Se começa com
”aí galera”, eu não leio. Se vem misturado com inglês, também não. Tampouco linguagem cifrada. Se tem gíria
paulista, eu fecho a cara, mas vá lá, leio. Frases sibilinas, eu evito. Se citar
o Renato Russo, pego nojo e não leio. Se disser que o segredo de alguma coisa é
outra coisa, eu apago sem ler. Falou em milagres, só leio pra saber onde está a
fraude. Papo de gente revoltada com o preço do novo joguinho eletrônico, rio e
não leio. Se estiver escrito AKI, VC, TB e RS, me dá preguiça de decifrar e não
leio. Se escrever para falar mal do samba, não vou ler. Se vier acompanhado da
foto do Pe. Marcelo Rossi, não leio. Se tiver florezinhas adornando as frases,
não adianta, não leio. Ensinamentos de gurus orientais, não dou bola e não
leio. Citações bíblicas, não leio. Se uma explicação vier antecedida por “tipo
assim”, não leio. Em caixa alta, nem pensar, não leio. Mensagens edificantes e
exemplos de superação, não leio. Frases do Paulo Coelho? É ruim, heim, não leio.
Palpite sobre alimentação saudável, não leio. Papo antitabagista, acho chato
sem ler. Piadas achincalhando pobres, não leio. Comentário sobre os personagens
da novela que nem vejo, não leio. A lista dos melhores do ano, não leio. Páginas
de torcedores de qualquer time, não leio. Corrente? Nem leio nem dou seqüencia.
Um bom artigo da revista Veja, se existisse e fosse de graça, eu não leria. Fofoca
de quem comeu quem, não leio. Papo nerd, não leio. Papo furado, talvez eu dê
uma olhada. Papo cabeça, tem hora. O mais recente estudo sobre qualquer coisa,
não me interessa, não leio. Declaração da Marina Silva, leio, pra não ter de
ouvi-la. Anúncio da morte do Silvio Santos, não leio. Anúncio da morte do
Bolsonaro, estou esperando pra ler, mas nunca vem. Coluna do Merval Pereira,
não leio. Humor gospel? Tem dó, não leio. Receita de felicidade, não leio. De feijão
tropeiro sim, leio. Conselhos, não leio.
sábado, 2 de novembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Jornalismo final de comédia
Você, é claro,
viu no youtube o vídeo no qual o repórter da TV Azteca, do México, pergunta ao
diretor do filme “Gravidade” quais foram as dificuldades técnicas e humanas de
se filmar no espaço. O vídeo, que se tornou viral, fez com que o jornalista
fosse motivo de chacota em todo o mundo.
Não faço idéia
se no México, para exercer a profissão de jornalista é necessário ter o curso
superior em comunicação como era no Brasil até bem pouco tempo.
Aqui, tal
exigência foi abolida pelo Supremo, gerando uma onda de indignação por parte de
jornalistas como o veterano Alberto Dines que, apesar de não ser formado, é um
dos mais acerbos críticos da decisão do STF. Creio que parte da indignação veio
em conseqüência do voto do relator, Ministro Gilmar Mendes, que redigiu uma
peça horrorosa, com citações e comparações esdrúxulas. Mas o fato é que quase
todos os jornalistas que hoje exercem a profissão no Brasil são formados.
Exceção feita aos mais veteranos que começaram na carreira antes de vigorar a
exigência do diploma, no final dos anos 60.
Sou daqueles que
não vêem a necessidade da formação acadêmica para o exercício da nobre profissão.
Se não fosse a convicção que carrego há anos, os fatos me teriam convencido.
A
espessa estupidez do repórter mexicano não é algo alheio a nós brasileiros que
acompanhamos o jornalismo praticado em nossas TVs. Aqui também, o despreparo, a
falta de cultura geral, a subserviência e a burrice
pura e simples fazem parte do cotidiano dos programas informativos.
Ter Leilane
Neubarth, Raquel Sherazade ou Eduardo Grillo ancorando noticiários é o cúmulo
do desrespeito ao telespectador. Sem falar nos comentários “especializados” de Carlos
Alberto Sardenberg, Alexandre Garcia e Merval Pereira, entre outros. Mas tem
pior.
Talvez, pelo
próprio despreparo dessa gente, só lhes seja possível fazer o que fazem, ou
seja, servir de voz aos interesses mais subalternos, aos jogos políticos mais
oportunistas, à desinformação programada. São bonecos de ventríloquo que crêem ter
opinião.
Nas manifestações
que têm ocorrido em todo o país, esses jornalistas de comédia pastelão andam
perdidos. Tão perdidos quanto seus patrões que já não sabem o que fazer para
transformar a ira dos jovens mascarados em algo útil para seu propósito de
desestabilizar o governo.
Uma mostra disso
foi a participação do dublê de cineasta e palpiteiro, Arnaldo Jabor. Em
quarenta e oito horas este senhor teve de mudar de opinião radicalmente. Num
dia os jovens que lutavam nas ruas contra o aumento das passagens de ônibus
eram escrachados e tratados como filhinhos de papai por Jabor. Não sei de onde
ele tirou a idéia que os mascarados e outros manifestantes eram representantes
da velha esquerda dos anos 50.
Dois dias
depois, tendo seus patrões intuído que as manifestações poderiam ser dirigidas
contra o governo do PT, Jabor passou a tratar esses mesmos jovens como agentes
da transformação, da indignação, quase revolucionários. Disse que os pentelhos
da véspera, e no momento seguinte heróis do inconformismo, estavam dando uma
lição de cidadania.
Não passaram
mais que alguns dias para que os patrões do ex-cineasta se tocassem que aqueles
mascarados não eram domesticáveis e a verborragia apocalíptica de Jabor não
estava ajudando. Mudou-se a estratégia e hoje o que é usado é o escasso
vocabulário de Neubarth e Cia: vândalos, baderneiros, mascarados. Mil vezes ao
dia escutamos: vândalos, baderneiros, mascarados. E um apelo à restauração da
ordem.
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Um palpite e algumas constatações
É só um palpite,
mas creio que o Supremo vá liberar as biografias não autorizadas. Acho que a corte acatará a ADI impetrada pelos editores.
O resultado prático
da decisão judicial favorável à liberdade de expressão será uma grande quantidade
de biografias saídas das penas de Rui Castro, Sérgio Cabral (pai), Fernando Morais
e outros craques. Muitas personalidades da história do país terão suas vidas
contadas, suas aventuras e desventuras narradas por essa gente que já tem um
acervo de títulos memoráveis.
Certamente que a
novidade de qualquer um poder escrever sobre a vida de pessoas famosas sem
temer demandas judiciais que venham a impedir a comercialização do livro,
atrairá outro tipo de biógrafo. Eu não estranharia encontrar em breve nas
livrarias a biografia não autorizada de Valeska Popozuda escrita por Nelson
Rubens ou a saga de Suzana Vieira assinada por Leão Lobo.
Muitos irão se
adiantar e contratarão suas próprias biografias não autorizadas. Em vez de
escritores fantasmas, biografados fantasmas. O escândalo sob encomenda pode vir
a ser uma nova moda editorial.
Mas por que
estou antevendo tantos atos vis antes mesmo que o caso seja julgado? Ora, porque
os argumentos que são usados para desqualificar os que advogam pelo direito à
privacidade são dessa índole, e me fazem pensar em interesses idem.
Hoje li na
coluna de Anselmo Gois, n’O Globo, a seguinte notinha assinada por Jorge Antônio
Barros: “Circula pelo território livre da internet um
vídeo no qual Roberto Carlos saúda o presidente do Chile, general Augusto
Pinochet, em 1975, dois anos depois do golpe militar.” Abaixo vem
a ligação para o youtube com o vídeo do festival de Viña Del Mar onde ocorreu a
saudação do Rei ao carniceiro chileno.
Roberto Carlos é
um dos que querem ver seu direito à privacidade prevalecendo sobre a liberdade
de expressão, e a retirada de sua biografia das livrarias por ordem judicial,
foi, em última instância, o que detonou o protesto de biógrafos e editores que
entraram com uma ADI junto ao Supremo.
Agora a imprensa
lembra daquele fato ocorrido em Viña Del Mar. 38 anos depois lembram daquilo. Justo
a imprensa brasileira que nunca criticou Bono Vox por suas sorridentes fotos ao
lado de Putin quando o presidente russo massacrava os chechenos.
Logo a imprensa brasileira que faz cutchi-cutchi para o herdeiro do império
britânico. A grande (?) imprensa brasileira que acha que é uma honra ser
recebido por Obama enquanto o havaiano prossegue com a matança no Iraque e
mantém aberto o campo de concentração de Guantánamo. A mesma imprensa que criticou
a política externa do Brasil por sua atuação legalista no golpe de Honduras. A
sereníssima imprensa dos Marinho, Frias, Mesquitas e afins que apoiou a ditadura brasileira. A imprensa monopolista brasileira que, em editoriais
e reportagens, sustentou a legalidade do golpe no Paraguai e a tentativa de
deposição de Hugo Chaves.
Roberto Carlos nunca
fez o gênero politizado, ao contrário de Bono Vox e outros que tais. Roberto
saudou o açougueiro chileno, eu diria, ingenuamente e não como fazia a imprensa
brasileira naquele tempo, com a euforia de um Plínio Correia, fundador e líder
da TFP (Tradição, Família e Propriedade) em sua coluna na Folha de São Paulo.
O debate em
torno da questão das biografias poderia ser rico. O lado que defende a
liberdade de expressão dos biógrafos pode estribar-se em doutrinas, pode
argumentar tendo por base o direito comparado, a declaração universal dos
direitos do homem, o bom senso, o escambau. Não precisa de advogados de porta
de cadeia que usem de expedientes tão mesquinhos.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Política de extermínio
É uma política
de segurança pública muito simples: baseia-se na intimidação, no terror e no extermínio.
No Rio optou-se pela ocupação de comunidades como se fossem território inimigo.
Para lugares densamente povoados foram mandados tanques de guerra e efetivos
das forças armadas. Para desalojar traficantes, dizia a propaganda. Para
subjugar o gueto, diz a realidade das balas “perdidas”, dos meninos que tombam
tachados de marginais, de perigosos marginais.
Já nas primeiras
ocupações, policiais invadiam toda e qualquer moradia para intimidar moradores
e até mesmo furtar-lhes pertences. Invadiam, já não por sua conta, como de costume,
mas com o aval do poder público. Sob aplausos de incautos e cínicos.
Instaurou-se o
terror e o caos aos quais deu-se o nome de Unidade de Polícia Pacificadora. Nas
reportagens das TVs que propagandeavam a ocupação, vimos risonhos policiais
afagando criancinhas e levantando o polegar para os moradores que passavam.
Mesmo tosca, mesmo copiada das campanhas políticas, a propaganda do estado
funcionou. Muita gente acreditou que algo estava sendo feito em favor das
populações dos morros e favelas, inclusive a Presidenta Dilma, que em visita à
capital fluminense, elogiou o programa de polícias pacificadoras e disse que
serviam de exemplo para outros estados.
A peça publicitária do governo de Cabral dizia
que enfim o estado estava chegando às comunidades carentes com os serviços que
sempre foram negados. Mas as valas negras continuam lá. Não foram instaladas
creches nem postos de saúde. Nenhuma escola subiu o morro. Sequer o lixo é
coletado. O que houve foi ocupação militar e seus previsíveis desdobramentos.
A morte de
Amarildo desnudou a farsa. Mostrou que nada se modificara na relação da polícia
com as populações mais pobres. Também haja ingenuidade para crer que depois de
um cursinho de três semanas, dado a policiais formados na brutalidade e na
corrupção, se romperia com práticas de 400 anos.
Depois do crime,
quase todos os comandos das “pacificadoras” foram trocados. Monta-se uma nova
farsa. É como se a morte de Amarildo fosse um problema de comportamento de
indivíduos e não de uma ação deliberada do estado.
O total
desrespeito aos direitos básicos do ser humano foi a norma desde sempre quando
de pobres se trata. Nas favelas e periferias imperam leis de exceção: toque de
recolher, cerceamento do direito de ir e vir, e outras. Entre as outras, que
sequer estão previstas como medidas excepcionais, estão a tortura, o esculacho,
a desumanização.
Em São Paulo, a
morte do menino Douglas pelas mãos de um facínora fardado, cumprindo as ordens
explícitas ou não do poder público, deixou claro que também naquele estado da
federação não há titubeios na hora de apertar o gatilho para matar pobres.
As mortes de
Amarildo e Douglas ( pardos, pobres) dão bem a dimensão da nova velha política
de segurança pública posta em prática nas duas maiores cidades do país. Não há
coincidência, não há desvio de conduta de indivíduos, não há mal entendido. Há
sim uma política de extermínio. Que obviamente fracassará.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Cartas dos leitores
O vício é
antigo. Muito antes de existir internet, quando a TV, os jornais e o rádio ainda
eram em preto e branco, eu já lia a seção de cartas dos leitores.
Sempre me
intrigou que alguém escrevesse cartas para os jornais. Havia que escrevê-la,
ir até o correio, pagar o selo e metê-la na ranhura da caixa coletora para,
talvez, vê-la publicada dias depois com os devidos cortes e correções ortográficas
feitos pelo senhor editor.
Pelo geral, eram
cartas cobrando medidas das autoridades ou criticando alguma matéria do próprio
jornal. Mas também as havia enaltecendo o papel dos militares no comando do
país. Outras faziam furibundas defesas da família e dos bons costumes que se
julgava corrompidos.
As opiniões,
quase sempre conservadoras, ou mesmo reacionárias, desses missivistas me
pareciam ser coisa daqueles tempos bicudos. Não eram tempos de contestações por escrito
com nome e endereço. Ninguém iria facilitar
o trabalho da repressão que via em qualquer manifestação de opinião
independente uma ameaça ao estado, à família e à propriedade. Escrevia e
assinava quem estava a favor, ou pior, quem estava mais a favor que os
favorecidos.
Depois larguei
mão. Passei anos sem ler jornais só voltando a eles depois que ficaram
gratuitos na rede de computadores. E, claro, voltei a ler os leitores que,
indignados ou simplesmente chatos, escrevem. Acho que só para dar sopinha para
meu masoquismo. Pois acontece que sofro. Cada vez que leio as manifestações
desses leitores, sofro. Sofro e continuo lendo. Leio e continuo sofrendo. Freud
explica.
Não há matéria
que não mereça os comentários mais absurdos, mais caretas, mais reacionários
desses decifradores do mundo. Sem o problema da exigüidade de espaço que havia
nos jornais de papel, as manifestações são inúmeras e prolixas. Do biquíni da
Beth Faria aos protestos dos meninos mascarados; da espionagem americana à liberação
da maconha, nossa sociedade, tão bem representada pelos escritores de cartas
para jornais, continua dando mostras de cretinice sem limites nos comentários
que faz.
Se tempos atrás,
associávamos os comentários mais conservadores e rançosos a velhos milicos de
pijama e senhoras mal amadas, hoje, é entre a juventude que encontramos seus
autores. Meninos e meninas expõem sua total falta de sensibilidade e bom senso
comentando sobre tudo e sobre tudo deixando a marca do preconceito, da idéia
fixa, do reacionarismo. Xenofilia, racismo, homofobia e misoginia fazem parte
do seu cotidiano de escribas.
E o pior, numa
linguagem e escrita que precisam ser decifradas. Não falta nem o "com cordo" nem
o "consertesa".
sábado, 26 de outubro de 2013
Reforma agrária
Estamos no final
de outubro. Pouco mais de dois meses nos separam do próximo ano e só agora a
Presidenta Dilma assinou o primeiro ato de desapropriação de terras para fins
de reforma agrária, do ano.
Não que a
presidenta não se dê conta da importância da redistribuição de terras para redistribuir
renda e fazer-se justiça aos milhões de trabalhadores rurais sem terra. Não é
isso. Não falta à nossa presidenta nem sensibilidade social nem conhecimento
dos problemas do país, mas Dilma Roussef é herdeira das alianças espúrias
feitas por seu partido com o que há de mais abjeto na política nacional.
Essas alianças
vêm desde o governo Lula e ganharam espaço dentro do governo Dilma. Afinal, com
a defecção de muitos aliados de primeira hora como o PSB de Eduardo Campos e a ala
verde encabeçada por Marina Silva, que partem em busca de carreira solo, os
articuladores políticos do governo e do PT, para ganhar eleições e garantir a tal
governabilidade, fazem qualquer negócio.
Entre essas
alianças a mais nociva aos interesses do país é a que o PT perpetrou com o
latifúndio. Essa aliança, que a cada dia é mais explícita, começa a
desestabilizar as relações do governo com o MST, até aqui pacífica e de
confiança. Prova disso foram as mobilizações que o movimento comandou nos
últimos dias em que vários órgãos governamentais foram tomados por seus
militantes.
Um exemplo dessa aliança perversa com o
latifúndio? O novo código florestal. Outro? A impunidade reinante para os
crimes contra lideranças indígenas e camponesas.
Posição tão
cômoda levou os representantes do agronegócio (ou agrobusines, como gostam de
falar nossos caipiras milionários) para a ofensiva. Já não lhes basta paralisar
a tímida reforma agrária que aqui é feita somente sobre terras improdutivas. Agora
partem em busca de reservas indígenas e ambientais.
A senadora Kátia
Abreu, Presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura) e sua voz no
parlamento, deu de escrever disparates nos jornais. Em sua coluna na Folha de São
Paulo faz afirmações esdrúxulas, tece teses antropológicas estapafúrdias, cita
estudos encomendados, ameaça. E das ameaças parte-se para os fatos.
Não faz muito
tempo vimos a senadora do Tocantins descendo a rampa do Palácio do Planalto de braços com nossa presidenta.
Falou-se que era cotada para ocupar uma pasta em algum ministério, o que afinal
não se confirmou. Mas a especulação certamente tinha algum fundamento. Creio
que tal fato não ocorreu devido às perdas eleitorais que adviriam para ambos os
lados caso se concretizasse o absurdo.
Em 2011, Kátia
Abreu deixou o DEM para ingressar no PSD. O partido de Kassab seria uma ponte
de aproximação com o governo, mas após a breve estadia na legenda que não é de
direita nem de esquerda nem situação nem oposição nem porra nenhuma, a musa ruralista
ingressou no último dia 3 de outubro, no PMDB, partido da base governista. Vai
disputar por essa sigla a reeleição para o senado. Acho que não poderia haver
pior notícia para aqueles que vêem na reforma agrária um meio de fazer justiça
nesse país.
Com tudo isso, pode-se
dizer que 2013 foi um ano perdido na resolução do problema que vem se
arrastando desde o século 16: dar terra para quem nela trabalha.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Bolsa família
Imagine uma
pessoa muito pobre. Imagine que essa pessoa só possa comer arroz, feijão e
farinha e ainda assim falta-lhe um dia o feijão no outro o arroz e no outro a
farinha.
Imagine que essa
pessoa um dia comece a receber um dinheirinho extra, pouco dinheiro, muito
pouco, mas esse pouco dinheiro permite que ela compre um pacote de bolachas por
semana, para fazer um agrado pros filhos. Não uma bolacha cara, das de marca
famosa. Uma bolacha barata. Então essa pessoa começa a comprar 4 pacotes de
bolachas por mês.
Essa pessoa não
é a única pessoa pobre que começou a receber esse dinheirinho extra, digamos
que sejam 10 milhões delas e a todas lhe ocorra comprar o mesmo pacote de
bolacha barata por semana. Aí teremos 40 milhões de pacotes de bolacha sendo
vendidos por mês apenas para essas pessoas que antes nem pensavam em
comprá-los.
Mas há tantas bolachas sobrando no mercado para vender para essas pessoas que nunca tinham
comprado bolachas antes? Claro que não, é necessário fabricá-las, embalá-las,
transportá-las. Sim, mas as fábricas podem aumentar tanto assim sua produção de
bolachas de uma hora para outra? Olha que são 40 milhões de pacotes de bolachas!
Realmente não podem. As fábricas terão que adquirir novas máquinas que fazem
bolachas, contratar mais gente para fazer bolachas, e comprar veículos para
entregar bolachas.
Os fabricantes de embalagens de bolachas terão
de fazer o mesmo. Comprar mais máquinas de fabricar embalagem de bolachas,
contratar mais gente para fazer embalagens de bolachas e comprar veículos para
entregar as embalagens de bolachas.
Claro, os
fabricantes de máquinas de fazer bolachas e embalagens de bolacha também terão de correr atrás: comprar maquinaria, contratar pessoal e comprar veículos.
Muitas dessas pessoas
que nunca tinham comprado um pacote de bolachas, possivelmente serão empregadas
pelos fabricantes de bolachas, pelos fabricantes de embalagens de bolachas,
pelos fabricantes de máquinas de fazer bolachas e embalagens de bolachas e
também pelas montadoras de veículos e já não precisarão receber aquele pouco,
pouquíssimo dinheiro extra que recebiam antes.
Mas aqui
entramos em mais um dilema. Essas pessoas que nunca comiam bolachas e começaram
a receber um dinheirinho extra, agora que têm emprego nas fábricas de bolachas,
na fábrica de máquinas de fazer bolachas ou na fábrica de embalagens de
bolachas, começaram a comprar também a margarina para barrar as bolachas.
Acontece que não há tanta margarina sobrando no mercado e os fabricantes de
margarina terão de comprar novas máquinas de fabricar margarina e contratar
mais gente para operar as máquinas. E também comprar mais embalagens para
envasar a margarina. Ah! Eles também precisam de mais veículos para as
entregas.
Aqui não falei
da dona da venda que vende bolachas e margarina nem da comprinha extra que ela
agora pode fazer. É um corte de tecido, um sapato novo pro filho ou, quem sabe,
uma geladeira nova no crediário.
Como há muitas
vendinhas nesses interiores e nessas periferias, as donas de vendinhas são
muitas e todas elas andam fazendo umas comprinhas extras. É um corte de tecido,
um sapato novo pro filho e, quem sabe, uma ida ao salão de beleza uma vez ou
outra. Mas como é tarde, da dona do salão de beleza, do dono da concessionária
de veículos e do dono da sapataria eu falo depois.
Isso não é
nenhuma estória de ficção, isto está acontecendo no Brasil e tem nome. O nome
disso é economia, mas pode chamar de Bolsa Família.
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