” que não agüentam um jogo inteiro mas são  queridinhos da imprensa careta.
Esqueceram-se, os senhores comentaristas, que Ronaldinho esteve em campo pelo Flamengo em quase todos os jogos do time em 2011. Foi o artilheiro do campeonato enquanto o clube mais avacalhado do Brasil fingia que pagava seus salários. Com seus gols deixou a time em terceiro lugar no Brasileiro e com vaga na Libertadores.  Nesse período voltou à Seleção por seus méritos e gols. Não é possível que em alguns meses ele já não possa mais jogar futebol como afirmou Magoo Calazans.
Um vídeo divulgado pela diretoria do Flamengo com o intuito de baixar a conta do que deve ao craque e que teve ampla difusão pela imprensa, mostra Ronaldinho Gaúcho entrando no quarto de uma mulher num hotel onde o time estava concentrado. Até o libertário Juca kfouri fez disso um caso. Ora, um homem solteiro come uma mulher de noite. De manhã veste seu uniforme de treino e vai cumprir suas obrigações. Isso não acontecia na democracia corinthiana? Isso não acontece em todos os clubes nos quais a concentração foi abolida? Vai agora o Juca Kfouri fazer apologia dos benefícios do regime de concentração de atletas? Por fazer sexo, Ronaldinho estaria pondo em risco seu desempenho em um treino?
Assim como no tempo de Afonsinho, a imprensa continua querendo ditar regras morais e de comportamento aos atletas. Não importa que a tal vida desregrada levada por muitos não lhes provoque danos (Ronaldinho jamais teve uma contusão séria), importa sim, seguir a cartilha do bom moço, comparecer aos programas esportivos mesmo durante as férias e tornar-se um produto vendável para toda a família.






domingo, 3 de junho de 2012

Ai se eu te pego







Comentando os 100 anos do naufrágio do Titanic, Luis Fernando Veríssimo nos fala de uma cidade que foi porto de escala da trágica travessia, Cherbourg. Lá, também, a cobertura da imprensa sobre o centenário do desastre foi quase tão grande quanto a que foi feita por ocasião do lançamento ao mar da nave indestrutível. O escritor visitou na cidade uma exposição dedicada ao navio. Gostou.
Veríssimo fala, em sua crônica, das metáforas que podem ser feitas a partir do Titanic e seu destino. Ao fim, nos diz que no rádio do carro que usava na cidade francesa, tocava “Ai se eu te pego”._ “Simbolizando, pensando bem, nada”.
 Semana passada, enquanto aguardava o jogo entre Brasil e Dinamarca, assisti a reportagem feita na entrada do estádio com torcedores dinamarqueses. Nesse tipo de jogo, realizado fora dos países dos contendores e com ingressos caríssimos, não há torcedores tradicionais e sim turistas que pouco ou nada manjam do esporte. Os dinamarqueses entrevistados sequer conheciam Tiago Silva ou David Luis, estrelas internacionais, mas cantavam, em português, “Ai se eu te pego”.
Na TV portuguesa, num desses programas sobre decoração de interiores, o tema de encerramento, quando são mostrados os móveis e tapetes que foram os protagonistas do episódio, é “Ai se eu te pego”. A “música” está em primeiro lugar na parada de sucessos (será que ainda se usa esse termo?) de Praga. Também já ouvimos seus (seu?) acordes num vídeo clip israelense que, pelo menos, era satírico.
Um locutor esportivo daqui, que não merece ser citado nem viver, tenta fazer dos “versos” cantados por Teló, um bordão, e os repete inúmeras vezes durante a transmissão dos jogos de futebol.
Já não se pode tentar ignorar o fenômeno e aqui tenho de discordar do grande Veríssimo. Creio que a ascensão (e futura queda) de Michel Teló pode simbolizar muitas coisas do mundo e do tempo em que vivemos.
Como um produto de tão má qualidade pode se tornar referência para milhões (bilhões?) de pessoas ao redor do mundo? Poucos anos atrás sua repercussão estaria restrita ao território nacional, alojada num nicho do mercado fonográfico onde estariam outros produtos da mesma natureza catalogados com o rótulo “abaixo da crítica”. O fenômeno se deu graças, principalmente, à internet e sua capacidade de gerar fatos e factóides. Os vídeos e postagens virais fazem com que milhões embarquem na primeira canoa furada que passe. No caso de Teló e sua “produção artística”, o mal causado é de menor importância. A imbecilização provocada só causa danos no indivíduo e por curto período. Como efeito secundário, apenas uma histeria coletiva que se desinflará pela ação do tempo e do pouco oxigênio que carrega. Passados alguns anos e será lembrada como uma gripe forte, um surto de dengue. A Macarena e o Mister M estão aí para não me deixar mentir. Mas há pior.
“Ai se eu te pego” (minhas aspas já estão acabando) nos fala de algo mais sinistro e destrutivo: O poder de se disseminar a loucura e a insensibilidade usando-se da mais maravilhosa das tecnologias de comunicação.
A cada dia que abrimos o facebook ou algo parecido, nos deparamos com o maior surto de tolices que a humanidade já conheceu. As idéias mais absurdas, os comentários mais imbecis, o compartilhamento de imagens de bichinhos para decorar frases feitas, o horóscopo, o horóscopo chinês, o calendário maia, o catastrofismo dos bio desagradáveis, as charges de segunda categoria, enfim, todo um universo difícil de engolir sem sentir as náuseas da saturação. E o pior é que está apenas começando.
Já imaginou se Hitler contasse com a internet quando começou seu “ai se eu te pego” com os judeus e outros povos tidos como daninhos à sociedade alemã? Pois pare de imaginar. As redes sociais, que colocaram no imaginário popular a idéia de que foram importantes na derrubada de líderes indesejáveis no oriente médio e no norte da África, hoje guardam sepulcral silêncio sobre o novo inferno líbio, a xenofobia européia, a farsa eleitoral egípcia, a degradação da Grécia, o crescimento da extrema direita na Europa. Sobre Guantánamo, nem uma palavra. O maior campo de concentração do ocidente, desde a segunda guerra, continua propagando que usa tortura sim, e daí?  Não há ação espontânea de indivíduos indignados nem solidariedade internacional. Anonymous está mudo.
“Ai se eu te pego” é um sinal dos tempos. De um tempo onde tudo é possível. A mentira mais deslavada não dorme em secretas alcovas, não se esconde em porões, não se envergonha. Assim como a música infeliz, ela se espraia na maré alta e você nem nota ou quando nota, ela já viajou para ser primeiro lugar na parada de sucessos de Praga.
Michel Teló é um profeta que veio anunciar o reino de Steve Jobs. “Ele voltará e se sentará à direita de Bill Gates”
Primo irmão de Luan Santana, neto de Sidnei Magal e filho da puta, o sertanejo universitário, graças a Zuckerberg, (o espírito santo da trindade cu de ferro), deixou claro que tudo é possível se a cara é de pau. Basta postar.
Outros fazem o mesmo que Teló, e de graça. Inundam o mundo virtual com suas tolices. Mesmo sem ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar, fico estupefato como as mesmas bobagens me chegam das mais diversas fontes e em idiomas variados. A última foi uma que esclarece que eu não sei de nada e que se uma eleição tiver 51% de votos nulos, ela será anulada e que os políticos envolvidos na disputa inválida não podem mais concorrer. É a terceira ou quarta vez que leio essa mensagem no facebook postada por gente que nada tem de maldosa. Estão entre meus amigos ou são amigos destes.
Outra postagem faz referência às falcatruas dos sorteios de mega-senas e afins e também afirma que eu não sei de nada. Garante que uma denúncia foi veiculada no jornal da Record ou do SBT. Na Globo não. Fala de importantes figuras políticas metidas na roubalheira mas não dá nomes. A estória é mal ajambrada e torpe mas mesmo assim as pessoas passam-na adiante.
Também constante nas redes sociais são as figuras da já citada santíssima trindade; Jobs, Gates e Zuckerberg. Seus ensinamentos sobre a vida, o destino da humanidade, o aquecimento global e a procriação de artrópodes, são repassados como vírus. Os ateus os exibem orgulhosos, símbolos do livre pensamento. Os que crêem vêem Jobs como um mártir da fé. São os tempos.
Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, depois que assistiu o Encouraçado Potenkin, ficou fascinado e previu um futuro maravilhoso. Ficou amigo de Eisenstein e sonhou com a conscientização do proletariado através do cinema. Hoje Bruce Willis e Mel Gibson lhe dariam uma chave de braço e o jogariam na realidade. Quem viu o nascer da internet e pensou nas possibilidades infinitas que a tecnologia trazia no ventre, vê-se diante do fato de que entre quatro arquivos baixados, três são de jogos eletrônicos. 75%. Dos 25% restantes Michel Teló tem grande parcela. Um clip com sua “obra” já alcançou 100 milhões de visualizações no youtube. Antes do similar com versão em inglês.
A televisão, que desde seus começos foi ruim, e por isso não frustrou tanto como as outras tecnologias, hoje também se rende aos joguinhos da internet. Há, na TV fechada, um canal especializado no tema. Durante a triste programação vemos jovens de 20 e poucos anos interessadíssimos no assunto. Discutem os tais joguinhos como alguém sadio discutiria a fome no mundo ou a crise européia. Aos 20 e poucos anos estão nessa. Nem quero imaginar sua vida sexual. Dá medo.
O fenômeno Michel Teló, como vimos, é o menor dos males mas “Ai se eu te pego” já encheu o saco.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dura lex sed lex







Quando eu era menino, havia um produto chamado Gumex que nossas mães (sempre elas Dr. Freud, sempre elas) usavam em nossas cabeças para apascentar redemoinhos, formar topetes e corrigir barbeiros pouco hábeis. Enfim, domar nossas gafurinhas.
Esse produto parecia uma mistura de gel com goma arábica e era aplicado com o pente previamente imerso no potinho de vidro que tinha conveniente boca larga. Alguns minutos após a aplicação, aquela geléia plebéia se transformava num duro verniz, numa laca brilhante que deixava à mostra os sulcos feitos pelo pente. Sua serventia estava restrita às festas, missas, passeios e outras atividades que exigiam nossa total imobilidade. No pátio da escola, após umas correrias, os movimentos e o suor desmanchavam a escultura capilar e ostentávamos uns penachos hirtos como as cerdas do javali.
A primeira vez que usei Gumex o fiz com gosto e orgulho, não só por ser um produto masculino que não estava destinado somente às crianças, como também por ter propaganda na televisão (sim, engraçadinho, quando eu era menino já havia televisão no Brasil) fato que garantia sua qualidade e préstimo. Usei Gumex poucas vezes, acho que minha mãe não gostou muito do resultado. O menino da propaganda era menos irrequieto e sudarento do que eu.
Lembrei-me do Gumex enquanto assistia, atônito, o depoimento de Demóstenes na Comissão de Ética do Senado. O Senador entrou definitivamente em nossas vidas. Prova disso é que já o tratamos pelo nome de pia sem acrescentar cargo nem sobrenome. Já não dormimos sem notícias suas, reparamos na perda de peso que fez desaparecer suas rosadas bochechas e folgou seu paletó.
Na comissão, Demóstenes parecia ter recuperado a firmeza da voz, o tom belicoso do discurso. Foi capaz de encarar seus pares e mentir. Mentiu descaradamente como só alguém que sabe perfeitamente com quem está lidando pode mentir. Falou de Deus e da família como já era esperado e mesmo de sua propriedade privada fez menção. São apenas 500 mil reais de patrimônio, segundo declarou. Para sua lua de mel na Europa levou somente 4 ou 5 mil euros.
Demóstenes pinçou as falhas que abundam na investigação que serve de base para o processo por quebra de decoro, para tentar demolir, in totum, a peça acusatória. Não deu. Seu advogado deixou Carolina Dieckmann e sua transcendental querela por uns tempos e vai tentar, junto ao STF, anular todo o processo judicial alegando vício de origem na investigação no que tange a Demóstenes que, por ter foro privilegiado, não poderia ser investigado sem a licença da Corte Suprema. E quer saber de uma coisa? Eu acho que ele sai dessa mais inocente que o Collor, mais impoluto que o Alceni.
Mas outra coisa é a Comissão de Ética do Senado que o julga por quebra de decoro. Vai servir de boi de piranha. Pelo menos é o que indica o relatório do Senador Humberto Costa. Mas você dirá que no plenário tudo pode mudar e surpreender. Não duvido. Sei que Demóstenes tem um voto certo para sua absolvição. Sim o dele, Fernando Collor de Merda.
O ex-presidente aproveitou a presença de Demóstenes para o único fim que lhe interessa nessa comissão: atacar a ridícula revista Veja. E o Senador aproveitou a deixa, a tese de Collor lhe é favorável, fez mimos no menino mimado do clã alagoano:_Vossa excelência definiu muito bem. _ Vossa excelência tem toda a razão. Garantiu um voto pela sua absolvição. Demóstenes afirma ter mais de 30.
Você pensa que encontrou a relação entre o Gumex e a Comissão de Ética no momento em que leu o nome do ex-caçador de marajás. Certamente se lembrou de seus cabelos emplastados de uma gosma semelhante na cerimônia de posse naquele remoto ano de 1990. Você se equivoca.
Quando penso em Collor, e misturo minhas recordações dos tempos da inocência, vem-me à mente outro produto para cabelos masculinos: a Brilhantina. Se você já passou dos 50 sabe a que me refiro, caso contrário, apenas esclareço que esse outro produto se assemelhava mais ao gel dos anos 90 e tinha o aroma de quarto de zona. Mas não é isso.
Acontece que o mote publicitário do Gumex era:_ DURA LEX SED LEX, NO CABELO SÓ GUMEX. Fiquei pensando no quão dura é a lei para quem não tem dinheiro nem mandato parlamentar e o quão flexível  é, para esses.
Demóstenes, ao fim de sua oitiva no Senado, pediu que seus pares o julguem pelo que fez e não pelo que disse que faria. Segundo ele, promessas feitas ao chefe, Carlinhos Cachoeira, não foram cumpridas. Mas o conselho é de ética, de ética e ele é um Senador da República, Senador da República. Também segue afirmando que não conhecia as atividade zoológicas de Cachoeira. Fez-me lembrar Alceni Guerra quando dizia desconhecer que empresas contratadas pelo ministério que comandava, sediadas na metrópole de Pato Branco, pertenciam a parentes seus. Ora, em Goiânia até a vendedora de pamonha sabe que Cachoeira é bicheiro e filho de bicheiro.
Nos mesmos dias em que assistimos o depoimento de Demóstenes e a mudez de Cachoeira, uma mulher foi presa no interior de Minas por ter comprado de presente para a filha um vibrador. A menina completava 14 anos e pediu o regalo. A mãe comprou. Na loja, encomendou embalagem de presente e comentou para quem era. A vendedora, que também é professora de ensino religioso no turno matutino da mesma escola freqüentada pela menina, denunciou a mãe ao Conselho Tutelar. Pronto, Dura lex.
À mãe não será possível pedir que a julguem pelo que fez e não pelo que disse que faria. Não há presunção de inocência. Foi fotografada pela operosa imprensa brasileira tendo ao fundo um painel com o emblema da Polícia Civil de Minas Gerais. Já está condenada.
Se contasse com o advogado de Carolina Dieckmann e Demóstenes, a mãe liberal poderia ter dito que comprara o vibrador para uso próprio e que, por vergonha, envolvera o nome da filha. O vibrador que a menina mostrou, orgulhosa, para as colegas da escola, seria outro, comprado com suas economias. Fosse deputada, dona de empreiteira, governadora ou jornalista, teria saído da delegacia usando óculos escuros, Louis Vitton ao ombro e amparada pelo Dr. Kakaiy que prontamente entraria com um processo contra o delegado, o estado, o comércio de sacanagem e a vendedora puritana.
Caso ninguém a ajude, a mulher, que foi enquadrada no artigo 224 do Código Penal que trata por estupro presumido quando menores de 14 são expostos a situações de natureza sexual mesmo com o consentimento do menor, será presa e cumprirá a pena. Dura lex, sed lex.
Entre nós, o aforismo latino só se aplica aos pobres e só faz sentido na propaganda do Gumex.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Independência







Meu tio Alberto era americano. Não que tenha nascido em Dallas ou Chicago nem em qualquer outra parte dos Estados Unidos. Era americano porque torcia pelo América. O América Mineiro. Na verdade nasceu em Pedra Azul, no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas. Tampouco nós o chamávamos de tio Alberto, em bom mineirês, dizíamos “Ti Beto”.
Sempre que me lembro dele o vejo como torcedor do América. E também recordo dois episódios futebolísticos como centro de nossa curta e esparsa relação. Assisti com ele, em sua casa no Padre Eutáquio, um jogo Atlético e Portuguesa em 1970. Recordo, ainda hoje, detalhes daquele jogo. E o principal; ganhamos. Outra vitória do Galo que vimos juntos foi bem mais importante: a final do primeiro Campeonato Brasileiro em 71. Dessa vez foi em minha casa, na Barroca. Ele, que não era muito de visitas, apareceu por lá minutos antes da decisão histórica e lembro de ter ficado feliz por ter companhia masculina para afrontar a viril angústia daquela final jogada no Maracanã contra o Botafogo, time cheio de craques. Quando morreu, eu andava pelos 18 anos e não tivemos tempo de fazer uma amizade de adultos mas o tipo de família daqueles tempos nos tornava, de alguma maneira, próximos.
Com o passar dos anos ficou quase impossível ouvir falar do América e não me lembrar de Ti Beto. Assim tem sido nas últimas semanas com a re-inauguração do Estádio Independência que agora será administrado por uma empresa paulista em parceria com Atlético, América e o governo de Minas. Mas, propriedade do América que colocou seu escudo no gramado atrás das balizas e pintou suas arquibancadas de verde. O Galo vai utilizar o estádio durante o tempo que durar a reforma do Mineirão.
           A reabertura do estádio parece ter trazido sorte para os times mineiros. No jogo inaugural o América venceu o Argentinos Juniors por  2 X 1. Estreando em casa, no Campeonato Brasileiro da segunda divisão, o Coelho também saiu vitorioso, 4 X 0 no CRB. E no último domingo o Atlético venceu o Corinthians por 1 X 0.
A antiga praça esportiva foi totalmente demolida, já não restando nada, além dos vestiários, que lembre o palco da vitória dos EE.UU sobre a Inglaterra na Copa de 50, uma das maiores zebras de todos os mundiais. Mas ficou o que me parece ser o mais importante: o nome.
Na verdade seu nome oficial, enquanto foi propriedade do 7 de Setembro era Estádio Raimundo Sampaio, mas ficou conhecido por Independência.
O nome do estádio me agrada pois desde que foi construído o Mineirão, em 1965, todo e qualquer estádio de futebol inaugurado no Brasil, passou a ser alcunhado por alguma coisa terminada em ão. Exceção feita ao Beira Rio, ao Morumbi e ao Serra Dourada. Temos Mangueirão, Frasqueirão, Pinheirão, Barradão, Vivaldão e até o estádio que tem o nome mais poético entre todos os estádios do mundo, o Rei Pelé, eu já ouvi ser chamado de Pelezão. Dos ãos eu só perdôo o próprio Mineirão, por ter sido nomeado assim, espontaneamente, em tom de brincadeira e o Mundão do Arruda por não ser um aumentativo forçado nem copiado.
Você me dirá que os apelidos têm a ver com o fato dos nomes oficiais dos estádios serem fruto dessa mania de homenagear gente detestável ou desconhecida dos freqüentadores de jogos de futebol. Geralmente políticos. Você tem razão. Quem quer se lembrar de Epitácio Cafeteira? Ou Clóvis Bezerra? Ou Eduardo José Farah? Mas não se poderia esquecer essa gente com outros apelidos que não fossem Cafeteirão, Bezerrão ou Prudentão? Aonde foi parar nosso espírito lírico, nossa verve poética, nossa sacra sacanagem?
Isso vai escrito, você me dirá, com pelo menos 40 anos de atraso. E mais uma vez você tem razão. Toda a razão, pois foi na época da ditadura que mais se construiu estádios e mais se cultuou a idiotice. Pensando bem, Castelão, Almeidão e Albertão combinam com o sambão-joia de Benito de Paula e os jurados do Flávio Cavalcanti. Tudo fruto do mesmo pau, da mesma época. Infelizmente a moda do ão não desapareceu junto com as calças boca de sino e o DOI-CODI, assim que o belíssimo estádio construído para os Jogos Pan-americanos do Rio, acabou ganhando o horrível apodo de Engenhão. Por que não Campo do Botafogo, ou Estádio Suburbano? Eu até admitiria Estádio Sogrão ou Estádio Múmia da Central, em nome da avacalhação, mas Engenhão é de lascar. E logo no Rio que estava livre desses nomes por seus estádios terem sido construídos antes do Mineirão. E também por ser o carioca muito criativo e sacana para apelidar, seja lá o que for, sem cair em imitações toscas. Mas se a criatividade andou faltando no Rio, ela passou longe do interior paulista.
Após adquirir o Mogi Mirim Esporte Clube, Rivaldo resolveu homenagear o pai dando ao estádio do time, seu nome. O progenitor do campeão do mundo chama-se Romildo Vitor Gomes Ferreira e o estádio ficou sendo Romildão. Pelo menos para mim, Romildão é pior que Baetão ou Nogueirão e faz concorrência ao Brunão de Santo André e ao Suzanão.
O Independência trás de volta, junto com sua história, um belo nome para um estádio de futebol. Infelizmente nem toda alegria é completa e o estádio já vem sendo chamado de Arena Independência.
Pois é, agora, após qualquer mão de tinta que se dá num estádio, ele é rebatizado como “arena qualquer coisa". Não sei o que difere um estádio de uma arena. Mas a explicação do gosto pelo termo me parece óbvia: é a mania de imitar-se tudo que é feito ou dito no estrangeiro. Se existe o Bayern Arena então é lógico que tenha de existir a Arena Barueri ou a Arena Guanabara em Araruama. Mas tem pior.
Em Chapecó, oeste de Santa Catarina, a Chapecoense mandava seus jogos no Estádio Índio Condá. Sempre gostei do nome, incomum nessas terras que preferem homenagear patronímicos gringos. Mas a atual diretoria, após a mão de tinta e a troca  de uns chuveiros nos vestiários, rebatizou o estádio como Arena Condá. Tiraram o “Indio”, termo demasiado étnico, e adotaram “arena”, mais moderno e internacional na visão de seus provincianos diretores. O provincianismo a que me refiro não é geográfico e sim mental.
Mesmo antes de ser erguido, o estádio do Corinthians já foi batizado informalmente de Itaquerão. O nome medonho será adotado pelos torcedores em substituição ao oficial que terá, após o “arena”, a marca de quem pague mais por ostentar seu logotipo ao lado do emblema mosqueteiro. Teremos então a “Arena Coca-Cola” ou “Arena Casas Bahia” Vão perder, em nome do faturamento, a oportunidade de homenagear Sócrates, um de seus maiores ídolos e símbolo do momento mais importante do clube, a democracia corinthiana. Seria justo e belo que o novo estádio fosse chamado de Sócrates Brasileiro e aí sim, o apelido seria natural e veríamos a abertura da Copa no Magrão.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Música? Pra que?







Domingo passado no Engenhão, o Botafogo venceu o São Paulo por um expressivo 4 X 2. Herrera, que saiu do banco, foi autor de 3 dos 4 gols alvinegros. Os repórteres da Globo se aproximaram do jogador tão logo trilou o apito final: _”Herrera já tem música na cabeça pra pedir? O goleador respondeu interrogando:_Música? Pra quê? O jornalista, que por um momento ficou atônito com o desconhecimento do jogador de seus direitos, explicou:_Você marcou três gols, tem direito a pedir música no Fantástico. Meio constrangido, Herrera ainda balbuciou uma negativa. O repórter insistiu: _Nem em castelhano?  Non, non., respondeu o argentino. Surpreendido, Cléber Machado, que estava na cabine do estádio, querendo consertar a situação e ao mesmo tempo passar um pito no artilheiro, comentou que a torcida cantava o hino do clube. A crítica velada pelo comportamento rebelde de Herrera pôde ser sentida apenas no tom de voz do narrador pois, embora tente, Cléber não é bom de ironias e sarcasmos.
Herrera não é, nem de longe, um extrovertido. Enquanto respondia aos repórteres olhava para o chão e movia-se como um tímido profissional.  Negar-se a participar da tola brincadeira, custou-lhe, mas ainda assim, negou-se.
Caso aceitasse estaria deixando explícito que assiste o programa que turva com sua cretinice as noites de domingo. Deixaria claro que conhece as regras da emissora que mescla o espetáculo esportivo com o show de horrores. Estaria sendo o garoto propaganda da babaquice. Poderia, se fosse um debochado, ter pedido uma sinfonia de Mahler ou o tema de abertura do Chaves mas ele não é, nem de longe, um debochado.
 Herrera pode estar certo que a vingança será saramalígna, como diria Bento Carneiro, o vampiro brasileiro do Chico Anísio. Os repórteres, narradores e outros profissionais da TV dos Marinho, sentem-se como aquele outro personagem do Chico, o Bozó, que dizia para impressionar:_Ó, trabalho na Globo, ó. E mostrava o crachá. Ao não reconhecer o crachá, o emblema, o logotipo, o salvo-conduto desses profissionais, o goleador argentino expõem-se à sua ira que virá, como é praxe entre os pulhas e os covardes, em forma de chacota. E os que se fazem de sérios começarão a descobrir deficiências técnicas, disciplinares e de corte de cabelo no camisa 9 do Botafogo.
 Fico imaginando o que devem pensar os pragmáticos sobre esse tema tão pouco relevante para eles. Sou capaz de apostar que alguém deve ter dito:_Por que não pediu logo “El dia que me quieras” e pronto. Por que afrontar, com uma recusa, os poderes do rei? O que ele ganha com isso?
 Bem, eu diria que ganha dignidade e que alguém tem de dizer ao rei que sua roupa é cafoníssima. Que, em troca de comentários elogiosos, o jogador de futebol não deve fazer sempre o papel de bobo da corte. Bastam as dancinhas e corações. Que os outros (jornalistas esportivos, redes de televisão, emissoras de rádio etc) é que lucram com seu talento e não o contrário.
Há pouco tempo, o bom lateral esquerdo Cortês que então jogava no mesmo Botafogo de Herrera, após realizar uma grande partida pela Seleção Brasileira, foi convidado a participar de um programa esportivo da Globo. Seu entrevistador, Alex Escobar, fez-lhe vários e merecidos elogios. Na despedida, Cortês declarou sua felicidade pelo momento que vivia:_Quarta-feira com a seleção e hoje aqui com o Escobar. Cortês fora previamente convencido que, no mundo da bola, o crítico é mais importante que o artista e estava grato por se lembrarem dele. Sentia-se prestigiado pelo homem da telinha.
Até entendo que o temor de serem avacalhados por comentaristas e palpiteiros leve os jogadores menos sagazes à subserviência. A verdadeira campanha de achincalhe que Renato Maurício Prado promoveu contra Obina e, depois que o bahiano foi embora, transferiu para Deivid, foi de dar medo. Entre risotas, o comentarista que mais ri das próprias piadas, pôs no imaginário do torcedor que ambos os jogadores eram grandes engodos, e quem os contratasse faria papel de tolo. Nossos dirigentes, que demitem treinadores por que as organizadas fazem campanha nas redes sociais, são presas fáceis desse tipo de comentário que pode fechar portas para um atleta.
Acontece que nem sequer a subserviência à poderosa Globo garante imunidade contra as maldades irresponsáveis de jornalistas-capacho que a emissora tem em sua folha de pagamento. O elogio tem de ser mendigado diariamente já que a crítica isenta é tão rara quanto à inteligência na crônica esportiva. Uma negativa de entrevista pode resultar numa avalanche de avaliações negativas sobre as condições técnicas e físicas do boleiro.
Mesmo os fatos não são suficientes para aplacar a crítica corrosiva. Quando Renato Maurício Prado mais se empenhava em achincalhar Deivid, que andava perdendo gols, o flamenguista era, entre os atacantes dos times cariocas, o que mais havia balançado as redes até aquele momento do Campeonato Brasileiro do ano passado.
Não me surpreenderá se a partir de agora os analistas da Globo comecem a ver defeitos indesculpáveis no futebol de Herrera. Talvez ressuscitem seu apelido argentino de “casi gol”, esquecido devido à eficiência que tem mostrado o atacante.
  Torço para que Herrera meta mais três no próximo jogo do Botafogo que a Globo transmitir. Se isso acontecer, o que farão os repórteres de campo? Vão insistir com a estória da musiquinha pro Fantástico? Vão fingir que nada aconteceu? Herrera terá sido convencido pelos dirigentes pragmáticos e idiotas a participar da celebração da imbecilidade? Já veremos.

P.S - O título dessa postagem eu copiei do blog Futebol em debate do meu amigo Marcus Penchel.




segunda-feira, 21 de maio de 2012

Uma CPI só de mentiras







Que os políticos mentem, é fato notório. Não só no Brasil, como pensam alguns brasileiros. Os políticos mentem em todos os quadrantes, em todas as línguas, com todos os sotaques. Há os que mentem sempre e outros que se adaptam ao mundo das mentiras. Mentem para chegar à verdade, mentem para perpetuar-se no poder. Mentem.
Quando acossados por uma investigação, vão além; mentem, choram e falam dos filhos. Isso todos sabemos e portanto já estávamos preparados para um festival de falsidades que viria no curso da CPI do Cachoeira.
O que, pelo menos eu, não esperava é que nessa comissão de inquérito todos mentissem. Não apenas seu réu único, Carlinhos Cachoeira, mas também os que investigam, os que atacam, os que defendem, os que comandam e os que obedecem.
Mesmo antes de ser convocada a CPI, Demóstenes subiu à tribuna do Senado e mentiu negando Cachoeira mais que Pedro a Cristo. No Conselho de ética segue mentindo e certamente mentirá quando depuser na comissão. É sua estratégia de defesa, comprovadamente eficaz em outros casos da mesma ordem. Não lhe cabe outra, qualquer verdade que pronuncie o levará às barras dos tribunais. Do jeito que está levando, virá a cassação e nada mais. Daqui alguns anos, poderá, como Collor e Alceni Guerra, bater no peito e mostrar atestado de inocência. Muitos dos que hoje o acusam, estarão em situação semelhante a que ele se encontra hoje. Assim como outros, que ele acusou no passado recente, são agora seus juizes
Já no primeiro dia da CPI, quando se debatia sobre os requerimentos a serem votados, a mentira mais deslavada tomou conta da comissão. Os convocados para depor foram pinçados com o claro intuito de sacrificar o menor número possível de figurões, de poupar-lhes o vexame público de desmentir o que disseram quando foram gravados em animadas conversas pelo telefone e, depois dos vazamentos, ouvidos por milhões de brasileiros no horário nobre da TV.
Aqui  também está outra mentira. De acordo com o interesse de cada meio de comunicação os vazamentos foram filtrados antes de serem mostrados aos telespectadores e leitores. Na Globo pouco se falou de Policarpo e suas mais de 200 ligações para Cachoeira. Em editorial, o jornal dos Marinho afirmou que Civita não é Murdock como “Carta Capital” publicou em notícia de capa. A revista de Mino Carta é quase que a única publicação a defender a convocação de Policarpo Júnior para depor na CPI. Comparando o dono da Editora Abril com o magnata dos tablóides ingleses, tenta mostrar que tipo de jornalismo está sendo feito entre nós.
Em outra publicação do ítalo-jornalista, a Carta Maior, está num texto sobre a última reunião da CPI, que a polêmica sobre a convocação de Policarpo Júnior para depor está aberta, “com a oposição querendo blindar a grande mídia e o governo insistindo que a CPI investigue todos os envolvidos”. A afirmação é de Najla Passos que assina a matéria.
Ainda que vejamos o relator da comissão de inquérito, que é do PT, rejeitar qualquer tentativa de convocar-se Cavendish ou quebrar o sigilo bancário e fiscal da Delta fora do centro-oeste, a jornalista afirma que o governo quer investigar todos os envolvidos. Esta talvez seja a grande novidade dessa CPI, a imprensa está mentindo mais que os políticos. Quase não há espaço para que os profissionais da farsa atuem.
Em outro episódio, quando foi feito um “puxadinho” para que os parlamentares pudessem ter acesso a documentos que estão sob segredo de justiça, Eliane Catanhede, em comentário para a Globo News, falou que estavam escondendo as informações, como se o segredo de justiça fosse determinado pela comissão, como se aquele fato fosse algo anormal numa investigação. Embora Catanhede nem de longe possa ser levada a sério como jornalista, me recuso a crer que ela possa ser tão burra. O segredo de justiça é instrumento legal que existe em qualquer lugar onde vigore o estado de direito. Sua finalidade não é esconder os fatos da população, mas evitar que as investigações sejam prejudicadas. Claro que todos aqueles que cometem crimes de colarinho branco, usam desse e outros artifícios para esconderem-se do julgamento público. A cheirosa jornalista não desconhece os ritos processuais, está apenas a serviço dos interesses da grande imprensa para quem presta serviço.
As "famiglias" da informação tratam de blindar Policarpo Júnior falando em cerceamento à liberdade de imprensa, enquanto quem o acusa e quer vê-lo depondo, é Fernando Collor de Merda, o filho de Geppeto. O engraçado é que “Carta maior” comentando as intervenções de Collor na CPI e sua tentativa de aprovar um requerimento para que Policarpo deponha, cita-o como se tratasse de alguém que preste. Sem aspas nem restrições. Mas tem pior.
Na última sexta-feira um cinegrafista do SBT virou sua lente para o celular do Deputado Vaccarezza  do PT que trocava mensagens de texto com o governador Sérgio Cabral Filho, amigo íntimo de Cavendish. No texto, diz Vaccarezza:_ “A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu (sic). Flagrado, Vaccarezza não desmentiu, disse apenas que era uma troca de mensagens entre amigos. Nem precisava dizer. A assessoria do Governador não havia comentado o episódio até o momento em que escrevo. Melhor assim, pois vindo do Palácio Guanabara, qualquer comentário serviria apenas para aumentar o rol das mentiras. É de praxe. Por sua vez, Vaccarezza soltou nota negando que haja blindagem de quem quer que seja e que Cabral está acima de qualquer suspeita pois não foi citado nas conversas de Cachoeira.
Dessa vez “Carta maior” preferiu a omissão e em sua página o assunto não existe. Nem a filmagem do SBT nem a nota do Deputado O sítio informativo assim entra de vez no clima da CPI para a qual não existem as imagens de Sérgio Cabral Filho em Paris ao lado de Cavendish comemorando o aniversário da mulher, não existem os contratos milionários do Governo do Estado do Rio com a Delta, não existem as gravações dos telefonemas de Cachoeira para Perillo e deste para o contraventor, não existem as mais de 200 citações do nome do Governador de Goiás nas conversas mantidas entre Carlinhos Cachoeira e seus asseclas, não existe nada suspeito nos contratos das empresas de Cachoeira com o Governo do Distrito Federal. Como nada disso existe, a convocação dos governadores para depor não se faz necessária. Segundo informa “Carta maior”, a convocação foi “sobrestada” e será tema para a próxima reunião administrativa. O eufemismo chega a ser cômico.
A diferença entre a imprensa de direita e a outra, que se diz de esquerda, é que a primeira sacrifica logo alguns bois pras piranhas para evitar perdas maiores entre seus sócios, enquanto “Carta maior” e outros sítios informativos alinhados com o governo tentam salvar as aparências e não dizem claramente que políticos de todos os partidões comeram na mão de Cachoeira.
É quase certo que uma investigação que tivesse como alvo a Delta e não só o contraventor goiano, acabaria chegando em algum ministério, e não só dos que foram loteados, mas, possivelmente, alguma pasta administrada pelo PT. É o que espera a imprensa golpista e a oposição sem discurso. Mas se aquela ainda nutre esperança de fazer o enorme escândalo roçar a figura da Presidenta Dilma, a oposição de direita já se divide de acordo com interesses inconfessáveis. Na última quinta-feira, isso ficou claro quando os deputados Francisquini e Carlos Sampaio apoiaram as decisões do presidente da CPI, Senador Vital do Rego, que insiste em não quebrar o sigilo fiscal da Delta em todo país e deixar para depois uma possível convocação de governadores, os senadores Álvaro Dias e Cássio Cunha Lima votaram contra. A discórdia entre os tucanos surpreendeu até gente da base aliada.
A divisão da oposição não tem como base nenhuma questão ética. Trata-se apenas de senso de oportunidade; uns achando que é melhor ir devagar e com cautela enquanto outros ainda tentem se cacifar melhor para o acordão que, pelo andar da carruagem, parece inevitável.