segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Simplicidade







Tem muito samba bom que eu só escutei uma ou duas vezes. Nossas TVs e nossas rádios são avaras de nosso ritmo nacional. Se às vezes tocam samba de qualidade, é como se estivessem fazendo um favor ou uma concessão. Somente quando um cantor ou uma cantora de sucesso gravam alguns desses sambas é que ficamos conhecendo seus autores. No momento é Zeca Pagodinho quem nos mostra Monarco, assim como alguns anos passados, Beth Carvalho nos fez ouvir Cartola.
Um desses sambas que pouco ouvi e do qual só gravei uns versos e sua deliciosa melodia, diz:_”Já não se samba mais à luz do lampião, nem as cabrochas vão pro terreiro de pé no chão”. Não sei quem é o autor nem o nome do samba. Tampouco sei em que época foi feito.
Não creio que o compositor queira que as pessoas andem de pés no chão e não tenham eletricidade. Parece-me, que apenas relembra dias de mais simplicidade. Imagino que o autor sinta saudades de bons momentos da vida e nesses momentos as cabrochas iam sambar no terreiro de pé no chão. O mesmo me passa.
Outro dia abrindo o face book vi uma postagem que era uma lista desses meios modernos de comunicação associando-os a classes sociais ou algo assim. A piada dessa postagem era que o Orkut era para favelados. Já nem me assusto mais com essas manifestações de preconceito contra pobres e favelados nas redes sociais, mas nesse caso a manifestação odiosa vinha até mim por intermédio de uma menina que é minha parenta. Ela é uma adolescente e não creio que haja nenhuma maldade em seu coração para discriminar ou querer humilhar alguém por sua condição social. Apenas vai na onda e esse tipo de preconceito é moda entre os que têm acesso aos meios de comunicação eletrônicos.
Essa menina talvez desconheça que nossa origem é das mais pobres. Nunca moramos numa favela mas em determinado momento de nossas vidas as coisas eram dificílimas. Vivíamos num bairro periférico de Contagem, cidade satélite de Belo Horizonte. As ruas eram de terra e 24 horas por dia caia sobre nós os resíduos que a fábrica de cimento Itaú despejava por suas chaminés. A água, que chegava às torneiras num fio ínfimo, num certo momento deixou de chegar, só tinha força para pingar no limite do quintal. Aí foi posto um tambor de duzentos litros que acumulava o líquido e depois era levado aos baldes para dentro de casa onde havia outro tambor do mesmo tamanho.
Depois de algum tempo a água deixou de pingar e tínhamos que trazê-la desde a cisterna de Dona Nelita, prestimosa vizinha. Minha prima Bebeth e eu carreávamos baldes e baldes para que minha avó pudesse lavar e cozinhar e para nosso banho antes de irmos para a escola. Mesmo com toda a dificuldade, comíamos sempre o arroz, o feijão, a farinha. Carne havia de vez em quando mas minha avó conseguia extrair do chão coberto de fuligem de cimento algum tempero e umas folhas verdes. Comíamos com prazer sua comida sempre gostosa, sempre bem temperada no melhor estilo mineiro. Nunca faltou leite para minhas primas pequenas, nem presentes de natal mesmo que por algum tempo só minha Tia trabalhasse como costureira a domicílio.
Apesar da falta d’água, tínhamos nossos uniformes sempre limpos e passados e íamos cheirosos para a escola. Íamos a pé pelas largas avenidas do bairro industrial, algumas vezes acompanhados pela Socorro que era colega de turma de minha prima e que sempre levava um grande rádio de pilhas sintonizado na rádio Atalaia.
Foi nessa casa de quarto e sala onde viviam três adultos, dois adolescentes e duas crianças, que vi o Brasil ser campeão do mundo pela terceira vez. Foi aí que assisti junto a minha tia Lourdinha e seu marido Airton, numa sessão da meia noite da Globo, o filme Casablanca pela primeira vez. Foi nessa rua de terra, que joguei muitas peladas com meus amigos Merci e Montanha.
Nosso único eletrodoméstico era um liquidificador e tínhamos também uma TV Telefunken. No entanto, relembro esses dias com grande saudade. Foram dias felizes para mim. A amizade com a prima, a escola que freqüentávamos até no domingo, os bailinhos do Grupo Escolar onde tocavam o Wandinho, namorado de minha prima, o Lobão e o Orozimbo, meus primeiros amigos mais velhos. Pode até parecer estranho, mas eu sinto saudade daquela simplicidade, daqueles dias de privações e alegrias.
Talvez por ter vivido assim, hoje eu entenda a letra de certos sambas e tenha muito respeito por quem mora em favelas e periferias.
Por ter vivido na pobreza e na simplicidade, outro samba me causa muita emoção quando o escuto. Diz assim o poeta:_ “Habitada por gente humilde e tão pobre, que só tem o céu que a todos cobre, como podes Mangueira cantar?” A resposta, o próprio poeta dá: _“Pois saiba que nós não queremos mais nada, a noite a lua prateada, ouça as nossas  canções, temos no alto um cruzeiro onde fazemos nossas orações, e temos orgulho de ser os primeiros campeões” Simplicidade.


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Olímpicas







Por ter jogado minhas peladas e acompanhar com paixão o futebol profissional, eu me julgava um esportista, pelo menos, no sentido lato do termo. Ledo auto-engano. Na verdade eu só gosto mesmo é de futebol e lutas de boxe e MMA.
De 4 em 4 anos eu me disponho a assistir os Jogos Olímpicos. Curto algumas coisas do atletismo e do levantamento de pesos mas o resto me enche de tédio olímpico.
Existe algo mais entediante que provas de saltos ornamentais? Sim, existe, é o nado sincronizado.  
O mais chato é ouvir dos narradores, que até ontem só conheciam mal e porcamente as regras do futebol, sobre a beleza e elegância das praticantes do nado sincronizado. Ora, ver aquelas moças que se aproximam da piscina com passo de ganso e prendedores de roupa no nariz, me fazem sempre pensar que esse esporte deveria ser denominado  Mocréias aquáticas. Mocréias aquáticas em duplas ou em equipes, mas sempre mocréias, sorridentes e esquisitas, praticando essa estranha modalidade que levou Ester Williams para Hollywood para lá protagonizar os mais chatos musicais que o espírito humano pôde conceber.
Muitos outros esportes devem ser muito bons de se praticar mas para assistir não dá o menor prazer. A vela, por exemplo. Na tela da televisão ou temos uma imagem fechada num barco que não se sabe sequer para que lado está indo ou uma panorâmica de uma porção de barcos que não sabemos se estão indo ou voltando. O esporte extremamente burguês, não foi feito para ser acompanhado, muito menos pela televisão.
O que, sim, dá boas imagens é o ciclismo, mas pelo que entendi dos especialistas que comentam nos canais esportivos, a modalidade tem as regras mais estapafúrdias que já se viu. Deveria ser uma corrida e quem chegasse na frente seria o vencedor. Mas não é bem assim.
O tiro com arco, que deveria ter o nome de arco e flecha, também não é algo que cause muito entusiasmo na telinha. Num momento temos no vídeo uma cara gorducha e deformada pelo contato com a corda, no instante seguinte, um alvo atingido, haja monotonia. Além do mais o arco nada tem que nos faça lembrar a arma de guerra ou de caça que víamos nos filmes de Errol Flyn. São uns objetos que mais parecem aparelhos ortopédicos que qualquer outra coisa.
Há nos Jogos Olímpicos uma série de esportes que causam grande comoção em narradores e comentaristas mas nem por isso deixam de ser chatos ou incompreensíveis quanto ao critério de pontuação. Assim é a ginástica. Ninguém se dá ao trabalho de explicar se os 15.600 pontos obtidos por aquela moça magrinha no salto sobre o cavalo, é bom ou ruim.
A esgrima só teria graça se fosse à vera. Os competidores usariam sumário traje branco e o primeiro a sangrar perderia o combate e seria prontamente socorrido pelos médicos. Os que morressem receberiam uma linda homenagem e seriam sagrados mártires olímpicos.
Algumas modalidades mudaram suas regras para serem mais atrativas para o público. A luta greco-romana é uma delas. O esporte é até interessante mas a posição de retorno à luta depois que um dos contendores comete alguma falta, é muito constrangedora.
O vôlei de praia é que deveria mudar as regras para atrair mais atenção. Os bikinis das moças deveriam ter seu tamanho reduzido para padrões ipanemenses, guardando-se o direito das muçulmanas de usarem o véu..



sábado, 4 de agosto de 2012

De meninos e livros







Eu tinha 13 anos quando fui fisgado pelos livros. Como isso aconteceu no meio das férias eu não contava com a biblioteca da escola. No meu bairro não havia uma e, pensando bem, creio que não vi nenhuma naquele Belo Horizonte dos anos 70.
Por aqueles dias, lembro de ter lido um romance cuja ação era passada no Alasca ou em outro lugar frio pra burro. Já não lembro o título mas fiquei com uma lembrança toda branca de umas poucas cenas do romance. Não é o tipo de literatura que alguém cite como fonte de formação, mas eu gostei.
Naquelas férias escolares também li Clarissa, do grande Érico Veríssimo, e até hoje, quando penso no livro, vem-me uma sensação azul e cheiro de violetas.
De outros livros daquela época pouco lembro. Lembro sim de uma vez em que estava lendo nas escadas do prédio onde morava e uma vizinha veio dar-me uma caixa de maçãs cheia de livros. Não era, nem de longe, o que se poderia chamar de uma biblioteca infanto-juvenil. A maioria dos volumes era daqueles livrinhos de bolso de espionagem, caubóis e aventuras. Havia coleções famosas desses gêneros. Entre os que não eram desse formato, estava um de Morris West que mesmo eu, leitor iniciante, achei muito ruim, mas como seguia a receita dos “best-seller”, tinha algo de sexo, e li até o fim a insulsa trama.
Outro volume da caixa de maçãs era de autoria de Ibrahim Sued e versava sobre boas maneiras. Quem me conhece deve estar pensando que pouco proveito tirei da “obra” do Ibrahim. É verdade. Minhas maneiras podem ser chamadas de tudo, menos de  boas. No entanto esse livro me ensinou que devemos usar o termo “mulher” quando da nossa se trata e “esposa” para as dos outros. Até hoje, quando escuto alguém falando “minha esposa”, lembro do livro e tenho vontade de rir. Me parece tão falso, tão postiço que tendo a qualificar logo o sujeito como mal amado e pedante. O pior é quando dizem “minha senhora”, aí, minha vontade não é de rir, mas de  esganar o camarada.
Mas no meio desse monturo havia um pequeno tesouro: “As aventuras de Tibicuera” de Érico Veríssimo. Este sim, um livro para meninos de 13 anos. Ou, pelo menos, meninos de 13 anos daquela época. Hoje teríamos de rebaixar a idade dos possíveis leitores da obra de Veríssimo em 3 ou 4 anos pois daquele tempo para cá foi criada a categoria de pré-adolescente e os meninos de 11, 12 anos estão obrigados a dar outras respostas ao meio social e, na intimidade, refugiarem-se nos jogos “on line” deixando espessa baba nos teclados dos computadores.
Mas voltando aos meus 13 anos, ou pouco mais. 
Numa noite fria belorizontina descobri Jorge Amado e sua Teresa Batista cansada de guerra. Foi um deslumbramento. A obra de Jorge, (me permito a intimidade com esse brasileiro tão amado) principalmente na fase iniciada por Gabriela, não seria aconselhada para meninos, na concepção que se tinha naqueles tempos, eu discordo. A sensualidade de Gabrielas e Teresas são um estímulo para a sexualidade sem tabus, sem mentirinhas ou frescuras, e a mocidade precisa tanto de sexo quanto de livros.
Sei que a literatura produzida hoje para os pré-adolescentes é de outra índole. Procuram concorrer com os tais joguinhos eletrônicos e muitas vezes apenas acompanham a tendência da sociedade de jogar logo os meninos no mundo chato e competitivo. Tem até literatura “gospel” para essa faixa etária. Doutrinária e careta.
Imagino que deve haver bons escritores produzindo literatura infanto-juvenil, mas a sociedade não anda produzindo bons leitores. São muitos canais de TV, muitos joguinhos, muita internet e face book. E os smartphones que fazem todo o serviço do capeta e cabem no bolso.
No entanto, o mercado editorial anda de vento em popa. Talvez sejam as compras governamentais, talvez uma reação de certa parte da sociedade que já vislumbrou um futuro sinistro sem livros nem conhecimento. Um mundo só de informação mal assimilada, mal digerida, sem elo com o passado, imediatista.
Mas se as massivas compras de livros pelo governo federal mantêm forte e pujante nosso mercado editorial, os preços dos livros não baixam, as bibliotecas não se multiplicam e quando delas se fala é para inserir nas conversas e debates os computadores e toda espécie de digitalização. Pensa-se hoje, numa biblioteca cheia de máquinas conectadas à grande rede. A isso chamam de modernidade, de inserção digital. Mas tem pior.
Depois de dormir “ciência e tecnologia”, Mercadante acordou “educação”. Numa de suas primeiras falas, o Ministro fez  apologia dos “tablets” (há que se escrever assim, em inglês, pois quem traduz o termo para tablete é ridicularizado). Falou na economia que seria feita trocando-se o livro didático de papel pelos “tablets” e mais uma porção de coisas que a noite de sono lhe metera na cabeça.
Não posso aferir se haveria ou não economia do dinheiro público nessa troca do papel pelo digital, mas fica claro que as editoras engordadas com os lucros advindos das compras governamentais, podem se dar ao luxo de lançar boa literatura tanto para os meninos quanto para os adultos. No caso dos “tablets” tenho lá minhas dúvidas se o ganho aferido pela aquisição massiva reverteria para maior número de obras literárias disponíveis nesse formato ou iria se diluir em mais tecnologia inútil e descartável.
O mundo digital torna obsoleto o que ele mesmo produz, em pouquíssimo tempo. Creio que um “tablet” lançado esse ano perderá sua utilidade em menos de 3 anos. Além do mais, qualquer pessoa que tenha em casa um aparelho digital, seja um computador ou um celular, sabe que o troço pifa. Já fico imaginando um “tablet” dentro de uma mochila escolar que está servindo de baliza para a pelada depois da aula. Se é que os meninos ainda jogam peladas depois da aula.





quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O perfeito idiota







O seu filho é chato? Faz piadas explicadinhas? Ri mais dos próprios ditos que os outros? Interrompe a fala de outras pessoas para soltar uma de suas tiradas? Tem uma auto-imagem muito distante da realidade? Ele gosta de dizer palavrinhas e frases em inglês sem nenhuma necessidade? Quando alguém diz algo engraçado ele pede que repita imediatamente? Fala com voz impostada e abatatada? Ele não tem nenhuma cultura e seu português é deplorável? É xenófilo? Enfim, seu filho é um perfeito idiota? Não se preocupe pelo futuro do moleque. Ele pode vir a ser um grande narrador esportivo.
Você acha que exagero? Pois pense. Quais são os mais populares e bem pagos narradores esportivos do Brasil? Sem dúvida Galvão Bueno e Luciano do Valle, certo? E você conhece gente mais idiota que esses dois? Duvido.
O cume da carreira de narrador esportivo está diretamente ligado ao grau de idiotice. Não que o modesto locutor de uma rádio interiorana seja quase um intelectual. Não. Sob o deslumbramento de ver o próprio nome citado e escrito é que se revela o perfeito idiota e futuro dono das tardes e noites esportivas. Dê-lhe luz e ele lhe dará mostras da mais perfeita cretinice, da mais crassa imbecilidade, da mais profunda idiotice.
Não sei como é feita a escolha dos narradores pelas emissoras de TV e rádio, fica patente que não é pela beleza da voz. Alguns são fanhos, outros rouquenhos, e há até os que falam fino. Mas histérico tem de ser. Seu grito de gol deve ser longo e de um arrebatamento muito superior ao do mais fanático torcedor e mesmo ao do autor do tento. Sua narração de Barueri X Bragantino deve ser frenética.
Mas deve haver algo científico na escolha daqueles que durante anos e anos nos farão desligar o som da TV antes que venha o desejo de quebrá-la.
Talvez sejam feitos exames médicos que detectem alguma pré-disposição genética, alguma enzima, talvez uma célula mutante. Não sei. Quem sabe, uma simples entrevista seja capaz de mostrar o grau de estupidez e apontar assim o melhor candidato à vaga de narrador esportivo.
Imagino um questionário de avaliação que perguntasse sobre gostos e preferências: “Qual sua música preferida”? _”I just fuck a lady do Kick my ass que tem como baterista o Tony Cock que foi do Black pussy e depois do Masturbacion please”. Um ponto pro candidato. O perfeito idiota nunca cita canções ou músicos brasileiros e tende a mostrar vasto conhecimento em fichas técnicas de discos estrangeiros.
Segunda pergunta. “Qual é o seu time de coração”?. _”A Lazio” Mais um ponto. O perfeito idiota, embora seja brasileiro, sempre torce por um time estrangeiro cuja torcida jamais deixaria que ele ocupasse um lugar no estádio por ser racista e xenófoba.
Mais uma questão. “Quem é seu ídolo no esporte”?  _”Airton Senna”. Mais um ponto. Um perfeito idiota sempre cita outro.
Seguindo. “Qual é a sua melhor lembrança da infância”? _”O show da Xuxa”. Ponto. “Qual seu livro favorito”: _”Memórias de um mago, do Paulo Coelho”. Ponto. “Uma qualidade”? _”A fé”? “Um defeito”? _”A falta de fé” “Uma frase” _Diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Ponto, ponto, ponto.
Não tem pra ninguém. O perfeito idiota já está empregado. Estréia na cobertura dos Jogos Olímpicos narrando a prova de equitação. Ele nada sabe de equitação? E daí? Quem assiste provas de equitação ou é um burguês que tem fumos de aristocrata ou um perfeito idiota. O que dá no mesmo.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A maravilha espanhola, o fenômeno uruguaio







Não venho acompanhando os jogos olímpicos. Não é por falta de interesse senão por pequenos problemas pessoais que não cabe aqui mencionar. Mas não estou totalmente alheio. Assisti os dois jogos da Seleção Brasileira e um dos jogos das mulheres. Refiro-me, é claro, ao torneio de futebol.
As mulheres meteram uma goleada nas camaronesas como era de se esperar. O segundo jogo não vi, mas vi o golaço que Cristiane meteu já no fim da partida. Os caras vão bem. Venceram os egípcios mesmo fazendo um segundo tempo ruim, desconcentrado. Um dos gols dos africanos saiu de uma falha individual de Juan que me parece ser apenas um bom rebatedor, nada mais.
No segundo jogo a Seleção soube furar a boa marcação da Bielorrússia e, virando o placar, venceu de maneira convincente.
No torneio de futebol, vi também o 2º jogo do Uruguai. Após vencer o 1º jogo contra os Emirados Árabes no sufoco, a celeste olímpica enfrentou o Senegal e foi derrotada de maneira incontestável. Embora jogando com um homem a menos por mais de 65 minutos, os africanos deram um banho de bola na seleção que, segundo a imprensa esportiva brasileira, era uma das favoritas ao título.
Acontece que a imprensa esportiva brasileira comenta jogos que não vê e conhece times através da internet. De onde tiraram que o Uruguai era favorito? A seleção albiceleste conseguiu sua classificação para os jogos ficando em segundo lugar no torneio sulamericano sub-20 vencido pelo Brasil. No jogo final perdeu para o Brasil por 6 X 0. Tomar uma tunda de 6 X 0, seja lá pra quem for, não habilita ninguém como favorito a nada. Será que depois disso fez meia dúzia de exibições extraordinárias? 
 Além do mais o que sabia nossa imprensa sobre o Senegal? Sobre os Emirados Árabes eu sei que no Saara, não o africano, o do Rio, há mais jogadores árabes que no país do golfo. Ainda assim os uruguaios ganharam apertadinho do pessoal do kibe. Agora lhes resta vencer a Grã Bretanha para se classificar para a fase seguinte pois conta com 3 pontos e saldo negativo 1 enquanto Senegal soma 4 pontos e saldo de 2 tal qual a Grã Bretanha. Caso empatem, os uruguaios teriam de contar com uma derrota dos senegaleses por 0 X 4 perante os árabes. Haja esfiha.
No outro grupo, a maravilhosa Espanha, queridinha da imprensa brasileira, já está fora depois de perder paras as potências futebolísticas do Japão e de Honduras. O jogo contra Honduras eu vi e o final foi melancólico. Um jogador centro americano foi chutado e pisado enquanto estava caído após sofrer falta, juiz e bandeirinhas receberam peitadas e xingamentos. Depois da  derrota, e conseqüente eliminação, as declarações do técnico espanhol e de seus comandados foram tão idiotas que me eximo de transcrever. A imprensa espanhola culpou a falta de sorte e a arbitragem pelo fracasso olímpico. Perderam o jogo mas não a arrogância tão comum naquelas plagas.
Quanto ao resto, pouco ou nada vi. Um pedacinho da abertura que me deu sono muito antes do ápice. Mas todas que vi em jogos olímpicos anteriores também me deram sono. Andei, sim, lendo alguma coisa  sobre os bastidores dos jogos.
Juca Kfouri nos conta que os jornalistas credenciados recebem da organização dos jogos, uma bolsa de mimo. Dentro há uma porção de coisas úteis como mapas e outros que tais. Tem até creme de barbear. Acontece que na entrada dos estádios a bolsa é confiscada pela polícia. Deve ser para dar a outros jornalistas pra que fiquem contentes por algumas horas. O Turco também anda reclamando das apalpadelas inconvenientes dos canas mesmo em quem já passou pelos controles de Raios X. Por que apalpam tanto? Paranóia com terrorismo? Para humilhar os jornalistas de países periféricos? Viadagem explícita? Quem sabe?
Mas só do Juca Kfouri li alguma crítica. Seus colegas que lá estão, nada comentam. Mantêm o comportamento típico dos caipiras brasileiros embasbacados com qualquer bobagem ou novidade estrangeira.
Ontem, um aparelho que comanda a largada das provas de natação pifou. Uma nadadora caiu na água. Nada de mais, enquanto o aparelho era concertado as atletas tiveram tempo par relaxar e aliviar a tensão que a falsa largada provocara. Em 2016 tal fato pode fazer corar nossos jornalistas que vão falar que o Brasil não pode organizar nada. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Português, adeus







Essa aconteceu no STF. Como você já deve ter notado, eu sou fascinado pelo Supremo, não pelo poder judiciário ou pela justiça, meu fetiche é o Supremo, a corte maior. Talvez sejam as togas, quem sabe a ritualística ou o cabedal jurídico de alguns de seus membros. Sei lá. Mas o fato é que essa aconteceu no Supremo.
Tratava-se de julgar se o partido de Kassab teria ou não direito ao tempo de televisão e verbas do fundo partidário de acordo com o tamanho de sua bancada. A lei fala em último pleito para aferir tais direitos, mas o PSD não disputou as últimas eleições, é virgem nas urnas. Ainda assim congrega sob sua sigla votadíssimos senhores deputados e senadores que para lá migraram por motivos diversos; amor à Pátria, divergência ideológica profunda com o ex-partido ou quem sabe, o deslumbramento de pertencer a um partido que não é nem de direita, nem de esquerda, nem de centro. Enfim, coisas insondáveis da alma.
O relator do caso era o Ministro Dias Toffoli, que mesmo antes de iniciar seu longo, longuíssimo parecer, falou em “portabilidade do voto”. Para o Ministro Joaquim  Barbosa foi demais. De pé, tendo a alta cadeira como apoio para sua coluna avariada, o Ministro soltou uma exclamação que saiu-lhe de dentro:_Mas o que é isso!?  Referia-se, é claro, ao termo usado por Toffoli. Com seu riso de tímido, o Presidente Ayres Brito falou que era culpa dos celulares. O Ministro Barbosa não se conformou e seguiu resmungando algo que os microfones da TV Senado não captaram bem.
O Ministro Toffoli, creio, não se abalou, e  começou a ler seu relatório que tentava ensinar padre a rezar missa. Para mim, leigo em leis e em tudo, teria sido útil ouvir o Ministro que tratou da história do Tribunal Eleitoral, dos princípios do direito e da criação da terra. Mas eu não suporto a voz do Ministro Toffoli e enquanto o ouço não deixo de pensar na sua assunção à mais alta esfera da magistratura por via tão transversa. Como sabemos, o Excelentíssimo Ministro Toffoli foi por duas vezes reprovado no concurso para juiz, não tem obra jurídica publicada, nem sequer passado ilibado. Mas lá está, roçando sua toga com as de luminares da justiça brasileira.
A “portabilidade” de Toffoli conta bem de seu escasso saber. Das ruas, do mundo real, da sociedade, o Ministro não leva ao Supremo a voz rouca do povo, seu sentido de justiça, sua indignação. Não, o Ministro cata do mundo o linguajar tolo e vazio, o neologismo sem graça e pretensioso e o leva àquela colenda corte.
Se fosse só o Ministro Toffoli a perpetrar essas bobagens tudo estaria bem, colocaríamos mais uma no seu perfil de cara-de-pau. O pior é que esse linguajar que faz verbo de qualquer substantivo e substantivo de qualquer verbo, está se tornando uma praga lingüística. O técnico do Corinthians, Tite, que foi alçado ao panteão dos deuses por ter ganhado a libertadores, fala em “treinabilidade” e outros bichos. Aqui, na minha pequena cidade um cidadão está indignado pelo fato dos carros da prefeitura não terem adesivos indicando que são carros do serviço público e através de um grupo de eleitores do face book, faz campanha pela sua “adesivação” roga que os carros sejam “adesivados”. "Adesivagem" já, conclama
Antes que você diga que é assim mesmo e que esses modismos logo passam, devo lembrar que quem entrou na escola no “a nível de” já está se formando na  "portabilidade”.
Por falar em formando, outro dia eu estava vendo um pedacinho de um festival sertanejo na televisão. Claro que o festival não se chamava Festival Popular Sertanejo e sim Sertanejo Pop Festival. Nos bastidores (agora chamado nos jornais, rádios e TVs de back stage) uma repórter entrevistava um dos “artistas” e para se assegurar que o cidadão era mesmo um sertanejo universitário, a moça do microfone lhe perguntou que faculdade fazia ou fizera. Agronomia, foi a resposta do moço de chapéu. Respondendo a  outra pergunta e creio que tentando explicar a bobagem que era sua música, o rapaz disse:_ “Se eu fazer uma música...” Meu neto, de vez em quando, comete esse mesmo erro, mas ele tem 6 anos e freqüenta o 1º ano primário. Ele não é sertanejo e não sei se será universitário, mas sertanejo universitário, eu não deixo.


sábado, 28 de julho de 2012

Como disse o Barão







A verdade é que vivemos tempos idiotas. Outros tempos também tiveram suas idiotices, você dirá, e eu concordo. Mas o que estou dizendo é outra coisa. Digo que tudo a nossa volta é idiotice. Temos que conviver com o Teló, com as stand up comedy (uma coisa tão horrível que nem tradução tem), com os neo-pentecostais, com a novela da Globo, com os neo-comentaristas esportivos, com a mais medíocre geração de políticos, com os (ch)ateus organizados, com os reality shows (outra besteira sem tradução) e com toda espécie de pesquisas e estudos em todos os campos da atuação humana e fora dela.
Dessas pesquisas e estudos saem relatórios que poucos anos atrás teriam o destino de ir dormir em seus túmulos acadêmicos cumprindo assim sua função social de dar empregos a arquivistas, bibliotecários e afins. Hoje, não. Nos nossos tempos idiotas elas são escritas e postadas na internet para que milhões possam tirar proveito de suas perspicazes conclusões. “Pesquisa aponta que as mulheres gostam quando seus maridos sofrem reveses”. Deve ser ótimo viver com um sujeito depressivo e reclamão. “Estudo comprova que os homens mais altos recebem melhores salários” Fica claro que devo crescer mais e melhorar minha renda. Outras e muitas pesquisas nos são oferecidas. “Pesquisa revela que 30% dos solteiros preferem comida predileta a sexo”. E aí comeu?
Não há refúgio possível. Há trinta anos atrás, quando ficávamos fartos da TV, íamos para o botequim. Ah! O botequim. O papo, a anedota, a paquera. Mundo a parte da idiotice cotidiana. Ágora, assembléia, palanque e púlpito. Hoje esse lugar sagrado, tem televisão. Quem nos recebe à porta não é mais o amigo sorridente e fraterno ou o bêbado pedindo que lhe paguemos uma cachaça. Não, hoje mal entramos e lá está o Luciano Huk, o Datena, a Leilane Neubarth, ou pior, o Galvão Bueno, rei absoluto da idiotice televisiva.
Nos nossos tempos idiotas Renato Russo é tratado como poeta e Marcelo Tass é confundido com comediante. Neto comenta futebol e Pondé deita falação sobre todos os assuntos e freqüenta todos os programas da televisão. Fernando Collor de Merda preside comissão no Senado e é membro do Conselho de Ética. De ética!
Mas a idiotice não está só entre os famosos e os formadores de opinião. Pelo contrário, é entre os anônimos que ela se alastra. Nas ruas, multidões de idiotas andam de cabeça baixa. Não que estejam cientes de sua idiotice e, envergonhados da própria tolice, mirem o chão. Não, estas multidões estão olhando para seus “smartphones”. Já não conseguem desgrudar os olhos da maquininha idiota.
Muito se fala do crescimento formidável das seitas neo-pentecostais. E por que se dá esse crescimento? Idiotice.
Quando o idiota quer se distinguir da idiotice religiosa de massas, finge-se budista, hinduísta, orientalista. Fala do calendário maia, da cabala.
Outro dia uma amiga de minha mulher foi a uma festa e lá pelas tantas alguém sugeriu uma dança circular. Não, não era uma festa infantil e a dança não era de roda, era circular. Essas coisas de energia, pachamama, sei lá. Ela, tímida, não pode se recusar e, constrangida, teve de participar da idiotice coletiva e sorridente.
Entre esses idiotas anônimos e obscuros, presidentes de associações de bairro, viceja o mais chato anti-tabagismo, o mais imbecil preservacionismo, a xenofilia mais cretina.
Nunca a frase feita foi tão usada, jamais se afrontou tanto a lógica, o bom senso, a aritmética. 2+2 merece profundas cavilações de doutores e pesquisadores. Tudo, desde a mais simples pelada jogada em terreno baldio, ou um concurso de misses, é visto como fenômeno que deve ser pesquisado e gerar robustos relatórios de entendidos em acadêmicas idiotices.
O futebol, o maravilhoso jogo da bola, agora é vítima de especulações e estudos. Os idiotas conseguem tirar a graça e a espontaneidade de tudo. Desconhecendo totalmente a aritmética, os neo-jornalistas esportivos cismaram de dizer que tudo em nosso futebol está errado. Não sabemos jogar bola, é esse o resultado de suas profundas reflexões. Mas esses idiotas já estavam catalogados há muitos anos por Nelson Rodrigues, são os idiotas da objetividade.
Outro hábito idiota que nos afoga é a citação. Cita-se muito nesses tempos. E cita-se errado. Qualquer idiota do século passado saberia que tal citação não casa com o estilo e muito menos com o pensamento do citado. Assim, vai para a boca de uns o que foi dito por outros e não há ninguém para por os pingos nos ii.
            É como disse o Barão de Itararé:_"Este mundo é redondo, mas esta ficando chato".