sábado, 12 de novembro de 2011

É proibido fumar





Lá por meados dos anos 70 eu ia com minha rapaziada buscar bagulho numa favela de Belo Horizonte. O bagulho não era endolado e tudo dependia do humor do vapor. A mesma grana que num dia comprava unzão , no dia seguinte rendia apenas um fininho de cadeia. Mas ninguém pensava em reclamar ou dar uma choradinha, afinal o cara andava com um 38 na cintura “pra quem quiser ver” como dizíamos então. Deixávamos para resmungar enquanto apertávamos um na caixa d’água, onde íamos curtir o majestoso pôr do sol das alterosas. O três oitão nos tinha reféns. O cara era o dono do morro.
Se houvesse um museu do tráfico, aquele 38 estaria lá como reminiscência de um tempo quase romântico,ao lado do saquinho de leite cheio de maconha e da joaninha dos home.
Daquele tempo pra cá o que mudou com relação ao trafico foi seu poder financeiro e seu armamento. Do 38 chegamos ao fuzil AR 15, às sub-metralhadoras, ao calibre 12 e até um lança granadas já foi usado em enfrentamentos com a cana. Um helicóptero foi derrubado. Do dono do morro passamos às grandes facções e esta fase já está sendo superada. Estamos caminhando para o que a grande imprensa deu de chamar de "mexicanização" da atividade criminosa.
 Da maconha dos anos 70 passando pela cocaína dos 80, chegamos ao crack. Tudo tratado pela lei como se fosse uma coisa só.Todas as substâncias atendendo por nomes genéricos de estupefacientes, drogas ilícitas, entorpecentes. Isso não mudou e o estado continua “combatendo” o tráfico numa verdadeira operação enxuga gelo.
Cada vez que se prende um grande chefe de facção, a polícia faz estardalhaço e o secretário de segurança da vez, fala em pesada perda para o mundo do crime. Assim foi quando nos anos 70 prenderam Meio Quilo e hoje depois da prisão de Nem. Passando por Escadinha e Fernandinho Beira Mar. Mas não há vácuo de poder e logo os traficantes presos são substituídos por outros que vão evoluindo nos estratagemas e sofisticando operações para que o enorme, gigantesco mercado seja suprido.
As tímidas modificações introduzidas na legislação, são para inglês ver. Hoje o playboy encontrado com bagulho já não é considerado criminoso e sim usuário mas continua passando pela polícia, que é, em última instância, quem determina seu status. Já o garoto negro e pobre que está apertando um, na encolha, no alto do morro, se dançar “vai ficar grampeado no 12” como diz o samba. Isso se não for sorteado por uma bala perdida ou inscrito no rol dos atos de resistência.
Nas operações de repressão ao comércio de drogas,como a polícia gosta de chamar também genericamente, impera o esculacho, a tortura a céu aberto,a intimidação de moradores dos morros e favelas. O triste é que aquelas mocinhas, vestidas de colete à prova de bala com o logotipo das organizações criminosas a que pertencem, nada disso vêem. Através de seus microfones escutamos relatos que mais parecem relatórios oficiais. Ao final de cada reportagem mostrada pela televisão vemos a designação das delegacias e a sigla da secretaria de segurança escrita com trouxinhas e sacolés, e as armas que portavam os traficantes mortos na operação. Mas este ridículo encerramento só é capaz de afirmar o poderio do tráfico, e os números divulgados apenas apontam para o volume do consumo que, supostamente, nosso sistema legal quer reprimir. Segundo a reportagem exibida por ocasião da prisão de Nem, só na Rocinha eram vendidos 200 quilos de cocaína por semana,o que movimentaria 100 milhões de reais por ano. Os números são de apenas uma favela, das dezenas que movimentam drogas no Rio. Claro, esta informação pode ser questionada.
Mas se existe um fato inquestionável, é que todo este poder foi construído sobre a maconha. O que possibilitou o acúmulo de capital dos traficantes e sua inserção no mercado internacional da cocaína e depois de crack, foi uma planta que nasceria em qualquer quintal, se fosse permitido seu cultivo e consumo. Mas se agora é tarde para evitar-se o mal causado pela inócua proibição, ainda é tempo de evitar-se que mais vidas sejam perdidas e mais recursos sejam jogados fora. Recursos que poderiam ser melhor utilizados para tratamento de dependentes de crack e cocaína.
Sei bem que nada do que aqui digo é novo ou já não tenha sido mais e melhor tratado por quem se debruçou sobre o tema. Só não queria me furtar ao assunto que considero da maior importância  no que concerne à relação do estado com o cidadão.






terça-feira, 8 de novembro de 2011

Se a vida lhe deu um limão...






Se a vida lhe deu um limão, um copo d’água, um punhado de açúcar, uma colherzinha e uma faca, faça uma limonada e vê se arruma uma pedra de gelo.
 Mas se a vida só lhe deu um limão, o melhor a fazer é romper a casca com os dentes e deixar que a língua e as gengivas conheçam o ácido. Sugar o sumo azedo e sentir que as lágrimas afloram aos olhos e esgares tomam conta do seu rosto.
 Se a vida lhe deu um limão, você estará prevenido do escorbuto e talvez nem se resfrie. Mas não faça frases edificantes, não se iluda, não iluda. Não cite exemplos de superação. Você não é um programa esportivo nas manhãs de domingo. 
Se a vida lhe deu um limão, espere a banda passar e esprema o fruto devagar e do alto, em frente ao cara da tuba.
Se a vida lhe deu um limão, aproveite seu limão e nem tente troca-lo por uma mariola. No mundo já tem muitos limões, para todos.
Se a vida lhe deu um limão não espere encaixa-lo na salada de frutas de ninguém. Outros já descascaram o abacaxi.
Se a vida lhe deu um limão, carregue-o com cuidado junto à bagana e aos fósforos, Nunca no bolso de trás.
Se a vida lhe deu um limão, chame-o de limão. Os cítricos detestam eufemismos.
Se a vida lhe deu um limão, não tente fundar um sindicato de proprietários de limões.
Se a vida lhe deu um limão, jamais odeie seu limão. Apenas admita diante de um espelho sem luz:_ A vida me deu um limão
Se a vida lhe deu um limão, não se orgulhe nem se envergonhe. Limões não ganham prêmios nem estão na lista dos melhores do ano.
Se a vida lhe deu um limão, use-o logo e não espere para fazer uma caipirinha na velhice.
Se a vida lhe deu um limão, ele terá seu sobrenome e cpf.
Se a vida lhe deu um limão, ele não saberá de você. Haja o que houver, será tudo platônico
Se a vida lhe deu um limão, não procure uma religião na qual ele seja adorado.
Se a vida lhe deu um limão, não o deixe na encruzilhada como oferenda.
Se a vida lhe deu um limão, não tente usa-lo como moeda. Os caixas de supermercado também não aceitam as balinhas que lhe deram ontem como troco.
Se a vida lhe deu um limão, não cante para ele uma música do Wilson Simonal que lhe faz referência. Há coisas que até os limões percebem.
Jamais dance para o seu limão, nunca sorria para ele e tampouco derrame sobre ele seu choro.
Se a vida lhe deu um limão, seja ao menos digno dele.


Meninos, eu vi






Se você tem 50 anos ou mais deve se lembrar do Partido Tancredista Brasileiro. Se não, deixe que lhe refresque a memória.
 Este partido foi fundado pelo finado Carlos Imperial que, pra quem não conhece, posso garantir que não é defunto para se gastar vela. Pois bem, corria o ano de 1985 e o país vivia um clima de euforia democrática depois dos anos de ditadura. A criação de partidos foi franqueada e surgiram as mais diversas siglas como o Partido da Juventude, mais tarde usado por Fernando Collor de Merda  para alçar vôo na política nacional, o Partido Humanista e muitos outros que a sepultura da história guarda sem lápide nem flores.
Havia um desses partidos que era liderado por um arquiteto ou urbanista, sei lá, que por mais que eu ouvisse sua fala no programa eleitoral, nunca fui capaz de entender nem uma vírgula do que propunha. Era apoiado por Scarlet Moon de Chevallier. Coisa fina.
Mas voltando aos Tancredistas. O nome da sigla já denota, é claro, o oportunismo de seu fundador que trouxera para a política sua clássica formação de pilantra profissional depois de exercer este mister na música, desde os tempos da jovem guarda. Entre muitos outros apelos este senhor pedia, durante a propaganda eleitoral gratuita, que seus simpatizantes saíssem às janelas e gritassem:_  “Eu não agüento mais”. Só mais tarde vim a saber que esse mote fora criado por um radialista americano que pedia a seus ouvintes que fizessem o mesmo e teve grande impacto na vida estadunidense dos anos cinqüenta ou sessenta. Para entrar no clima um amigo meu, sempre que ouvia o apelo, saía à janela e bradava: _ Eu não agüento mais o Imperial! Pelo menos servia para rir. Porém na eleição seguinte, filiado a um partido de verdade, o paladino da insatisfação popular foi eleito vereador no Rio.
Mas se falo destas coisas paleolíticas é porque fui provocado por um pequeno aviso que surgiu do lado direito da página inicial do facebook. Trata-se de uma propaganda convocando os indignados cidadãos a conhecerem um novo partido cujo nome é Partido Novo. Muito criativo, não? E rápido. Pois nem sequer a Globo andou tão depressa com suas manifestações anti-corrupção,
O logotipo da nova sigla é um típico fruto dos desenhistas gráficos de computador, cheio de listras paralelas e insinuantes voltinhas . Não dá para identificar as letras que compõem a logomarca, mas é bonitim.  O que não é bonito é o papel que nós, coroas, temos de desempenhar nestes episódios. E nosso papel é dizer: _ Meninos, este filme eu já vi e o final é melancólico.



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Manuel, o próprio






Que posso dizer do Manuel?  Quase nada, pois dele pouco sei. Nos conhecemos quando cheguei em Garopaba no começo dos 90. Era uma fria tarde de julho e a chuva me surpreendeu na praia do Siriú durante um passeio. Chuva pouco usual pra essa época do ano, veio com raios que clareavam o céu sobre um mar de chumbo Olhei para um lado e outro e divisei, a uns cem metros, os restos de um rancho de pesca onde poderia me abrigar. Quase não me dei conta que para lá também se dirigia alguém vindo no sentido contrário. Era o Manuel.
Sentamos lado a lado sob a palha escassa. Nos cumprimentamos e foi ele quem puxou conversa. Mas em vez de referir-se à chuva, falou-me da praia como se soubesse que eu era um recém chegado a estas belezas..Conversamos muito tempo sobre dunas e peixes. Dei-lhe meu endereço e em poucos dias ele me apareceu em casa numa hora que, depois soube, era seu costumeiro horário de visitas. Meia-noite e meia. Também, como é de seu costume, não quis entrar e ficamos charlando sentados sobre o murinho que dava do quintal para a rua. Naquele dia falamos sobre o silêncio.
Até hoje tento saber de onde ele é, mas é difícil. Às vezes seu sotaque é de manezinho da ilha, outras é tipicamente de biqüira garopabense, mistura palavras em castelhano tal qual os gaúchos da fronteira e constrói frases  como um alfacinha. Também não sei como ganha a vida nem onde mora. Nunca me disse. Creio que é pros lados do Capão.
Manuel não tem computador nem televisão, mas, como estava sentindo mais necessidade de informação do que antes sentia, construiu um rádio. Mas só ouve “A voz do Brasil”, o futebol e, de dois em dois anos, o programa eleitoral. Explicou-me que as músicas de que gosta não tocam no rádio. São as cantigas ouvidas na infância que lhe interessam. Jornais, só lê os velhos. Prefere os livros. E dos livros, os antigos. Também lhe interessam os santinhos de políticos e os panfletos publicitários.
Quando aparece para nossos serões vem pedalando sua bicicleta composta de peças de cinco marcas de quatro nacionalidades diferentes. Por referências que faz, presumo que tenhamos idade igual ou muito próxima. Manuel nunca aborda temas pessoais o que faz sua prosa rica e interessante.  Quando uma vez lhe disse que o mundo me interessava como palco e não como platéia, ele apoiou a definição e só se mostrou um pouco chateado por eu não me lembrar onde a havia lido.  Manuel é muito rigoroso com relação a isso e quando cita, diz o autor e sua contingência histórica. 
Semana passada eu estava em casa buscando alguma coisa na internet quando  ouvi os cachorros latindo, olhei o relógio e vi que os ponteiros estavam verticalmente alinhados. Fui ao portão receber o amigo. Embora chovesse copiosamente e ele viesse ensopado, preferiu não entrar. Ao invés disto abriu um enorme guarda-sol que trazia atado à bicicleta, fincou-o na terra encharcada e sobre dois tijolos nos sentamos para prosear.
Recusou a oferta de café e como nunca chega de mãos abanando, foi até a bicicleta e de uma cesta de vime, que está sempre presa ao bagageiro, retirou uma garrafa de coca-cola bem pequena , daquelas de vidro que já não circulam desde os anos 70. Um pedaço bem cortado de sabugo de milho servia como rolha e dentro havia uma cachaça de alambique curtida no butiá. Aproveitamos os eflúvios da cana para meter o pau nos políticos daqui e alhures.
Quando Angela Merkel e Agripino Maia deixaram de interessar, caímos na política local. Manuel tirou do bolso da jaqueta um saquinho de plástico com vários papéis e depois de vasculhar por uns minutos, tirou de lá um panfleto que fazia referência ao projeto 78. Trata-se de um projeto de lei do executivo municipal que modifica o gabarito das edificações na cidade. Disso muito falamos confrontando os argumentos pró e contra. Manuel refletiu e depois de mais um gole sentenciou: _ É briga de cachorro grande. Tem toda a razão.
Por um lado os que são a favor do projeto manipulam a população dizendo que sem o aumento do gabarito não seria construída uma escola técnica federal em nossa cidade e isto se daria porque o terreno que possui o governo para tal fim é pequeno exigindo construção vertical.  Ora bolas, nesse caso bastaria criar uma lei excepcional liberando o número de pisos para entidades de ensino ou prédios federais. O que na verdade defendem é o direito do maior hotel daqui ampliar para cima seu número de habitações. É uma lei dirigida, elaborada sem levar em conta questões como o esgotamento sanitário e o trânsito, que seriam alterados com o aumento de residências e prédios comerciais. Por sua vez os partidários da manutenção do gabarito nos atuais dois andares, trazem argumentos tais como a preservação das características da cidade. Se fossem sinceros não teriam vindo morar aqui, pois eles, assim como eu, ajudaram a mudar as tais características da cidade, transformando-a de vila simpática de pescadores num balneário tolo como os demais, sem vida própria sempre a espera dos turistas. Ajudamos a transformar pescadores em empregados da construção e ajudantes de cozinha. Claro que sem a ajuda dos especuladores locais, nada disso seria possível.
Sempre é a mesma coisa. Os interesses de poucos são colocados como se tratasse do interesse de todos. Por isso é que até hoje os gaúchos comemoram a guerra dos farrapos (uma briga de oligarcas) como se fosse uma revolta popular contra desmandos do governo central. E para esconder o mais elementar fato daquela guerra fratricida, a chamam de revolução farroupilha.




















sábado, 5 de novembro de 2011

Botequim

Antes o bar era o lugar sagrado do descanso do guerreiro, o escritório do vagabundo, a fuga do sujeito que vivia com a sogra, a faculdade do pobre. Lugar da anedota, da conversa, da paquera.
 E do futebol. Foi num botequim que ouvi pelo rádio o Atlético ser afanado pelo José Roberto ... Writh? Wrigth? Uraite?.... que se dane, num jogo da libertadores. No mesmo bar ouvi Jorge Cury narrar o gol de Renato Sá que terminava com a invencibilidade de 52 jogos do Flamengo e bebi a vitória do Brasil sobre a Argentina em 82.
Num bar um amigo me contou da morte de John Lennon, ouvi, pela primeira vez, Meninas do Brasil de Moraes Moreira, li Drummond e namorei. Namorei muito em botequins.
O meu ficava na Barata Ribeiro quase esquina de Santa Clara, ao lado de uma verdureiria. O português, malandro, pôs na parte mais próxima ao bar, os caixotes de abóboras e chuchus. Limões e maracujás ficavam fora do nosso alcance, ainda assim vez por outra alguém alcançava uma fruta do conde e até um saco de laranja veio parar em nossas mãos. Não consigo lembrar o autor da proeza. Acho que foi o Dimas, tão quietinho...
Bar também era o lugar dos apelidos, das gozações. O Rui ficou sendo o Abestado, O Edmundo, Renato Sá, eu era o Mineiro e havia também o Gaúcho. Tinha o Sebastião do Brinco e a Colega, o Rei da Maluquice e a Janis Joplin.
Talvez o melhor de tudo é que não havia aparelhos de televisão. Era um mundo à parte, diferente do emprego e do lar. Sem as chatices das novelas e as tragédias dos noticiosos. Os problemas, quando havia, eram criados ali mesmo. Uma briga ou outra, o bote dos home, alguma bebedeira séria motivada por dor de corno. Mas nada de TVs. Só o rádio, que ao fundo  anunciava:_ “O Globo no ar” e era desligado automaticamente quando alguém de Brasília dava início à “Voz do Brasil”. Os tempos eram bicudos e censurados, não fazia o menor sentido ouvir a versão oficial de nada. Tudo era versão oficial. Só se prestava atenção mesmo na hora do jogo. O narrador alentava nosso consumo:_ “Bola de pé em pé, Antártica de copo em copo”. Alguns pagavam, todos bebiam.
A rapaziada que ali se encontrava tinha as mais diversas profissões. O Joel foi apontador de obra, vendeu “prata peruana” na calçada  da  Avenida Copacabana e a última vez que o vi estava escrevendo bicho. O Sebastião do Brinco fazia shows eróticos na Prado Júnior,o Gaúcho e o Adonis eram bancários. A Colega e a colega da Colega eram domésticas de dia e à noite faziam a vida. Tinha também um coroa quase cego que sempre aparecia com o violão debaixo do braço e conhecera Noel. Era amigo do Dimas, que tinha de acompanha-lo  à casa quando as pernas  e o violão pesavam demais. O Renato Sá trabalhava no arsenal de marinha e depois fez prova para a Petrobrás e foi viver em plataformas. O Xará era pequeno traficante mas também dava um balão apagado quando a situação era propícia. Tinha pintor de paredes, o gerente da loja de discos, uma bicha que morreu assassinada. O Rui roubou um carro e foi em cana. Claro. O carro era uma Mercedes branca e pertencia ao cônsul da Suíça. Quando foi preso estava comendo milho cozido na Cinelândia. A Mercedes ao lado. Ao sair da cana dura ganhou o apodo; Abestado. Havia comerciários e porteiros, enfermeiras e estudantes e muitos, muitos vagabundos.  Todo mundo dividindo uns poucos metros quadrados e um banheiro do qual nem quero lembrar. Bebia-se em pé, comia-se em pé. Na dureza eu pedia um pão molhado e um veneno. Ia levando, ia vivendo.
Parafraseando Drummond, hoje eu sei que minha vida naquele tempo, era mais bonita que a de Robson Crusoé.




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Aos vinte e poucos anos um sujeito tem de ir aos bares, ser de esquerda e escrever poemas senão fica um chato aos cinqüenta, falando de comidinha saudável e anti-tabagista. Aos vinte e poucos anos escrevi este poema em homenagem ao meu botequim.
      


                                          O bar


             O homem que toca violino
             O cáften aposentado
             O camelô abordado
             O streep-teaser acidentado
             A puta deusa de samba enredo
             O padre que parou para o café
             O bancário que conta lorota
             O idiota que finge sê-lo e o é
             O crápula mais que crápula, vil
             O negro que bebe calado
             O gerente da loja suando
             O policial sacana
             O poeta que inventou vinte e três novas maneiras de sofrer
             O suicida eufórico

             Todo o país no botequim



Palavrões






Não tenho nada contra o palavrão. Pelo contrário, sou um cultor dessa arte. Meu neto já reclamou várias vezes disso e minha mulher explicou-lhe que os torcedores de futebol são assim mesmo: xingam a televisão. Claro que nos últimos tempos os palavrões aumentaram. Também, com Magno Alves de centroavante você quer o quê? 
            Mas se xingamos juízes, centroavantes e goleiros  num dia, no outro os amamos. É coisa de família. Os que ficam de fora dessa irmandade -locutores e comentaristas- tentam entender e explicar nossos amores e palavrões. Como detesto gente que se mete em problemas familiares alheios, criei o hábito de assistir os jogos com o som da t.v desligado.
Porém, ainda não consigo ler as notícias nos sítios informativos da internet sem depois ler os comentários. É uma espécie de masoquismo. Sei lá.  Freud explica. Mas o fato é que cada vez que leio os tais comentários, fico ainda mais descrente na humanidade.
Em grande parte nem sequer são comentários e sim uma série de xingamentos e palavrões que são dirigidos principalmente aos políticos e aos esquerdistas em geral. Tudo acompanhado, é claro, do mais estreito preconceito racial, sexual e de classe. O Lula não era criticado por seu partido ter feito alianças espúrias e sim por ser nordestino, ex-operário e ter pouca instrução formal. A Dilma é chamada de ex-presidiária e terrorista já que não é possível atacar seu grau de escolaridade. Os exemplos que dou são apenas o pálido retrato do que é dito contando com o anonimato da internet. E é aí que o bicho pega. A questão do anonimato.
Nas suas madrugadas insones ou nas tardes ociosas, algumas pessoas dão vazão ao ódio e rancor, que publicamente escondem sob o manto da civilidade ou sob os auspícios do medo e soltam palavrões contra mães, esposas, filhos e a moral de qualquer um que não atenda aos seus critérios de homem bom e honesto. Eu disse “critério”? Pois bem, falei demais. Na verdade o que impera nesses comentários é a total falta de critério Em muitos casos a partidarização é o motivo dos palavrões, em outros, como já disse, apenas o preconceito puro e simples.
Há também os perfeitos. Os perfeitos idiotas que sequer conseguem dizer coisa com coisa, mas soltam os cachorros e as palavrotas de maneira indiscriminada sobre políticos, partidos, categorias profissionais, classes sociais etc. Os “perfeitos” também cultivam a mania de não serem brasileiros ou ao menos de sentir-se parte de uma elite da qual excluem todos os outros nacionais que não fazem parte de sua maravilhosa família ou sua “ilustrada” corriola. O Brasil é sempre tratado, por estes gênios da frase feita, com desprezo assim como qualquer conquista da nação ou de seus filhos. Sua marca registrada é a xenofilia. A palavra país, quando usada para designar o nosso, é sempre acompanhada  de outra que eles trazem no cérebro e na ponta da língua.
Mas, como já disse, nada tenho contra o palavrão. Muitas vezes ele nos ajuda a sintetizar o pensamento com relação aos juízes de futebol e certos centroavantes. O que me incomoda é a covardia, a pusilanimidade. É fácil dizer palavrões detrás do computador. Cara a cara, o palavrão pode ser respondido com o bofetão.











terça-feira, 1 de novembro de 2011

A paz






Nos últimos dias do século 19, um grande jornal de Nova York mandou um de seus repórteres entrevistar o chefe do departamento de patentes dos Estados Unidos. Imagino que fosse para engordar a edição de domingo. A missão do repórter era saber o que pensava aquele homem sobre novos inventos que surgiriam no século que começaria já que, o que findava fora pródigo em toda espécie de inovações. Mas o homem das patentes se mostrou cético. Para ele o século 20 seria muito sem graça naquele sentido, pois tudo que era importante já havia sido inventado.
Já bastante entrados no século 21, continuamos com o mesmo pensamento do homem das patentes. Sempre achamos que a humanidade está no auge de sua capacidade tecnológica, no ápice de sua cultura e que, por acaso, isso se deu durante nossa curta existência como seres humanos.
Outro dia um professor de Harvard lançou um livro no qual afirma que a humanidade nunca fora tão pacífica. Que os atos de terrorismo e guerras localizadas são apenas focos de violência que logo serão debelados e que caminhamos para a paz global. Não li o livro, devo confessar, e não pretendo lê-lo. Me fio nas informações divulgadas pelos telejornais. Não ria, o assunto é sério. Aliás, o que mais me deixou perplexo não foram as afirmações que os telejornais dizem conter no livro, mas a posição passiva dos mesmos. Nenhum debate, nenhuma voz interrogante partiu dos meios para, ao menos, jogar uma dúvida em quem ouviu a notícia.
Não tenho idéia dos argumentos usados pelo mestre de Harvard para justificar suas afirmações, mas para dizer o contrário eu tenho os meus. E afirmo que nunca a África foi tão violenta, que nunca o Oriente Médio foi tão violento. E que os povos continuam a ser tão oprimidos quanto sempre foram. E me refiro apenas a violência armada e não a que dela deriva.
Chechenos, que já foram perseguidos pelos czares, continuam a sê-lo por Medvedev. Os curdos são vítimas dos iraquianos e turcos que por sua vez já foram dominados e dominadores respectivamente. Os judeus, perseguidos e trucidados na Europa, perseguem e trucidam na Palestina ocupada. .Curdos, bascos, chechenos, palestinos, irlandeses e outros povos continuam sem pátria. Aos atos rebeldes desses povos, da-se o nome de terrorismo.
As potências ocidentais continuam com a mesma arrogância de sempre e se alguma voz discorda, um reizinho brada:_ Por que no te callas? Tudo se passa sob o olhar cúmplice da grande imprensa mundial concentrada nas mãos de poucos. Cada vez menos. Murdoch, depois do escândalo que abalou a credibilidade (?) da imprensa inglesa, pôs seus tablóides á serviço do governo daquele país para ajudar a identificar os revoltosos que sacudiram a Inglaterra com o som e as chamas de sua ira.
Cabe mesmo imaginar que o autor desconhece a ação intimidatória que os países da Europa ocidental estão perpetrando contra a Rússia com seu escudo anti-mísseis. Ou então ele acredita que quem quer a paz prepara a guerra.
No norte da África a “primavera árabe” põe uma interrogante quanto às ligações do Egito com Israel, antes estáveis e até cordiais. A Síria, “inimiga confiável” do estado judeu, também o será, tão logo caia o governo de Assad. E a Líbia pode se tornar um estado de muitos Kaddaf.
As relações entre os Estados Unidos e o Paquistão se deterioraram depois do assassinato de Bin Laden. Se por um lado os americanos não engoliram a estada do líder da Al Qaeda naquele país, dentro do Paquistão o anti-americanismo ganha força no seio do principal sustentáculo do governo, o exército.Como sabemos os norte americanos não são de discutir a relação, vão logo pra porrada.  Estas informações eu não as colho de fonte secreta e sim dos meios de comunicação mais comuns, confrontando opiniões e notícias às quais todos têm acesso. Mas parece que o professor de Harvard assiste outros canais. Faz lembrar os dias e semanas que se seguiram à queda do muro de Berlin quando a imprensa ocidental em uníssono  anunciou uma nova era de paz mundial e entendimento entre os povos. Naqueles dias eram travados dezenas de conflitos mundo a fora, mas nenhum que merecesse a atenção dos meios “ocidentais”.Logo após o episódio que começou a pôr fim ao império soviético tivemos, com o esfacelamento da Iuguslávia, um dos maiores genocídios da Europa. Enquanto na antiga União Soviética, as reivindicações de independência foram tratadas com os tanques à frente, situação que perdura na Chechênia.
Outro fato presente em todos os noticiários recentes é a perseguição praticada em todos os países da Europa e também nos Estados Unidos contra os muçulmanos. Estão acendendo o estopim, a explosão não tarda. A ascensão da direita ao poder nos diversos países em crise e o crescimento da extrema direita apenas agrega mais pólvora.
Se isto fora pouco, temos o azedume com que vêm se tratando os países europeus por motivo da crise. A Alemanha já não é bem quista. Países como Portugal e Espanha, antes tão europeístas nos noticiários de suas televisões, agora falam de si como “países periféricos”, “países do sul”. Outro dia assistindo a um programa da Deutch Welle falado em castelhano, pude constatar esse azedume quando o jornalista espanhol interpelava seu colega alemão.
Os augúrios de paz mundial, que a televisão diz conter na obra do professor, fazem lembrar o que diziam os belicistas de 1914. _ “Uma guerra para acabar com todas as guerras”. Depois da frase veio a história.