domingo, 3 de janeiro de 2016

O barqueiro e o homem de bem





            O homem se tinha em alta conta. Achava-se um justo, um bom, um homem de bem. Um dia comprou um sítio e pra lá se mudou. Lhe disseram que a melhor maneira de chegar a cidade mais próxima desde sua nova morada, era de barco. Havia barqueiros que faziam a viagem rio abaixo e rio acima. Quando teve a necessidade de ir à cidade foi buscar no local que lhe haviam ensinado alguém que o transportasse. Contratou um barqueiro, combinou o preço e desceu o rio. Na cidade pernoitou e no dia seguinte se dirigiu ao pequeno porto para tomar um barco e voltar para o sítio. Encontrou o mesmo barqueiro que o trouxera e tornou a perguntar o preço da viagem. O barqueiro lhe disse que era o mesmo preço da véspera. O homem estranhou e disse:_"Ora, não é justo. Como pode ser que para subir o rio se cobre o mesmo que para desce-lo? Remar rio acima é muito mais penoso." O barqueiro, que sobre si não fazia contas e só sabia que era um bom barqueiro, lhe respondeu:_ O que o senhor quiser pagar a mais eu aceito. O homem de bem, o justo, sorriu para o barqueiro com seu sorriso de homem bom e subiu o rio nas remadas enérgicas do barqueiro. Ao desembarcar ofertou ao barqueiro e à humanidade o mesmo bom sorriso e pagou o que havia pago no dia anterior.




Aldravias XIII





Amar
alguém
ser
amado
também
Amém





Nosso enviado especial





            A GloboNews tem um correspondente na Argentina. É o Ariel Palácios, um argentino que viveu muitos anos no Brasil. Palácios fala bem o português e, por conhecer nossos costumes e idiossincrasias, sabe o que interessa  ao público brasileiro e como explicá-lo. Eu simpatizo com Palácios. O hermano parece ser um cara legal e está longe de ser um global típico. De alguma maneira, Palácios é o anti-Merval, o anti-Sardenberg.
            Outro dia, no noticiário comandado por Leilane Neubarth, (sempre ela) o correspondente foi chamado desde Buenos Aires para dar informações. Apurei os ouvidos, afinal o que passa na Argentina nesses primeiros dias do governo Macri é assustador para quem, como eu, não esqueceu o efeito Orloff.
             Sobre o que falaria Palácios? Abordaria a nomeação por decreto de juízes da Corte Superior de Justiça? Mencionaria a anulação, também por decreto, da moderna Ley de Medios promulgada por Cristina? Traria algum dado novo sobre a fuga dos irmãos Lanata? Não, Ariel Palácios fora chamado para falar sobre a Venezuela e a anulação das eleições numa zona eleitoral do interior do país. Pois é, Palácios teve de explicar um fato ocorrido num país onde não vive e no qual, talvez nunca tenha posto os pés. Um país que faz fronteira com o Brasil e não com a Argentina.
            Bem sei que o jornalismo está em crise, principalmente o jornalismo da Globo que anda demitindo todo mundo. Nesses tempos de vacas magras seria esperar demais que a emissora dos Marinho tivesse um correspondente na Venezuela ou mesmo em Roraima para nos dar informação colhida no local ou nas proximidades, mas precisava ser o correspondente da Argentina? 
            Ouvindo o Ariel Palácios falar sobre a eleição venezuelana me lembrei do Hélio Costa, o enviado especial da Globo que todo domingo aparecia no Fantástico falando desde algum lugar da Europa. Não lembro se o que ele reportava tinha alguma relevância, mas lá estava ele com seu sobretudo e suas luvas tendo ao fundo a torre Eiffel, o Big Ben ou a Catedral de São Pedro. Era a época da ditadura e as vacas da Globo eram gordas. Hoje, o correspondente em Tóquio nos conta da eleição no Turcomenistão, o jornalista sediado na Itália comenta as inundações na Índia e o Ariel Palácios se vira para explicar para Leilane Neubarth o que se passa na Venezuela falando no Skype desde seu escritório em Belgrano.




sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O pior ano de nossas vidas. Por enquanto.





            O ano que passou foi pródigo em desgraças. Talvez, no futuro, 2015 seja lembrado como o ano em que Donald Trump iniciou sua carreira política. Nossos descendentes olharão para essa data incrédulos assim como hoje miramos 1933. O infausto ano também será recordado pela maior crise de refugiados desde a segunda guerra mundial e pela ascensão do Estado Islâmico. Não é pouca desgraça.
            No Brasil, 2015 deveria ser lembrado como o ano de Cunha e da constatação de que o fosso moral dos políticos não tem fundo, mas creio que o usufrutuário evangélico será apagado da história. Talvez não passe de nota de roda-pé nas crônicas do futuro. Ademais, como disse, o fosso não tem fundo e poderemos ter novos protagonistas da baixeza política e humana que suplantem Cunha.
            Mas não só de figuras públicas fez-se o desditoso ano. Os anônimos das redes sociais e das passeatas também luziram. Nunca na história desse país se viu tanta estupidez, tanto ódio, tanta manifestação de burrice patológica e hereditária. Foram esses anônimos que fizeram com que Lobão, Sheherazade, Alexandre Frota e outras sub-pessoas fossem mote de notícias e que Chico Buarque fosse agredido por cavernículas paulistas em pleno Leblon
            Para encerrar o ciclo foi justamente no dia 31 de dezembro que fiz mais uma constatação sobre o ano nefando: a demagogia floresce viçosa como nunca. Veja se não tenho razão.
            Numa postagem muito difundida nas redes sociais nesse último dia do ano, vemos Angela Merkel fazendo compras no supermercado. Na legenda que acompanha a fotografia lemos que a chefe de governo faz suas comprinhas e espera na fila do caixa como qualquer um. No diário El País, da Espanha, conta-se que a chanceler estava acompanhada apenas por dois seguranças, mas como ninguém sequer olhava pra Angela, não foi necessária a intervenção dos agentes que a custodiavam. No diário, mas não na postagem do facebook, mencionam que as comprinhas de Merkel foram feitas dois dias antes das eleições. No entanto, o diário espanhol conseguiu convencer seus leitores e usuários do facebook que nesses dias em que todas as capitais europeias estão em alerta máximo devido às ameaças (ou paranóias) terroristas, a chefe do governo alemão anda por aí com apernas dois seguranças e para economizar os impostos dos contribuintes não usa sequer o serviço de entrega em domicílio dos mercados. Nos muitos comentários da rede social e do sítio do El País os crédulos se desmancham em elogios à sobriedade de Angela Merkel. Nada dizem do papel que a Alemanha, sob seu comando, desempenha na crise europeia e nas medidas de austeridade impostas aos países mais afetados pela delinqüência (sim, eu boto trema em delinqüência) bancária.
            Claro que essa demagogia pré-eleitoral será suplantada fartamente quando João Dória Júnior comer pastel na feira durante a campanha para prefeito de São Paulo.
         

Aldravias XI





A
esse
desmoronamento
chamam
maturidade,
sabedoria