quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Porres







Foi em Angra dos Reis. Eu resolvera faltar ao trabalho e passear naquela sexta-feira. Busquei a cidade próxima e aprazível. Não foi, ao fim, um passeio, apenas uma bebedeira de 24 horas. Assim que não lembro de muita coisa para contar. Apenas da chegada tenho uma lembrança completa.
Desembarquei do ônibus e busquei o botequim mais próximo. Uma gelada e um torresmo. O sol entrava festivo no bar naquela meia-manhã. Apareceram um menino e uma menina, aí pela faixa dos 10 anos. Tinham os corpos e as faces coloridos pelas muitas horas que deviam passar por aí, entre a praia e as ruas da cidade. Pediram que eu lhes pagasse um torresmo. Traziam uns tomates nas mãos e os comiam com grande prazer. Fiz-lhes a vontade e eles me retribuíram com um tomate. Logo foram embora.
Fiquei encantado com as crianças, imaginei suas vidas livres pela praia onde nasceram. Deviam ter uma linda infância.
Voltei à cerveja ao torresmo e ao livro que vinha lendo pelo caminho. Quando o sol me tocou as pernas, resolvi procurar outro botequim mais protegido do calor.
Assim foi durante todo o dia, de botequim em botequim até cair como balão apagado na areia da praia. Num ato de bom senso, havia deixado minha bolsa guardada num botequim que julguei ser de confiança. Era. Difícil foi, na manhã seguinte, juntar os pensamentos e lembrar do botequim. Mas não só lembrei como consegui deixar intacto o dinheiro do ônibus de volta.
Não sei se foi nessa ida a Angra que tomei o gosto, mas se existe algo que adoro é estar num lugar que não conheço e me deixar ficar num botequim. Acho que se fosse para o Peru eu nem subiria pra Machu Pichu. Ficaria no pé do morro tomando umas e ouvindo uns farrapos de conversas dos gringos de bermudas e chapéus. Não tenho vocação para Indiana Jones, estou mais para Henry Chinaski.
Outro porre de que me lembro com saudade foi em Buenos Aires.
Naquela cidade existe uma linha de ônibus que é uma instituição, uma coisa mítica que os porteños veneram. É o 60. Na verdade, não é só uma linha, mas várias com os mais distintos percursos. Porém todos levam o número 60. Ótimo para confundir bêbados e turistas.
Um dia, voltando para casa depois de terrível carraspana, tomei o 60 errado. Por sorte nem tão errado. Era um que passava pela Avenida Libertador que fica uns oitocentos metros distantes da Avenida Maipu, esta sim, próxima de minha casa e servida  por outro 60.  Por sorte estava acordado quando percebi que o caminho seguido pelo ônibus era outro e não o que eu estava acostumado. Reconheci algum sinal de proximidade e baixei. Mas caminhar a distancia que me poria  em casa era impossível. Me deixei cair sobre um lindo e recém cortado gramado e ali dormi até que um sol de primavera me despertou antes que viesse algum impertinente porteiro ou algum cana. Logo descobri quem era e o que estava fazendo na grama alheia. Daí, caminhei até o lar, leve como um passarinho, com uma sensação boa de liberdade.
O que acho engraçado é que tem gente que se vangloria de nunca ter ficado de porre ou mesmo de nunca beber. Me parece coisa de mariquinhas. Eu acho que todo homem deve encher a cara de vez em quando. E não precisa ficar esperando amigos nem ocasiões. Um homem tem de tomar solitárias bebedeiras. Eu tomei várias.
Mas houve um porre que tomei acompanhado de uma multidão. Foi, é claro, num carnaval. Dos cinco dias que brinquei naquele ano eu só lembro de um episódio.
Eu andava pela Rio Branco contente como menino em loja de doce, parando em cada batucada, seguindo cada bloco de sujos, paquerando todas as maravilhas que passavam. Em certo momento parei numa batucada das boas. Muitos percursionistas, as vozes harmonizando tudo, cantando uns sambas de enredo de outros carnavais. Havia lindas mulheres e eu parei por ali. Fiquei brincando, cantando e paquerando as beldades, especialmente uma menina que tinha aquele olhar que só a África produz e uma brejeirice que só o Brasil sabe lapidar. Ela se aproximou e brincamos juntos. Seus quadris iam e vinham e a menina dizia no pé, exímia na dança de minha terra. A convidei para uma cerveja e nos apartamos um pouco para uns beijos. Foi aí que ela, aproximando os lábios de meu ouvido me fez o maior elogio que já recebi. Disse ela quase cantando:_ Você merecia ser crioulo.




sábado, 25 de agosto de 2012

Sua Excelência, o réu.







Imagine que você tenha um diploma universitário nas mãos. Um diploma de bacharel em direito, por exemplo. Imagine então que você também tenha sido aprovado nos exames da OAB. Você é um advogado.
No entanto, suas tentativas de alçar vôo na carreira, tornando-se juiz, redundaram em fracasso. Digamos, um duplo fracasso. Mas você não se deixou abater e através de bons contatos conseguiu advogar para uma poderosa entidade, um partido político, por exemplo. Pronto, você já tem chance de mostrar serviço. O tempo passa. Você já é conhecido na grande organização, que poderia ser um partido político como disse antes.
Surge uma grande chance, um cargo disputadíssimo. Centenas o desejam. Mas a pessoa que tem forte influência na escolha do nome para esse cargo, escolhe você.
Passado algum tempo, essa pessoa torna-se ré numa causa de grande repercussão e você, por essas voltas que o mundo dá, tornou-se juiz na causa. Irá julgar aquele que, entre tantos, escolheu você para o posto que o pôs em evidência.
Agora você está num dilema; se condenar àquele que o ajudou, será taxado de ingrato. Caso o absolva, sua honradez como juiz estará sob suspeita. Mas, aleluia, existe uma terceira opção, digna e prevista pelas normas legais. Você pode declarar-se suspeito para julgar. É uma decisão pessoal a qual ninguém o obriga. A decisão é sua, intransferível. E certamente você optaria por ela.
Não foi o que fez, e nem fará, o Ministro do Superior Tribunal Federal, Antônio Dias Toffoli. Ele julgará seu ex-chefe na Casa Civil, José Dirceu, no processo do mensalão. Pelo que tudo indica, seu voto será pela absolvição do réu. Pelo menos é o que se infere de uma declaração pública de Toffoli ocorrida num convescote do qual participou o Ministro.
Nos conta Élio Gaspari, em sua coluna de 22 de agosto n’O Globo, que na tal festinha, Toffoli tomou as dores de José Dirceu dizendo:_”O Zé Dirceu escreve no blog dele. Pois outro dia esse canalha o criticou. Não gostei de tê-lo encontrado aqui. Não gostei”. Referia-se a Ricardo Noblat que o cumprimentara horas antes e ao sair, também o fizera. A fala de Toffoli era para ser escutada por aquele, uma espécie monólogo de covarde. Segundo Gaspari, que deve ter escutado a estória do próprio Noblat, ademais da defesa pública do réu do mensalão, Toffoli soltou palavrões (pelo menos 6) e uma vulgaridade.
Pois bem, esse “juiz” será um dos julgadores da participação de Zé Dirceu no escândalo. Se Sua Excelência não permite sequer uma crítica ao que o amigo, e talvez mentor, escreve num blog, o que poderemos esperar de seu voto?
Embora saiba que você, leitor e amigo, não envergue a toga na mais alta corte do país, eu preferiria vê-lo como juiz, em vez de Toffoli, quando me julgassem. Você, certamente, se afastaria do caso. Não levaria para a corte nem nossa amizade nem qualquer mágoa pelo tempo perdido com a leitura de minhas divagações.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Campanha eleitoral







Em cidades pequenas como a minha, não há repetidoras de sinal de TV, portanto, na propaganda eleitoral gratuita veiculada por esse meio de comunicação, não vemos os candidatos locais. Esse tema já mereceu discussão pelo TSE. A questão parece insolúvel.
Para que seus nomes cheguem aos eleitores, esses candidatos locais contam com o conhecimento prévio, além dos santinhos, cartazes e os famigerados carros de som que circulam todo o dia pela cidade durante todo o tempo permitido pela legislação eleitoral.
Pelo menos aqui, o som infernal não traz nenhuma proposta, nenhuma idéia, nem sequer menciona a sigla dos partidos que pedem o voto.
Penso que a omissão da sigla partidária tem duas funções: primeiro facilita o voto dos analfabetos que poderiam se perder na sopa de letrinhas partidárias. (No Brasil temos 30 partidos registrados junto ao TSE, 29 estão nessa disputa municipal.) Outra função seria a de tentar esconder a sigla. Basta que ouçamos  os nomes dos grandes partidos ou as letras que os identificam, para fazermos rapidamente uma conexão mental com algum escândalo de corrupção. Escutamos 2, 3 ou 4 letras e já nos vem à mente a imagem de algum deputado, senador, prefeito ou governador acusado das piores pilantragens, dos maiores desmandos.
Mas o que traz então o som que nos desperta, que acorda os bebês, que interrompe a sesta dos velhos e o descanso dos doentes? Traz musiquinhas. Não músicas originais, senão paródias dos sucessos da atualidade. Músicas de Teló, Santana e outros bichos, recebem letras alusivas às candidaturas. O que era o purgatório de nossa existência, passa a ser um inferno nesses dias que deveriam ser de afirmação da democracia.
Outro dia, enquanto pedalava indo ao supermercado, fui perseguido por um desses carros de som que seguia em marcha lenta logo atrás de mim. Com um vento nordeste contra e a saúde a meia boca, não pude acelerar para livrar-me da horrível sinfonia dos infernos. Tampouco havia alguma rua para virar, nem à direita nem à esquerda. Assim que por uns duzentos e lentos metros, tive que ouvir uma dúzia de vezes uma voz estridente, no melhor estilo sertanejo universitário, bradar no meu ouvido:_ “Eu quero já, eu quero já, votar no 25, votar no 25”.
Se algum dia eu enlouquecesse e resolvesse votar nesse moribundo partido, após a penitência de ouvir sua triste paródia política por tanto tempo, eu teria desistido de dar meu voto.

Nelson Rodrigues e o futebol.







A relação de Nelson Rodrigues com o futebol é profunda. Não só pelas crônicas que escrevia, como pelo fato de ser realmente torcedor. Ao contrário do que acontece hoje,com os cronistas e comentaristas esportivos que preferem ostentar uma irritante e suíça neutralidade, Nelson fazia de seu amor pelo Fluminense o próprio motivo da crônica.
Nelson escreveu sobre futebol durante uma de nossas épocas de ouro, entre os anos 50 e 70. Quando apareceu a seleção húngara, pouco depois de nosso fracasso em 50, Nelson foi um dos poucos que não se deixou levar pelo oba oba em torno dos magiares. Referia-se ao time de Puskas e companhia como a seleção húngara do Armando Nogueira, este sim, apologista da superioridade gringa.
Além de seu amor pelo Fluminense, Nelson cultivava outra paixão esportiva; a Seleção Brasileira. Sua crônica após a vitória na Suécia, é das mais belas páginas do gênero. Nelson amava a Seleção porque admirava o jogador brasileiro, o homem brasileiro, com todos os defeitos e contradições.
Mas o que mais me fascina na relação de Nelson Rodrigues com o futebol é mesmo a paixão clubística. Se na crônica jornalística essa paixão desafia os fatos, em suas peças e romances ganha ares de deboche.
Em “A falecida”, Tuninho, o marido a quem a protagonista trai no banheiro de uma lanchonete enquanto ele espera na mesa, é vascaíno fanático e a peça tem seu final num jogo Vasco e Fluminense com ele soltando um “casaca” enquanto a mulher é enterrada.
O Zózimo de “Engraçadinha”, que casou-se com a protagonista em circunstâncias mais que humilhantes e é traído por ela, é flamenguista roxo.
Nenhum dos dois personagens tem um mínimo de grandeza. São criaturas levadas pelas circunstâncias, encarnam o lado obscuro da alma brasileira com seu fracasso e infelicidade conjugal. Portanto não poderiam ser tricolores. Nelson sacaneia, no melhor estilo carioca, os adversários.
Nelson Rodrigues não enxergava bem, muito pelo contrário. Conta-se que ao final de cada jogo que assistia no ex-Maracanã, ele perguntava a quem o acompanhava:_”O que nós achamos do jogo?” Nelson torcia com o coração mais que com os olhos e aquele “nós” da pergunta, no dia seguinte se transformava numa visão única e pessoalíssima em sua coluna.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Você tem fome de que?







Há algum tempo atrás, uma foto ganhou o mundo. Nela um menino africano está sentado no chão. A cabeça grande, o ventre bojudo e os membros esquálidos. Está morrendo de inanição. À volta, abutres rondam o infeliz. Não se sabe o que lhe deu a morte, se a fome ou os impacientes abutres. A foto só registra seus últimos instantes de vida.
Em nome não sei de que tipo de ética, o fotógrafo não interveio. Registrou o momento terrível e foi embora. De barriga cheia, bolso cheio, talvez num jatinho fretado. Algum tempo depois, o autor da foto fez a única coisa descente que poderia ter feito; matou-se.
Esse tipo de sensacionalismo travestido de denúncia social é coisa comum. Uma foto dessas, alavanca uma carreira, ganha prêmios humanitários, participa de exposições, faz do autor uma celebridade nos meios jornalísticos. Para nada serve aos fotografados, moribundos ou miseráveis. Seu sofrimento é por demais sabido sem que nada seja feito.
A fome na África é um tema que vem servindo de discurso fácil a muitos interesses. Nos dias de hoje, quando as mudanças climáticas são o centro das atenções, muitos ativistas falam que as conseqüências de tais mudanças atingirão mais profundamente os mais pobres. Se estamos vendo a televisão, tão logo é dado esse alerta, aparecem cenas de mulheres africanas em campos de refugiados, carregando seus filhos ou a foto do menino moribundo. Na verdade, o que assistimos hoje é a quebra da safra americana devido às condições climáticas, mas tal fato não mexeria com nossos corações e mentes, por isso há que se mostrar a miséria e a fome na África. Mas tem pior.
Não faz muito tempo, o governo de um país africano foi convencido por uma organização não governamental e não nada, a não receber uma grande doação de alimentos pelo simples fato dos alimentos serem transgênicos. O fanatismo alimentar dessa organização e a estupidez do governante, devem ter provocado milhares de mortes por inanição.
Não longe de nós esse tipo de concepção vem fazendo estragos. Virou fato comum a exaltação dos plantios orgânicos pelos meios de comunicação. Os alimentos assim produzidos são caríssimos e chiquérrimos. Os preços altos são explicados, é claro, pela menor produtividade desse tipo de agricultura. Ou seja, para produzir a mesma quantidade de alimentos que seriam produzidos pela agricultura tradicional, mais terra é necessária. Mas os propagadores da idéia dos orgânicos também são contra o desmatamento e nada têm a dizer sobre a reforma agrária. A conta não fecha. Mas para eles não importa.
O agricultor já está vendo que os consumidores desse tipo de alimento pagam pelo produto sem chiar e o novo nicho de mercado vai se tornando cada vez mais atrativo. Uma conseqüência disso é que a luta pelo banimento de certos agrotóxicos, já proibidos na maioria dos países, perde força. É como se a solução para o problema já tivesse sido encontrada. Não foi. Tampouco o descaso pela fome alheia diminuiu. Pelo contrário.
Existe uma música dos Titãs, se não me engano, que virou uma espécie de hino da revolta contra nada. Em sua letra diz o poeta: _”A gente não quer só comida”. Ora, quem associa o substantivo “comida” com o advérbio “só”, não apenas demonstra insensibilidade, como mostra que está de barriga cheia. Em outra parte da canção pergunta o vate:_”Você tem fome de que?” A resposta “comida” está antecipadamente descartada.
Embora milhões de brasileiros tenham saído da pobreza nos últimos anos, os afetados pela miséria extrema, não tiveram a mesma sorte. Continuamos convivendo com bolsões de fome tanto no campo como nas periferias das grandes cidades. Ainda existem milhões de brasileiros que não podem se dar ao luxo de querer mais que “só” comida.
Do ponto de vista do deus mercado já não existe comida, alimento. Trata-se de commodities, bolsa de futuros. A fome não entra nos pulcros lugares onde se decide quem vai comer e quem não vai.
O milho americano vira combustível para deleite dos inimigos do combustível fóssil. Alias, virava. Com a quebra da safra de milho, trigo e soja naquele país, os yanques certamente vão importar o produto, que é básico na alimentação de pessoas, especialmente nas Américas, para não quebrar sua indústria de combustível renovável.
Outra questão que ofende o bom senso é o preconceito alimentar muito em voga entre certa parte da população. O vegetarianismo tem-se espalhado entre os bem nutridos. Claro que não há perigo de virar epidemia. Seus difusores, na verdade, não querem que assim seja. Fingem fazer pregação da prática preconceituosa mas na verdade querem que o preconceito seja um estilo de vida de elite.  
Em visita ao Brasil, a Primeira dama americana avisou de antemão que era vegetariana. A pessoa designada pelo Itamaraty para preparar o cardápio do jantar de recepção do casal Obama, resolveu servir uma feijoada de tofu. Imagino que deva ter saído uma mistura intragável mas por decoro a senhora Obama teve de tragar. O piriri que certamente acometeu Michele Obama, foi a verdadeira vingança de Montezuma. O espírito do guerreiro já deve ter se adaptado aos novos tempos.



terça-feira, 21 de agosto de 2012

O voto religioso







Parece que o futuro do Brasil está no voto religioso. Em São Paulo, cidade mais importante do país, já começou o beija mão dos líderes religiosos de araque.
No último dia 5 de agosto, José Serra assistiu culto na Igreja Mundial e sua candidatura foi abençoada pelo Bispo Waldemiro Santiago. Alkimim também estava presente. É a segunda vez que o homem da Opus Dei visita a mega igreja do bispo que mais fatura no país. Um jornalista presente, disse que, mesmo saindo mais cedo, Serra presenciou Waldemiro pedindo dinheiro aos fiéis. Ora, basta passar na porta de qualquer desses centros de charlatanismo para ouvir os pedidos de dízimos e ofertas. Nesses templos se fala mais em dinheiro do que na bolsa de valores.
Russomano, segundo lugar nas pesquisas de intenções de votos, é candidato da Igreja Universal, dona do PRB e Haddad contou com a nomeação do Bispo Crivela para o Ministério da Pesca para aplainar sua candidatura junto aos crentes que o vêem como o autor do kit gay. Parece que não está dando certo.
No Rio,  Eduardo Paes tem ido à missa para provar seu catolicismo e outros candidatos fazem reuniões com líderes da franquia Assembléia de Deus, não para expor seus planos de governo, mas para aceitar as imposições que esses propagadores do atraso fazem.
A franquia Assembléia de Deus vai lançar candidatos “próprios” a vereador em todos os municípios brasileiros, sinal de que teremos mais leis municipais impondo rezas nas escolas e nas Câmaras de Vereadores. Mais dinheiro público destinado a monumentos a Cristo e a bíblia. Mais homofobia financiada pelo erário público. Nas próximas eleições o armazém de secos e molhados religioso terá sua própria sigla, o PEN, Partido Ecológico Nacional. A mistura de ecologia e fundamentalismo cristão promete fazer estragos. O novo partido, o 30º a ter sua inscrição aceita junto ao TSE, é a cara de Marina Silva mas parece que a ex-senadora já recusou o convite para ingressar na sigla pentecostal.
A busca pelo apoio de religiosos, principalmente dos neo-pentecostais, fará com que o país retire de pauta discussões importantes como a legalização do aborto e do uso de drogas. Para essa gente não existe discussão possível sobre certos temas. São irredutíveis, põem a bíblia sobre a constituição e querem anular direitos já conquistados pela cidadania tais como o aborto de anencéfalos e o reconhecimento da relação estável entre pessoas do mesmo sexo. O líder da bancada evangélica, Dep. João Campos, apresentou projeto para que decisões do STF passem pelo crivo do parlamento. O projeto é ridículo, fere a própria constituição e a independência dos poderes. Ainda assim mostra o caráter virulento dos políticos ligados aos grupos neo-pentecostais.
Os crimes de abuso da fé pública e charlatanismo, praticados diariamente por bispos e pastores, e que seriam facilmente combatidos, agora contam com a vista grossa de nossas autoridades. Waldemiro vai poder continuar cobrando o dízimo em dobro e propalando milagres. Mais e mais concessões para operação de rádios e TVs serão dadas a Edir Macedo e R.R Soares e novas seitas surgirão com tantas facilidades para agirem à margem da constituição e das leis infra-constitucionais.
O avanço das seitas na política tem como característica a mesma cara de pau que vemos nos templos. Se os pastores e bispos não se acanham em tomar o dinheiro de quem só tem para comer e até o único par de tênis de uma criança, é claro que não vão ficar corados apresentando projetos que só favorecem ás próprias seitas e seu projeto de tomada do poder civil. Hoje tramita no congresso projeto que propõe subsídio nas faturas de energia elétrica para templos e igrejas. Nas câmaras municipais de todo país, vereadores propõem doações de imóveis públicos para igrejas. Marchas para Cristo, de nítido tom homofóbico, são financiadas com dinheiro público. E por aí vai.
Como diria Lula, jamais na história desse país se viu tamanho avanço da religião sobre o espaço público. O Estado laico está por um fio.

domingo, 19 de agosto de 2012

Tragédia anunciada







Garoto, muitas vezes deixei de ir ao estádio por falta de grana pro ingresso. Aos 15, 16 anos eu convivia com amigos de classe média que iam ao campo de carro com seus pais. Carona até que rolava, grana não. Mas havia dias que a rapaziada resolvia ir ao Mineirão sem um mango no bolso. Pegávamos carona na AV. do Contorno com outros torcedores e nas bilheterias do estádio pedíamos a quem estava na fila pra comprar ingressos, umas moedinhas para inteirar a entrada da geral. Se havia tempo, aproveitávamos para arranjar o do cachorro quente e o da coca cola. Não sentíamos que estivéssemos mendigando, apenas sendo espertos.
Estávamos nos bons tempos de estádio cheio todo fim de semana, não importava o jogo, e a geral era baratinha. No espaço democrático, íamos todos juntos, atleticanos e cruzeirenses. Atleticanos, éramos o Xandico, o Ramé, o Dimas, o Marcos e eu. Cruzeirenses, o Aníbal e o Maurinho.
Mas havia umas regras para a entrada no Mineirão. Crianças menores de 7 anos não podiam entrar de maneira alguma e os que contavam entre 7 e 12 anos, só acompanhadas por adultos. Lembro de uma vez que tentamos dar uma força pra uns moleques pequenos entrarem conosco. Não deu. Não éramos adultos.
Na época eu pensava que era uma regra rigorosa demais. Punha culpa no autoritarismo da ditadura. Hoje eu sei que essas regras estavam certíssimas, mas parece que só eu penso assim.
A cada domingo, antes e durante a transmissão dos jogos pela TV, são mostradas muitas crianças e até bebês de colo nas arquibancadas dos estádios. As câmeras as procuram e, pondo legendas nas imagens, nossos locutores esportivos aproveitam para balbuciar frases que vão da pieguice à imbecilidade. Fala-se do futuro torcedor, da presença da família nos estádios e ai que lindo. Não é possível que essa gente não tenha a menor noção das coisas. Parece que dão folga ao cérebro nos fins de semana. 
Lembro-me bem que quando meu filho estava por nascer, minha mulher e eu líamos tudo que nos caía nas mãos sobre gravidez, bebês, crianças e etc. Creio ter visto o mesmo entre outros pais de primeira viagem e uma das coisas que gravei foi sobre a audição dos bebês. Pelo que me lembro, eles têm uma audição perfeita. Ao contrário do que ocorre com a visão, por exemplo, a criança já nasce com seu sistema auditivo funcionando perfeitamente. Eles escutam melhor que os adultos.
Num estádio de futebol com foguetórios, charangas e cantos da torcida, o bebê absorve o som que mesmo para nós adultos seria insuportável não fosse por nossa paixão pelo time de coração. Mas ao contrário de nós, os bebês não têm paixão por time nenhum e sofrem gratuitamente.
Mesmo para uma criança que já deixou o colo e a teta, que tenha 1, 2 ou 3 anos, que graça tem estar num lugar quente, ruidoso e sem brinquedos?  Acho que nenhuma. Elas só estão lá pela estupidez dos pais que as fantasiam com a camisa do time para que os idiotas da narração esportiva digam que lá está a pequena vascaína ou o pequeno cruzeirense. Esses pais, que deveriam ser admoestados pelo órgão de defesa das crianças e adolescentes, não pensam que uma simples correria nas arquibancadas poderia por em risco a vida de seus filhos, que um sinalizador é tóxico, que há entre os torcedores os irascíveis e os brutais.
Que existem pais totalmente irresponsáveis, todos sabemos. Mas em uma emissora de televisão há muitos chefes, diretores, superintendentes, editores e o escambau. Será que nenhum engravatado desses tem a menor responsabilidade? O menor discernimento? Ou seus poucos neurônios só conseguem entrar em atividade quando se trata de índices de audiência e faturamento comercial? Parece que é isso. Caso contrário haveria, ao menos, alguma orientação para que as imagens com torcedores levando seus bebês não fossem mostradas para se evitar a repetição, a imitação. O que ocorre é justamente o contrário. Deve haver uma ordem superior para que operadores de câmeras e diretores de imagem façam da estupidez paterna uma forma de atrativo.
Caberia então aos órgãos governamentais estabelecer algum critério para o ingresso de crianças nos estádios. Como está, me parece que é a crônica da tragédia anunciada.