quinta-feira, 5 de julho de 2012

A dignidade de Dilma.







Meses antes de se lançar candidata à presidência da república, Dilma Rousseff, então no comando da casa civil, foi convocada a prestar esclarecimentos numa comissão do senado. Num determinado momento do depoimento de Dilma, o senador Agripino Maia, que nunca havia passado recibo de idiota, talvez pela falta do que falar ou imputar à ministra, cometeu uma grosseria que veio junto com uma estupidez. Agripino disse a Dilma que ela tinha fama de mentirosa quando era interrogada pelos órgãos de repressão da ditadura.
A Ministra, que até então mantinha sua pose de durona e antipática, respondeu com a voz embargada ao senador, que parecia ignorar o que acontecia nos porões do sistema que ele defendeu e no qual atuou. Lembrou-lhe Dima, que diante da tortura o ato digno é mentir. Mentir para não entregar companheiros ao suplício. Mentir para não comprometer a causa pela qual se luta. Mentir para combater. Nesse momento Dilma se tornou mais humana pelo choro que a garganta conseguiu prender, pela lágrima furtiva que seus olhos deixaram escapar. O tiro saiu pela culatra e a provocação do latifundiário potiguar acabou por aproximar a ex-guerrilheira e futura candidata à presidência, do país pelo qual ela deu seus melhores anos no anonimato e na clandestinidade.
Depois veio a candidatura e a luta suja nos bastidores da campanha. Do lado petista houve até fogo amigo, vazamentos de estratégias e o diabo. Dentro do PT havia resistências ao seu nome para encabeçar a chapa que já era possível ver como vitoriosa, devido a grande aceitação popular do Presidente Lula.
Em plena campanha, Dilma descobre que está com câncer e inicia o tratamento. A gentalha da grande imprensa, começou a insinuar que a candidata estava usando da doença para angariar votos. Da insinuação passou-se a afirmação. Dilma não retrucou a vilania. Manteve-se impávida, dura, digna.
Durante os meses que antecederam as eleições, seu oponente fez o jogo mesquinho tão ao gosto dos que o apoiavam e muito distante da imagem de ex-líder estudantil e democrata autêntico com que ele enganara meio Brasil durante tantos anos. Ao aproximar-se a derrota anunciada, Serra deixou de lado os últimos escrúpulos e lançou mão do que havia em seu já minguado paiol de mentiras ainda não usadas e atacou Dilma como só um desesperado poderia fazer.
Pois bem, durante toda a campanha eleitoral Dilma não citou em nenhum momento sua prisão e tortura nos porões da ditadura, jamais revelou seu sofrimento físico e moral. Não mencionou seus padecimentos para trazer para si simpatias ou compaixão. Não fez de sua dor um degrau. Mais uma vez Dilma foi digna.
Hoje, com o início dos trabalhos da Comissão da verdade é que vamos aos poucos nos inteirando dos detalhes de sua prisão. Do dente perdido numa sessão de espancamento, do dia em que chorou temendo pela esterilidade que um forte sangramento, provocado por torturas, fazia supor. De sua via crucis por prisões de três estados.
Do inferno onde jogaram aquela menina, saiu a mulher que hoje governa o país.
Dilma não é carismática como seu antecessor. Não faz discursos empolgantes. Nem de longe é considerada simpática. Sem embargo, seu governo tem índices de aprovação que nem o freio puxado da economia faz baixar, pelo contrário.
Dilma é a prova viva de que o que importa é a dignidade.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Descobertas







Descobri um blog interessantíssimo. Pena que minha descoberta venha com  quase uma década de atraso.  O blog tem mais de 1500 membros e quase 5 milhões de visualizações. Já me aconteceu outras vezes; descobrir coisas que todos já sabiam. Não faz nem 5 anos que me dei conta de como é bonita a voz de Monarco e fiquei fã de Luis Carlos da Vila apenas poucos anos antes de sua morte. Paciência.
No caso do blog, ando contentíssimo com a “novidade”. Trata-se do “Conteúdo livre”. Lá encontrei os caras que sempre gostei de ler e que são o melhor exemplo de como escrever crônicas. Gosto de gênero desde a adolescência ou antes dela. No meu livro de português do ginásio, “Português através de textos” de Magda Soares, conheci Ruben Braga e o Drummond cronista antes de conhecer o Drummond poeta.  No “Conteúdo livre” reencontrei os craques Cony, Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro e também fiz “descobertas”.
Caetano Veloso tem ótimas tiradas e Fernanda Torres, de quem só encontrei um texto, me pareceu divina, escrevendo. Nesse caso, não sei se a paixão que nutro pela atriz interferiu no julgamento, acho que não. Tem também o Rui Castro de quem eu já lera alguns livros e crônicas mas antipatizava bastante com ele devido a algumas entrevistas que concedeu. Creio que é seu flamenguismo e ipanemismo exacerbado o que me incomoda no autor de “Estrela solitária”. Mas deixa pra lá.
Uma das crônicas do Rui Castro que me chamou a atenção tinha por título “Farejando Watergate”. Ele nos conta que trabalhou na “Manchete” com um cara que sabia tudo. O R. Magalhães Jr.
O acadêmico, além de ter ampla cultura, era homem antenado e de memória invulgar. Num determinado momento do convívio profissional de ambos, surgiu na redação da revista uma dúvida sobre o tema de Watergate. Rui Castro foi perguntar a R. Magalhães Jr, a quem sempre recorria, sobre o assunto que todos pareciam desconhecer. O homem ficou embatucado e segundo Rui Castro, também Art Buchwald, de quem traduzia as crônicas para a revista e suscitara o tema, não tinha uma noção muito precisa de que se tratava mas farejara ali algum rato, segundo expressão do cronista brasileiro.
Em outro texto, desta vez assinado pelo bamba Carlos Heitor Cony, há uma interessante história sobre a posse de Tancredo Neves. 
Na véspera do histórico dia, Cony trabalhava no lançamento de uma nova publicação das empresas Bloch. Toda a equipe já estava em Brasília para a cobertura da posse. Lá pelas 3 da tarde, Cony recebe um telefonema informando-lhe que não haveria posse. O telefonema feminino era anônimo. Cony alertou seu chefe da sucursal em Brasília, Alexandre Garcia e este lhe garantiu que tudo ia em ordem e que Cony estava mal informado como sempre. Bem, o resto é história.
Esses dois exemplos nos dão uma amostra de como o jornalismo brasileiro pode se parecer comigo; faz descobertas com incrível atraso. Mesmo hoje, com o advento da internet, jornalistas e afins continuam pagando micos e barrigas.
Outro dia lendo nesse mesmo blog que descobri recentemente, a coluna de Élio Gaspari fui surpreendido por dois fatos. Em primeiro lugar não supunha que alguém da estirpe de Gaspari fosse apoiar o golpe no Paraguai utilizando argumentos tão frágeis. E se isso fora pouco, o fez desconhecendo que o Wikileaks já divulgara informações secretas do governo americano dando conta de que este já sabia da preparação do golpe desde 2009. Gaspari, em seu artigo, elogiava justamente a postura da diplomacia americana no episódio chamando-a de profissional e comparando-a com a nossa que, segundo o jornalista, estava se metendo numa estudantada.
 Segundo descobri ontem, a correspondência secreta trocada entre diplomatas americanos lotados no Paraguai e o Departamento de Estado, foi publicada no Wikileaks em 30 de agosto de 2011. Parece que Gaspari e eu precisamos fazer nossas descobertas um pouco mais cedo.





terça-feira, 3 de julho de 2012

Crente que legisla.







Há pouco tempo atrás, eu assisti uma reportagem que falava de leis estaduais que haviam sido consideradas inconstitucionais pelo Supremo. Não me lembro de todos os números mas os que guardei na memória são bem eloqüentes. De sete leis aprovadas pela Assembléia Legislativa do Rio, seis foram barradas pelo STF. No caso de Santa Catarina a decretação de inconstitucionalidade dos diplomas legislativos estaduais foi de 100%. Seis leis aprovadas na assembléia estadual, seis leis consideradas nulas por afrontar a Constituição Federal. Aqui estamos falando apenas das leis cuja constitucionalidade foi contestada junto ao Supremo. Muitas outras vigoram em total desacordo com a Carta Magna sem que sua legitimidade seja argüida.
Ora, a principal atribuição dos legisladores é legislar. Criar um ordenamento para a sociedade. Para exercer esse labor contam com assessoria jurídica que lhes é oferecida pelas casas legislativas além de poderem contratar, com verba de gabinete, outros auxiliares. Ainda assim, nossos legisladores conseguem confeccionar verdadeiros monstrengos jurídicos.
No âmbito municipal chega-se às raias do absurdo. É que temos visto nas leis que tornam obrigatória a reza ou leitura de trechos bíblicos nas escolas. Há um grande número dessas leis vigorando em várias cidades brasileiras. Embora facilmente refutáveis quanto à sua constitucionalidade, essas leis; enquanto vigoram, jogam o mundo escolar numa polêmica que deveria estar restrita aos templos e à casa de cada aluno. Abundam notícias de discriminação de estudantes, de disputas e até de assédio moral àqueles que se recusam a participar da encenação religiosa.
Os autores dessas leis são, quase que em sua totalidade, legisladores adeptos de seitas pentecostais ou neo-pentecostais. Muitos deles também pastores de suas seitas. A rejeição da sociedade ou a ação do ministério público que tenta impedir a validade de tais éditos, não são entraves para que a cada tanto outra lei do mesmo teor seja votada e aprovada por Câmaras Municipais.
Se o fanatismo religioso dos evangélicos explica esse tipo de ação nas Câmaras Municipais, no Congresso Nacional a bancada evangélica tende a ser mais prática. É o que indica a proposta de lei do Deputado Eduardo Valverde (falecido ano passado) que propõe subsídio de energia elétrica para templos religiosos. O relator da matéria é o Deputado Antônio Bulhões ligado à Igreja Universal. O projeto de lei já passou pela Comissão de Constituição e Justiça e foi aprovado por esta. Tramita com celeridade e agora será encaminhado para outras comissões da casa.
Outro projeto que tenta ir diretamente ao bolso do trabalhador brasileiro sem passar pela oferta nem pelo dízimo, é de autoria do Deputado Aguinaldo Ribeiro e propõe que os recursos do fundo de garantia possam ser usados para a construção de templos.
Assim como essas duas aberrações que querem virar leis, outra iniciativa da bancada crente tenta modificar profundamente a constituição dando ao Congresso um papel de revisor das decisões do Supremo Tribunal Federal. Isso, claro, tem a ver com as posições tomadas pela corte suprema com relação à união estável de pessoas do mesmo sexo, a garantia da legalidade da marcha da maconha e a autorização para o aborto de anencéfalos.
Com a vaselina de Crivela e os coices de Magno Malta, os evangélicos vão avançando na descaracterização do estado laico e na imposição de suas crenças medievais. Conseguem trazer para discussão temas já soterrados pelo ordenamento jurídico ou pela prática social.
No último censo demográfico ficou patente o crescimento das seitas pentecostais no Brasil. Na verdade, não houve crescimento e sim explosão. Há quem já preveja para um futuro nem tão distante a mudança de religião hegemônica no país. Fato raro no mundo moderno.
Não há maneira de evitar o avanço dos que prometem curas, milagres e prosperidade já. Os políticos no intuito de angariar votos entre os pentecostais e neo-pentecostais, de tudo fazem para agradá-los. 
Quando era prefeito de Curitiba, Beto Richa sancionou lei que incluiu a marcha para Jesus no calendário oficial de eventos do município. Como governador do Paraná tornou o dia da marcha, evento estadual. Aqui, Richa entra apenas como exemplo pois por toda parte se dá o mesmo. Alkimim foi à inauguração do templo de Waldemiro em São Paulo e orou com toda a família. O homem da Opus Dei não se acanhou.
No Rio a lei que torna obrigatório o ensino religioso vem nessa mesma toada: agradar a crentalhada que é quem mais pugna por encher de palavrório místico a cabeça dos meninos antes que eles comecem a pensar.
Mas o mais grave abuso da lei, pois a desrespeita, está na compra e venda de horários nas TVs para proselitismo religioso. A Presidência da República parece que já se mobiliza para pôr freios ao descumprimento das normas que regem o serviço de radiodifusão por parte das concessionárias. Imagino que a matéria seja discutida depois das eleições, pelo congresso. Antes do pleito municipal, nem pensar.


sábado, 30 de junho de 2012

Padre Marcelo Rossi







Você sabe o que é o terço bizantino?  Se sabe, por favor, me conte. Toda vez que vejo escrito “terço bizantino” no pé da tela da televisão, lá está o Padre Marcelo Rossi rezando de uma maneira muito bizarra. Ele repete a mesma frase 10 ou 12 vezes. Outro dia contei o número de repetições, mas esqueci.
Será isso o terço bizantino?  Repetir a mesma frase até ela perder o sentido? Os bizantinos não tinham coisa melhor pra fazer? Se é isso o terço bizantino, imagino como seria o papo bizantino. Uma conversa entre o Datena e o Silvio Santos é uma conversa bizantina? Bem, em certo sentido, sim. O pai dos burros nos dá essa definição para conversa tola, frívola, mas não fala em repetição.
Mas e o terço bizantino? Qual o sentido de alguém rezar daquele jeito? Se é que a característica do tal terço é essa mesma. Sendo ou não, o Padre Marcelo Rossi conseguiu introduzir mais uma chatice de sua coleção, que deve ser infinita. O Padre das batinas esquisitas é um chato profissional. Chato até nas batinas que alguém tem de lavar e passar. É muito pano, pregas e brilhos. Imagino que alguma pia senhora deva ter muito trabalho para deixar o padre na estica sacerdotal. Deve fazê-lo na certeza de estar servindo a Deus, como se houvesse um deus da frescura eclesiástica.
As batinas do padre Marcelo serviriam de modelo para Joãozinho Trinta se alguma escola sua tivesse escolhido a primeira missa como enredo. Já imaginou aquilo em verde e rosa? Uma ala inteira vestida de Marcelo Rossi?  Já estou até escutando o samba:

                              Naquela semana pascoal
                              Descendo das caravelas
                              Ao lado do navegante Cabral
                              ...............................................
                               
E lá lá ô ô ô ô. _Vai minha bateria nota dez._ Olha o Padre Marcelo aí, gente.

O enredo também poderia ser o Bispo Sardinha. Uma púrpura a mais naquela batina até que ficava bem. Mas devido ao destino do sacerdote português ia ter gente levando pro duplo sentido. Melhor não. Vamos de primeira missa.
Outro dia, vendo a televisão, lá estava o Padre Marcelo. Tinha ido a Portugal lançar seu livro “Ágape” que por aqui já vendeu mais de 6 milhões de exemplares. Quase não o reconheci sem sua vestimenta de corte exclusivo. Andava a paisana. Só o colarinho branco e as orelhas o denunciavam. Como será o best seller do Padre Marcelo? De que tratará? Haverá também capítulos bizantinamente repetidos dez ou doze vezes? Essas dúvidas, vou carregar para o túmulo.
Mas voltando ao terço bizantino e à teologia da repetição. O Aurélio dá uma outra definição pejorativa para o termo “bizantino”: “Pretensioso, tolo”. Para “bizantinismo” traz o sentido figurado de interesse por questões frívolas, insignificantes, sem resultado prático como as questões tratadas pelos teólogos bizantinos.
Pensando bem eu nunca escutei uma pregação do Padre Marcelo. Só as músicas e o terço bizantino. Também já li que ele anda pichando seu concorrente no mercado fonográfico, o Padre e cantor Fábio de Melo. Rossi o repreende por não usar batina. (Seria essa, uma questão bizantina?) Eu quase que ia cometendo a injustiça de dizer que é o roto falando do esfarrapado. No caso, é o fashion falando do descolado. Mas a disputa pela venda de discos e pelo suspiro das mocinhas católicas é apenas parte das atribulações atuais de Marcelo Rossi.  No terreno das batinas o sacerdote vem encontrando competição. Refiro-me ao cantor, Padre Reginaldo. O homem também é chegado às batinas cinematográficas. Na capa de um de seus discos, Reginaldo veste uma batina branca com uma sobrepeliz roxa e faz pose de Moisés de Cecil B. DeMille. Um luxo só. Na próxima Vaticano Fashion Week o bicho vai pegar.





sexta-feira, 29 de junho de 2012

Espanha, a chata







Para que servem os fatos? Quando de futebol se trata, para quase nada. Assim tenho assistido a Eurocopa. Ouvindo que a seleção da Espanha é a melhor do mundo e, talvez, só a Alemanha pudesse batê-la. Mas os fatos comprovam que a Fúria não joga nada.
A cada jogo insulso e sonolento da seleção espanhola, escuto de comentaristas e locutores que essa não é a Espanha que nos tem encantado. Mas quando ficamos encantados? Durante a copa, quando os espanhóis fizeram 7 gols em 7 jogos? No pós-copa, quando foram goleados pela Argentina? Ou nas vitórias suadas contra Chile e Costa Rica? De minha parte, nunca.
O futebol apresentado pela Espanha é a coisa mais enfadonha que já presenciei em torneios importantes. O melhor exemplo disso é a atual campanha da Eurocopa. Um jogo chatíssimo na estréia contra a Itália, uma vitória sobre a fraquíssima Irlanda, a vitória do árbitro contra a Croácia por 1 X 0 e o auge do tédio; o jogo contra a França do qual fui poupado de assistir inteiro graças ao cara que veio consertar o telefone. Já nas semifinais, 120 minutos de cochilos e bocejos diante de Portugal que fez sua parte e muito contribuiu para a sonolência do “espetáculo”.
Agora a seleção do técnico Vicente Del Bosque vai enfrentar a seleção italiana na final de domingo. E pode ganhar. Jogando seu futebol de passes de dois metros que os analistas chamam de toque de bola, a seleção espanhola tem tudo para matar os italianos de sono e conquistar o título.
Seu técnico, que enquanto dirigia o Real Madrid e não ganhava nada, era chamado de apático pela crônica especializada, agora é considerado  sereno. Arma um time sem atacantes, com 4 meias à frente de 2 volantes. No jogo seguinte põe um atacante, Torres, e no outro Negredo, depois volta sem atacantes e para a final é capaz de inventar Pedro na função de avante. O homem nem sabe onde está, mas está sereno. Já imaginou se o Joel Santana ou o Celso Roth fizessem algo parecido? Mudassem a escalação 4 vezes em 5 jogos? O que diriam nossos jornalistas esportivos? No caso de Del Bosque não dizem nada. Devem imaginar que o sereníssimo sabe o que faz.
Eu passei a me interessar por futebol logo após a Copa de 66, quando ia completar 9 anos. Os detratores do futebol brasileiro, que abundam nas redações dos jornais brasileiros, diziam na época que o Brasil tinha ficado para trás e que o futebol força praticado pelos ingleses era o futuro do esporte. Não precisou passar nem 4 anos para que esses mesmos idiotas estivessem tecendo loas à maior seleção que o mundo viu jogar, após a conquista no México. E aquilo sim era toque de bola. Lembra o 3º gol contra os uruguaios? Em três toques chegamos à área adversária e Jair fuzilou Mazurkévisk. Aquela seleção marcou 19 gols em 6 jogos. Estreou com um 4 X 1 e fechou a conta com outro 4 X 1.
Faz dois dias que li, atônito, a coluna de um dos artífices daquela conquista. Tostão anda achando a seleção espanhola o máximo. E o que é pior, falou mal de nosso futebol que ele brilhantemente defendeu. Disse que nossos times jogam na correria achando que isso é moderno, que têm pressa de chegar ao gol. Tostão fez apologia do 1 X 0 espanhol. Tostão aderiu às teses dos neo-jornalistas:_ Não basta elogiar a chatice espanhola, há que denegrir o futebol brasileiro.
Ora, os únicos jogos com alguma emoção na Eurocopa foram aqueles nos quais as equipes tiveram pressa de chegar ao gol. Empatando com a Dinamarca, Portugal partiu com toda urgência em busca do gol da vitória e fez, se não uma partida brilhante, pelo menos algo que foi divertido assistir. O mesmo se passou com a Inglaterra no jogo contra a Suécia e na partida dos ucranianos também contra a Suécia. Tirante esses jogos, o torneio foi, até aqui, tedioso. Não creio que a final redima os danos causados ao futebol pela imperícia dos europeus, afinal teremos em campo a chatice espanhola e o pragmatismo italiano. Nenhuma emoção a vista.

               

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Golpe no Paraguai







O que houve no Paraguai foi um golpe de estado. Isto é tão claro que nem sei se vale a pena mencionar. No entanto os que defendem a ação golpista não assumem sua postura direitista nem seu perfil gorila. Mencionam a constitucionalidade do processo que depôs Lugo. Escoram-se no fato dos milicos não terem tomado o poder nem terem posto os tanques nas ruas. Esquecem-se que durante o rito sumário, sequer foi concedido o direito à ampla defesa. Qualquer advogado de porta de cadeia poderia derrubar as pueris acusações contra o presidente paraguaio se tivesse tempo de ler os autos (se é que houve  tempo de redigi-los) mas tudo foi concluído em 24 horas. Devido à votação do impeachment pelo congresso paraguaio e ao roçar de togas que deram validade ao ato, muitos querem negar que houve golpe.
Acontece que estamos diante de um golpe estilo século 21. Um golpe pós-moderno, um golpe no qual os “interesses” prescindem dos fuzis, dos tanques e dos amedalhados generais. Suas armas estão na imprensa, nos parlamentos e cortes supremas. Foi assim em Honduras e é assim no Paraguai.
No país centro-americano, o Presidente Zelaya foi deposto por propor um plebiscito. Queria o mandatário consultar o povo sobre sua reeleição, vedada pela constituição de seu país. Bastou. Zelaya, visto pelas elites de Honduras como um traidor, foi arrancado de sua casa de pijama e posteriormente do poder, pela suprema corte do país.
O Brasil que no princípio da crise hondurenha se posicionou contra o golpe e asilou o presidente Zelaya em nossa embaixada, aos poucos foi cedendo e acabou por aceitar o fato e o arremedo de eleição que foi realizada para pôr na Casa Presidencial um títere dos golpistas.
Na época a grande imprensa brasileira, em uníssono, apoiou o golpe e lamentou a posição de nossa chancelaria. Esqueceram que no Brasil também era vedada a recondução dos chefes do executivo ao poder mas a constituição foi mudada para que isso pudesse acontecer. Não pela via da consulta popular, senão pela compra de deputados que deram ao então Príncipe Regente, Sua Alteza Fernando Henrique Cardoso, o fardo de continuar dirigindo nossos destinos por mais 4 longos anos.
Para apoiar a quebra da normalidade democrática em Honduras, editorialistas e outros paus mandados falaram de soberania do judiciário hondurenho mas nem sequer se deram ao trabalho de analisar sua composição ou as normas de seu funcionamento. Não se cuidava disso e sim de torpedear o Chanceler Amorim e a política externa brasileira, independente demais para os padrões dos capachos engravatados que durante décadas perfilaram ao lado de interesses estranhos ao país
No caso recente do Paraguai, nossa imprensa faz o mesmo papel deplorável e já pudemos ouvir da múmia Boris Casoy que no país vizinho tudo foi feito segundo a constituição. Eu não conheço a constituição do Paraguai, mas duvido que na constituição de qualquer país exista algum artigo que negue o direito à ampla defesa seja lá de quem for. Ademais, as acusações que deram origem ao rito sumário que depôs Lugo, são tão ou mais ridículas que as que foram usadas contra Zelaya.
O inimigo dos garis também falou dos interesses brasileiros no Paraguai e disse que o governo da Presidenta Dilma deve levar em conta somente esses interesses e não questões ideológicas. Para gente como Casoy, ideologia é palavrão. A Globo News, assumindo seu falso tom neutro, pautou suas informações em depoimentos de moradores de Ciudad del Este, que se mostravam tão a favor do golpe quanto ignorantes do tema. Para atrair a opinião pública brasileira para o lado golpista, a emissora das Organizações Globo, colheu também a opinião dos brasiguaios. Todos favoráveis ao golpe de estado. Esses proprietários, tal qual os daqui, adoram bancar de vítimas enquanto exploram o trabalho alheio. Na verdade o que temiam de Lugo era sua tolerância para com as reivindicações dos "carperos", os sem terra de lá.
Mas se a direitona acomodada nos grandes órgãos de comunicação não nos surpreende, nosso chanceler, Antônio Patriota, mostrava-se titubeante diante das câmeras no último sábado. Disse que o Brasil não tinha uma opinião isolada sobre o golpe. Ora, até meu cachorro, Feijão, tem opinião sobre o golpe.
Mais incisiva, Cristina Kirshiner chamou o golpe de golpe e retirou o embaixador argentino do país Guarani. Nossa Presidenta, menos vacilante que Patriota, convocou nosso embaixador para consulta.
A imprensa paraguaia, não diferiu de suas congêneres sul-americanas e deixou claro de que lado está. O diário ABC Color (ado) fala em nova tríplice aliança, fazendo analogia entre o rechaço dos outros membros do Mercosul ao golpe, e a guerra, que no século 19, dizimou a população paraguaia. La Nacion não fica atrás e em sua coluna, Henrique Vargas Peña, num patético tom nacionalista, cobra dos golpistas, na figura de Franco, atitudes frente às presidentas de Brasil e Argentina. Clama contra a arrogância de ambas. Menciona a exportação de energia de Itaipu e Yaciretá para os países vizinhos. Insinua a chantagem. Tenta assim anular o problema da falta de credibilidade dos golpistas fazendo crer a seus leitores que se trata de questão de soberania nacional. Também o diário Neike, através de seu colunista Luis Alen, amontoa acusações desconexas contra Lugo e seu governo. Só deixa claro que sua bronca é com os “carperos” e o apoio do presidente deposto aos movimentos populares.
O primeiro estado a reconhecer o governo golpista foi o Vaticano, fato sintomático visto que Lugo abandonou a batina e reconheceu seu pouco apreço pelo celibato ao assumir paternidade. Logo virão Colômbia, Chile e Estados Unidos que só esperam a poeira baixar. Disso não tenho dúvidas embora nenhum país membro da OEA tenha reconhecido o governo de fato, ainda.
Em nota postada em seu sítio eletrônico, o governo hondurenho menciona a inexistência do direito à ampla defesa no processo de destituição de Lugo, mas diz que é problema interno paraguaio. Gato escaldado.


domingo, 24 de junho de 2012

Espanto e decepção







Nunca perdi a capacidade de espantar-me. Uma bola na trave já é suficiente. Além do mais, vivemos uma época de grandes assombros. Uma mulher esquarteja seu marido milionário e infiel. Um senador da república aceita o cargo de contínuo de um bicheiro. Collor é membro do Conselho de ética e Marcelo Tass é considerado humorista. Mas tem coisas que, cá entre nós, há muito perderam sua potência de causar espanto ou mesmo surpresa. Refiro-me à união de Lula e Maluf em torno da candidatura Haddad em São Paulo.
Não acabo de compreender o motivo do escarcéu em torno do tema. O PP de Maluf já faz parte da base aliada do governo há muitos anos, desde o primeiro mandato de Lula. O aperto de mãos, que vimos nas capas dos jornais e no horário nobre da TV, nada mais foi que uma formalidade, ou melhor, uma banalidade.
O espanto que isso poderia ter causado, ficou no passado quando, no início de seu governo, Lula começou o namoro com Maluf. Cortejou-o. Ofereceu-lhe ministérios e imunidades. A CPI que então investigava a remessa ilegal de divisas para o exterior e que foi relatada pelo Deputado José Mentor do PT, sequer trazia, em seu relatório final e conclusivo, o nome de Maluf. Isso sim era para causar espanto. Mas na época, os governistas, estribados nos milhões de votos obtidos pelo presidente, passavam o rolo compressor e aprovavam, diante de uma oposição boquiaberta, o que bem entendiam. Assim que o estranho relatório foi aprovado sem espantos nem contestações. Ademais, esse assunto não é do mais queridos de nossos representantes e o quanto mais rápido sai da pauta de discussão, melhor.
Os jornalões, através de seus paus mandados, qualificavam de “responsáveis” todos os atos do governo que naquele momento abria seu pacote de maldades. A assunção de Henrique Meireles à chefia do Banco Central, a reforma da previdência, o expurgo de lideranças comprometidas com o passado do PT, tudo parecia corroborar a nova imagem de Lula tecida por Duda Mendonça. A aliança do PT com o PP de Maluf era um detalhe.
Desde o começo do namoro, nenhuma voz petista se levantou contra o Doutor Maluf e seu passado nebuloso, como antes era praxe. Apenas a Polícia Federal o importunou mas politicamente seguiu sendo peça chave da governabilidade. Os deputados do PP, mais amestrados que os cachorrinhos do circo Tihany, garantiram, durante os oito anos do Governo Lula, votos essenciais para aprovação de matérias no congresso. Em troca, o PP e seu proprietário receberam ministério de porteira fechada e nenhuma aporrinhaçao.
A união civil entre os políticos do mesmo sexo para alavancar a candidatura do poste Haddad, nada mais é do que a formalização de um concubinato antigo e conhecido. Não há novidade nem motivo para susto.
Mas se não perco a oportunidade do assombro, tampouco deixo de decepcionar-me. A decepção é um sentimento que persegue os crédulos. Principalmente àqueles que crêem no homem e sua capacidade de regeneração. A cada tanto estou arrastando os chinelos da decepção.
O que não posso, e nem tento, é decepcionar-me com algo que já conheço. Não posso decepcionar-me com reprises. E esse é o caso da Rio + 20.
Nos últimos dias vejo na televisão, uma série de personagens que, caracúlicos, se mostram decepcionados com o documento final da reunião de cúpula que veio ao Rio discutir os destinos do planeta. Ora bolas, há vinte anos atrás o mesmo e decepcionante documento veio à luz após todo o blá-blá-blá de líderes mundiais e catastrofistas profissionais. Naquela época, talvez houvesse motivo para a decepção dos expectantes da salvação planetária. Mas lá se vão vinte anos e nem sequer as tímidas propostas ambientalistas daquele documento foram postas em prática. Claro que os agourentos prognósticos dos que defendiam medidas emergenciais para que a raça humana não sucumbisse, não se confirmaram. Nesse meio tempo a situação ambiental agravou-se e para combatê-la a sociedade civil, em parceria com o poder público, tomou importantes medidas como a proibição das sacolinhas plásticas dos supermercados. Foi só.