quarta-feira, 30 de abril de 2014

As voltas que a banana dá



Mais uma vez, pela enésima vez, um racista que freqüenta  estádios de futebol atirou uma banana contra um jogador. E o que fez o jogador atingido pelo ato infame? Retirou-se do gramado? Exortou seus companheiros a segui-lo? Deu uma entrevista coletiva para protestar publicamente? Não. Daniel Alves, o atleta em questão, comeu a banana. Foi um ato tolo, ingênuo, mas que desencadeou uma série de torpezas mundo afora.
O jornal El País, da Espanha, estampou em sua edição eletrônica que Daniel Alves  havia enfrentado o racismo. Se El País tivesse prestado atenção à entrevista que o jogador concedeu aos meios de comunicação espanhóis (incluindo El Pais) após o jogo, saberia que o jogador não enfrentou nada, pelo contrário. Daniel Alves disse que depois de 4 ou 5 anos na Espanha já se acostumou a isso e não há nada que se possa fazer a respeito. Que o negócio é rir desse tipo de acontecimento.
O Villareal, clube dono da cancha onde ocorreu o episódio, divulgou nota oficial na qual afirma que o torcedor racista havia sido identificado e estava proibido de freqüentar aquela praça esportiva para todo o sempre. Bastou a notinha do clube, que abriga a torcida “Coletivo Aldeano”, conhecida por sua ideologia nazista, para que a imprensa brasileira e os comentadores das redes sociais e sítios informativos ligassem o botão da submissão cultural e seu próprio racismo e começassem a falar da superioridade dos europeus que, diferente de nós, punem exemplarmente esses atos de racismo e xenofobia. Ora, nada mais falso, nada mais falacioso.
Ainda que fôssemos crer que o clube espanhol fale sério, como seria cumprida a punição? Através de fotos do infrator espalhadas pelas bilheterias e acessos do estádio alertando porteiros e vigilantes?  Com a identificação biométrica? Quem pode atestar que tal punição será cumprida? Claro, é só um jogo de cena do clube assim como também é jogo de cena as multas aplicadas aos clubes, cujos torcedores racistas  manifestam sua ideologia nos estádios de futebol da Europa. O Milan já foi multado em 2 mil euros quando episódio semelhante ocorreu em suas tribunas. A multa imposta ao clube italiano me fez lembrar de um juiz americano que julgou um processo por assédio sexual em uma boate impetrado por uma moça. O processado era Mike Tyson e a moça queria uma indenização pecuniária. Era óbvio oportunismo tentando explorar a má fama do pugilista. O magistrado deu ganho de causa a ela e estipulou a indenização em 1 (um) dólar.  Com isso, o meretíssimo condenou a atitude de Tyson mas, deixou claro quanto valia a honra da vítima. O tribunal italiano ao fixar uma ínfima merreca como multa, deixou mais claro ainda que não dava  a menor importância ao fato de jogarem bananas sobre os atletas negros.
Recentemente, o  Borússia, teve parte de sua arquibancada (apenas uma parte) interditada por um jogo (um jogo e nada mais) após sua torcida ter exibido uma faixa com dizeres homofóbicos num jogo contra o Arsenal pela  atual liga dos campeões.  Multas de 20 mil euros ( dinheiro de pinga no mundo do futebol) também já foram aplicadas por atos racistas na Espanha.
Mesmo com um histórico  recheado de casos de racismo, dirigentes do Villareal e até mesmo Vicente Del Bosque, treinador da seleção espanhola, insistem que se trata de atos isolados. Del Bosque foi enfático ao afirmar: _”Não existe racismo no futebol”. De certo, o treinador da ex-fúria esqueceu que seu antecessor no comando daquela seleção, Luis Aragonês, foi flagrado motivando seu jogador, Reyes, com a frase:_”Você é melhor que aquele negro de merda”.Aragones se referia a Henry,  companheiro de Reyes no Arsenal naqueles dias. Depois do flagrante, Aragones negou que fosse racista e seguiu treinando a seleção espanhola até o fracasso no mundial de 2006.
Mas no caso da banana de Daniel Alves, o pior estava por vir e teve como protagonistas os brasileiros.
Neymar, apareceu nas redes sociais comendo uma banana ao lado do filho. Aí já não era o gesto tolo, ingênuo, porém espontâneo, de Daniel Alves. Foi um lance de exaltação da “marca” Neymar promovido por uma empresa de propaganda. E mesmo sabendo que disso se trata, de um bomocismo parido a fórceps, muitos aderiram ao gesto de comer públicas bananas ao invés do petit gateau de costume e poucas horas depois, Luciano Huck (que também apareceu seríssimo ao lado de sua seríssima esposa com uma banana na mão), já comercializava a camiseta com os dizeres que Neymar publicou junto com a foto de sua degustação de bananas: ”Somos todos macacos”. O oportunismo do craque e do empresário deveria ter chocado meio mundo, mas não. Assim como a demagogia do clube espanhol, vai sendo elogiado pela imprensa obtusa e xenófila. E não faltam teses falando de gesto antropofágico de Daniel Alves e o escambau.  

A negação do racismo na sociedade espanhola, a frase estúpida de Neymar e a postura cínica de Daniel Alves, dão mais oxigênio para a continuação das manifestações racistas, tanto na Europa como aqui. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A morte de Lucas Lima

Recentemente tivemos o caso do assassinato do garoto que era um dos promotores dos rolezinhos. Sem nenhum pudor, sua morte foi comemorada nas redes sociais e nos sítios informativos. Sem que nenhum crime lhe fosse imputado, Lucas Lima  foi chamado de marginal, de bandido. O rapaz de apenas 18 anos, morto numa briga, supostamente por estar paquerando uma menina que estava acompanhada, era o líder de um movimento social, pois disso se trata o rolezinho: um movimento social. Movimento tão importante quanto as manifestações que em meados do ano passado tomaram as ruas do país. Mas com uma grande diferença: seus protagonistas não provêem da classe média, não são universitários. O pessoal do rolezinho, diferentemente dos manifestantes de junho, não foi mimado pela imprensa de direita que via nas manifestações de rua uma maneira de atacar o governo.
Depois que as manifestações tomaram rumos diferentes e se mostraram mais genéricas, criticando inclusive a imprensa e os políticos em geral, e não só o governo, os meios de desinformação começaram a tratá-las como coisa de baderneiros e vândalos. Sem, é claro, deixar de fazer oportunas ressalvas para uso futuro.
O rolezinho sempre foi tratado como coisa de baderneiros e desocupados, tanto pela imprensa como pela população racista e segregacionista. Ou seja, pela ampla maioria da classe média e dos novos emergentes. Nas redes sociais, os freqüentadores dos shoppings queriam que os meninos da periferia fizessem rolezinhos nas bibliotecas e museus. De repente, gente que jamais folheou um livro e nem sabe o endereço de um museu, virou difusora cultural. Depois de cada ato de rebeldia e inconformismo daqueles que querem romper com a segregação, as TVs mostravam entrevistas com lojistas e comerciários indignados com a ação dos jovens e não com a segregação em si, imposta pelos administradores de shoppings.
O ódio externado nas manifestações contra Lucas Lima, seria algo inexplicável se já não estivéssemos nos acostumando com esse novo perfil do brasileiro médio tão longe do homem cordial de tempos atrás.

Esse novo brasileiro, adepto dos linchamentos e da tortura, vem sendo forjado pelos noticiários policialescos e pelos políticos oportunistas e demagogos. O país afunda na boçalidade e abre caminho para qualquer tentativa autoritária que se dispuser a tomar o poder. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Eu não sou cachorro não, infelizmente

É uma propaganda nova. Da Amil. Não é uma propaganda do tipo “compre nosso plano de saúde e espere 10 meses por um exame de próstata. Nosso plano é o próprio exame de próstata”. Não. É uma dessas propagandas boazinhas que nem as dos cartões de crédito que nos ensinam a usar o crédito com responsabilidade. Acho que esse tipo de propaganda tem um nome no jargão dos publicitários. E são eficazes. Tão eficazes que eu acabei chamando-as de boazinhas. Não são nada boazinhas. São as piores, pois lá está o reclame nos chamando para o exame de próstata como quem convida para o reveillon da Ilha Porchat. Mas fingem que não é isso.
A propaganda de que falo, quer que creiamos que o plano de saúde e os publicitários estão preocupados com a obesidade infantil.
A cena é a seguinte: Em torno de uma típica mesa de novela está uma atípica família brasileira. Há uma suculenta pizza e Mamãe ralha com Papai que está dando um naco da iguaria para o cachorro da casa, que doravante será chamado de Bob. Depois do corte e em torno da mesma típica e novelesca mesa está a família com outro figurino. Papai dá a Bob uma porção de algo apetitoso que a família saboreava. Mamãe ralha de novo com papai. Mamãe está preocupada com a saúde e Bob e se esquece do filho do casal que, gordinho, está comendo a mesma comida pouco saudável, afinal todos sabemos que pizza e bocados suculentos fazem mal à saúde. Aliás, excetuando-se o brócolis cozido na água mineral sem sal e o chá verde sem açúcar, toda comida faz mal à saúde e provoca obesidade.
Sem querer a propaganda da Amil toca num problema real. Nossa sociedade está mais preocupada com os bichos do que com os seres humanos. A mesma mocinha que posta no facebook ameaças contra quem maltrata os animais, apóia os linchamentos e a truculência policial contra moradores de favelas. Os mesmos senhores que chamam de desumanos àqueles que abandonam animais, acham corretíssimo o despejo de famílias em nome do direito à propriedade. E ai daquele que diz que não gosta de cachorros ou do cheiro de xixi de gato.
Frases do tipo, “você conhece o caráter de alguém pela maneira como esse alguém trata os animais” pululam nas redes sociais, sempre acompanhadas por fotos de cachorrinhos com olhar doce e gatinhos fofinhos. A maneira como alguém trata as outras pessoas, já não importa. Pelo contrário. Para as pessoas exige-se a pena de morte e o rebaixamento da maioridade penal. Clama-se pela tortura de presos.  O que conta como definidor de caráter, é a relação com os bichos. Tanto é assim que, sob aplausos unânimes, foi inaugurado recentemente um hospital público para animais. Creio que foi em Porto Alegre, mas outras cidades já têm planos de fazer o mesmo. Parece que cuidar da saúde animal vai gerar mais votos do que evitar mortes de seres humanos que continuam morrendo nas filas dos hospitais ou aguardando uma cirurgia simples que é sempre marcada para depois de meses ou anos.
Eu não me espantaria se em breve inaugurassem escolas para cachorros, creches para gatos e cursos de línguas para papagaios. Se nossos meninos do 4º ano mal lêem e pouco escrevem, não vem ao caso, afinal os governadores e prefeitos que abandonam a educação básica são sempre reeleitos. Não fica nenhum de fora. Nas próximas eleições por certo os veremos, já não mais beijando criancinhas e abraçando velhos durante a campanha eleitoral, e sim fazendo mimos em algum pitbul ou roçando o focinho num angorá. Na minha cidade houve quem advogasse, na última eleição municipal, por espaço exclusivo na praça pública para os bichos. Nem é necessário dizer que o mal estado dos brinquedos usados pelas crianças não comoveu ninguém

A Mamãe da propaganda é um pálido retrato da sociedade em que vivemos. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Nossos meninos foram reprovados no teste da OCDE, ainda bem


Um dia, meu pai chegou em casa com uma lata de leite em pó. Isso foi nos anos 60 e o leite era americano. Era o leite da Aliança para o Progresso. Estava escrito, em três idiomas, na lata prateada. Durante algum tempo eu bebi daquele leite. Não só bebi, como o comi, escondido, às colheradas. Foi a primeira vez que provei leite em pó.
A Aliança para o Progresso foi criada em 1960 com um sorriso nos lábios e um porrete nas mãos, como disse Ted Roosevelt, anos antes, referindo-se ao modo como nós, latino-americanos, deveríamos ser tratados. Eram tempos quentes da guerra fria com o caso dos mísseis soviéticos em Cuba, a tentativa de invasão da Ilha por parte dos americanos, entre outros ingredientes.
A tal Aliança era, em suma, uma resposta tosca dos americanos à Revolução Cubana. Uma tentativa de atrair as simpatias dos latino-americanos que, naqueles anos, se dirigiam para os barbudos revolucionários do Caribe. Era o sorriso nos lábios, logo seguido do porrete para os que teimavam em não aceitar a divisão de “um leitinho para você, uma base militar para mim”.
Depois do leite, vieram os golpes de estado patrocinados pelo Tio Sam, decerto usando das “sobras” do gigantesco orçamento da Aliança para o Progresso.
No mesmo ano da criação da Aliança para o Progresso, outro órgão, dominado pelos americanos, mudava de nome. A OECE (criada no contexto do Plano Marshall)  passava a se chamar OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Enquanto a Aliança tentava mudar nossos hábitos alimentares, a OCDE nascia para traçar os rumos da economia de mercado ameaçada pelo comunismo de Fidel e pelos governos progressistas que, em todo o mundo, tendiam para outros caminhos.
Hoje, a OCDE tem 34 membros. São, quase todos, países ricos exportadores de tecnologia e produtos de alto valor agregado. É uma instituição do mercado, para o mercado, pelo mercado. Seu objetivo é desenvolver o mercado, cooperar pelo mercado, pelos interesses de seus membros enquanto mercados. Sua preocupação nunca foi a educação, pelo menos no sentido mais amplo.
No entanto, a OCDE faz testes em jovens de todo o mundo para testar sua capacidade. Capacidade para quê? Ora, para suprir de mão de obra o mercado. No último desses testes, cujo resultado provocou reportagens em todos os meios de desinformação do país, nossos jovens tiveram fraco desempenho. Nossos meninos de 15 anos não souberam resolver questões práticas como marcar lugares de convidados numa mesa respeitando uma certa ordem ou comprar passagens de trem mais baratas usando uma máquina de auto atendimento.
Ora bolas, um menino dessa idade não organiza jantares, nem pode viajar sozinho. Um menino dessa idade deve aprender a manejar conceitos, tirar conclusões de fatos, escrever corretamente e namorar. Mas não é isso o que espera o mercado dos jovens de 15 anos. A OCDE está pouco se lixando para a felicidade dos meninos. A OCDE os quer práticos, diligentes, produtivos e prontos para o mercado de trabalho. Engravatados e competitivos.
Muito embora a OCDE nunca tenha se notabilizado por nenhuma iniciativa no campo educacional, nossa imprensa deu um enorme peso ao teste aplicado pela instituição em mais de 80 mil jovens em 44 países. Nas TVs vimos as Leilanes Neubarch  da vida, fazendo carinha de inveja pelos altos índices de aproveitamento dos orientais, estes sim, prontinhos para o mercado de trabalho nos padrões da OCDE.

Nossa educação tem sérios e profundos problemas. Não há como negar, mas não é a OCDE e seu teste imbecilizante que devem servir de parâmetro para o questionamento que devemos fazer sobre o que devem aprender nossos meninos. 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Se entrega Corisco.


Pois é, mais uma vez a Europa se curva diante do Brasil. E não só a Europa. Também a grande democracia do norte e a Ásia enrubescem diante de mais uma mostra de nossa superioridade. Refiro-me, é claro, à nossa bandidagem.
Sim, nossos bandidos são os mais valentes e destemidos do mundo. Não há membro da YaKuza, da Máfia russa ou da Camorra que lhes faça frente. Os homens de Al Capone, parecem pacatos velhinhos se os comparamos com nossos ladrões e traficantes. De onde tiro essa idéia? Dos números oficiais divulgados pelas secretarias de segurança de todo o país sobre autos de resistência.   
Não há em nenhum lugar do mundo, onde se faça estatística, tantos casos de resistência à prisão como aqui. Os homens do tráfico e os arrombadores de caixas eletrônicos do Brasil só se entregam mortos, o Parabellum na mão.
Num episódio recente de perseguição a assaltantes de caixas eletrônicos em São Paulo, dos 15 meliantes envolvidos, só sobraram pra contar a história, 2 ou 3. Segundo o Governador Alkimim e o comandante da operação pega pra capar, todos os que se entregaram estavam vivos. Uns mariquinhas.
Mas não é só na terra do picolé de chuchu que isso ocorre. Também no Rio, Minas Gerais e outros estados, os autos de resistência apontados como causa de morte de bandidos, constrangem os estatísticos de outras nações que passam a vida mensurando números. Aqui não constrangem ninguém. Estamos acostumados com a valentia e a macheza da bandidagem nacional.
As incursões do BOPE nas favelas do Rio, deixam elevadíssimo número de cadáveres. Os kamikase do tráfico não deixam por menos: resistem até a morte. Por sorte, têm péssima pontaria, pois as  baixas nas forças da ordem não condiz com a valentia suicida dos malfeitores. Suas balas encontram sempre algum morador inocente que presencia os acontecimentos. Isso é o que depreendemos dos pronunciamentos das autoridades, tão rápidas nas palavras quanto seus comandados, no gatilho. Aliás, é de se notar que todos os homens de nossas forças de segurança, são atiradores de elite, pois mesmo quando chegam atirando nas favelas densamente povoadas, não erram um tiro, só acertam perigosos traficantes. “Civil” baleado é culpa dos bandidos.
Há que se louvar também os setores de inteligência das Polícias Militares. Enquanto os cadáveres dos que resistiram à voz de prisão esperam pelo transporte, sua folha corrida já está na ponta da língua dos comandantes, que chegam 15 minutos depois dos confrontos, para serem entrevistados por corajosas mocinhas vestidas com colete à prova de balas. Num rápido informe dado pelos superiores dos batalhões, ficamos sabendo que todos aqueles corpos de adolescentes que jazem no chão, são de perigosos traficantes. Seus apelidos, suas relações com a chefia do tráfico e até o número do seu sapato, nos é revelado. Nem o FBI nem a CIA nem o Mossad são capazes de tamanha rapidez e precisão.

Para os bandidos mais valentes do mundo, a polícia mais eficaz do planeta.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O caso Cláudia


Seu nome era Claudia Lessin Rodrigues. Era uma moça da classe média carioca e foi assassinada, depois de uma festa de embalo e tentativa de estupro, por dois rapazes, Michel Frank, filho do milionário Egon Frank (relógios Mondlane, entre outros negócios), e George Kour, dono de um salão de cabeleireiro no Hotel Méridien. Seu corpo foi atirado dos penhascos da Av. Niemeyer, amarado com arames num saco cheio de pedras. Depois da fuga de Michel para a Suíça e da prisão de George por ocultação de cadáver, ambos foram inocentados do crime de homicídio.
O caso Cláudia chocou o país naquele 1977. Seus desdobramentos, mais ainda. Por vários meses a imprensa não cuidou de outra coisa. Cada  fato descoberto ou ocultado pela polícia, cada depoimento, cada detalhe do escabroso assassinato, era esmiuçado, destrinchado e comentado por jornalistas, curiosos e palpiteiros.
O detetive Jamil Warwar, que em 48 horas havia desvendado o crime, foi afastado das investigações, o laudo do Instituto Carlos Éboli, que dava como causa da morte, asfixia mecânica, foi ignorado, e mesmo o testemunho de um operário, que vira a desova do cadáver, foi posto de lado devido às relações do milionário Egon Frank. Michel Frank foi assassinado na Suíça 12 anos depois.
O assassinato de Cláudia Lessin Rodrigues virou filme estrelado Por Kátia D’Ângelo.
O assassinato de Cláudia Silva Ferreira, negra, pobre, auxiliar de serviços gerais, não está merecendo tanta cobertura jornalística quanto o de sua homônima loura, estudante, da classe média. Sequer acertam com seu sobrenome. Ainda que a reprodução de sua carteira de identidade, facilmente encontrado na internet, mostre claramente que é Cláudia Silva Ferreira, os órgãos da imprensa “séria” e até blogs e sítios informativos feministas, insistem em confundir seu nome. Cláudia Silva Ferreira é apenas a mulher que foi arrastada por um camburão.
Nos noticiários de TV, o fato de ela ter sido assassinada não é mencionado, usa-se o eufemismo “baleada” e dá-se como fato, uma suposta troca de tiros entre policiais e traficantes. Seu corpo, possivelmente já sem vida, foi arrastado por, pelo menos, 350 metros depois que o porta-malas do camburão, onde ela fora jogada, abriu-se. O advogado dos policiais envolvidos no crime, dá como desculpa para que Cláudia fosse transportada, supostamente para um hospital, como se fosse bagagem, o fato do banco traseiro da viatura estar ocupado por armas e coletes a prova de balas. A imprensa não questiona que as armas e coletes poderiam ter sido postos no porta-malas, dando lugar a Cláudia na cabine, tendo em vista que os policiais não se encaminhavam para nenhum confronto e sim para prestar socorro a vitima de suas balas disparadas a esmo na comunidade onde residia Cláudia.
Esse novo caso Cláudia não vai virar filme e já vai abandonando o noticiário.  Arnaldo Jabor e outros que tais, já tiveram falsos chiliques em rede nacional e já abusaram das frases de efeito e jogos de palavras. O laudo do Instituto de Criminalística sequer diz que tipo de projétil vitimou Cláudia. Os assassinos foram postos em liberdade pela justiça depois de menos de 3 dias detidos. As testemunhas do crime temem depor. Temor compreensível, pela soltura dos policiais envolvidos que, antes de matarem Cláudia, já carregavam nas costas mais de 60 ocorrências que resultaram em morte.
O assassinato de Cláudia Silva Ferreira vai cair no esquecimento assim como o de Amarildo e os de tantas outras vítimas da política de extermínio comandada por governadores e secretários de segurança, de todos os partidos políticos, em todos os estados da Federação. E, claro, com a conivência da imprensa, tão seletiva em sua indignação.



segunda-feira, 24 de março de 2014

Gol contra


Segundo ouvi da imprensa especializada, no jogo contra o Botafogo de Ribeirão Preto, o time do Santos marcou o gol número 12.000 de sua história. Esse feito dá à equipe praiana a primazia em número de tentos marcados em todo o mundo.
Há inclusive quem diga que o gol 12.000 já havia sido convertido há mais tempo. Questão de estatística. Não importa. O fato é que o Santos, um clube fundado em 1912 está à frente de outros, fundados décadas antes, no quesito artilharia.
Não sou de fiar-me na nossa imprensa, tampouco esse negócio de “é o maior” me interessa. Do Oscar ao Prêmio Nobel, não me interessa.
Mas temos nesse número redondo e grosso, um feito a ser elogiado: 12 mil vezes o goleiro adversário foi ao fundo das redes colher uma bola enquanto uns caras de branco saltavam e se abraçavam. Desses 12 mil gols, mais de 1000 foram de Pelé ou seja, foram gols do Brasil, ou melhor ainda, foram gols dos brasileiros.
Mas como disse, não me interessa tanto assim a primazia do Santos e sim um fato: o autor do gol 12.000 foi o Gabriel, um menino formado nas divisões de base do Santos. Mais uma vez o Santos revela um jogador promissor. Foram muitos os jogadores formados na Vila Belmiro. Nem todos se tornaram craques, mas o clube deu a vários jovens uma profissão digna. Muitos outros clubes fizeram e fazem o mesmo.
Em outro jogo do campeonato paulista, eu vi atuando o Rodrigo Tiui, formado nas Laranjeiras. Tiui, que despertou muitas expectativas quando foi lançado, não se tornou um milionário do futebol, não foi para a Europa encher os bolsos. Joga num time do interior paulista, mas joga, tem um salário, tem uma profissão.
Fora das duas principais divisões do futebol brasileiro a vida de boleiro é dura, os salários baixos, a irresponsabilidade de cartolas, o calendário que deixa os atletas desempregados grande parte do ano e outras mazelas, fazem dessa profissão uma profissão de risco. No entanto sempre há o sonho e algumas oportunidades.
O movimento Bom Senso Futebol Clube tem em sua pauta de reivindicações, a racionalização do calendário e o fair play financeiro para que os jogadores que trabalham em times de menor expressão possam ter mais garantias de emprego.
Mas se temos clubes que ainda trabalham na formação de atletas e esse movimento de jogadores que promete ser um divisor de águas no futebol brasileiro, temos também nossos dirigentes politiqueiros e interesseiros. Temos na CBF uma estrutura arcaica de poder voltada apenas para negócios quase sempre escusos.
Quando atua a entidade máxima do futebol é para privilegiar algum desses negócios. E o grande negócio das transferências internacionais deixa sempre um cascalho aqui e ali.
A última da CBF foi permitir que os times coloquem em campo até cinco jogadores estrangeiros. Com o futebol de nossos vizinhos em petição de miséria, fica fácil imaginar que qualquer clube brasileiro vai visar o mercado sul-americano em busca de pé de obra barato deixando de investir nas categorias de base. Agentes e empresários estão eufóricos. E a nova leva de estrangeiros, de qualidade futebolística duvidosa, já começou a desembarcar no país fechando a porta da oportunidade para os meninos daqui que sonham em ganhar a vida chutando uma bola.

Não li nem ouvi nenhum órgão da imprensa criticar a iniciativa nefasta da CBF. Pelo contrário, o silêncio sobre o tema, que nem de longe é desprezível, mostra bem que a imprensa esportiva se importa com tudo que se refere ao futebol, menos com o jogador.