sexta-feira, 23 de março de 2012

Cony e os formadores de opinião

  




Outro dia tive de ir a Florianópolis para buscar um documento. Levava pouco dinheiro, ou melhor, dinheiro nenhum, assim que não pude desfrutar da bela capital dos catarinenses. A ilha é desses lugares onde qualquer ida e vinda, é um passeio. Lá, fiz muitas vezes o que mais gosto: andar a esmo, parar num botequim qualquer num sítio desconhecido e ficar vendo as modas, escutando as conversas. Mesmo no centro da cidade me divirto com o burburinho que me faz falta depois de tantos anos vivendo em cidade pequena.
Desta vez não deu. Desci do ônibus na rodoviária, cruzei a passarela, percorri a rua feia e suja até atingir o mercado público que para mim é como um portal da cidade e determina seu caráter, seu jeito. Cheguei à Praça Deodoro e cruzei-a sob sua velha figueira. Do outro lado da praça tomei uma rua que, embora central, ostenta um ar de bairro com seu escasso comércio e pouco movimento de carros. Sem ter nada de especial, é agradável, acolhedora como toda a cidade. Dois quarteirões adentro encontrei a agência do Ministério de Trabalho que era meu destino. Estive aí por uns minutos e por caminho um pouco diverso retornei a estação de ônibus. Não senti lástima por não ter podido passear por Floripa. Fora e voltaria em boa companhia, levava comigo um livro de Carlos Heitor Cony.
“Um romance sem palavras” não é nem de longe seu melhor livro, mas a prosa solta, despretensiosa e envolvente é do Cony de sempre. Havia lido a metade na ida até a capital torcendo por um engarrafamento que adiasse a chegada do ônibus mas o trânsito era de uma tediosa normalidade, chegamos na hora.  A segunda parte do livro ficou para volta.
Tardiamente tomei contato com a obra desse autor que hoje leio com deleite. Foi no final dos 70. Num carnaval, conheci Valéria na Av. Rio Branco e horas depois estávamos na sua cama. No dia seguinte, indo para a cozinha, me surpreendi com um sujeito nu que cruzava a sala com o mesmo propósito. Era João, o cara que dividia o apartamento com minha namorada. Começamos aí uma amizade que dura até hoje com seus poucos percalços. Nos encontramos conterrâneos e próximos. Já nos primeiros papos ele me perguntou o que eu achava do Cony. Querendo impressionar, a resposta me saiu pronta: _Conyvente.
Quando somos jovens é assim, falamos barbaridades de quem jamais conhecemos, comentamos livros que nunca lemos e muitas vezes amamos o que não compreendemos. Talvez esta, seja a atenuante das tolices da juventude, nós amamos. Amamos e odiamos com grande paixão.
Eu me referira assim ao escritor não por pensar daquela maneira, estava apenas repetindo o que lia no Pasquim que sempre grafava seu nome fazendo o trocadilho infame. (Você me dirá:_Mas existe algum trocadilho que não seja infame?) Acontece que quando comecei a ler esse jornal, Carlos Heitor Cony já havia sido preso seis vezes pela ditadura com a qual seria conivente segundo o hebdomadário. Na primeira prisão ele fora enquadrado na lei de segurança nacional por ter chamado o Gal. Costa e Silva de imbecil numa de suas crônicas publicadas logo após o golpe civil-militar de 64. Costa e Silva que viria a substituir Castelo Branco na chefia do governo de fato, poucos anos depois, era um imbecil. Imbecil e vaidoso. Já nos estertores da ditadura, outro general, Mourão Filho, que fora preterido pelos companheiros de golpe durante todo o período de força, embora tenha sido o primeiro a movimentar as tropas que comandava em Minas rumo ao Rio, concedeu entrevista na qual qualificou Costa e Silva como portador de uma burrice sesquipedal. O ditador já havia desencarnado há muito tempo e Mourão não foi processado por insuflar o ódio entre civis e militares.
Mas quando a ditadura ainda cheirava a tinta, Cony, através de seu advogado, conseguiu descaracterizar o “crime” e foi julgado pela lei de imprensa sendo condenado a um ano de prisão. Cumpriu metade da sentença e foi solto por bom comportamento. Se fosse enquadrado na lei ditatorial, poderia pegar até 30 anos de prisão. Na época eu não sabia disso mas os caras do Pasquim sabiam. Quem também não sabia desses fatos era o João que simplesmente me emprestou um livro de Cony e depois outro e outro. Fiquei fã de carteirinha do grande escritor carioca a despeito do preconceito que eu deixara entrar em mim, por quem me era desconhecido.
Com o passar dos anos fiquei sabendo alguma coisa sobre Cony através de entrevistas deliciosas que ele às vezes concede. Soube, por exemplo, que ele apoiara o golpe de 64 mas após os primeiros atos do governo golpista, se arrependeu e passou a criticá-lo veementemente. Até então, era um cronista de amenidades e talvez por isso sua postura de opositor ao regime tenha causado mal estar entre os militares que não esperavam que viesse dele críticas tão ácidas e que eram lidas por gente, supostamente, simpática ao golpe. Mete mais medo o ex-amigo que o inimigo de sempre.
Nos tempos bicudos da ditadura havia muito patrulhamento e não era pra menos, ou se estava de um lado ou se estava de outro mas também havia casos de antipatias pessoais levadas ao extremo. Acho que por aí se explica a diatribe dos pasquinianos com relação a Cony.
Depois de mais de 30 anos de democracia isso não mudou. Os formadores de opinião seguem servindo seus leitores com o mais tacanho juízo sobre aqueles que são seus desafetos ou simplesmente não compartilham de sua visão de mundo. Para se contrapor às campanhas que a grande imprensa engendra a cada dia para desestabilizar o governo, órgãos de notícias afinados com este, não admitem qualquer crítica vinda de quem quer que seja. O sítio “Carta maior”, por exemplo, está se especializando em desacreditar qualquer um que não reze pela sua cartilha. Basta que se critique o governo do P.T  para ser chamado de “esquerda que a direita gosta” ou “udenista”. Mesmo no patético episódio dos atos secretos do senado em que seu presidente José Sarney foi flagrado em gravações exercendo descarado nepotismo, o sítio de Mino Carta apoiou a espúria manobra petista e da base aliada para evitar o afastamento do último coronel em nome da governabilidade. Ou seja, posicionou-se junto a Renan, Collor e Jucá. E ai de quem não concordasse com a visão desses defensores do governo popular. O engraçado é que num único episódio o Ítalo-jornalista contestou o governo: foi no caso Cesare Batisti..
Outro paladino neo-esquerdista é Paulo Henrique Amorim. O fanho que por tanto tempo trabalhou nas organizações Globo, é agora um terrível adversário da emissora dos Marinho. Querendo ser homem de gênio, cunhou a expressão PIG (partido da imprensa golpista) para alcunhar a grande imprensa e caiu nas graças dos puxa-sacos do governo. Contratado pela Record, já o vimos fazendo reportagem de desagravo a Edir Macedo e apoiando os pactos de virgindade de estudantes pentecostais americanos.
Como P.H. Amorim, também Luis Nassif mudou de lado. Deste mesmo lugar onde estou agora escrevendo, o escutei no início do governo FHC defender, desde a tribuna dos Marinho, as privatizações com argumentos tão pueris quanto entusiasmados. Naqueles tempos Nassif estava alinhado com Lílian Fritebife e outros para apoiar o desmantelamento das empresas públicas. Hoje tem seu próprio programa na rede pública de tv.
Nenhum dos neo-esquerdistas explicou aos seus leitores e ouvintes o motivo de sua nova postura. Não houve um ato de contrição nem um simples mea culpa. Pelo contrário, agora vigiam o pensamento alheio para evitar algum desvio ideológico por parte da esquerda histórica. Ninguém escapa de seu patrulhamento.Basta criticar para ser atirado na vala comum da oposição oportunista e sem idéias.
Deve haver muitos eleitores que comparando os governos do P.T com os anteriores, veja uma fundamental diferença em favor dos petistas, no que tange às políticas públicas. O que talvez nem todos vejam é que quem critica este governo não o faz mirando estas políticas e sim o tipo de alianças que foram feitas sem nenhuma base ideológica e que, de uma maneira ou de outra, contribuem para que as conquistas do governo que se quer popular, estejam sempre ameaçadas pelo jogo do toma lá, dá cá. Qualquer medida saneadora tomada pela Presidenta Dilma é tida como ofensa pessoal pelos donos dos partidos que compõem a base de sustentação. Esta semana, isso ficou evidente com a ameaça do PR de abandonar o barco governista caso não seja satisfeito em sua reivindicação de possuir o Ministério dos Transportes que perdeu depois que seu titular, filiado a essa legenda, protagonizou mais um escândalo de corrupção.  .
Mais acostumada às mudanças circunstanciais de discurso, a direita abrigada nos principais meios de comunicação do país, elogia a vaselina lulista para criticar o pouco “jogo de cintura” da Presidenta Dilma com relação à base aliada no congresso. E os neo-esquerdistas que tanto elogiavam o tino político de Lula na manutenção da governabilidade, agora não podem ir contra a Presidenta justo quando ela enfrenta o fisiologismo e a chantagem explícita de seus “aliados”.Com isso o discurso vai ficando confuso pois não se pode elogiar a postura moralizadora de Dilma sem criticar o comportamento leniente de Lula, que não obstante ter legado à sua sucessora um país em pleno desenvolvimento social e econômico, também deixou uma herança de alianças com o que há de pior na vida pública brasileira.


quinta-feira, 15 de março de 2012

Torcedores






Pensemos num jovem casal. Um dos cônjuges ganha, líquidos, 1100 reais, o outro 800. Pelos padrões vigentes eles formam parte da nova classe média. Pagam seu aluguel no apartamento modesto e distante, comem todos os dias, pagam as prestações da geladeira e da máquina de lavar. Com o que sobra se vestem e calçam o garoto. Têm sorte, conseguiram uma creche pública onde deixam o filho mas como o horário não é totalmente compatível com o das duas conduções que tomam para voltar do trabalho, é a avó quem busca o menino e o leva para casa até a chegada deles. Têm sorte, a sogra mora perto.
Alem dos planos e sonhos eles têm muita coisa em comum inclusive a paixão pelo mesmo time. Desde os tempos de namoro que cultivam o hábito de irem juntos ao estádio uma vez por mês, quando sai o pagamento de um deles. Gostariam de comprar a camisa do clube para poderem fazer o gênero parzinho de jarros mas não dá. Cada camisa custa, na promoção, 190 reais. Tem umas genéricas no camelô mas não agüentam nem duas lavadas. A camisa que ele tem, ganhou numa rifa cinco ou seis anos atrás e já está desbotada e cheia de furinhos. Até o banco que patrocinava o time naquela época, já foi comprado por outro. Ele só a usa em casa para chatear o cunhado, que é adversário, quando este o visita.
Quando vão aos jogos usam roupas com as cores do time. Ele bota uma camisa branca, leve e confortável. Ela, uma calça preta que valoriza sua brasilidade. Sempre que seu time ganha, eles pensam em comprar as camisas oficiais mas 380 pratas fica salgado. Com essa grana poderiam pagar 6 meses de tv a cabo ou comprar aquele plasma que um colega de trabalho está vendendo por 500. É usado, a origem é incerta mas é da melhor qualili e só faltariam 120 que poderiam ser pagos no outro mês.
Claro que as camisas eles poderiam parcelar no cartão mas quando terminassem de pagar os uniformes já teriam passado por umas 40 lavadas. É por essas e outras que esses fiéis torcedores não têm a camisa de seu time do coração.
Mas por que não existe no mercado uma camisa que caiba no orçamento do nosso jovem casal e dos milhões de torcedores iguais a eles?  Porque nossos dirigentes não enxergam um palmo alem do nariz. Pensam que como existe um grande número de otários que lhes compram as caríssimas camisas, podem desprezar milhões de consumidores que qualquer empresa cobiça.
Os licenciamentos de produtos que fazem são lucrativos apenas para os licenciados. Não se entende como esses homens que comandam os clubes possam ser tão bem sucedidos em seus negócios particulares se nem sequer sabem ler os números mais gritantes. Há pouco tempo uma revista ou um jornal, não me lembro bem, encomendou uma pesquisa para aferir qual o time mais querido do país. Fizeram como é feito nas pesquisas de intenção de votos e publicaram o resultado. Acontece que nas pesquisas eleitorais todos os entrevistados são eleitores e os números obtidos são ampliados para o quadro de eleitores inscritos na justiça eleitoral. Alem do mais o voto é obrigatório. Quando os institutos de pesquisa querem, o resultado dessas consultas se aproxima muito do resultado das urnas. No caso da pesquisa futebolística, foram entrevistadas pessoas de certa idade para cima e os números coletados foram ampliados por toda a população brasileira. Hoje os flamenguistas menos críticos vivem dizendo que o time da Gávea tem mais de 30 milhões de torcedores. Ora, se fizermos as contas descobriremos que no Brasil deve haver, com muito boa vontade, entre 80 e 90 milhões de torcedores. Se o Flamengo ficasse com 30 milhões deles, haveria times com torcida negativa. O América carioca, por exemplo,deveria estar na casa de –1 milhão de adeptos.
O resultado da pesquisa deveria ser considerado uma brincadeira e só o Rui Castro levaria a sério. No entanto ouvi de Márcio Braga, figura sempre influente no Flamengo, a citação da pesquisa como fato. Braga, que já dirigiu o clube várias vezes, ao super dimensionar o número de adeptos nunca poderia fazer os negócios que seriam lucrativos para seus cofres.Seus produtos licenciados encalhariam nas prateleiras. Com meu time passou o inverso.
Quando fomos para a segunda divisão, começamos mal a competição e em determinado momento estávamos mais próximos da terceira do que da volta à elite. A torcida resolveu carregar o time nas costas e o Mineirão lotado entoava o grito de “vamos subir Galo, vamos subir Galo”. Faltando poucas rodadas para confirmar a volta à primeira divisão, a diretoria que contava com um banqueiro à cabeça, mandou confeccionar uma camisa com os dizeres que a torcida entoava. Em seis horas acabou o estoque do produto. Haviam subestimado a própria torcida, alem, é claro, de agirem a reboque dos fatos e não dirigindo-os. Deixaram de colocar nos cofres do clube 3 ou 4 vezes o lucro obtido com a venda das camisas.
O Palmeiras que até pouco tempo era comandado por Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos grandes economistas do país, hoje faz vaquinha para contratar um jogador. A atual diretoria não gosta do termo “vaquinha” e prefere usar eufemismos. O pior é que querem dizer que tudo é muito moderno e a “intera” é feita com cartão de crédito, pelo computador.
O rival, o Coríntians, enquanto constrói seu estádio com empréstimo do BNDS que jamais será pago, vende em sua loja toda espécie de cafonice com o emblema do clube, tem até uma geladeira que custa 3 ou 4 vezes mais que uma igual, vendida em lojas especializadas sem o escudo mosqueteiro.Todos os artigos da loja são caríssimos e seu gerente deve estar satisfeitíssimo com as vendas, talvez. O certo é que um dos clubes mais populares do país não faz caso de seu maior patrimônio: a fiel torcida.
Sou capaz de apostar que o Itaquerão terá grande parte de suas dependências tomadas por camarotes e outros locais nobres deixando o restante para domínio dos imbecis das organizadas, que alem de não pagarem o ingresso, tornam impossível a vida de torcedores comuns e fiéis. Mesmo utilizando um próprio do município, o Pacaembu, o time de Parque São Jorge já vende seus ingressos para a Copa Libertadores por preços exorbitantes e em jogos dos campeonatos locais também cria seus cercadinhos de ricos. O resultado é que jogam para uma assistência ínfima se tivermos em conta o potencial da torcida.
Todos os “entendidos” são unânimes em afirmar que a venda de ingressos representa pouco para as finanças dos clubes. Então por que alijar os torcedores mais pobres de seus estádios? Acontece que a renda advinda das bilheterias não é tão desprezível assim. Se um time joga duas vezes por mês em casa, poderia faturar 800 mil reais brutos se contasse com um público de 20 mil pessoas pagando um ingresso de 20 reais. Num estádio próprio do clube poderia sobrar mais de 600 mil cada mês, 6 milhões cada ano. Quanto paga a Libertadores em prêmios?
Ninguém fala mais em construir estádio próprio e faturar pela bilheteria. Nem se fala mais em estádio, o nome agora é “arena multiuso”. Qual a diferença? Basicamente, nenhuma. Mas quando dizem “arena” querem dizer que vão alugar suas dependências parta o Edir Macedo e o Justin Bieber. Qual a novidade? Isso sempre foi feito nos estádios tradicionais.O Sinatra cantou no Maracanã no século passado. Muitos dirigentes falam em atrair negócios para dentro de suas arenas. Mas como atrair investimentos para lugares que ficam vazios mesmo em dias de grandes jogos? Não é o shopping ou os cinemas que atrairão torcedores para o estádio, senão o inverso. Torcedores fiéis e presentes nas competições esportivas é que tornariam uma “arena”em local atrativo para os negócios.
Mas como trazer de volta os torcedores que nos anos 50, 60 e 70 esgotavam ingressos de estádios muito maiores que os de agora? (Sim, porque os estádios encolheram. O novo Maracanã terá capacidade máxima para 89 mil torcedores.) Creio que o primeiro passo seria uma nova estratégia na negociação com a televisão que hoje, através da compra dos direitos de transmissão, manda e desmanda no futebol. Impõe horários incompatíveis, determina fórmulas de disputa, como acontece com os estaduais e usa sua grande equipe de paus mandados para dizer ao torcedor o que é importante ou não nas competições. Claro que o interesse da tv não é encher estádios e sim vender publicidade durante as transmissões e pay per view nos canais fechados. Estádio vazio é sinal de lucro maior para a emissora, e maior submissão dos clubes aos seus interesses. As negociações deveriam ser feitas pelo conjunto dos clubes que teriam inclusive o poder de negar o direito de transmissão à emissora dominante e vender barato à outra menor, desestabilizando através do horário dos jogos, a grade de programação da todo poderosa. Alguns poucos anos de sacrifício seriam suficientes para pressionar e virar o jogo em favor dos clubes. Vendendo menos jogos se valorizaria o produto.
Outra medida a ser tomada é no campo legislativo. Se houvesse uma lei que dissesse que iniciada uma competição os atletas que nela estivessem inscritos só poderiam se transferir de clube ao final da mesma, o torcedor se sentiria mais seguro para adquirir carnês de ingressos para toda a competição injetando algum dinheiro no clube mesmo antes de iniciar-se a disputa. A fidelização do jogador levaria à fidelização do torcedor. Nenhum jogador teria ferido seu direito de jogar onde bem entendesse mas teria de assumir compromisso contratual mais seriamente.
Mas voltando ao nosso jovem casal. Seu filho vai completar seis anos e já vê os jogos do time dos pais com grande interesse. Ano que vem ele poderia levar para a escola seu caderno que teria na capa um enorme emblema do time que já começa a entrar em seu coração. Na contracapa ele teria, logo abaixo da letra do Hino Nacional a letra do hino do clube. Seus lápis e borracha também poderiam ter o escudo. Nos fins de semana poderia levar para a praia sua bola que falaria de seu time através do brasão estampado. Mas nada disso há no mercado. Os times de futebol não fazem bolas de futebol com seu símbolo, nem cadernos, nem nada. Ninguém tentou um negócio com a São Paulo Alpargatas para que fossem produzidas sandálias Havaianas com cores que lembrassem um time.
Não, embora cadernos e sandálias de dedo sejam vendidas aos milhões todos os anos, nossos clubes não se interessam por essas ninharias. Preferem vender ingressos e geladeiras caríssimos para os que podem gastar e falar de engenharia financeira enquanto fazem uma vaquinha ou tentam convencer a Caixa Econômica a criar mais uma loteria que possibilite o pagamento do que devem ao INSS.
Mais prático, Diego vai mesmo comprar aquele plasma da melhor qualili. Mais econômica, Suelem vai continuar indo ao estádio com sua calça preta fazendo reclame do Brasil e o Júnior já pediu o caderno do Bob Esponja.







quarta-feira, 14 de março de 2012

Passeios

           




Eu tinha uns 10, 11 anos e como toda minha turma, era doido por futebol. No recreio das aulas da Escola Cócio Barcelos, D. Ilka, nossa professora, deixava que alguns de nós permanecêssemos na sala para jogar botão. Éramos quatro, Sérgio Franco Flores, Ricardo eu e um tricolor que embora tenha o rosto gravado na minha memória, não consigo lembrar seu nome. Disputávamos um interminável campeonato que nunca teve um vencedor. O campo de jogo era feito juntando-se quatro carteiras, que nessa época, eram planas e enormes. Nosso torneio, alem das sempre discutidas regras do botão, tinha mais uma que permitia que tocássemos nos jogadores quando esses não transpunham, só com o toque da palheta, as barreiras que a união dos móveis escolares formavam nos dois sentidos do campo. Mas os botões eram só a representação de nossa verdadeira paixão; o futebol.
Vivíamos uma das épocas de ouro do esporte no Brasil. A xenofobia européia mantinha fechados, vários mercados aos craques sul-americanos e não éramos saqueados em mais essa riqueza. Nossa seleção, que nos dias em que se passa essa narrativa encaminhava sua classificação para o mundial do México, era composta apenas por jogadores que aqui atuavam e eram os ídolos de nossos clubes. Futebol na televisão era raro. Acompanhávamos os campeonatos  pelo rádio e pelos jornais que afanávamos das bancas principalmente nas segundas-feiras. Naqueles tempos os jornaleiros penduravam os diários inteiros, e não só a primeira página, na parte externa de seus negócios. Nossa técnica de afano era simples e funcionava sempre. Enquanto um de nós fazia uma tremenda onda para comprar um único pacotinho de figurinha distraindo o dono da banca, um outro ia por trás e de um só puxão se apossava do Jornal dos Sports. Quando o jornal de Mário Filho estava muito próximo à parte aberta da banca, líamos O Globo. O único cuidado era trocar de banca toda semana. 
Domingos a noite todos assistíamos a Grande Resenha Esportiva Facit pela televisão e durante a semana as impressões de João Saldanha, Nelson Rodrigues e José Maria Scassa, eram a base de nossas discussões. Eu, como atleticano, tinha de me conformar com as pequenas notinhas que saíam nos jornais com resultados e escalação dos times de outros estados. Para não ficar sem ter o que discutir eu me inclinava pelo Botafogo que na época tinha o melhor time do Rio com uma linha ofensiva que contava com Gerson, Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo César. Todos da seleção.
Naqueles tempos gozávamos de muita liberdade e nas tardes cariocas andávamos por todo lado, desbravando Copacabana e arredores. Um de meus passeios favoritos era a Lagoa Rodrigo de Freitas. Havia na Rua Gastão Bahiana, se não me falha a memória, um edifício cujo elevador tinha uma saída para o corte do Cantagalo. Tomar esse elevador fazia parte da aventura pois o porteiro estava lá para impedir o acesso a quem não fosse morador do prédio. Havia que esperar o momento oportuno e entrar de fininho pelo corredor que levava ao transporte. A volta, por algum motivo que já não lembro, tinha de ser feita da maneira mais cansativa, subindo por todo o corte do Cantagalo até atingir Copacabana por seu extremo oeste.
Gostava também de cruzar os quatro túneis do bairro. O túnel Novo, mais extenso e ruidoso, o túnel Velho que me parecia sombrio e úmido, o túnel da Rua Toneleros, e o túnel que separa a Barata Ribeiro da Raul Pompéia, muito mal cheiroso e que eu cruzava diariamente, caminho da escola, quando morava na Sá Ferreira e depois na própria Raul Pompéia.
A Francisco Sá me levava até Ipanema, eu gostava da Praça Gal.Osório com seu laguinho com plantas aquáticas. Naqueles dias tinha aprendido sobre a vitória régia e o laguinho da praça era quase um igarapé. Esse passeio eu fazia só. Também era difícil encontrar companhia para o cruzamento de túneis.
As muitas horas passadas nas ruas não preocupavam muito nossas mães.Pelo menos eu pensava assim. Quando o bate-pernas se prolongava em demasia uma explicação genérica: _“tava por aí mesmo” ou uma mentirinha tranqüilizadora:_ “fui na casa do Nick”, aplacavam as broncas antes mesmo do jantar.
Um dia o Sérgio me chamou para vermos um treino do Flamengo. Ele, embora estudasse em Copacabana, morava no Leblon. A estranheza, nesse caso, provém da distância e não do fato de alguém que morava no bairro elegante estudasse na escola pública. Isso era comum. Muitos outros colegas moravam bem. O Márcio vivia de frente pro mar na Avenida Atlântica num prédio de dois apartamentos por andar. Outros eram moradores do Morro do Cantagalo ou do Morro do Pavão. Muitos deviam ser como eu e habitavam os inúmeros apartamentos conjugados que existem no bairro famoso.
Nesse tempo eu nunca tinha dinheiro no bolso a não ser que, pegando carona no ônibus para ir a escola, economizasse o que minha mãe me dava para a passagem. No dia que fui assistir o treino do rubro-negro eu só contava com umas moedinhas, assim que fui andando de Copacabana até o Leblon onde me encontraria com o Sérgio. Daí mais uma caminhada até a Gávea. Apesar de ser  sócio, meu amigo pulou o muro do clube comigo e caímos num cantinho que dava acesso ao campo. Nossa presença parecia não incomodar ninguém e ficamos cada vez mais perto até estar a poucos metros da linha lateral. Murilo passava por nós como um foguete. Doval treinava apartado fazendo corridas em volta do campo e nos chamou para correr com ele. Ficamos lado a lado com o Diabo Louro e quando disparamos, ele voltando-se, correu para o outro lado. Anos depois voltei a encontrar Doval na praia e fui vítima de outra brincadeira sua.
Quando o treino foi interrompido fomos para a arquibancada e encontramos Paulo César. O ponta do Botafogo assistia o treino do rival cercado de crianças e garotas. Na época, isso não era nenhum problema. Não havia os chatos das torcidas organizadas. Fazendo as contas me surpreendo com a idade que ele tinha então: 19 anos. Já era um monstro sagrado.
 Escurecia quando deixamos a Gávea. Sérgio foi para sua casa que ficava distante apenas alguns quarteirões. A mim cabia a caminhada de volta até a Raul Pompéia em Copacabana. Quando já estava em Ipanema, lembrei das moedinhas mas constatei que não alcançavam para um Grapete. Como a água mineral era mais barata, pedi uma no primeiro botequim que encontrei. O português me serviu uma com gás e  experimentei uma das coisas mais asquerosas que já havia bebido. A sede era muita e ainda faltava um bom pedaço até em casa. Tomei quase toda a garrafa do líquido esquisito. Quando cheguei escutei a ladainha de sempre e respondi que “estava por aí mesmo”.
 Me deitei cedo aquele dia, cansado pelo passeio e rindo ainda da brincadeira de Doval. Na minha cabeça, Murilo seguia passando como um foguete

segunda-feira, 12 de março de 2012

Publicidade e preconceito







Alguns anos atrás, enquanto esperava a transmissão de um jogo do Galo pela tv, eu assistia pacientemente os comerciais. Apareceu na tela um novo modelo de carro que eu deveria comprar porque tinha um motor potente que ia de 0 a 100 em poucos segundos e um desenho inovador e aerodinâmico que fazia toda a diferença nas curvas de alta velocidade. Logo me vi dentro do confortável bólido sob o olhar cobiçoso dos outros motoristas no engarrafamento da marginal Tietê. Pelo menos 45 minutos de pura admiração e inveja. A seguir uma moça me ofereceu uma gelada acompanhada de uma promessa velada. Seria por causa do meu carrão? Acho que não, a moça com a latinha de cerveja tinha o olhar inocente de uma Eva renascentista. Toda ela feita de uma pureza que mal cabia no bikini.Não, não era uma Maria gasolina Quando já pensava em sair do carro e ir até a geladeira buscar a moça e a gelada, uma voz de locutor hiperativo me convidou ao maquidonaldi.
O comercial de hambúrgueres me fez pensar na globalização. Vendo aquela gente branquíssima, sorridente e bem alimentada eu imaginava quantas pessoas no mundo estariam vendo aquele mesmo anúncio. Pois estava claro que era uma dessas peças publicitárias que são produzidas em algum país central e reproduzidas por todo o mundo. De onde seria? Não era americana pois nos Estados Unidos eles sempre mesclam, nas publicidades, diversas etnias para evitar o rechaço de algum ruidoso grupo minoritário ao produto anunciado. Também não devia ser dos países nórdicos. Lá, um negro agrega valor e charme à mercadoria, alem de fotografar muito bem sob a luz boreal. Não era eslava. Talvez do mediterrâneo. Sim podia ser. Mas algo, algum signo me fez ver que aquele comercial havia sido produzido aqui mesmo. Mas cadê os brasileiros? Nem em Santa Catarina se vê tantos brancos juntos num maquidonaldi. Onde estavam os negros, os mestiços, os mulatos, os morenos, os caboclos, os cafuzos, os mamelucos que encontramos nas ruas? Ali não estavam. Talvez o produtor do comercial não freqüentasse lanchonetes ou, quem sabe, preferisse as do Mediterrâneo.
O que me chamou a atenção, de certo foi notado por outros e na campanha seguinte, algo mudou. Uma oriental fazia o papel de loura burra e se dizia confusa com as ofertas e a possibilidade de se trocar um acompanhamento por outro sem alterar o preço da iguaria principal. Havia também três negros, mas eles não saboreavam as delícias gastronômicas da famosa casa de pasto. Vestidos à moda dos anos 70, com cabelos no estilo “black power”, faziam uns passos de dança no fundo da cena. Em outro comercial da mesma campanha, uma jovem senhora, com pinta de executiva, está dentro de um táxi e o motorista, que também não desfruta dos manjares oferecidos pelo restaurante, balbucia algo que não tem nada a ver com hambúrgueres nem com nada. Está fazendo papel do povo.
Certa vez escutei de um publicitário que detinha a conta de uma marca de automóveis que ele não punha negros nos seus anúncios porque os negros não podiam comprar aqueles carros. Pode ser que a cínica explicação fizesse algum sentido décadas atrás, hoje não faz mais. Grande parte dos milhões de brasileiros que saíram da pobreza nos últimos anos, é composta por negros e mestiços. Então por que a loja que vende sanduíches os despreza como agentes de publicidade e consumidores?  Imagino que a explicação deva estar contida em algum estudo que mostra que negros não se identificam com negros e pobres não querem ver pobres na tela de sua tv. No apêndice desse estudo possivelmente está escrito que mulher não vota em mulher.
A presença negra nos comerciais de tv ainda é mínima e está mais evidente nos anúncios de instituições públicas como a Caixa Econômica, o Banco do Brasil e a Petrobrás. Engraçado é que só me dei conta da desproporção entre negros e brancos na publicidade brasileira quando fui ao Paraguai nos anos 80. Se nas ruas de Assunção os indígenas eram imensa maioria, na televisão paraguaia era diferente e todos eram brancos de olhos claros como seu ditador de então, cujas fotos, espalhadas por toda capital, mostravam-no com os olhos em todas as tonalidades do azul de acordo com quem havia retocado o negativo. Eu estava tão acostumado com a brancura de nossa televisão que foi preciso sair daqui pra cair a ficha. O ridículo alheio me fez ver o nosso.
É de se esperar que a busca pelos novos consumidores e a perspectiva do lucro que a nova classe média trará para o empresariado que saiba conquista-la, acabe por anular o preconceito racial e de classe presente na publicidade brasileira.
No entanto esse dia ainda está longe como nos sugere o comercial da Faber Castel alusivo à volta às aulas No anúncio veiculado num canal infantil da tv por assinatura, vê-se uma sala de aula Os alunos estão em plena balbúrdia antes da chegada do professor. Um garotinho chama a atenção não só por ser o mais focalizado no filme como por sua cor que é de um branco difícil de descrever. Algo assim como um sueco que ficou de molho na água sanitária. Mas o que realmente impressiona é que toda a turma é composta de crianças brancas. Creio que mesmo na escola mais elitista do Brasil não haja tantas numa só classe.
           Para os caras vendem lápis, que é o mais simples e barato dos utensílios escolares e todas as crianças os levam nas mochilas, não cabe a explicação do publicitário que queria vender carros de luxo. Mesmo que eu estivesse seguro que a propaganda se dirige apenas às classes altas da população porque os governantes estão dando o material escolar básico a todas as crianças das escolas públicas, ainda assim a ausência de crianças negras e mestiças no comercial me pareceria odiosa. Não pode haver razão de mercado que justifique a exclusão. Não se pode plantar no imaginário das crianças das classes abastadas que seu mundo será composto apenas pelos de sua cor e raça. Não se pode impingir à sociedade a ideia do gueto intransponível.




sexta-feira, 9 de março de 2012

A propaganda







Ontem pudemos ver a propaganda institucional que a União Européia produziu para sua campanha de adesão de novos membros. Na peça publicitária vê-se uma mulher andando num lugar que lembra uma gare ou um grande armazém portuário. De repente aparecem três homens: um oriental com gestos de praticante de artes marciais, um indiano com ameaçadoras espadas e um homem negro, brasileiro, executando movimentos de capoeira. A mulher multiplica-se por doze, que é o número de estrelas da bandeira da U.E, e os agressivos BRIC somem. No final, uma legenda diz mais ou menos que “se somos mais, somos mais fortes”. A mensagem xenófoba e racista foi logo retirada das telinhas européias mas estão no youtube para toda a eternidade.
Imagino que uma publicidade antes de ir ao ar passe por um largo processo de concepção, produção e pós-produção e jamais é tornada pública sem a aprovação do cliente. Entre uma e outra fase deve haver uma porção de reuniões com palpiteiros a granel, gênios de agência e sisudos gerentes. No caso em questão, o representante do cliente deve ter sido um alto burocrata com enorme influência política e permissão para matar. Alguém como Jérome Valcke.
 Aqui não se trata do comercial de algum fabricante de croissant defendendo seu mercado da invasão da tapioca. São governos nacionais unidos pela bandeira comum européia que dão seu recado. A Europa velha de guerra não nos quer crescendo. Não quer competir dentro das regras que ela mesma cria. Não quer compartir seus mercados, só os nossos. Quer, de novo, exportar os párias que seu modelo econômico gera a cada 50 ou 70 anos, mas não nos quer lá.
Creio que a retirada da extravagante propaganda, deu-se por pressão dos empresários e banqueiros europeus, que sabem que dependem muito de nossas crescentes economias, e não por pruridos éticos ou morais dos dirigentes políticos. Os bancos espanhóis, por exemplo, só não têm fechado no vermelho nos últimos anos por conta dos lucros auferidos no Brasil e nos outros países sul americanos. Estes bancos possuem aqui, carteiras de clientes que superam em número a população espanhola economicamente ativa. Imagine o que representa comprar, a preço de banana em fim de feira, o Banespa. Todo o funcionalismo público de São Paulo recebia seu salário por aquela instituição. Algo assim como ter toda Madrid por cliente. Só pra começar.
Mesmo em época de crise profunda, o velho e esclerótico  continente não perde a arrogância. Quando seus reizinhos não estão mandando presidentes eleitos calarem a boca, seus pequenos príncipes fazem passeios colonialistas pelas Malvinas.
Entre seus muros infernizam imigrantes de origem árabe com toda sorte de leis que dificultam suas vidas nas antigas metrópoles coloniais. A proibição de trajes tradicionais femininos, principalmente na França mas também em outros países, a proibição do abate de animais segundo as leis kosher e halal na Holanda, as declarações de David Cameron pondo fim ao muiticulturalismo no Reino Unido, o rechaço aos refugiados de guerra por todo continente, formam um mosaico de intolerância que lembra outros tempos, que lembra o sempre.
Não faz muito tempo que Portugal, estreando de novo rico na Comunidade Européia, criava empecilhos mil para a entrada de brasileiros, principalmente os que tinham formação universitária, no país. Isso aconteceu embora vigorasse acordo bilateral para livre trânsito dos cidadãos nos dois países. Esse acordo havia sido acertado para que o Brasil recebesse os portugueses que fugiam das ex-colônias da África depois que estas se tornaram independentes em meados dos 70. Na época se falou que mais de 200 mil pessoas para aqui vieram. Passadas algumas décadas e Pedro Passos Coelho, seu Primeiro Ministro, conclama os portugueses a emigrarem para fugir da crise econômica. Depois foi mais específico e deu o mesmo conselho aos milhares de professores, que o novo governo neo liberal pôs na rua, para que emigrassem para os países lusófonos. Eu acho que ele não estava pensando no Timor Leste.
Imagino que a idéia de emigração deve estar passando pela cabeça de muitos europeus, principalmente os nacionais dos países que até a primeira metade do século 20 tinham como principal produto de exportação, seus pobres. Muitos desses ex-pobres enriqueceram no Brasil, na Argentina, no Chile e agora podem receber a parentada que ficou dura na Europa por conta do desemprego massivo. Alem do mais, esses novos migrantes se crêem detentores de cultura superior e por certo encontrarão aqui todo o respaldo para exercer sua superioridade. O terreno é fértil para a vassalagem, o complexo de vira-latas domina a classe média brasileira, os formadores de opinião. Prova disso é a matéria que a revista Veja fez no seu site dizendo que o dirigente da Fifa que insultou o Brasil e os brasileiros, tinha sido “preciso” em suas críticas. Sobre o episódio pode-se dizer que o boquirroto Valcke apenas verbalizou o que qualquer europeu médio pensa de sul americanos, africanos e asiáticos: Que é preciso dar-lhes um chute na bunda para que façam algo ao gosto do sinhô. Mesmo o comportamento da patética revista, não pode causar estranheza, afinal, seu público alvo pensa assim mesmo e amaldiçoa Pedro Álvares Cabral como fazia uma tia avó de Ariano Suassuna, que dizia que se não fosse por ele, teria nascido na Europa.








terça-feira, 6 de março de 2012

República evangélica







Na última semana a Presidenta Dilma Roussef empossou seu novo Ministro da Pesca, Marcelo Crivela. Os analistas políticos dizem que a escolha do nome do sobrinho de Edir Macedo seria para tentar aplainar o caminho da candidatura Haddad em São Paulo. O ex-ministro sofreria forte rejeição dos eleitores evangélicos que associam seu nome ao que ficou conhecido como “kit gay”. Acontece que Crivela já anunciou que seu partido, PRB, terá candidato próprio na disputa pela prefeitura paulista. Por isso creio que a ascensão do “bispo” é uma tentativa de quebrar resistências ao próprio governo Dilma entre os eleitores neo-pentecostais visando não só o pleito de 2012, como também o de 2014.
Na semana que antecedeu a posse de Crivela, o Ministro Gilberto Carvalho foi alvo dos congressistas da bancada evangélica por ter dito no Fórum Social Mundial, que existe uma guerra ideológica entre os progressistas e as igrejas fundamentalistas pela captura de votos da nova classe média. Num dia morto na Câmara e no Senado, deputados e senadores dessa corrente religiosa subiram à tribuna e soltaram o verbo. O mais exaltado foi o boquirroto senador Magno Malta que fazendo uso de seu linguajar chulo, chamou o Ministro de safado entre outras coisas. Carvalho fez uma declaração por escrito explicando que não era bem isso e coisa e tal.
O uso de mais um pote de vaselina herdado de Lula se fez necessário porque a também recém empossada Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci chegou chutando o balde do leite evangélico ao dizer que aborto não é questão ideológica e sim de saúde pública. Aclarou que era uma opinião pessoal, mas os fundamentalistas não perdoam nem dão a outra face quando se trata de suas interpretações da lei de Deus. As oitenta cadeiras que tem na Câmara dos Deputados, faz da bancada evangélica uma das mais poderosas e mais difíceis de agradar. Para abrandar sua fúria, foi necessário pagar o dízimo, com o Ministério da Pesca.
Não é só no Congresso Nacional que os pastores e bispos demonstram seu poder crescente na sociedade brasileira. Desde a pequena Araguaina até o Rio, capital cultural do país, suas exibições de força tem chamado a atenção. Na cidade do Tocantins, os vereadores aprovaram lei que determina que seja lido um trecho da bíblia no início das aulas. O Prefeito vetou mas teve seu veto derrubado na Câmara Municipal. O Ministério Público foi acionado e vai tentar junto à justiça acabar com a anomalia legislativa.
No Rio o caso é mais grave e mais complexo. A lei de iniciativa do Poder Executivo que institui o ensino religioso nas escolas públicas e que foi sancionada pelo Prefeito Eduardo Paes, é dissimulada e fala de pluralidade religiosa. Divide em 7 grandes grupos as tendências religiosas a serem atendidas:_Católica, evangélica/protestante, afro brasileiras, espírita, orientais, judaica e islâmica. 600 professores serão contratados através de concurso público para ministrar as aulas. Mas não basta que passem no concurso, eles terão de ser aprovados por autoridade religiosa do culto que postulam ensinar. No caso católico é fácil, basta que o Cardeal Arcebispo designe alguém para avaliar os méritos do professor mas quanto aos outros cultos o buraco é mais embaixo. Quem aprovará os professores evangélicos? Malafaia ou Edir Macedo? Qual é a autoridade responsável pelos cultos orientais? Islamismo chiita ou sunita?
Na reportagem que assisti na tv, vi uma Secretária de Educação titubeante que tentava defender a lei mas não conseguia esconder o constrangimento. Um defensor intransigente do diploma legislativo afirmava que cumpria-se a constituição adotando-se o ensino religioso. E ia mais alem defendendo que os professores sejam avaliados por autoridade religiosa e que sejam seguidores da fé que pretendem ensinar e não simples historiadores religiosos.
Talvez, por mostrar tantas incoerências em seu texto, a lei do ensino confessional seja facilmente derrubada no STF. Cabe ao Ministério Público agir de ofício pois não creio que nenhum político se anime a fazer alguma contestação por medo de perder votos de católicos e evangélicos que são, em última análise, quem incentiva e apóia atos contra o estado laico. Pelo menos eu nunca ouvi de nenhum rabino ou babalorixá tal idéia.
 Em Ilhéus, o Ministério Público já está tomando providências para anular a lei do “Pai nosso” que vigora no município bahiano. Lá é obrigatório rezar essa oração antes do inicio da aula. A Secretária Municipal de Educação diz que o professor que não quiser rezar não está obrigado mas os docentes afirmam que sofrem pressão para adotar a oração, que seria arma no combate à violência nas escolas, segundo a Secretária.
Embora partam de diferentes correntes evangélicas, essas leis de cunho religioso estão ligadas a uma estratégia maior; a tomada do poder civil no país através do voto. Não é teoria, os fatos aí estão. Não é conspiração pois tudo é feito às claras, diante de nossos olhos com o estardalhaço que é marca registrada dos crentes.  
O Deputado Chico Alencar do Psol do Rio, já alertou durante uma votação de lei que facilita a criação de seitas e respectiva isenção impositiva, para o risco de que dentro de pouco tempo só se elegerão candidatos que estejam associados a alguma igreja. Chico Alencar é cristão.
As grandes denominações evangélicas se notabilizam pelo senso de oportunidade e crescimento meteórico. Se hoje lutam encarniçadamente pelo dízimo dos fiéis e horários de televisão, dentro do congresso formam um só corpo e não aguardam, passivos, os acontecimentos. Os movimentos que ensaiam com leis esdrúxulas e incontinência verbal, ao mesmo tempo que forçam a porta os deixam em cômoda posição para abandonar o barco do governo, pois em grande parte aderiram ao poder, e lançar-se no vácuo deixado pelo DEM e pelo PSDB para ocupar o lugar de oposição. A disputa pela prefeitura de São Paulo pode ser decisiva para essa pretensão. Caso a candidatura Serra saia derrotada, os tucanos, que já não se bicam faz tempo, ficariam ainda mais divididos e fracos para impulsionar a candidatura de Aécio em 2014. Estaria aí a oportunidade para os evangélicos alçarem vôo rumo ao Planalto.
Para capitanear uma empreitada dessa natureza, eles têm o nome ideal; Marcelo Crivela. Jovem, bonito, com jeito de candidato americano, o sobrinho de Macedo tem, não só a simpatia dos religiosos como trânsito fácil entre seus pares no Congresso. Ademais possui seu próprio estoque de vaselina esterilizada e à sua disposição uma rede de televisão de alcance nacional.
Claro que tudo depende do desempenho de Dilma Roussef à frente do governo. Hoje ela seria imbatível numa disputa contra qualquer candidato oposicionista mas 2018 não está tão longe. Até lá haverá tempo suficiente para estruturar-se a candidatura de Crivela que facilmente entraria na disputa com algo em torno de 20% das intenções de votos. Para anular a rejeição que certamente existe a uma postulação de corte neo-pentecostal, seria necessário um partido com grande capilaridade e cabos eleitorais fortes. O tempo no horário eleitoral também conta muito. O PRB não é, ainda, esse partido e talvez seja necessário comprar um novo. O PSD de Kassab está na vitrine e seu líder parece ser homem de extrema flexibilidade e capaz de fazer qualquer tipo de negócio. Se a opção for a compra de uma legenda, dinheiro não será problema.


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quinta-feira, 1 de março de 2012

Em se plantando tudo dá







A vocação agrícola do Brasil é inegável. À grande dimensão territorial soma-se a fertilidade do solo e o gosto natural de nosso povo pelo trabalho do campo. Em contrapartida temos o maior dos empecilhos; o latifúndio e sua representação parlamentar que impede o estado de formular uma política agrária moderna. Nossa gigantesca produção de grãos convive com a subnutrição e o êxodo rural.
A falta dessa política faz com que imensas parcelas da melhor terra do país esteja ocupada para produção de soja, cana e outras culturas de exportação. O espaço para cultivo de produtos tradicionais na alimentação dos brasileiros mingua. Feijão e mandioca não são culturas típicas do latifúndio. Os grandes produtores a cada safra gabam-se dos números das exportações enquanto pedem mais crédito público e refinanciamento de suas dívidas jamais pagas. A choradeira desses milionários é a sinfonia do atraso.
Mas se temos muitos problemas no setor, nossos patrícios sabem buscar soluções e o melhor exemplo disso é a Embrapa. Suas pesquisas têm mostrado caminhos para diminuir a fome e melhorar o desempenho agrícola. O problema é que sendo ligado ao Ministério da Agricultura, depende do titular da pasta o direcionamento das pesquisas. Com o loteamento dos ministérios, tem cabido aos representantes do latifúndio geri-lo.
Estudos mostram que o Brasil poderia ampliar muito sua produção de alimentos utilizando apenas as terras que hoje são destinadas para esse fim sem que seja preciso desmatar ou criar novas fronteiras agrícolas, bastando a aplicação da tecnologia já existente no país. Mas com lucros tão vultosos dos grandes produtores rurais é difícil que estes se interessem em modificações e modernizações. Moderno para essa gente é adquirir maquinaria, expulsar o homem da terra e falar “agro busines”.
Alem desses inimigos tradicionais do avanço brasileiro na agricultura, somam-se outros e estes estão na moda, são os preservacionistas de araque. Desde os anos 60 são as mesmas pessoas que dizem defender o meio ambiente as que introduzem os preconceitos alimentares geralmente associados a práticas religiosas orientais. Vegetarianos não dizem que destino seria dado as mais de 200 milhões de cabeças de gado existentes hoje no Brasil caso todos lhes fizessem caso e deixassem de consumir carne. Negadores da tecnologia agrícola propugnam pelos  produtos orgânicos sem considerar que seu alto preço afastaria milhões de pessoas do consumo de alimentos básicos. Também não concluem que, os preços altos desse tipo de alimento, decorrem de sua menor produtividade Claro que existe a especulação mas no geral são os fatores lógicos que elevam os preços. O valor da terra, os juros bancários, o custo de maquinarias e mão de obra são os mesmos para quem produz organicamente ou não. Como a produtividade é menor no cultivo orgânico, o preço do produto forçosamente tem de ser maior para que se obtenha lucratividade igual. Os danos provocados por essas posturas só não são grandes porque as pessoas que as defendem na verdade não querem mudar o mundo através da alimentação nem que suas práticas “saudáveis” sejam copiadas por todos. Eles são seres tribais e preferem que esteja bem delimitada a diferença entre eles e os outros. Comer caro os distingue. 
Nos anos 70 se dizia, com razão, que alimentos havia para todos os habitantes do planeta e que o problema estava na distribuição. Citava-se, com razão, que os Estados Unidos apesar de terem menos de 5% da população mundial, consumiam mais de 25% dos alimentos produzidos. Nos dias de hoje esta relação permanece e países como o Brasil, a Índia e a China, entre outros, aumentaram, através da inserção social, sua demanda por alimentos. Por outro lado a F.A.O vem alertando há alguns anos para a diminuição da produção agrícola, a especulação e a extinção de áreas de plantio devido ao clima ou a simples ocupação de terras para abrigar a população crescente.
Por mais contraditório que seja, os que querem consumir alimentos especiais são os mesmos que querem abolir as sacolinhas plásticas dos supermercados para o bem do planeta. E o que propõem? Que plantemos sacolas. Para substituir o descartável querem sacolas duráveis feitas de fibras naturais. Nos próprios supermercados, que economizam negando a embalagem que temos direito por lei, estão à venda as novas sacolas fabricadas no mais puro algodão. Os ambientalistas deixam claro que não manjam nada nem de agricultura nem de indústria têxtil. O algodão que encontramos nas lojas de tecidos pronto para ser utilizado em roupas ou sacolas, já passou por um processo químico que é dos mais poluentes. Das fibras naturais é a que provoca maior impacto no meio ambiente para ser transformado em tecido maleável apto para confecção. Podemos usar outra ciência totalmente desconhecida pelos defensores do planeta para demonstrar o grande equívoco de sua proposição; a aritmética. Se tomarmos um tecido enfestado (1.20m de largura), precisaríamos de pelo menos 60 centímetros para fazermos uma bolsa de compras. Temos 40 milhões de lares no Brasil, se em cada um deles houvesse duas bolsas, necessitaríamos 48 milhões de metros de tecido. 48.000 km. Dá para circundar a terra, fazer um lacinho e esconder as pontas. Você sabe quantos pés de algodão seriam necessários para produzir 48 milhões de metros de tecido? Pois é. Eu também não faço a menor idéia. Nisso estou igual aos preservacionistas de araque.
Como as idéias absurdas têm o poder de propagar-se, é bem possível que algodoais venham a fazer concorrência com os canaviais porque também estamos plantando combustível. A cana que nos adoçava o café e a alma, agora é matéria prima do etanol. Já se pode imaginar o aumento do preço do açúcar e da cachaça como conseqüência imediata e para o futuro a escassez de ambos e do etanol também, pois como vivemos numa economia de mercado, nada impede que nossos latifundiários usem a terra brasileira para mover automóveis na China ou no Japão.
Com a demonização dos combustíveis fósseis, podemos prever também o avanço da soja no Brasil, pois o bio diesel terá essa leguminosa como principal matéria prima e não, como era propalado até bem pouco tempo, os restos não utilizáveis de outras culturas.
No caso dos combustíveis renováveis há um claro choque entre o estatal e o privado. Para facilitar a aceitação pelo público da utilização da terra para produzir menos alimentos e mais combustíveis, cada acontecimento negativo envolvendo a Petrobrás ganha dimensão de catástrofe ambiental mesmo que sejam uns poucos barris de petróleo que tenham vazado de alguma plataforma.
A experiência brasileira com o álcool combustível é das piores. Nos anos 70 e 80 chegamos a ter quase metade da frota nacional rodando com álcool mas como os preços internacionais do açúcar eram convidativos os usineiros preferiram agir naquele mercado deixando milhões de consumidores nas filas dos postos tentando abastecer seus veículos com o escasso combustível renovável. O final da história, já conhecemos. A fabricação de carros a álcool no Brasil chegou perto do zero. Hoje com a tecnologia dos carros flex, o contratempo para o consumidor deixa de existir. Mas a pressão, sobre as terras ainda não cultivadas, aumenta. Assim como aumenta a pressão sobre o preço dos alimentos. Com a terra prometendo dar lucros cada vez maiores aos que plantam combustível, é natural, numa economia que vive ao sabor dos ventos especulativos, que mesmo o pequeno produtor deixe de plantar feijão e se dedique à mamona que também é usada para fabricação de bio diesel.
O conceito de segurança alimentar passa longe dos interesses comerciais dos grandes plantadores assim como das idéias preservacionistas dos defensores do meio ambiente que parecem ter uma escala de valores na qual o ser humano é apenas um estorvo que insiste em se alimentar e morar.
É comum entre os ambientalistas a idéia do vegetarianismo e da defesa intransigente dos direitos dos animais. Nas redes sociais abundam postagens preocupadas com a vida e morte das galinhas nos aviários modernos. Outro dia vi uma dessas postagens em que seu autor comentava, horrorizado, que haviam inventado um método de matar as penosas por sufocação introduzindo espuma do tipo usado para lavar carros, nos locais onde estavam os animais. O dia que descobrirem que os peixes também morrem por sufocação vai ser um auê dos diabos.
Quando eu era menino, e as galinhas eram criadas livres pelos quintais ciscando a minhoca de cada dia, sempre ouvia nos programas humorísticos de tv que “quando pobre come galinha, um dos dois está doente” ou que”pobre só come frango quando joga no gol”. Que milhões de pessoas fossem privadas dessa fonte de proteínas não provocava horror, virava piada. Creio que minha avó, Benita, também ria dos chistes mas quando lhe caía nas mãos uma galinha viva, ela a segurava firme pela parte do pescoço mais próxima da cabeça, prendia as asas no chão com os pés e depois de dar umas pancadinhas no gogó da infeliz com o lado da faca, a sangrava com todo cuidado para não perder nem uma gota do sangue que era aparado numa cuia. E duas horas depois, meu amigo, era galinha ao molho pardo com muito temperinho verde por cima. Para acompanhar, arroz, feijão e bom senso.