quarta-feira, 18 de julho de 2012

Os torcedores Suelen e Diego







Suelen e Diego se amam e amam e mesmo time. Sempre que podem vão ao estádio do Botafogo, juntos. Esse mês Suelen recebeu o salário primeiro e combinou com Diego a ida ao jogo contra o Bahia. Antes do jogo seria apresentado à torcida a grande contratação do clube para a seqüência do campeonato. Fizeram as contas: 60 reais para as entradas, (se conseguissem as poucas entradas mais baratas) 20 para a cervejinha, 12 para o trem, total 92 reais. Ou 132 se tivessem que comprar as entradas mais caras. A brincadeira estava ficando muito salgada.
O casal também tem em comum, além do amor ao alvinegro, a paixão pelo samba, e uma feijoada na quadra da escola regada a partido alto, sai por !5 pratas o prato e só os homens pagam ingresso. Come-se bem, ouve-se música da melhor qualili e são muito mais horas de diversão. Naquele fim de semana Suelen e Diego preferiram cair no samba. Gastariam menos na escola.. Pegaram o trem pro outro lado.
Diego constatou que o partido alto continua poderoso no Rio, gente versejando que é uma beleza. Suelen disse no pé a tarde toda.
A diretoria do Botafogo parece que não se deu conta que seu estádio está junto à via férrea. Até a estação de trens mudou de nome e agora incorpora o nome do estádio. Os comboios dos ramais de Deodoro, Santa Cruz e Japeri param na sua porta. Talvez os dirigentes do clube tenham comprado o discurso da imprensa esportiva carioca que vive dizendo que o estádio do Botafogo não “pegou” por que é longe. Longe de quem, cara pálida? As vias que estão praticamente dentro do estádio podem trazer gente de populosos bairros cariocas e até de Nova Iguaçu, cidade de mais de 800 mil habitantes. O lebloncentrismo da crônica especializada não sei em que, é que não pode ver isso. Assim como o Maracanã, o estádio botafoguense pode usufruir desse enorme público que só não enche essa praça esportiva devido ao preço dos ingressos.
Os dirigentes do Botafogo, assim como os dirigentes de todos os clubes, por mais populares que sejam, não estão dando bola para os fiéis torcedores, que no Brasil provêem das classes menos favorecidas. Os preços dos ingressos no estádio do alvinegro provam isso; 30 reais, uma pequena parcela dos assentos e 50 reais o resto. No clássico contra o Fluminense foi mais caro.
Os fatos não bastam para mostrar que tal tabela de preços é um absurdo. Quer um exemplo? _ Depois de ir ao sul do país e derrotar o Internacional de maneira brilhante, o Botafogo mandou o jogo seguinte contra a Ponte Preta. O público foi de 6 mil pagantes num estádio que comporta quase 47 mil pessoas. Não é que não houvesse interesse pelo jogo; o time é bom, teve o melhor ataque do campeonato carioca, vinha bem na tabela. O problema é o valor do ingresso. Para o gigantesco público potencial que o clube tem a sua disposição, o ingresso é caro.
Os que podem pagar entradas de 50 reais toda semana, também dispõem de outras opções de entretenimento pelo mesmo valor. Para os que vivem na zona sul da cidade o Engenho de Dentro é longe embora se possa ir de metrô até a Central e lá tomar o trem sem sequer atravessar uma rua. Mas essa gente só gosta de  andar em veículo próprio e não gosta de misturar-se com quem anda de trem. Por isso reclama que é longe e de ter de usar GPS depois do túnel novo.
No clássico do último fim de semana as duas torcidas levaram juntas 17 mil espectadores ao estádio botafoguense. Se os outros 30 mil lugares que ficaram vagos fossem vendidos a 10 reais, a renda do jogo seria acrescida em 300 mil reais. Nada mal para um clube que assumiu um contrato de 18 milhões com seu novo atleta e que recebe da televisão menos da metade do que recebem Flamengo e Corinthians.
Na véspera do jogo contra o tricolor, Diego fez um biscate. Ralou todo o sábado mas arrumou oitentinha e um cara que trabalhou com ele lhe deu uma dica: _No Méier tem uma churrascaria que para competir com o jogo, faz promoção no rodízio, 30 reais por pessoa e criança com menos de 7 anos não paga. E o melhor é que tem telão, dá pra ver o jogo enquanto as picanhas vão desfilando.
Diego propôs e Suelen topou. Levaram o Júnior. Depois de mandar uma grande quantidade de carnes pra dentro. Diego saiu da churrascaria pensando que o Andrezinho  jogava muito e que a Suelen dentro daquele vestidinho, estava batendo um bolão.







quinta-feira, 12 de julho de 2012

Copacabana







Como todo mundo, eu sempre faço aquilo que odeio que os outros façam. Quer ver um exemplo? _ Essa mania de citar uma frase e não se lembrar do autor do dito. Isso é o tipo de coisa que não perdôo. Nos outros.
Ora, uma frase só faz sentido com autoria, endereço e data. Uma afirmação que causa furor ou espanto numa determinada época pode ser uma banalidade uns anos depois. Um depoimento de um general tem sua validade de acordo com o lado em que ele esteve na guerra. O que disse acertadamente uma mulher pode ser uma grosseria na boca de um homem e o que é um achado vindo de um menino será, quase sempre, o sinal de retardamento mental num adulto. Portanto o nome do autor é imprescindível para a compreensão e avaliação de uma assertiva. Se soubermos o nome, saberemos a época, a circunstância e, principalmente, o lado do balcão em que estava o sujeito que proferiu a locução. Mas vamos lá, perpetrar mais essa desfaçatez.
Um escritor bahiano, do qual não lembro o nome, falava anos atrás numa emissora de rádio de sua ligação com São Paulo e arrematou com uma frase que me ficou dentro. Dizia ele que “ninguém passa seus vinte anos num lugar, impunemente”. Eu sempre soubera disso muito embora nunca tivesse pensado no assunto. Para mim essa amarra sentimental, que é mais forte que o cordão umbilical que nos liga à terra natal, me prende ao Rio. Mais especificamente à Copacabana.
Se for contar bem, meus anos no bairro foram poucos. Na cidade maravilhosa eu morei no Méier, Todos os Santos, Benfica, Catumbi, Botafogo, Bairro de Fátima, Santa Teresa, Lapa, Glória e em alguns desses bairros, em mais de um endereço. De todos esses lugares trago boas recordações e pedaços de saudade. No entanto, foi em Copacabana que mais o Rio viveu em mim.
O bairro, que semana passada completou 120 anos, ainda estava longe dos 90 quando me deu seus botequins e sua praia. Suas meninas e suas noites. Suas tardes de sábado, suas manhãs de domingo.
Trabalhei, estudei, morei e bebi em Copacabana. Principalmente, vivi meus 20 anos em Copacabana. Sonhei muito, sofri pra burro. Freqüentei a Galeria Alasca e a Prado Júnior. O Beco da Fome e a 12ª D.P. A Biblioteca Regional e os cinemas.
O primeiro Chaplin foi no Cinema 2. O amor, conheci na Santa Clara.
Já caminhei Copacabana inteira, pela praia, pelos morros, pelos túneis, pelas ruazinhas pouco transitadas e até por cima dos edifícios. Antes eu sabia todos os nomes de ruas que vão dar na Avenida Atlântica, do Leme ao Posto 6. Conhecia os botequins que ficavam abertos até mais tarde e os que abriam mais cedo.
E tinha os cantinhos. O Bairro Peixoto, uma vila na Pompeu Loureiro, o alto da Gastão Bahiana e o Chapéu Mangueira, a favela mais bonita do mundo.
Mas sobretudo, para mim, Copacabana tinha as mulheres. De todas as cores, formas, idades e condição social.  Acho que vi as mulheres mais lindas do planeta em Copacabana, desfilando por suas belas calçadas de pedras portuguesas.
De tudo que vivi no bairro carioca, tenho hoje uma saudade quente. Boa de sentir. Saudade dos vinte anos, a melhor época da vida. Saudade dos amores, os únicos fatos importantes da vida.
No seu aniversário, velho bairro querido, me veio essa saudade, e uma certeza: Só a ti Copacabana eu hei de amar.


terça-feira, 10 de julho de 2012

A novela







Faz mais de dez anos que não assisto TV aberta comercial, ou melhor, assisto o futebol e algum pedaço de noticiário. Mas os humorísticos, programas de entrevistas e novelas, nunca mais vi.
Outro dia, escutei na GloboNews um cara falando da novela que estreara, não sei quem era o cara mas devia ser diretor ou coisa assim. Falou tantas maravilhas do folhetim que eu fiquei curioso. Curioso e bobo, você dirá, afinal, se o cara trabalha na novela, queria que ele dissesse o que?
Li que Gilberto Gil está assistindo o folhetim, creio que mencionou isso no seu depoimento para o Museu da Imagem e do Som. Jabor escreveu que não perde um capítulo. Eu tinha de ver.
Esperei a oportunidade e tentei assistir um capítulo. Bem, quando sintonizei a emissora dos Marinho, o capítulo já estava pela metade, ainda assim foi tempo suficiente para ver que de ineditismos não havia nada. Vi uma moça (a mocinha) lendo umas cartas que lhe haviam escondido tempos atrás e agora chegavam às suas mãos. Lia e chorava. Toda mocinha chora durantes os 168 capítulos iniciais de qualquer novela. Soube também que há uma vingança na trama (em qual não há?) e que o mocinho está de casamento marcado com outra. Oh! E, é claro, tem uma vilã má pra dedéu que durante o decorrer da novela tende a crescer em vilania, promete o autor nas redes sociais.
O rapaz que faz o papel do mocinho é uma dessas pessoas desinibidas que pensa que não ter acanhamento diante das câmeras, faz do exibido um ator. Sua falta de expressividade exige que o diálogo seja explicativo ou não saberíamos o que se passa com ele. Ou talvez, como seu personagem é um jogador de futebol, ele tenha se inspirado no Riquelme, “o homem da máscara de nada”.
Na cena seguinte a mocinha está chegando na casa do mocinho que tem casamento marcado com outra e tão logo ele abre a porta, se lhe atira em cima aos chupões. Não o abraça, o cavalga com as pernas entrelaçadas em torno de seus quadris. Se as tramas das novelas são pouco realistas, o mesmo não se pode dizer dos chupões, estes são hiper-realistas. 9 da noite é a hora do orgasmo, o momento ponto G da Globo.
A cena era tórrida demais para se assistir ao lado do neto de seis anos. Mudei de canal.
Dias depois, li uma entrevista com o autor da novela na revista Veja. Ele falava do sucesso e o creditava à ambientação da trama: o subúrbio carioca em vez da zona sul. Falou dos novos tempos e dos novos ricos, que ele chama de pobres ricos. E falou do subúrbio que ele conheceu quando criança com sua mãe antropóloga. Pareceu-me muito engraçado o fato de um carioca conhecer o subúrbio antropologicamente. Acrescentou que seu subúrbio novelesco é feito de referências literárias.De Lima Barreto e Nelson Rodrigues até Vitor Hugo e Dostoievski.
Para o autor, suburbano tem de falar errado. Segundo ele, se seus personagens falassem um português castiço soaria falso. Mas onde se fala português castiço? Em Ipanema?. Na Rede Globo? Esqueceu-se o Sr. Carneiro, que Lima Barreto era suburbano. Fernanda Montenegro também. Sérgio Cabral, pai, idem. Mas, dizia, sempre que um personagem dessa origem fala mal, alguém corrige. Ainda assim, salientou, tem havido reclamações e ele ia começar a maneirar no linguajar dos incultos. Certamente para não ferir a sensibilidade dos telespectadores das classes altas que falam português castiço e que, ainda segundo ele, também simpatizam com a novela que trata de periféricos.
Seguramente o autor vai reivindicar seu papel na história da tele-dramaturgia por ter dado papel protagonista aos suburbanos.
No começo dos anos 70, a novela “Bandeira 2”, escrita por Dias Gomes, era totalmente ambientada no subúrbio e seus personagens centrais eram os bicheiros Tucão e Jovelino Sabonete. Este último tinha esse apelido por lavar sempre as mãos, pois era traumatizado por ter passado a infância em um lixão. Havia uma taxista, vivida por Marília Pêra, e também um jogador de futebol. Em “O cafona”, outra produção do gênero, o protagonista era um suburbano que enriquecera com seus “Supermercados Ataíde”. O personagem vivido por Francisco Cuoco, bebia a lavanda da mesa como entrada e usava ternos bizarros. E olha que para se vestir bizarramente nos anos 70 o cara tinha de caprichar. Tanto nas produções dos anos 70 como na de agora, o morador do subúrbio é retratado de maneira estereotipada e folclórica.
Ou seja, pelo pouco que vi, não há nada de novo na grande novidade.


sexta-feira, 6 de julho de 2012

Malandro maneiro







Conheci o Joel no botequim que ambos freqüentávamos em Copacabana, no final dos anos 70 ou princípios dos 80. Era um cara baixinho e magro, de uma robustez nordestina, sertaneja. Alagoano, era um típico malandro carioca. Malandro no melhor e mais carioca dos sentidos. Sabia levar a vida. Batalhava sempre e muito. Foi ajudante de pedreiro, apontador de obra, camelô, bicheiro, o diabo.
Fumava um, que comprava sempre na Cidade de Deus. A de Deus, como ele chamava. Também gostava de uma birita e nos tempos duros dividíamos os venenos que o João, sócio do botequim, arranjava pra gente. Esse veneno consistia numa mistura de muitas bebidas pouco pedidas: creme de ovos, vinho de catuaba, bíter, um vermute de marca suspeita e pra completar o copo grande, cachaça barata. Dava pra ficar doidão sem dar prejuízo ao nosso amigo do botequim. No fim do expediente, ajudávamos a lavar a casa e ainda comíamos os bifes de fígado e pedaços de galinha cozida que a clientela havia desprezado. Foi o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, como disse o escritor inglês.
Sua época de prosperidade foi quando vendia plaquê na Av. Copacabana. Como não tinha conta em banco quem guardava seus ganhos era o João. O bar era seu banco. Depois veio um tempo escuro. Joel continuava indo ao bar. Eu também. Nunca o vi reclamar da vida nem pôr a culpa de suas desditas em outro. Levava tudo muito filosoficamente.
 Joel falava o idioma do povo, e nele era mestre. Sua narrativa malandreada do mito bíblico de Sansão e Dalila, foi uma das coisas mais saborosas que já escutei.
Nossos papos, naquelas noites de botequim, não eram sobre a vida de um ou de outro, eram sobre a vida. Joel  não tinha nenhuma afetação nem pose de malandro. O cara não se dizia, era.
Jamais me falou de família, só de momentos bons da infância em Alagoas. Era um cara só. Pelo menos no Rio não contava com ninguém.
Tínhamos uma amizade de botequim, respeitosa e discreta. Nunca soube nada de sua vida amorosa e só conheci um endereço seu quando ele me apresentou a uma amiga com quem tive um caso. Ambos moravam no mesmo prédio no Bairro de Fátima. No meio dessa minha história com essa mulher, houve algo envolvendo bagulho que sujou a barra dele junto a alguém com quem dividia o apartamento ou algo assim. Não lembro bem.
Mesmo depois de já estar casado e não freqüentar mais o botequim de Copacabana, eu sempre encontrava o Joel pelas ruas do Rio. Escrevendo bicho. Quando nos víamos ele abria seu franco sorriso e saudava: _Grande Mineiro. Púnhamos os assuntos em dia e zombávamos da vida. A última vez que o vi foi em 92.
 Em plena era Collor, eu tinha minha banca de camelô próxima ao metrô da Glória. Eu chegava cedo para ver se vendia algo pra alguém indo pro trabalho e aí ficava até o sol se pôr. Na maioria dos dias eu só arrumava pro pão com mortadela e um limão pra limonada. Foram tempos duros.
Um dia vi passar o Joel e o chamei. Tivemos um de nossos papos, falamos daqueles dias bicudos e ele me contou que estava correndo atrás. Havia perdido o emprego numa banca de bicho pois com a queda do movimento o gerente do ponto resolveu despedir um dos escreventes. Joel se prontificou a deixar o trabalho pois o outro cara que escrevia tinha família e precisava mais do salário. Velho malandro maneiro.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A dignidade de Dilma.







Meses antes de se lançar candidata à presidência da república, Dilma Rousseff, então no comando da casa civil, foi convocada a prestar esclarecimentos numa comissão do senado. Num determinado momento do depoimento de Dilma, o senador Agripino Maia, que nunca havia passado recibo de idiota, talvez pela falta do que falar ou imputar à ministra, cometeu uma grosseria que veio junto com uma estupidez. Agripino disse a Dilma que ela tinha fama de mentirosa quando era interrogada pelos órgãos de repressão da ditadura.
A Ministra, que até então mantinha sua pose de durona e antipática, respondeu com a voz embargada ao senador, que parecia ignorar o que acontecia nos porões do sistema que ele defendeu e no qual atuou. Lembrou-lhe Dima, que diante da tortura o ato digno é mentir. Mentir para não entregar companheiros ao suplício. Mentir para não comprometer a causa pela qual se luta. Mentir para combater. Nesse momento Dilma se tornou mais humana pelo choro que a garganta conseguiu prender, pela lágrima furtiva que seus olhos deixaram escapar. O tiro saiu pela culatra e a provocação do latifundiário potiguar acabou por aproximar a ex-guerrilheira e futura candidata à presidência, do país pelo qual ela deu seus melhores anos no anonimato e na clandestinidade.
Depois veio a candidatura e a luta suja nos bastidores da campanha. Do lado petista houve até fogo amigo, vazamentos de estratégias e o diabo. Dentro do PT havia resistências ao seu nome para encabeçar a chapa que já era possível ver como vitoriosa, devido a grande aceitação popular do Presidente Lula.
Em plena campanha, Dilma descobre que está com câncer e inicia o tratamento. A gentalha da grande imprensa, começou a insinuar que a candidata estava usando da doença para angariar votos. Da insinuação passou-se a afirmação. Dilma não retrucou a vilania. Manteve-se impávida, dura, digna.
Durante os meses que antecederam as eleições, seu oponente fez o jogo mesquinho tão ao gosto dos que o apoiavam e muito distante da imagem de ex-líder estudantil e democrata autêntico com que ele enganara meio Brasil durante tantos anos. Ao aproximar-se a derrota anunciada, Serra deixou de lado os últimos escrúpulos e lançou mão do que havia em seu já minguado paiol de mentiras ainda não usadas e atacou Dilma como só um desesperado poderia fazer.
Pois bem, durante toda a campanha eleitoral Dilma não citou em nenhum momento sua prisão e tortura nos porões da ditadura, jamais revelou seu sofrimento físico e moral. Não mencionou seus padecimentos para trazer para si simpatias ou compaixão. Não fez de sua dor um degrau. Mais uma vez Dilma foi digna.
Hoje, com o início dos trabalhos da Comissão da verdade é que vamos aos poucos nos inteirando dos detalhes de sua prisão. Do dente perdido numa sessão de espancamento, do dia em que chorou temendo pela esterilidade que um forte sangramento, provocado por torturas, fazia supor. De sua via crucis por prisões de três estados.
Do inferno onde jogaram aquela menina, saiu a mulher que hoje governa o país.
Dilma não é carismática como seu antecessor. Não faz discursos empolgantes. Nem de longe é considerada simpática. Sem embargo, seu governo tem índices de aprovação que nem o freio puxado da economia faz baixar, pelo contrário.
Dilma é a prova viva de que o que importa é a dignidade.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Descobertas







Descobri um blog interessantíssimo. Pena que minha descoberta venha com  quase uma década de atraso.  O blog tem mais de 1500 membros e quase 5 milhões de visualizações. Já me aconteceu outras vezes; descobrir coisas que todos já sabiam. Não faz nem 5 anos que me dei conta de como é bonita a voz de Monarco e fiquei fã de Luis Carlos da Vila apenas poucos anos antes de sua morte. Paciência.
No caso do blog, ando contentíssimo com a “novidade”. Trata-se do “Conteúdo livre”. Lá encontrei os caras que sempre gostei de ler e que são o melhor exemplo de como escrever crônicas. Gosto de gênero desde a adolescência ou antes dela. No meu livro de português do ginásio, “Português através de textos” de Magda Soares, conheci Ruben Braga e o Drummond cronista antes de conhecer o Drummond poeta.  No “Conteúdo livre” reencontrei os craques Cony, Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro e também fiz “descobertas”.
Caetano Veloso tem ótimas tiradas e Fernanda Torres, de quem só encontrei um texto, me pareceu divina, escrevendo. Nesse caso, não sei se a paixão que nutro pela atriz interferiu no julgamento, acho que não. Tem também o Rui Castro de quem eu já lera alguns livros e crônicas mas antipatizava bastante com ele devido a algumas entrevistas que concedeu. Creio que é seu flamenguismo e ipanemismo exacerbado o que me incomoda no autor de “Estrela solitária”. Mas deixa pra lá.
Uma das crônicas do Rui Castro que me chamou a atenção tinha por título “Farejando Watergate”. Ele nos conta que trabalhou na “Manchete” com um cara que sabia tudo. O R. Magalhães Jr.
O acadêmico, além de ter ampla cultura, era homem antenado e de memória invulgar. Num determinado momento do convívio profissional de ambos, surgiu na redação da revista uma dúvida sobre o tema de Watergate. Rui Castro foi perguntar a R. Magalhães Jr, a quem sempre recorria, sobre o assunto que todos pareciam desconhecer. O homem ficou embatucado e segundo Rui Castro, também Art Buchwald, de quem traduzia as crônicas para a revista e suscitara o tema, não tinha uma noção muito precisa de que se tratava mas farejara ali algum rato, segundo expressão do cronista brasileiro.
Em outro texto, desta vez assinado pelo bamba Carlos Heitor Cony, há uma interessante história sobre a posse de Tancredo Neves. 
Na véspera do histórico dia, Cony trabalhava no lançamento de uma nova publicação das empresas Bloch. Toda a equipe já estava em Brasília para a cobertura da posse. Lá pelas 3 da tarde, Cony recebe um telefonema informando-lhe que não haveria posse. O telefonema feminino era anônimo. Cony alertou seu chefe da sucursal em Brasília, Alexandre Garcia e este lhe garantiu que tudo ia em ordem e que Cony estava mal informado como sempre. Bem, o resto é história.
Esses dois exemplos nos dão uma amostra de como o jornalismo brasileiro pode se parecer comigo; faz descobertas com incrível atraso. Mesmo hoje, com o advento da internet, jornalistas e afins continuam pagando micos e barrigas.
Outro dia lendo nesse mesmo blog que descobri recentemente, a coluna de Élio Gaspari fui surpreendido por dois fatos. Em primeiro lugar não supunha que alguém da estirpe de Gaspari fosse apoiar o golpe no Paraguai utilizando argumentos tão frágeis. E se isso fora pouco, o fez desconhecendo que o Wikileaks já divulgara informações secretas do governo americano dando conta de que este já sabia da preparação do golpe desde 2009. Gaspari, em seu artigo, elogiava justamente a postura da diplomacia americana no episódio chamando-a de profissional e comparando-a com a nossa que, segundo o jornalista, estava se metendo numa estudantada.
 Segundo descobri ontem, a correspondência secreta trocada entre diplomatas americanos lotados no Paraguai e o Departamento de Estado, foi publicada no Wikileaks em 30 de agosto de 2011. Parece que Gaspari e eu precisamos fazer nossas descobertas um pouco mais cedo.





terça-feira, 3 de julho de 2012

Crente que legisla.







Há pouco tempo atrás, eu assisti uma reportagem que falava de leis estaduais que haviam sido consideradas inconstitucionais pelo Supremo. Não me lembro de todos os números mas os que guardei na memória são bem eloqüentes. De sete leis aprovadas pela Assembléia Legislativa do Rio, seis foram barradas pelo STF. No caso de Santa Catarina a decretação de inconstitucionalidade dos diplomas legislativos estaduais foi de 100%. Seis leis aprovadas na assembléia estadual, seis leis consideradas nulas por afrontar a Constituição Federal. Aqui estamos falando apenas das leis cuja constitucionalidade foi contestada junto ao Supremo. Muitas outras vigoram em total desacordo com a Carta Magna sem que sua legitimidade seja argüida.
Ora, a principal atribuição dos legisladores é legislar. Criar um ordenamento para a sociedade. Para exercer esse labor contam com assessoria jurídica que lhes é oferecida pelas casas legislativas além de poderem contratar, com verba de gabinete, outros auxiliares. Ainda assim, nossos legisladores conseguem confeccionar verdadeiros monstrengos jurídicos.
No âmbito municipal chega-se às raias do absurdo. É que temos visto nas leis que tornam obrigatória a reza ou leitura de trechos bíblicos nas escolas. Há um grande número dessas leis vigorando em várias cidades brasileiras. Embora facilmente refutáveis quanto à sua constitucionalidade, essas leis; enquanto vigoram, jogam o mundo escolar numa polêmica que deveria estar restrita aos templos e à casa de cada aluno. Abundam notícias de discriminação de estudantes, de disputas e até de assédio moral àqueles que se recusam a participar da encenação religiosa.
Os autores dessas leis são, quase que em sua totalidade, legisladores adeptos de seitas pentecostais ou neo-pentecostais. Muitos deles também pastores de suas seitas. A rejeição da sociedade ou a ação do ministério público que tenta impedir a validade de tais éditos, não são entraves para que a cada tanto outra lei do mesmo teor seja votada e aprovada por Câmaras Municipais.
Se o fanatismo religioso dos evangélicos explica esse tipo de ação nas Câmaras Municipais, no Congresso Nacional a bancada evangélica tende a ser mais prática. É o que indica a proposta de lei do Deputado Eduardo Valverde (falecido ano passado) que propõe subsídio de energia elétrica para templos religiosos. O relator da matéria é o Deputado Antônio Bulhões ligado à Igreja Universal. O projeto de lei já passou pela Comissão de Constituição e Justiça e foi aprovado por esta. Tramita com celeridade e agora será encaminhado para outras comissões da casa.
Outro projeto que tenta ir diretamente ao bolso do trabalhador brasileiro sem passar pela oferta nem pelo dízimo, é de autoria do Deputado Aguinaldo Ribeiro e propõe que os recursos do fundo de garantia possam ser usados para a construção de templos.
Assim como essas duas aberrações que querem virar leis, outra iniciativa da bancada crente tenta modificar profundamente a constituição dando ao Congresso um papel de revisor das decisões do Supremo Tribunal Federal. Isso, claro, tem a ver com as posições tomadas pela corte suprema com relação à união estável de pessoas do mesmo sexo, a garantia da legalidade da marcha da maconha e a autorização para o aborto de anencéfalos.
Com a vaselina de Crivela e os coices de Magno Malta, os evangélicos vão avançando na descaracterização do estado laico e na imposição de suas crenças medievais. Conseguem trazer para discussão temas já soterrados pelo ordenamento jurídico ou pela prática social.
No último censo demográfico ficou patente o crescimento das seitas pentecostais no Brasil. Na verdade, não houve crescimento e sim explosão. Há quem já preveja para um futuro nem tão distante a mudança de religião hegemônica no país. Fato raro no mundo moderno.
Não há maneira de evitar o avanço dos que prometem curas, milagres e prosperidade já. Os políticos no intuito de angariar votos entre os pentecostais e neo-pentecostais, de tudo fazem para agradá-los. 
Quando era prefeito de Curitiba, Beto Richa sancionou lei que incluiu a marcha para Jesus no calendário oficial de eventos do município. Como governador do Paraná tornou o dia da marcha, evento estadual. Aqui, Richa entra apenas como exemplo pois por toda parte se dá o mesmo. Alkimim foi à inauguração do templo de Waldemiro em São Paulo e orou com toda a família. O homem da Opus Dei não se acanhou.
No Rio a lei que torna obrigatório o ensino religioso vem nessa mesma toada: agradar a crentalhada que é quem mais pugna por encher de palavrório místico a cabeça dos meninos antes que eles comecem a pensar.
Mas o mais grave abuso da lei, pois a desrespeita, está na compra e venda de horários nas TVs para proselitismo religioso. A Presidência da República parece que já se mobiliza para pôr freios ao descumprimento das normas que regem o serviço de radiodifusão por parte das concessionárias. Imagino que a matéria seja discutida depois das eleições, pelo congresso. Antes do pleito municipal, nem pensar.