sábado, 25 de fevereiro de 2017

Ganga bruta





Sonetos são para ourives
que encrustam no metal precioso
a gena rara

Sou minerador
cavuco no escuro
a ganga bruta.






sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Os ébrios do amor





Os ébrios do amor
não desistem de suas paixões
e os cínicos os miram com desdém

os ébrios do amor
não esquecem um só detalhe
impacientes, os céticos consultam seus relógios

os ébrios do amor
ainda estão tentando achar o Sonrisal
quando os lúcidos já estão no trabalho.

os ébrios do amor
plantam gerânios crisântemos e orquídeas
os áridos pisam-lhes os brotos

os ébrios do amor
cometem seus  poemas e fazem dedicatórias
mas os ácidos não os leem.

os ébrios do amor
curtem suas intermináveis  ressacas
como qualquer alcoólatra

as musas, enquanto isso,
passam batom vermelho
e brincam o carnaval com os sóbrios





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Marido modinha





            Não vejo nenhuma graça em ficar velho. Nem graça nem vantagem. Além de tudo que vem com a decrepitude do corpo, há o enfaro da falta de novidades, essa sensação de já ter visto o filme. Poderia dizer que a vida depois de uma certa idade é uma espécie de sessão da tarde.
            Esse Brasil que caminha para trás, eu já vi. O festival de besteiras que assola o país, eu já vi. Os idiotas assumindo postos de mando, eu já vi. A classe média dando chiliques por ver o pobre, o negro, o nordestino ganhando espaço nas discussões e um pouco de cidadania, eu já vi. Até o fim do mundo eu já vi uma dezena de vezes.
            E tem as modinhas. Também já vi uma porção delas, e ainda que elas se renovam, algumas voltam. Tem um cara em São Paulo ganhando uma nota preta fazendo leitura de aura. Pois é, eu também achava que isso já tinha ficado no passado. Quem sabe, se eu viver mais uma década, ainda vá ver o renascimento do feng shui, do I ching e da terapia de vidas passadas.
            Lembro de uma dessas modinhas que, por ser demasiado ridícula,  não hei de ver novamente. Foi coisa dos anos 90 e felizmente naqueles tempos não havia redes sociais para dar vazão à bobagem. Tratava-se de gravidez. Uma mulher ficava grávida. Vinham os enjoos e ela ganhava uns 10, 12 quilos de sobrepeso. Os pés inchavam, os peitos inchavam, a cara inchava. A barriga enorme dificultava os movimentos mais simples,  o humor alterava. Tudo isso sem contar os palpites que tinha (e tem) de escutar sobre parto e criação dos filhos. Pois bem, sabe o que fazia o marido enquanto isso? Ele encontrava os amigos e dizia alegremente: referindo-se ao estado nada interessante da mulher:_ Nós estamos grávidos. Podia haver uma variante se o dito paspalhão fosse o típico marido modinha dos anos  90:: _ Minha companheira e eu estamos grávidos.
            Nos EE.UU, lugar de todos os exageros e imposturas, chegaram a fabricar uma barriga falsa que o sujeito "vestia" para "sentir" o que era a gravidez. Se me lembro bem, a "barriga" vinha com uns peitões bem ao gosto americano. Claro que para se livrar da barriga era só desafivelar e jogar em cima de alguma cadeira. Aquilo não haveria de lhe passar por nenhum orifício.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Bichos?





Bichos?
Eu queria mesmo
era ter em casa um leão
sisudo e caladão

que não desse conselhos
nem palpites
e enchesse a cara de Rum Montila
todo fim de semana

Também podia ter
uma lagartixa clarinetista
que entre uma mosca e outra
tocasse o Bolero de Ravel

Ah! e um macaco expedido
que fizesse os mandados
e afanasse umas iguarias
nas prateleiras de produtos finos
do supermercado.




domingo, 12 de fevereiro de 2017

Jorge raiz X Jorge Nutela





Jorge raiz                                   Jorge Nutela

Tinha saúde de ferro                   É diabético e bebe
e bebia cachaça                          café com leite com Zero Cal

Fumava maconha                       Fuma Minister e
e Continental                              Fumo Oliveira

Era canibal                                 Não come ninguém

Frequentava a quadra                 Assiste o carnaval
da Vila Isabel                              na Globo

Bebia cerveja                             Bebe cerveja no estacionamento
em qualquer botequim                do supermercado

Morava na Lapa                        Mora no Pinguirito

Jogava no bicho e                      Joga na Mega Sena e
às vezes ganhava                        acha que vai ganhar

Dançava no Elite                        Dançou

Jogava pelada no Aterro            Joga paciência no computador

Torcia pelo Galo                        Torce pelo Galo




terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Teu nome





Teu nome de terra turca
Teu nome  de maresia
Teu nome de renda fina
Teu nome

Teu nome que sabe a tâmaras
Teu nome que luz azul
Teu nome que soa a canto
Teu nome

Teu nome toque de pétala
Teu nome brilho de pérola
Teu nome vôo de pássaro
Teu nome

Teu nome em um livro raro
Teu nome em um mapa persa
Teu nome em um filme mudo
Teu nome

Teu nome o único tema
Teu nome a última cena
Teu nome o mágico instante
Teu nome

Teu nome que não esqueço
Teu nome que vem com a chuva
Teu nome que não mereço
Teu nome

Teu nome quer ser poema
Teu nome quer ser lembrança
Teu nome quer que eu o diga
Teu nome





quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Se





se
ao menos
não me tivesses amado
se ao menos
não tivesses dito
tantas coisas lindas


se
ao menos
me tivesses traído
enganado
abandonado
sem motivo
nem porquê

se
ao menos
não fosses tão bonita.