domingo, 19 de agosto de 2012

Tragédia anunciada







Garoto, muitas vezes deixei de ir ao estádio por falta de grana pro ingresso. Aos 15, 16 anos eu convivia com amigos de classe média que iam ao campo de carro com seus pais. Carona até que rolava, grana não. Mas havia dias que a rapaziada resolvia ir ao Mineirão sem um mango no bolso. Pegávamos carona na AV. do Contorno com outros torcedores e nas bilheterias do estádio pedíamos a quem estava na fila pra comprar ingressos, umas moedinhas para inteirar a entrada da geral. Se havia tempo, aproveitávamos para arranjar o do cachorro quente e o da coca cola. Não sentíamos que estivéssemos mendigando, apenas sendo espertos.
Estávamos nos bons tempos de estádio cheio todo fim de semana, não importava o jogo, e a geral era baratinha. No espaço democrático, íamos todos juntos, atleticanos e cruzeirenses. Atleticanos, éramos o Xandico, o Ramé, o Dimas, o Marcos e eu. Cruzeirenses, o Aníbal e o Maurinho.
Mas havia umas regras para a entrada no Mineirão. Crianças menores de 7 anos não podiam entrar de maneira alguma e os que contavam entre 7 e 12 anos, só acompanhadas por adultos. Lembro de uma vez que tentamos dar uma força pra uns moleques pequenos entrarem conosco. Não deu. Não éramos adultos.
Na época eu pensava que era uma regra rigorosa demais. Punha culpa no autoritarismo da ditadura. Hoje eu sei que essas regras estavam certíssimas, mas parece que só eu penso assim.
A cada domingo, antes e durante a transmissão dos jogos pela TV, são mostradas muitas crianças e até bebês de colo nas arquibancadas dos estádios. As câmeras as procuram e, pondo legendas nas imagens, nossos locutores esportivos aproveitam para balbuciar frases que vão da pieguice à imbecilidade. Fala-se do futuro torcedor, da presença da família nos estádios e ai que lindo. Não é possível que essa gente não tenha a menor noção das coisas. Parece que dão folga ao cérebro nos fins de semana. 
Lembro-me bem que quando meu filho estava por nascer, minha mulher e eu líamos tudo que nos caía nas mãos sobre gravidez, bebês, crianças e etc. Creio ter visto o mesmo entre outros pais de primeira viagem e uma das coisas que gravei foi sobre a audição dos bebês. Pelo que me lembro, eles têm uma audição perfeita. Ao contrário do que ocorre com a visão, por exemplo, a criança já nasce com seu sistema auditivo funcionando perfeitamente. Eles escutam melhor que os adultos.
Num estádio de futebol com foguetórios, charangas e cantos da torcida, o bebê absorve o som que mesmo para nós adultos seria insuportável não fosse por nossa paixão pelo time de coração. Mas ao contrário de nós, os bebês não têm paixão por time nenhum e sofrem gratuitamente.
Mesmo para uma criança que já deixou o colo e a teta, que tenha 1, 2 ou 3 anos, que graça tem estar num lugar quente, ruidoso e sem brinquedos?  Acho que nenhuma. Elas só estão lá pela estupidez dos pais que as fantasiam com a camisa do time para que os idiotas da narração esportiva digam que lá está a pequena vascaína ou o pequeno cruzeirense. Esses pais, que deveriam ser admoestados pelo órgão de defesa das crianças e adolescentes, não pensam que uma simples correria nas arquibancadas poderia por em risco a vida de seus filhos, que um sinalizador é tóxico, que há entre os torcedores os irascíveis e os brutais.
Que existem pais totalmente irresponsáveis, todos sabemos. Mas em uma emissora de televisão há muitos chefes, diretores, superintendentes, editores e o escambau. Será que nenhum engravatado desses tem a menor responsabilidade? O menor discernimento? Ou seus poucos neurônios só conseguem entrar em atividade quando se trata de índices de audiência e faturamento comercial? Parece que é isso. Caso contrário haveria, ao menos, alguma orientação para que as imagens com torcedores levando seus bebês não fossem mostradas para se evitar a repetição, a imitação. O que ocorre é justamente o contrário. Deve haver uma ordem superior para que operadores de câmeras e diretores de imagem façam da estupidez paterna uma forma de atrativo.
Caberia então aos órgãos governamentais estabelecer algum critério para o ingresso de crianças nos estádios. Como está, me parece que é a crônica da tragédia anunciada.


sábado, 18 de agosto de 2012

Nelson Rodrigues







A proximidade do centenário de Nelson Rodrigues inunda os meios de comunicação com esse autor e personagem que é um dos mais ricos de nossa literatura.
Livros que analisam sua obra são lançados. Na televisão,  programas especiais são exibidos. Nelson está sendo lembrado como merece. Ou não.
Acontece que muito do que se diz sobre Nelson Rodrigues omite o principal. A culpa é da fragmentação das análises. Não se pode falar da obra teatral de Nelson Rodrigues sem lembrar de sua imensa contribuição como cronista, pois se no seu teatro “seus personagens pecam para que nós não pequemos” como definiu o próprio autor, na crônica, Nelson se expõe como o moralista que sempre foi. Moralista no mais amplo e melhor sentido.
É na crônica rodrigueana que encontramos o homem que irá modelar os personagens teatrais, romanescos, folhetinescos que durante mais de meio século vêm mexendo com o cérebro e as tripas dos brasileiros. Nelson talvez tenha sido o autor que mais se mostrou ao público como ser humano. Longe da torre de marfim, ele foi um homem que escrevia.
Quem se perde nos aspectos formais de sua obra, perde o que há de melhor em Nelson Rodrigues.
Num desses programas de TV que tentaram homenageá-lo, umas pessoas que pareciam muito entendidas davam suas opiniões sobre o teatro de Nelson Rodrigues. Mesmo com o estilo fragmentário do programa, com muitos cortes desnecessários, deu para entender a opinião que uma senhora tinha sobre o autor. Dizia ela que, se vivesse, Nelson teria a faca e o queijo na mão com tantos assassinatos mostrados ao vivo, estupros e outras coisas mais. “Ele nadaria de braçada” concluiu. Ora, essa senhora estava confundindo Nelson Rodrigues com Datena. Estava repisando a opinião do público burguês e da censura que viam em Nelson Rodrigues um tarado, um pervertido, um lúbrico. 
Se esta “especialista” tivesse se debruçado sobre a crônica de Nelson Rodrigues, fonte fundamental para entender sua obra teatral, ela saberia que o autor de “Vestido de noiva”, longe de estar nadando de braçada, estaria sofrendo. Não que ele fosse um otimista que acreditasse na redenção do ser humano nem nada parecido, mas Nelson via os monstros que nos habitam com terror. Conviver com tais monstros não significa absolve-los ou redimi-los. Significa apenas reconhece-los.
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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Nascidos em agosto







Semana passada, fiz aniversário e mesmo avesso aos estrangeirismos, confesso que preferiria usar a forma castelhana de comunicar isso:_La semana pasada, cumpli años. A palavra aniversário me trás à mente balões, chapeuzinhos pontudos, bolo e aqueles “eh” que costumam acompanhar a horrível musiquinha  cantada por desafinado coro diante de um constrangido aniversariante.
Talvez eu devesse consultar um dicionário etimológico para desencanar do termo “aniversário”. Não vou fazê-lo. Fiz 55 anos e pretendo ficar com meus conceitos obsoletos, não tenho a menor vontade de reinventar-me, de desdizer-me, de desculpar-me com a vida.
Dias atrás, Caetano Veloso completou 70 anos mas disse ter, na verdade, 15, talvez 14 anos e que o resto eram sinais exteriores que nada lhe diziam respeito. Infelizmente não posso dizer o mesmo.
Se não chego à definição de Nelson Rodrigues, que dizia que já nascera velho, com guarda-chuvas e galochas, eu tive sempre uma ansiedade da vida adulta quando era adolescente, e na juventude já vislumbrava a velhice. Claro que entre os horrores que eu via na terrível idade, eu não incluía os martírios das doenças nem a infâmia do serviço público de saúde. Apenas achava que a vida dos velhos era uma merda Eu estava certo.
Antes não. Na adolescência eu via os adultos como que dotados de conhecimentos e outras coisas que havia de lutar para conseguir. Ao alcançar a idade da razão o único sentimento que restou do mundo adulto foi uma enorme decepção. Você acha que exagero? Pois veja outro aniversariante do mês, Fernando Collor de Merda.
Esse ser das Alagoas é um pouco mais velho que eu. Já foi presidente do Brasil, democraticamente eleito. Parece que ninguém reparou que o sujeito era, e continua sendo, um dos maiores canastrões da história desse país. Collor interpreta mal o que para ele é o ideal de adulto: voz impostada, gravata importada. Nada mais. Um vazio imenso de idéias. Um mamolengo, uma farsa. E sequer posso dizer que ele é infantilizado pois a infância não comporta as imposturas que esse homúnculo perpetra. Collor é uma espécie de Peter Pan às avessas. Sem sair da adolescência problemática, se crê homem, se vê adulto. Sua burrice, ignorância e falta de cultura, são tão patentes que só mesmo um completo imbecil não se dá conta. Ele, por exemplo.  O sujeito vive num limbo, num nada. Ele é o Ken da Barbie mas acha que é o Buzz Lightyear.                   .
Mas a vida adulta e a velhice também são moradia de tipos mais estranhos ainda.Veja o caso do Gal. Geisel que faria nesse mês de agosto 105 anos se a natureza permitisse tal desatino.
Numa das poucas entrevistas concedidas em seus 6 anos de mandato, o velho general admitiu o uso da tortura e viu justas razões para isso. Talvez os muitos anos de caserna, com seus rituais ridículos e hierarquia idem, tenham feito danos nunca reparados no cérebro do general calvinista. Até mesmo o infame Médici negava a tortura nos cárceres políticos brasileiros. Era a maldade envergonhada, ciente de sua aberração. Geisel não só admitia, como preconizava o ato abjeto.
O homem que não via a dor dos corpos jovens destroçados pela tortura, hoje é encarado pelos revisionistas apenas como alguém que deu origem à abertura política. Deveríamos cantar loas ao velho que tirou o bode da sala segundo esses preclaros historiadores de gabinete.Geisel seria quase um redentor que nos libertou da ditadura. Não, Geisel não foi isso. Geisel foi a maldade de velho em pessoa. Ele achava certo torturar meninos em nome da luta anticomunista, da família, dos valores cristãos. Sei lá em nome de que idiotice arcaica.
Geisel não envelheceu. Um dia despertou de seu sono aquartelado e viu-se enrugado com uma faixa presidencial no peito. Surpreendido pela passagem dos anos que não vivera, resolveu brincar de guerra e fazer valer todas as medalhas que carregava por nada. Na falta de inimigo externo resolveu convalidar a tortura de militantes de esquerda.
Entre os nascidos em agosto também há os que viveram cada dia de uma longa existência para deixar um testemunho de beleza e conhecimento dos homens.
Jorge Amado, que nasceu num 10 de agosto e morreu no dia 6 desse mês, foi o escritor mais popular e querido do país. Foi, acima de tudo, sincero. Sincero no seu amor pelo povo simples da Bahia, sincero quando soube dos crimes do stalinismo. Sincero quando escreveu “Os subterrâneos da liberdade”, sincero quando renegou o livro.
Jorge é sub-apreciado pela crítica nacional tão envergonhada de ser nacional. Os amantes de Proust e Joyce jamais entenderam do que trata Jorge em sua obra. Perdem-se em análises formais e não dão ao escritor bahiano os créditos que ele merece por ter sido o escriba da gente pobre da Bahia, tradutor de suas lutas e grandezas, revelador de sua religião e sensualidade. Jorge não passou pela vida, viveu-a e contou-a. Contou-a como poucos o fizeram.
Mas há quem, em breves anos, conseguiu atravessar as etapas da vida sem querer ser a eterna adolescente como Caetano nem atingir a velhice da alma como Geisel.
Clara Nunes estaria completando 70 anos nesse 12 de agosto caso a morte não viesse alcança-la aos 40 anos. Clara, a mineira guerreira, viveu a vida com seus dissabores e alegrias. Sofreu, lutou, venceu e morreu com a galhardia dos grandes. É impossível pensar em Clara sem lembrar o codinome que seu marido Paulo César Pinheiro e João Nogueira eternizaram em um lindo samba.
Clara foi uma dessas pessoas de verdade que cantou samba verdadeiro para aqueles que vivem vidas verdadeiras.  Eparrei Oyá.




terça-feira, 14 de agosto de 2012

A greve nas universidades







Não posso falar da greve dos professores universitários nem de outros funcionários públicos federais. Nunca vi um contracheque de professor nem de outra categoria que agora está em greve.
Conheço sim, os contracheques dos funcionários do Mac Donald pois esses foram exibidos em uma comissão da Câmara dos Deputados, poucos dias atrás. A remuneração mensal recebida pelos trabalhadores da rede mundial de comida rápida, variava entre os 170 e 300 e poucos reais mensais. A empresa está sendo acusada de práticas que se encaixariam no conceito de trabalho escravo.
Na última greve dos professores do ensino fundamental, também pude ver, na televisão e no face book, que seus contracheques exibiam baixíssimos números que mesmo se dobrados seguiriam sendo baixos.
No caso dos professores universitários, não vi nenhuma exibição pública de seus salários. Claro que bastaria pesquisar nos sítios de transparência do governo para conhecer tais números. Não é o caso.
O que tenho visto nas redes sociais são postagens que remetem aos salários dos políticos. Sem citar números, os professores e seus simpatizantes falam dos proventos exorbitantes recebidos por aqueles. Não cabe, a meu ver, nenhuma comparação, afinal todos sabemos dos despautérios praticados por essa gente que determina a própria remuneração.
Outro tipo de postagem que tem aparecido com freqüência, apenas demonstra oposição ao governo Dilma. Numa delas está Hitler lendo um jornal e dizendo que Dilma é uma das “minha” (as aspas são minhas). Me custa crer que algum professor possa cometer tal erro de concordância e ser tão leviano com relação à nossa Presidenta. Pensando bem, pode até ser. Hoje em dia chamar alguém de fascista ou de nazista ou mesmo dizer que no Brasil houve uma ditabranda e não uma ditadura, é comum. A vulgarização desses termos aumenta proporcionalmente ao tempo transcorrido entre os fatos e nossos dias.
Mas é só o que posso comentar, que a remuneração dos professores universitários está sendo usada pela oposição de direita sem discurso e também pela oposição de esquerda que busca apoio nos sindicatos que foram tão importantes para a ascensão do PT e que agora se sentem traídos pelo governo.
Se é justo ou não o que se paga aos professores ainda não sei. O que sei é que a categoria não expõe publicamente seus rendimentos, talvez por medo de não encontrar na opinião pública nenhum respaldo às suas reivindicações. Vivemos num país de baixos salários, no qual seus "doutores" não suportam que o fruto de seu trabalho seja equiparado ao de um soldador ou um operador de máquinas pesadas.
Por enquanto não sou nem contra nem a favor da greve. Vou continuar esperando que os professores me digam quanto ganham para poder julgar se é justa ou não sua remuneração. O mesmo vale para as outras categorias em greve. Como já disse, tampouco vou pesquisar o tema nos órgãos governamentais. Vou ficar aguardando a honestidade ideológica dos professores.

sábado, 11 de agosto de 2012

Eu sou favela







Noca da Portela, em um samba intitulado “Eu sou favela” que teve gravação do saudoso Bezerra da Silva, diz no estribilho:_“a favela é um problema social”. Eu adoro o samba mas peço venia ao bamba da azul e branco de Madureira para discordar.
Não acho que a favela seja problema de nenhuma espécie. Ao contrário, vejo na favela uma solução. Uma solução de moradia urdida pelo povo. Solução que o poder público sempre negou aos mais pobres.
Desde a volta dos soldados que foram combater o Conselheiro em Canudos, esses aglomerados urbanos tornaram-se a solução dos desvalidos. Aqueles pobres que foram dizimar outros pobres em nome da república e dos que sempre odiaram ver o povo tomando as rédeas de seu destino, ao chegarem ao Rio foram para o ministério da guerra receber o soldo prometido e se viram diante do descaso das altas patentes. Sem ter recebido o que lhes era devido e sem ter para onde ir, ficaram sobrevivendo nos morros próximos ao ministério e dadas às péssimas condições de vida que tinham, chamaram aquele tipo de comunidade de “favela” em referência à planta espinhosa que tem esse nome e é tão abundante no sertão.
Quando Pereira Passos resolveu melhorar o aspecto da Capital Federal, dotando a cidade de largas e belas avenidas, jamais lhe passou pela cabeça conseguir de ante-mão moradia para os que habitavam as cabeças de porco, cortiços e as casas de cômodos que existiam no centro da cidade. Desalojou toda a população sem se importar que rumo tomaria aquela gente. Foi nos morros que a população desalojada foi morar criando novas favelas. É como diz Bezerra em outro samba antológico intitilado “Aqueles morros”: _”Antes aqueles morros não tinham nome, foi pra lá o elemento homem, fazendo barraco, batuque e festinha. Nasceu Mangueira, Salgueiro, São Carlos e Cachoeirinha...”
Com a migração que cresceu nos anos 50 e 60 devido à seca no nordeste e a outros fatores, mais e mais favelas foram sendo erguidas sob o olhar desdenhoso do poder público que nada fez para melhorar a condição de moradia de quem já havia feito a metade do serviço com o próprio suor.
Hoje, para quem vai à Rocinha, à Mangueira ou ao Morro dos Prazeres, fica difícil acreditar que tudo o que ali está seja fruto do espírito criativo dos próprios moradores. O pouco que o poder público ali investiu foi sobre uma realidade criada pelo engenho popular.
Aliás, o único órgão do poder público que chega às favelas é a polícia, e não para garantir a paz dos que lá moram, senão para implantar o terror. Logo nas primeiras operações que a polícia carioca fez para desalojar supostos traficantes e implantar as tais UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), esse terror se fez presente, a polícia tinha autorização para entrar em qualquer residência e revista-la num flagrante desrespeito aos direitos do cidadão que estão garantidos na constituição e nos códices infra-constitucionais. De costas para a janela e olho grudado na televisão dos Marinho, a classe média carioca aplaudia a repressão.
Essa mesma classe média fazia chacota em 1983 quando Brizola falou em construir um plano inclinado no Morro Santa Marta. Hoje, o teleférico da Penha só não é motivo de escárnio por estar longe dos olhares da zona sul e por ser um modelo importado da Colômbia.
Mesmo com as polícias pacificadoras cometendo seus crimes e sendo aplaudidas até mesmo pela Presidenta Dilma que vê na instauração dessas forças repressivas um exemplo a ser seguido por todo o país, a favela resiste com seu modo de vida, seus costumes, sua independência criadora.
Pra terminar eu vou citar dois casos que dão o tom da ação do poder público com relação às favelas.
Antes da tragédia que vitimou os moradores do Morro do Bumba em Niterói, a associação de moradores já havia mandado fazer estudos de engenharia e apresentado projeto à prefeitura pedindo a construção de um muro de arrimo para prevenir deslizamentos. Nada foi feito. O custo da obra solicitada era inferior ao de um das dezenas de pilotis que servem de suporte para um elevado destinado a melhorar as condições viárias das áreas ricas de Niterói.
Outro caso exemplar aconteceu antes dos Jogos Panamericanos do Rio.
Agentes da prefeitura andaram por favelas próximas à Barra da Tijuca pintando nas paredes externas das residências estranhos símbolos que pareciam significar quais residências estavam em local de risco ou algo parecido. Uma espécie de aval de remoção.
Um morador, que vi na televisão, sintetizou o caso: _Nosso problema não é estar em zona de risco, é estar em zona de ricos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Técnico estrangeiro? Pra que?







Você pode achar que eu implico com o Juca Kfouri. Muito pelo contrário, muito pelo contrário. Tenho na figura do Turco um exemplo de retidão profissional, de jornalista arguto e pouco afeito às pompas do mundo. O cara não é adepto do jornalismo subserviente, nem faz composições oportunistas com os poderosos do futebol. É homem de opinião e mostra a cara.
Mas vez por outra Juca Kfouri me deixa perplexo. Não em sua última coluna ou na penúltima, mas muitas vezes ele vem defendendo a contratação de um técnico estrangeiro para nossa seleção. Ele fala “estrangeiro”, não esclarece se o sujeito deva ser Jordaniano ou Japonês, Uruguaio ou Afegão. Parece que o único requisito é não ter nascido nessa terra descoberta por Cabral. E não só para a seleção, Juca quer ver técnicos gringos também nos clubes. Creio que o decano jornalista não anda prestando a devida atenção aos fatos que deveriam ser a matéria prima de seu ofício.
Se disse que não era na sua última coluna nem na penúltima é porque nessas, Juca Kfouri deu-se ao trabalho de nos surpreender com um novo estilo. Para melhor se comunicar com você e comigo, o Turco resolveu chamar-nos de raro leitor, rara leitora. Fica até bonito estilisticamente, quase simpático. Mas não é verdade, é falso, é postiço. Juca Kfouri é um dos jornalistas esportivos mais lidos no país por quem realmente se interessa por futebol e não por fofocas esportivas.
Quando eu trato você por “você”, é que muitas vezes só conto com sua benevolência para dividir comigo uns pensamentos, umas divagações. Não é questão de estilo, é apenas a constatação de que estou conversando com uns poucos, uns raros. Mas não importa o tamanho do público e sim sua qualidade. E aqui, bajulo você para que me siga num raciocínio que começa a parecer pueril em comparação a todas as vozes que se levantam para afirmar o contrário.
A tese do Juca, de que precisamos de técnicos estrangeiros, também é defendida por muitos de seus colegas de profissão. Tostão é um deles. Nada me parece mais absurdo. Senão, vamos aos fatos: Das 19 Copas disputadas, a Seleção Brasileira ficou entre as 4 melhores por 10 vezes, 7 vezes entre as 2 melhores, 5 vezes campeã. Sempre com técnicos brasileiros. A última conquista foi em 2002, dez anos atrás, o que não é nenhuma eternidade, foram só 2 Copas. Nesse ínterim ganhamos 2 Copas das Confederações, 2 Copas América e uma medalha olímpica. Sempre com técnicos brasileiros.
Se quisermos agregar mais alguns fatos que andam esquecidos por Juca Kfouri, podemos citar que a seleção portuguesa teve seus 2 melhores desempenhos em Copas quando foi comandada por técnicos brasileiros, o mesmo aconteceu com a seleção peruana. A única vez que a Jamaica foi à Copa seu técnico era René Simões. Parreira é, ao lado de Bora Milutinovic, o técnico que mais Copas disputou, com a vantagem de ter ganho uma delas.
Amanhã disputaremos a final do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos. Não sei se ganharemos ou não. Sei, sim, que uma medalha está garantida e que a Seleção foi uma vez mais comandada por um técnico brasileiro. Ficaram fora a seleção da Espanha, tão citada por comentaristas brasileiros como o supra sumo do futebol e também a seleção uruguaia e seu técnico tão endeusado pelo 4° lugar que conquistou na África do Sul e por ter sido campeão da Copa América. Pelo caminho também ficaram os donos da casa, e a Argentina sequer se classificou para o torneio.
Tendo por comandante um técnico brasileiro, a Seleção já botou uma medalha no peito. Amanhã saberemos de que metal.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Economia de tomates







Eu não entendo nada de economia, ou melhor, o que entendo de economia é que o feijão está caro pra burro, o açúcar até que baixou do ano passado pra cá e o arroz anda com preços decentes. O grande problema é o tomate que ultrapassou os 5 reais o quilo. Adeus macarronada.
A energia elétrica que consumimos, é das mais caras do mundo, assim como o telefone e o acesso à internet. Na Argentina a conta de luz é bimestral e lá, paga-se por dois meses de consumo o mesmo que pagamos aqui em um mês. Por que? Não sei.
Tampouco entendo o preço da gasolina, pois mesmo que estejamos importando  derivados, nossos preços são muito superiores aos praticados em outros países que fazem o mesmo, como a Argentina.
 Economistas, que na oposição gritavam contra esse estado de coisas, agora, no poder, nos dão explicações singelas para o fato. Explicações singelas demais.
Outros, que antes geriam as finanças públicas, se mostram indignados na oposição. Mexe e vira, vemos nos jornais da Globo News, Maílsons e Loyolas afetando grande preocupação pela gestão do governo atual no que tange à macro-economia. Claro que na telinha dos Marinho só aprece na legenda que esses senhores são economistas mas não falam dos interesses que representam por serem diretores de empresas, conselheiros de multinacionais ou, simplesmente, especuladores.
Do lado do poder, vejo, atônito, pessoas que antes pugnavam pelas privatizações do governo de FHC, avaliarem toda e qualquer medida do governo como positiva e coerente. Estarão certos? Não sei, mas coerentes não.
Quanto à nossa política monetária, nossa reservas cambiais, nosso superávit primário, eu não manjo nada. Sei sim, que me causa grande antipatia ver o Ministro Mantega, com suas mãozinhas delicadas, seu sotaque ítalo-gay e sua voz de falsete, ir à televisão e anunciar um aumento absurdo no preço do cigarro e, cinicamente, dizer que ninguém iria reclamar disso. Refere-se, creio, a questões de saúde. Mas o Ministro Mantega não é ministro da saúde e me causa espanto ver a sanha arrecadadora querer posar de Dr. Kildare.
 Existe na economia algumas coisas realmente incompreensíveis para mim. Refiro-me às taxas de juros. Bastou a Presidenta ordenar que as instituições financeiras estatais baixassem as taxas da agiotagem, para que tivéssemos uma baixa generalizada, ainda que a contra gosto dos usurários do sistema bancário privado. Então era só isso? Uma canetada presidencial e o problema está resolvido?  Então por que não fizeram antes? E por que não baixam mais? Claro que não faltaram as críticas contra a medida. Nos tele-jornais, jornalistas econômicos, Maílsons e Loyolas franziram os sobrolhos e tentaram fazer sombrios prognósticos sobre a medida. Seus patrões banqueiros, puseram em suas bocas uma série de argumentos que mais pareciam os documentários sobre o fim do mundo que passam no canal Discovery.
Dado à minha falta de conhecimento na matéria, prefiro não dar opiniões sobre o desempenho do governo no gerenciamento da economia. Mas não tenho de suportar um Ministro que faz subir o preço do cigarro entre risotas, nem posso pretender fazer minha macarronada com os tomates custando mais de 5 reais. A sazonalidade explica os tomates, a insensibilidade explica o Ministro.
Pensar que alguém vá deixar de fumar devido aos altos preços do cigarro é de uma cretinice sem fim. Eu não creio que Mantega seja um cretino, acho que o aumento extorsivo do tabaco tem como meta engordar a arrecadação esfolando milhões de brasileiros. O cigarro é o produto sobre o qual mais incidem impostos.
Parece-me que a lógica econômica do Ministro Mantega, é aproveitar-se do acesso ao consumo que muitas famílias tiveram, e esfola-las com impostos sobre produtos de seu uso cotidiano. Por que não aumentar impostos sobre produtos de luxo importados? Porque isso representaria pouco volume de arrecadação tendo em vista o pequeno número de milionários comparando-se ao imenso contingente de pessoas que vivem nas classes inferiores. O aumento no preço dos cigarros, que não voltará atrás como o do sazonal tomate, faz estragos no orçamento doméstico dos pobres. Seria mais justo extrair mais impostos no caviar, nos automóveis de luxo, no uísque nacional da Escócia. Mais quem falou que economia é para fazer justiça?