sábado, 2 de novembro de 2013

Eu não leio



Se começa com ”aí galera”, eu não leio. Se vem misturado com inglês, também não.  Tampouco linguagem cifrada. Se tem gíria paulista, eu fecho a cara, mas vá lá, leio. Frases sibilinas, eu evito. Se citar o Renato Russo, pego nojo e não leio. Se disser que o segredo de alguma coisa é outra coisa, eu apago sem ler. Falou em milagres, só leio pra saber onde está a fraude. Papo de gente revoltada com o preço do novo joguinho eletrônico, rio e não leio. Se estiver escrito AKI, VC, TB e RS, me dá preguiça de decifrar e não leio. Se escrever para falar mal do samba, não vou ler. Se vier acompanhado da foto do Pe. Marcelo Rossi, não leio. Se tiver florezinhas adornando as frases, não adianta, não leio. Ensinamentos de gurus orientais, não dou bola e não leio. Citações bíblicas, não leio. Se uma explicação vier antecedida por “tipo assim”, não leio. Em caixa alta, nem pensar, não leio. Mensagens edificantes e exemplos de superação, não leio. Frases do Paulo Coelho? É ruim, heim, não leio. Palpite sobre alimentação saudável, não leio. Papo antitabagista, acho chato sem ler. Piadas achincalhando pobres, não leio. Comentário sobre os personagens da novela que nem vejo, não leio. A lista dos melhores do ano, não leio. Páginas de torcedores de qualquer time, não leio. Corrente? Nem leio nem dou seqüencia. Um bom artigo da revista Veja, se existisse e fosse de graça, eu não leria. Fofoca de quem comeu quem, não leio. Papo nerd, não leio. Papo furado, talvez eu dê uma olhada. Papo cabeça, tem hora. O mais recente estudo sobre qualquer coisa, não me interessa, não leio. Declaração da Marina Silva, leio, pra não ter de ouvi-la. Anúncio da morte do Silvio Santos, não leio. Anúncio da morte do Bolsonaro, estou esperando pra ler, mas nunca vem. Coluna do Merval Pereira, não leio. Humor gospel? Tem dó, não leio. Receita de felicidade, não leio. De feijão tropeiro sim, leio. Conselhos, não leio. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Jornalismo final de comédia


Você, é claro, viu no youtube o vídeo no qual o repórter da TV Azteca, do México, pergunta ao diretor do filme “Gravidade” quais foram as dificuldades técnicas e humanas de se filmar no espaço. O vídeo, que se tornou viral, fez com que o jornalista fosse motivo de chacota em todo o mundo.
Não faço idéia se no México, para exercer a profissão de jornalista é necessário ter o curso superior em comunicação como era no Brasil até bem pouco tempo.
Aqui, tal exigência foi abolida pelo Supremo, gerando uma onda de indignação por parte de jornalistas como o veterano Alberto Dines que, apesar de não ser formado, é um dos mais acerbos críticos da decisão do STF. Creio que parte da indignação veio em conseqüência do voto do relator, Ministro Gilmar Mendes, que redigiu uma peça horrorosa, com citações e comparações esdrúxulas. Mas o fato é que quase todos os jornalistas que hoje exercem a profissão no Brasil são formados. Exceção feita aos mais veteranos que começaram na carreira antes de vigorar a exigência do diploma, no final dos anos 60.
Sou daqueles que não vêem a necessidade da formação acadêmica para o exercício da nobre profissão. Se não fosse a convicção que carrego há anos, os fatos me teriam convencido.
A espessa estupidez do repórter mexicano não é algo alheio a nós brasileiros que acompanhamos o jornalismo praticado em nossas TVs. Aqui também, o despreparo, a falta de   cultura geral, a subserviência e a burrice pura e simples fazem parte do cotidiano dos programas informativos.
Ter Leilane Neubarth, Raquel Sherazade ou Eduardo Grillo ancorando noticiários é o cúmulo do desrespeito ao telespectador. Sem falar nos comentários “especializados” de Carlos Alberto Sardenberg, Alexandre Garcia e Merval Pereira, entre outros. Mas tem pior.
Talvez, pelo próprio despreparo dessa gente, só lhes seja possível fazer o que fazem, ou seja, servir de voz aos interesses mais subalternos, aos jogos políticos mais oportunistas, à desinformação programada. São bonecos de ventríloquo que crêem ter opinião.
Nas manifestações que têm ocorrido em todo o país, esses jornalistas de comédia pastelão andam perdidos. Tão perdidos quanto seus patrões que já não sabem o que fazer para transformar a ira dos jovens mascarados em algo útil para seu propósito de desestabilizar o governo.
Uma mostra disso foi a participação do dublê de cineasta e palpiteiro, Arnaldo Jabor. Em quarenta e oito horas este senhor teve de mudar de opinião radicalmente. Num dia os jovens que lutavam nas ruas contra o aumento das passagens de ônibus eram escrachados e tratados como filhinhos de papai por Jabor. Não sei de onde ele tirou a idéia que os mascarados e outros manifestantes eram representantes da velha esquerda dos anos 50.
Dois dias depois, tendo seus patrões intuído que as manifestações poderiam ser dirigidas contra o governo do PT, Jabor passou a tratar esses mesmos jovens como agentes da transformação, da indignação, quase revolucionários. Disse que os pentelhos da véspera, e no momento seguinte heróis do inconformismo, estavam dando uma lição de cidadania.

Não passaram mais que alguns dias para que os patrões do ex-cineasta se tocassem que aqueles mascarados não eram domesticáveis e a verborragia apocalíptica de Jabor não estava ajudando. Mudou-se a estratégia e hoje o que é usado é o escasso vocabulário de Neubarth e Cia: vândalos, baderneiros, mascarados. Mil vezes ao dia escutamos: vândalos, baderneiros, mascarados. E um apelo à restauração da ordem.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Um palpite e algumas constatações


É só um palpite, mas creio que o Supremo vá liberar as biografias não autorizadas. Acho que a  corte acatará a ADI impetrada pelos editores.
O resultado prático da decisão judicial favorável à liberdade de expressão será uma grande quantidade de biografias saídas das penas de Rui Castro, Sérgio Cabral (pai), Fernando Morais e outros craques. Muitas personalidades da história do país terão suas vidas contadas, suas aventuras e desventuras narradas por essa gente que já tem um acervo de títulos memoráveis.
Certamente que a novidade de qualquer um poder escrever sobre a vida de pessoas famosas sem temer demandas judiciais que venham a impedir a comercialização do livro, atrairá outro tipo de biógrafo. Eu não estranharia encontrar em breve nas livrarias a biografia não autorizada de Valeska Popozuda escrita por Nelson Rubens ou a saga de Suzana Vieira assinada por Leão Lobo.
Muitos irão se adiantar e contratarão suas próprias biografias não autorizadas. Em vez de escritores fantasmas, biografados fantasmas. O escândalo sob encomenda pode vir a ser uma nova moda editorial.
Mas por que estou antevendo tantos atos vis antes mesmo que o caso seja julgado? Ora, porque os argumentos que são usados para desqualificar os que advogam pelo direito à privacidade são dessa índole, e me fazem pensar em interesses idem.
Hoje li na coluna de Anselmo Gois, n’O Globo, a seguinte notinha assinada por Jorge Antônio Barros: “Circula pelo território livre da internet um vídeo no qual Roberto Carlos saúda o presidente do Chile, general Augusto Pinochet, em 1975, dois anos depois do golpe militar.” Abaixo vem a ligação para o youtube com o vídeo do festival de Viña Del Mar onde ocorreu a saudação do Rei ao carniceiro chileno.
Roberto Carlos é um dos que querem ver seu direito à privacidade prevalecendo sobre a liberdade de expressão, e a retirada de sua biografia das livrarias por ordem judicial, foi, em última instância, o que detonou o protesto de biógrafos e editores que entraram com uma ADI junto ao Supremo.
Agora a imprensa lembra daquele fato ocorrido em Viña Del Mar. 38 anos depois lembram daquilo. Justo a imprensa brasileira que nunca criticou Bono Vox por suas sorridentes fotos ao lado de Putin quando o presidente russo massacrava os chechenos. Logo a imprensa brasileira que faz cutchi-cutchi para o herdeiro do império britânico. A grande (?) imprensa brasileira que acha que é uma honra ser recebido por Obama enquanto o havaiano prossegue com a matança no Iraque e mantém aberto o campo de concentração de Guantánamo. A mesma imprensa que criticou a política externa do Brasil por sua atuação legalista no golpe de Honduras. A sereníssima imprensa dos Marinho, Frias, Mesquitas e afins que apoiou a ditadura brasileira. A imprensa monopolista brasileira que, em editoriais e reportagens, sustentou a legalidade do golpe no Paraguai e a tentativa de deposição de Hugo Chaves.
Roberto Carlos nunca fez o gênero politizado, ao contrário de Bono Vox e outros que tais. Roberto saudou o açougueiro chileno, eu diria, ingenuamente e não como fazia a imprensa brasileira naquele tempo, com a euforia de um Plínio Correia, fundador e líder da TFP (Tradição, Família e Propriedade) em sua coluna na Folha de São Paulo.

O debate em torno da questão das biografias poderia ser rico. O lado que defende a liberdade de expressão dos biógrafos pode estribar-se em doutrinas, pode argumentar tendo por base o direito comparado, a declaração universal dos direitos do homem, o bom senso, o escambau. Não precisa de advogados de porta de cadeia que usem de expedientes tão mesquinhos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Política de extermínio


É uma política de segurança pública muito simples: baseia-se na intimidação, no terror e no extermínio. No Rio optou-se pela ocupação de comunidades como se fossem território inimigo. Para lugares densamente povoados foram mandados tanques de guerra e efetivos das forças armadas. Para desalojar traficantes, dizia a propaganda. Para subjugar o gueto, diz a realidade das balas “perdidas”, dos meninos que tombam tachados de marginais, de perigosos marginais.
Já nas primeiras ocupações, policiais invadiam toda e qualquer moradia para intimidar moradores e até mesmo furtar-lhes pertences. Invadiam, já não por sua conta, como de costume, mas com o aval do poder público. Sob aplausos de incautos e cínicos.
Instaurou-se o terror e o caos aos quais deu-se o nome de Unidade de Polícia Pacificadora. Nas reportagens das TVs que propagandeavam a ocupação, vimos risonhos policiais afagando criancinhas e levantando o polegar para os moradores que passavam. Mesmo tosca, mesmo copiada das campanhas políticas, a propaganda do estado funcionou. Muita gente acreditou que algo estava sendo feito em favor das populações dos morros e favelas, inclusive a Presidenta Dilma, que em visita à capital fluminense, elogiou o programa de polícias pacificadoras e disse que serviam de exemplo para outros estados.
 A peça publicitária do governo de Cabral dizia que enfim o estado estava chegando às comunidades carentes com os serviços que sempre foram negados. Mas as valas negras continuam lá. Não foram instaladas creches nem postos de saúde. Nenhuma escola subiu o morro. Sequer o lixo é coletado. O que houve foi ocupação militar e seus previsíveis desdobramentos.
A morte de Amarildo desnudou a farsa. Mostrou que nada se modificara na relação da polícia com as populações mais pobres. Também haja ingenuidade para crer que depois de um cursinho de três semanas, dado a policiais formados na brutalidade e na corrupção, se romperia com práticas de 400 anos.
Depois do crime, quase todos os comandos das “pacificadoras” foram trocados. Monta-se uma nova farsa. É como se a morte de Amarildo fosse um problema de comportamento de indivíduos e não de uma ação deliberada do estado.
O total desrespeito aos direitos básicos do ser humano foi a norma desde sempre quando de pobres se trata. Nas favelas e periferias imperam leis de exceção: toque de recolher, cerceamento do direito de ir e vir, e outras. Entre as outras, que sequer estão previstas como medidas excepcionais, estão a tortura, o esculacho, a desumanização.
Em São Paulo, a morte do menino Douglas pelas mãos de um facínora fardado, cumprindo as ordens explícitas ou não do poder público, deixou claro que também naquele estado da federação não há titubeios na hora de apertar o gatilho para matar pobres.
As mortes de Amarildo e Douglas ( pardos, pobres) dão bem a dimensão da nova velha política de segurança pública posta em prática nas duas maiores cidades do país. Não há coincidência, não há desvio de conduta de indivíduos, não há mal entendido. Há sim uma política de extermínio. Que obviamente fracassará.



terça-feira, 29 de outubro de 2013

Cartas dos leitores


O vício é antigo. Muito antes de existir internet, quando a TV, os jornais e o rádio ainda eram em preto e branco, eu já lia a seção de cartas dos leitores.
Sempre me intrigou que alguém escrevesse cartas para os jornais. Havia que escrevê-la, ir até o correio, pagar o selo e metê-la na ranhura da caixa coletora para, talvez, vê-la publicada dias depois com os devidos cortes e correções ortográficas feitos pelo senhor editor.
Pelo geral, eram cartas cobrando medidas das autoridades ou criticando alguma matéria do próprio jornal. Mas também as havia enaltecendo o papel dos militares no comando do país. Outras faziam furibundas defesas da família e dos bons costumes que se julgava corrompidos.
As opiniões, quase sempre conservadoras, ou mesmo reacionárias, desses missivistas me pareciam ser coisa daqueles tempos bicudos.  Não eram tempos de contestações por escrito com nome e endereço.  Ninguém iria facilitar o trabalho da repressão que via em qualquer manifestação de opinião independente uma ameaça ao estado, à família e à propriedade. Escrevia e assinava quem estava a favor, ou pior, quem estava mais a favor que os favorecidos.
Depois larguei mão. Passei anos sem ler jornais só voltando a eles depois que ficaram gratuitos na rede de computadores. E, claro, voltei a ler os leitores que, indignados ou simplesmente chatos, escrevem. Acho que só para dar sopinha para meu masoquismo. Pois acontece que sofro. Cada vez que leio as manifestações desses leitores, sofro. Sofro e continuo lendo. Leio e continuo sofrendo. Freud explica.
Não há matéria que não mereça os comentários mais absurdos, mais caretas, mais reacionários desses decifradores do mundo. Sem o problema da exigüidade de espaço que havia nos jornais de papel, as manifestações são inúmeras e prolixas. Do biquíni da Beth Faria aos protestos dos meninos mascarados; da espionagem americana à liberação da maconha, nossa sociedade, tão bem representada pelos escritores de cartas para jornais, continua dando mostras de cretinice sem limites nos comentários que faz.
Se tempos atrás, associávamos os comentários mais conservadores e rançosos a velhos milicos de pijama e senhoras mal amadas, hoje, é entre a juventude que encontramos seus autores. Meninos e meninas expõem sua total falta de sensibilidade e bom senso comentando sobre tudo e sobre tudo deixando a marca do preconceito, da idéia fixa, do reacionarismo. Xenofilia, racismo, homofobia e misoginia fazem parte do seu cotidiano de escribas.

E o pior, numa linguagem e escrita que precisam ser decifradas. Não falta nem o "com cordo" nem o "consertesa". 

sábado, 26 de outubro de 2013

Reforma agrária


Estamos no final de outubro. Pouco mais de dois meses nos separam do próximo ano e só agora a Presidenta Dilma assinou o primeiro ato de desapropriação de terras para fins de reforma agrária, do ano.
Não que a presidenta não se dê conta da importância da redistribuição de terras para redistribuir renda e fazer-se justiça aos milhões de trabalhadores rurais sem terra. Não é isso. Não falta à nossa presidenta nem sensibilidade social nem conhecimento dos problemas do país, mas Dilma Roussef é herdeira das alianças espúrias feitas por seu partido com o que há de mais abjeto na política nacional.
Essas alianças vêm desde o governo Lula e ganharam espaço dentro do governo Dilma. Afinal, com a defecção de muitos aliados de primeira hora como o PSB de Eduardo Campos e a ala verde encabeçada por Marina Silva, que partem em busca de carreira solo, os articuladores políticos do governo e do PT, para ganhar eleições e garantir a tal governabilidade, fazem qualquer negócio.  
Entre essas alianças a mais nociva aos interesses do país é a que o PT perpetrou com o latifúndio. Essa aliança, que a cada dia é mais explícita, começa a desestabilizar as relações do governo com o MST, até aqui pacífica e de confiança. Prova disso foram as mobilizações que o movimento comandou nos últimos dias em que vários órgãos governamentais foram tomados por seus militantes.
 Um exemplo dessa aliança perversa com o latifúndio? O novo código florestal. Outro? A impunidade reinante para os crimes contra lideranças indígenas e camponesas.
Posição tão cômoda levou os representantes do agronegócio (ou agrobusines, como gostam de falar nossos caipiras milionários) para a ofensiva. Já não lhes basta paralisar a tímida reforma agrária que aqui é feita somente sobre terras improdutivas. Agora partem em busca de reservas indígenas e ambientais.
A senadora Kátia Abreu, Presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura) e sua voz no parlamento, deu de escrever disparates nos jornais. Em sua coluna na Folha de São Paulo faz afirmações esdrúxulas, tece teses antropológicas estapafúrdias, cita estudos encomendados, ameaça. E das ameaças parte-se para os fatos.
Não faz muito tempo vimos a senadora do Tocantins descendo a rampa do Palácio do  Planalto de braços com nossa presidenta. Falou-se que era cotada para ocupar uma pasta em algum ministério, o que afinal não se confirmou. Mas a especulação certamente tinha algum fundamento. Creio que tal fato não ocorreu devido às perdas eleitorais que adviriam para ambos os lados caso se concretizasse o absurdo.
Em 2011, Kátia Abreu deixou o DEM para ingressar no PSD. O partido de Kassab seria uma ponte de aproximação com o governo, mas após a breve estadia na legenda que não é de direita nem de esquerda nem situação nem oposição nem porra nenhuma, a musa ruralista ingressou no último dia 3 de outubro, no PMDB, partido da base governista. Vai disputar por essa sigla a reeleição para o senado. Acho que não poderia haver pior notícia para aqueles que vêem na reforma agrária um meio de fazer justiça nesse país.
Com tudo isso, pode-se dizer que 2013 foi um ano perdido na resolução do problema que vem se arrastando desde o século 16: dar terra para quem nela trabalha.



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Bolsa família


Imagine uma pessoa muito pobre. Imagine que essa pessoa só possa comer arroz, feijão e farinha e ainda assim falta-lhe um dia o feijão no outro o arroz e no outro a farinha.
Imagine que essa pessoa um dia comece a receber um dinheirinho extra, pouco dinheiro, muito pouco, mas esse pouco dinheiro permite que ela compre um pacote de bolachas por semana, para fazer um agrado pros filhos. Não uma bolacha cara, das de marca famosa. Uma bolacha barata. Então essa pessoa começa a comprar 4 pacotes de bolachas por mês.
Essa pessoa não é a única pessoa pobre que começou a receber esse dinheirinho extra, digamos que sejam 10 milhões delas e a todas lhe ocorra comprar o mesmo pacote de bolacha barata por semana. Aí teremos 40 milhões de pacotes de bolacha sendo vendidos por mês apenas para essas pessoas que antes nem pensavam em comprá-los.
Mas há tantas bolachas sobrando no mercado para vender para essas pessoas que nunca tinham comprado bolachas antes? Claro que não, é necessário fabricá-las, embalá-las, transportá-las. Sim, mas as fábricas podem aumentar tanto assim sua produção de bolachas de uma hora para outra? Olha que são 40 milhões de pacotes de bolachas! Realmente não podem. As fábricas terão que adquirir novas máquinas que fazem bolachas, contratar mais gente para fazer bolachas, e comprar veículos para entregar bolachas.
 Os fabricantes de embalagens de bolachas terão de fazer o mesmo. Comprar mais máquinas de fabricar embalagem de bolachas, contratar mais gente para fazer embalagens de bolachas e comprar veículos para entregar as embalagens de bolachas.
Claro, os fabricantes de máquinas de fazer bolachas e embalagens de bolacha também terão de correr atrás: comprar maquinaria, contratar pessoal e comprar veículos.
Muitas dessas pessoas que nunca tinham comprado um pacote de bolachas, possivelmente serão empregadas pelos fabricantes de bolachas, pelos fabricantes de embalagens de bolachas, pelos fabricantes de máquinas de fazer bolachas e embalagens de bolachas e também pelas montadoras de veículos e já não precisarão receber aquele pouco, pouquíssimo dinheiro extra que recebiam antes.
Mas aqui entramos em mais um dilema. Essas pessoas que nunca comiam bolachas e começaram a receber um dinheirinho extra, agora que têm emprego nas fábricas de bolachas, na fábrica de máquinas de fazer bolachas ou na fábrica de embalagens de bolachas, começaram a comprar também a margarina para barrar as bolachas. Acontece que não há tanta margarina sobrando no mercado e os fabricantes de margarina terão de comprar novas máquinas de fabricar margarina e contratar mais gente para operar as máquinas. E também comprar mais embalagens para envasar a margarina. Ah! Eles também precisam de mais veículos para as entregas.
Aqui não falei da dona da venda que vende bolachas e margarina nem da comprinha extra que ela agora pode fazer. É um corte de tecido, um sapato novo pro filho ou, quem sabe, uma geladeira nova no crediário.
Como há muitas vendinhas nesses interiores e nessas periferias, as donas de vendinhas são muitas e todas elas andam fazendo umas comprinhas extras. É um corte de tecido, um sapato novo pro filho e, quem sabe, uma ida ao salão de beleza uma vez ou outra. Mas como é tarde, da dona do salão de beleza, do dono da concessionária de veículos e do dono da sapataria eu falo depois.

Isso não é nenhuma estória de ficção, isto está acontecendo no Brasil e tem nome. O nome disso é economia, mas pode chamar de Bolsa Família.