quinta-feira, 21 de junho de 2012

Chuchu com camarão







Já ouvi muita gente dizer:_”Eu adoro chuchu com camarão”. Depois faz humm e revira uzoim. A frase e o teatral acompanhamento têm o selo da falsidade. Ninguém adora chuchu com camarão. Sequer gosta de chuchu com camarão. As pessoas gostam é de camarão.
O crustáceo é consumido puro, ao alho e óleo, frito, empanado, no espetinho, na moranga. Já o chuchu, só refogado na necessidade. Mas o camarão custa, como sempre custou, os olhos da cara enquanto o chuchu é barato. O camarão é fruto do mar oceano, o chuchu fruto de quintal. Não existe latifúndio de chuchu nem o BNDES tem linha de crédito especial para seu plantio. O camarão viaja de navio e até de avião pelo mundo. O chuchu, de caminhão Chevrolet da lavoura pra feira. Em toda parte camarão é iguaria. Chuchu, o quarto estado da água.
Imagino que a insólita combinação tenha origem num tempo em que a pobreza era menos envergonhada de ser pobre e uma mãe caiçara ou manezinha  podia dizer à sua prole:_Hoje só tem chuchu... mas é com camarão. Depois da decepção, o sorriso da meninada. Mas os tempos são outros e a fórmula de alegrar meninos pobres foi incorporada pela classe média.
Apoio minha teoria do berço humilde da receita no fato do chuchu preceder o camarão no enunciado, diferente de outras fórmulas que colocam em destaque o que veio das redes deixando em segundo plano o que chegou no caixote.
Na enganadora receita, o chuchu entra como Pilatos no Credo. Faz figuração, enche o palco. Sua função culinária é fazer aquela bandeijinha de 600 gramas de camarão, sem descontar o gelo, virar uma refeição para a família e convidados. Servido com um volumoso acompanhamento de arroz e molho encorpado, o blefe gastronômico ainda ilude muitos incautos. Estes, além dos falsos e dos sugestionáveis, são os que dizem, revirando uzoim:_”Adoro chuchu com camarão, humm!”
Mas, verdade seja dita, o chuchu já salvou muita dona de casa que, envergonhada de servir uma honesta sardinha frita, apelou para a planta humilde e adornou seu cardápio.
O chuchu também tem contribuído para a prosperidade de doceiros e afins, mas estes não fazem como a ruborizada dona de casa ou o empertigado “chef” que anunciam o conluio de seus ingredientes. Não. Doceiros e afins (seja lá o que possa ser entendido como afins) escamoteiam suas receitas e não estampam em seus potes e latas a colaboração indispensável do chuchu. Jamais vimos num rótulo seu nome ao lado de frutos mais nobres. Nunca um doceiro fez reclame de geléia de goiaba e chuchu ou doce de chuchu com marmelo. Muito menos os afins.
À sombra da modesta trepadeira floresceram indústrias, banquetes foram servidos e muita gente tirou o pé da lama mercadejando manjares que só puderam chegar à boca do pobre graças ao chuchu. Mas a verdade é uma só e deve ser proclamada: Ninguém gosta de chuchu.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Nelson Rodrigues e o bicampeonato







Faz cinqüenta anos que o Brasil conquistou, no Chile, o bicampeonato mundial de futebol. A data redonda e quase na véspera do país realizar uma copa do mundo merecia uma grande comemoração com foguetório, banda de música e coro infantil. Não houve.
 A entidade máxima do futebol brasileiro anda atarefada com construções de estádios e tantos são os zeros envolvidos nos negócios que não sobra tempo para nada. Nossas TVs estão muito envolvidas com a Eurocopa para se ocupar do assunto. Uma entrevista aqui, uma fotografia ali e já está de bom tamanho. Para que relembrar Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Amarildo e Zito se podem falar de Polsen, Van Der Var, Busquets?
No domingo, eu queria escrever sobre a conquista histórica mas meu neto passou todo o dia no computador com seus joguinhos. Deixei para a segunda-feira, mas nesse dia, logo pela manhã, escutei num programa esportivo, que se dignou a lembrar da data, uma crônica que Nelson Rodrigues escreveu sobre nossa vitória em gramados chilenos.
Embora já tenha passado da idade de me acanhar, me acanhei. Nelson já dissera tudo sobre aquela copa, e de maneira tão brilhante, que uma vírgula mais sobre o tema correria o risco do ridículo, do postiço. Eu, que já lera a crônica em outros tempos, fui novamente tocado pela beleza, pela eloqüência, pela ênfase que Nelson Rodrigues pôs na descrição daquela epopéia.
De tudo que lá está, e coube num curto artigo de jornal, ficou-me uma frase, ou melhor uma concepção que tem tudo de Nelson Rodrigues. Dizia ele que aquele bicampeonato era uma conquista do homem brasileiro.
Os idiotas da objetividade que se mudaram pro facebook e os que continuam infestando as redações, adoram relacionar o futebol com o que eles chamam de apatia do brasileiro com relação às mazelas do país. Nada mais falso, nada mais falacioso. Os ruins da cabeça e doentes do pé também gostam de pichar o carnaval. Pelo mesmo e falso motivo.
Com o avanço dos meios de comunicação e a facilidade para se escrever besteira para muitos, (olha eu aqui) esses chatos de galocha vão se transformando em idiotas da subjetividade. Não por apregoá-la , mas por desconhecê-la.  Jamais entenderão nossas Joanas D’Arc dos subúrbios, nossos reis bêbados de sarjeta, nossos Napoleões retintos. Mas com suas crônicas, Nelson Rodrigues os pôs no mundo, no imaginário brasileiro.
           Cronista da vida como ela é, Nelson Rodrigues viu em nós o analfabetismo genial, viu em cada jogador de futebol, em cada passista, em cada costureira, a imagem vitoriosa do sobrevivente. Considerado reacionário, revolucionou o teatro. Conservador, foi a vítima favorita da censura. Sua visão de mundo horrorizava a esquerda, suas peças escandalizaram a burguesia. 
Nesse ano que comemoramos o cinqüentenário do bicampeonato do Chile também festejamos o centenário de Nelson Rodrigues e coube à Escola de samba Viradouro inaugurar as homenagens com seu samba de enredo. Durante todo o ano, peças do autor serão encenadas. São dezessete obras nesse gênero. Não soube nada sobre relançamento de sua obra em livro mas deve ser falta de informação de minha parte.
Espero que a televisão dê ao centenário de Nelson Rodrigues um pouco mais de atenção do que a que foi dispensada ao cinqüentenário do bicampeonato. A Globo já produziu uma ótima “Engraçadinha” e “A vida como ela é” teve um tratamento muito adequado com grandes atores e diretores. É hora de reprisá-las.





A morte de Ivan Lessa







Morreu o jornalista Ivan Lessa. Seus amigos saudosos o pranteiam em artigos e entrevistas. Assim fico conhecendo um pouco da personalidade do cara que eu lia no Pasquim nos anos 70. O pouco que fico conhecendo é muito. Muito triste, muito decepcionante, muito chato.
A Presidenta Dilma o chamou de “indomável jornalista”. Imagino o trabalho que tiveram os escribas presidenciais para arrumar esse adjetivo. Qualquer outro mais objetivo soaria falso. Grande jornalista? Mas qual foi afinal sua grande reportagem? Jornalista combativo? Contra quem?
Não tenho a pretensão de cobrar de ninguém o amor que sinto por isso ou por aquilo. Cada um sabe de si, de seus gostos e paixões. O que me chateia, ou melhor me ofende, é ser enganado.
Muita gente que escreveu durante os anos da ditadura fez a cabeça de minha geração. O pessoal do Pasquim principalmente. Depois da redemocratização, quando os bandos foram se separando, fiquei com a impressão de que fora defraudado.
A maioria dos que diziam lutar pelo Brasil e seu futuro, foram se revelando inimigos do país e de seu povo. Era a “elite intelectual”, e seu ressentimento por não estar por cima da carne seca que ela julga lhe pertencer. Os que não arrumaram uma boquinha criaram tal aversão ao Brasil e aos brasileiros que quem não os tivesse lido ou ouvido antes, pensaria que se tratava de saudosos simpatizantes da ditadura tal o rancor que expressavam por não ter seu direito divino respeitado.
Sérgio Augusto, amigo de Ivan Lessa nos dá um retrato do falecido jornalista, é exemplar. Nos diz que Lessa chamava o Brasil de bananão e acha nisso uma graça infinita. Desfia, num artigo bem escrito e mal pensado, os dons intelectuais do falecido e acaba entregando um esnobe chato e maníaco. Joaquim Ferreira dos Santos nos conta como ele se referia a Zumbi dos Palmares de maneira racista mas considerando isso uma sacanagem ao politicamente correto. Num curto texto ainda conta, como piada, a definição da Academia Brasileira de Letras dada por Lessa:_“Coisa de nordestino malandro que prefere a leveza da pena ao peso da enxada”. Numa só frase, uma dúzia de preconceitos.
Achando-se elite intelectual do país, essa gente pouco produziu. Umas coleções de crônicas, algum mal sucedido romance, filminhos metidos à besta. Foi seu legado cultural. Famosos nos bares caros que freqüentavam, foram envelhecendo tendo de assistir um operário nordestino chegar ao poder, uma geração de escritores conhecendo o sucesso, e mais recentemente a periferia ganhando voz pelos meios eletrônicos. Tudo à sua revelia. Sobrou-lhes o rancor que tentaram disfarçar com o desprezo. Exemplo eloqüente disso é o cineasta Arnaldo Jabor que sem possuir os aparatos do disfarce que adornam muitos iguais a ele, e sem cabedal de cultura, moveu durante quase oito anos uma feroz campanha contra o Brasil e o Presidente Lula que chegou às raias do paroxismo.
Paulo Francis foi outro que fez da esculhambação do país seu meio de vida. Dono de um texto impecável e ampla cultura, Francis, que odiava o Brasil e os brasileiros, foi morar na Meca dos rancorosos sulamericanos e de lá desferia todo tipo de golpe baixo contra o país que não o mimou nem fez dele ministro plenipotenciário de alguma coisa como ele julgava merecer. Francis espumava rancor. No fim da vida foi processado pela Petrobrás na justiça americana devido aos ataques e acusações feitas aos diretores da empresa. O ex-brizolista, ex-trostkista e ex-pessoa se dedicava então a campanhas privacionistas. A estatal petrolífera era seu alvo favorito.
Lessa foi morar em Londres para não ter de ouvir gente assoviando no elevador.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Tovarich Putin







A frase eu ouvi na televisão e era atribuída a Vladimir Putin. “Quem não tem saudade da União Soviética não tem coração e quem quer que ela volte não tem juízo”.
Tenho sempre um pé atrás com tradutores e com jornalistas. Mas fiquei seduzido pela frase. Quero crer na fidelidade da tradução e na atribuição da autoria. Pois, afinal, é aí que reside sua sedução_ no seu autor, o camarada Putin. Não sabia que o ex-diretor da KGB era um frasista. Sequer um frasista ocasional. Sempre penso nele com seu andar de malandro ou envergando seu quimono de judoca. O Putin frasista me surpreendeu.
E veja que há algo de poético no dito pragmático. A frase tem o dom de agradar aos magnatas de hoje e aos velhos comunistas de outrora. Afaga aqueles que sonharam com o socialismo e protege os que lucraram com seu fim. Tem algo de conciliação nacional sem comprometer fortunas nem medalhas.
Dito assim pode parecer que eu quero insinuar que a frase foi pré-fabricada, coisa de marqueteiro para atrair simpatias daqueles que não vêem a menor graça na nova Rússia. Para que? Putin não precisa disso. Se elege quando quer e do jeito que quer. Elege o poste Medvedev. Elege o Czar se lhe der na telha.
A frase me parece sincera. Imagino Putin saudoso dos tempos em que galgava postos na KGB e tinha cabelos. Os dias atribulados da perestroika e da glasnost. Daqueles tempos em que ele mandava prender. (Hoje manda prender e manda soltar, se quiser)
Ouvindo a frase na voz neutra do locutor, fiquei imaginando como soaria em russo. Que aparência  teria escrita em cirílico sobre um papel pardo, a tinta ainda fresca, pregada numa parede, apressadamente, como nos tempos pré-revolucionários. A frase me seduz com sua verdade rude.
Ainda que a notícia não esclareça onde, quando e pra quem a frase foi dita, ela subsiste com sua clareza de desalento, seu tom de desconsolado sorriso, seu humor desencorajador.
O fim da União Soviética tirou algo da alma do mundo, mesmo que esse algo fosse feito de ilusão e voluntarismo. O socialismo que lá se praticou sempre esteve muito longe do socialismo que se quis. Sem embargo, a frase de Putin teve o condão de libertar a envergonhada saudade de quem, um dia, acreditou porque sim.
Na frase do ex-agente da infame KGB, não há a KGB, não há Stalin nem Brejnev, nem Gulags nem trabalhos forçados. Somente a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. E uma saudade.








sábado, 16 de junho de 2012

O que é ruim a gente esconde.







Aconteceu há alguns anos atrás. O então ministro da fazenda, Rubens Ricupero, concedia uma entrevista nos estúdios da TV Globo. Veio o intervalo comercial e alguém esqueceu de desligar algum botão. Quem via o programa pela parabólica pode ouvir o diálogo que o ministro matinha informalmente com o jornalista Carlos Monforte, um parente seu. Cuidava-se da eleição de Fernando Henrique, e Ricupero pronunciou a frase que durante semanas ocupou o noticiário: “O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”.
A frase infeliz culminou com a demissão de Ricupero mas não abalou a candidatura de FHC, que venceu aquela eleição no primeiro turno. O frasista acidental hoje aparece nas TVs para engrossar o rol dos palpiteiros profissionais. Ninguém lhe cobra pela desastrosa sinceridade.
Uma atitude como a do ex-ministro nem de longe causa espanto quando pensamos nos políticos. Ao fim dos quatro anos de seus mandatos, todos eles falam das proezas de suas administrações embora saibam que muitos de seus eleitores conheçam a outra face da moeda. Mas para os incautos, escondem até viaduto caído.
Agora, quando a imprensa tenta esconder fatos conhecidos por muitos, ingenuamente ainda nos surpreendemos.  É isso o que tem acontecido na Eurocopa.
As TVs que exibem a competição nada nos contam dos sérios problemas havidos nos países sede. A morte, confirmada, de um torcedor espanhol nem sequer foi comentada. Muito menos outras duas, de torcedores poloneses, que as autoridades do país negam. Os atos de racismo acontecidos nos estádio e nos centros de treinamentos não merecem nem uma menção. Durante as transmissões dos jogos, aparecem risonhas criancinhas e felizes torcedores. Um narrador com voz de idiota põe legendas nas cenas mostradas pela organização do torneio.
Apenas uma briga envolvendo torcedores russos e polacos foi ao ar, mas os comentários feitos enquanto as cenas eram exibidas, traziam elogios à atuação da polícia e muitos eufemismos.
O SBT, que não transmite a copa, mostrou jogadores franceses negros sendo hostilizados por racistas ucranianos num local que parecia ser um centro de treinamentos. A mesma emissora também exibiu cenas da briga entre russos e polacos muito mais extensas que as que vimos nos canais que detêm os direitos de transmissão da Eurocopa.
Mesmo antes de iniciar-se a competição, a BBC exibiu uma longa reportagem sobre a violência nos estádios poloneses e ucranianos dando ênfase ao aspecto racista das manifestações dos torcedores. Autoridades dos países anfitriões mostraram-se indignados com o que chamaram de “hipocrisia inglesa”. E não sem razão.
Especialistas no “o que é ruim a gente esconde”, os súditos de Sua Majestade Elizabeth II, não se acanham em apontar o dedo para problemas alheios. Quanto ao que sucede dentro de sua ilha, fazem discreto silêncio. Ou por outra, inventam as mais deslavadas desculpas que só um membro da imprensa brasileira é capaz de dar crédito. Isso acontece sempre que num jogo do campeonato inglês há uma invasão de campo e a imagem do invasor não é mostrada sob o argumento de que é isso que querem os penetras: aparecerem na TV. Ora, a maioria dessas invasões se dá em conseqüência de apostas entre amigos. Muitos pelados que surgiram em campos e quadras esportivas, deram essa explicação após serem detidos. Não passa de brincadeira mas deixam a nu a fragilidade da segurança. E isso não se mostra.
Quando quebraram a perna de Eduardo da Silva, o brasileiro que joga na seleção da Croácia e defendia o Arsenal, a TV inglesa não mostrou a agressão do jogador inglês argumentando que era uma imagem muito forte, que poderia ferir a sensibilidade de alguém. Se formos acreditar nisso chegaremos à conclusão que os ingleses são poupados das cenas da fome na África e dos massacres na Síria. Mas sabemos que pernas quebradas em gramados da Inglaterra são frutos de um tipo de arbitragem que é orientada para “deixar o jogo correr” e assim tornar o espetáculo esportivo mais palatável para os que não manjam muito do jogo da bola. Logo, há que esconder.
Mas enquanto nossa imprensa presta vassalagem a qualquer estupidez que venha do velho continente, podemos contar com a mal disfarçada antipatia que os europeus sentem uns pelos outros para obtermos alguma informação sobre os acontecimentos de lá.
Assim como a BBC foi quem mais falou das mazelas dos países sede da Eurocopa, foi a TV francesa quem produziu um ótimo documentário sobre o desastre marítimo recentemente ocorrido na costa italiana com um navio operado por uma companhia italiana no qual seu comandante italiano abandonou o barco e deixou que os passageiros se virassem sós.
Em 2014, pode ter certeza, nenhuma imagem será sonegada. Cada falha na organização da copa ou na segurança. Qualquer turista assaltado ou criança perdida, terá total cobertura de nossa imprensa que não poupará esforços para mostrar ao mundo o quanto somos incompetentes. O jornalismo brasileiro provará que no Brasil só se salva o jornalismo brasileiro.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Políticos







Depois das oitivas dos governadores na CPI do Cachoeira, estou pensando em transferir meu domicílio eleitoral para Brasília ou Goiás. Os senhores governadores não só me convenceram de sua inocência como também provaram que são ótimos gestores públicos. Ambos receberam governos falidos e cheios de irregularidades administrativas. Ambos sanearam as finanças e transformaram gigantescas dívidas em superávit. Encheram os cofres das unidades federativas governadas por eles. Economizaram milhões do erário promovendo uma disciplina de gastos poucas vezes vista. Combateram desmandos herdados de administrações anteriores, moralizaram a coisa pública e viraram exemplo de gestão para seus partidos.
Tudo fizeram para o bem de seus concidadãos sem descurar da família. Ambos fizeram transações imobiliárias para assegurar o futuro dos seus. Foram aplaudidos por correligionários e deles receberam palavras de elogio e incentivo para que perseverem na dura missão de transformar a gestão pública.  Estou certo de ter ouvido dois dos mais brilhantes administradores do país, quiçá do mundo. Agora temo que sejam cooptados por alguma nação européia em crise para solucionar os problemas do velho continente.
Mas nem tudo que ouvi dos governadores me trouxe contentamento. Descobri um homem solitário e me compadeci. Refiro-me ao empresário de jogos conhecido pela alcunha de Carlinhos Cachoeira.
Embora viva na metrópole de Goiânia, ninguém o conhece. Não sabem de sua atividade empresarial e se o governador Perillo vai ao seu prédio é para visitar outros apartamentos, nunca o seu. Todos os que depõem na CPI ou no Conselho de Ética, só estiveram com ele uma, no máximo duas vezes e mesmo assim por casualidade. Parece não ter vida social o bem sucedido empresário. Quem sabe lhe falte o dom da simpatia. Quando o governador de seu estado lhe telefona para desejar-lhe feliz aniversário, é apenas um ato protocolar pois faz o mesmo com todos os aniversariantes de Goiás. E olha que o homem presenteia. Na certa no afã de conquistar amizades. Os telefones que gentilmente regalou são na verdade um pedido de socorro para que o salvem da terrível solidão. Sua mudez na comissão de inquérito talvez seja um sintoma da falta de costume de falar frente a frente com outras pessoas.  
Mas acho que vou aguardar até depois das eleições para a transferência do título de eleitor para o centro-oeste. Digo isso porque durante as campanhas eleitorais para as prefeituras, hei de duvidar. Foi assim na eleição municipal passada quando assisti a propaganda do prefeito Kassab que tentava a reeleição. Pude ver no programa eleitoral daquele prócer que a maior cidade do país não é só maior em população, parque industrial, renda per capita e oportunidades, não. São Paulo é um modelo de saúde, saneamento, educação e segurança pública de causar inveja ao primeiro mundo. Tem remédio de graça que é entregue em casa, escolas que parecem a Dineylandia, hospitais limpos e bem equipados onde todo mundo sorri. Sorri a enfermeira, sorri o médico e até o moribundo sorri. Nunca havia visto hospital tão alegre quanto o hospital do Kassab. Dá vontade de arrumar uma doença e ir gargalhar na paulicéia.


Minuto de silêncio






Nelson Rodrigues já dizia que no Maracanã se vaia até minuto de silêncio. É verdade. Mas se para o grande escritor isso causava uma certa graça, para os neo-jornalistas de hoje é motivo de sérias críticas. Comparam a atitude das torcidas brasileiras com a dos ingleses e sempre repetem que nos estádios da Inglaterra se escuta uma mosca voando quando se presta a homenagem silenciosa. Também isso é verdade, mas por que se faz a comparação? Para nos deixar mal.
A classe social da qual provêem os neo-jornalistas odeia o Brasil. O Brasil e os brasileiros. Querem que sejamos qualquer coisa, menos brasileiros. E se existe um povo que sintetiza nossa maneira de ser, esse povo é o carioca. Debochado, irreverente, pouco dado às mesuras e convenções pequeno burguesas, o povo carioca dos morros e subúrbios não se deixa engabelar pelas pompas do mundo. Vaia.
No afã de menosprezar o povo, os neo-jornalista não vêem o óbvio. Se na Inglaterra e em outros países a homenagem silenciosa é prestada a figuras queridas e conhecidas, entre nós não se dá o mesmo. Homenageiam-se ilustres desconhecidos.
Os ingleses são cobras em matéria de cerimonial. Séculos de monarquia os tornaram mestres do rapapé. Quando vão prestar uma homenagem póstuma num estádio de futebol, certamente o homenageado terá pertencido às fileiras do clube que ali manda seus jogos, geralmente um ex-jogador, um ex-técnico, um ex-presidente que tenha influído na história da agremiação. Não se fazem homenagens em casa de adversário nem com chapéu alheio.
No Brasil o minuto de silêncio serve para que o homenageado tenha o nome dito na televisão para regozijo de seus enlutados familiares, nada mais. Nem o público no estádio nem os jogadores nem o árbitro, sabem de quem se trata. Se assistimos o jogo pela TV, somos informados por um diligente repórter de campo da razão da homenagem. Pelo geral o alvo do tributo é um ex-conselheiro do clube, um ex-presidente de federação, um jornalista esportivo aposentado. Mas há casos mais intrigantes. Certa vez, depois de muito apurar, a reportagem descobriu que se faria o minuto de silêncio pela morte de um ex-jogador. O detalhe era que o atleta falecido tinha sido jogador do Flamengo nos anos sessenta mas na modalidade de basquete.
Ano passado eu ouvi que a homenageada era a mãe de um conselheiro do clube mandante que falecera na precoce idade de 87 anos. No último fim de semana, não lembro em qual dos jogos que assisti, prestou-se homenagem póstuma a um ex-conselheiro. Claro que enquanto o árbitro e os jogadores fingiam grande recolhimento, a torcida entoava seus cantos e batia seus bumbos.
Para reduzir o tempo de vaias e palavrões, enquanto o ilustre desconhecido é homenageado, o minuto de silêncio nunca ultrapassa os 30 segundos.
Quando é justa a homenagem póstuma, o torcedor brasileiro mostra seu afeto e seu respeito, à nossa maneira. Não sabemos nos fingir de mortos à moda britânica. Carnavalizamos, assim como fazemos nos velórios e gurufins.
Na final do returno do último campeonato carioca, jogaram Vasco e Botafogo. Na véspera havia morrido Dicró. Vascaíno famoso, o cantor recebeu a homenagem póstuma antes do jogo. Toda a torcida do Vasco gritou seu nome. Sem ensaio, sem cerimonial previamente concebido.. Silêncio não se fez. Foi, isso sim, um minuto de sonora identificação de vascaínos com outro vascaíno, do povo com o cantor popular. Lamentavelmente a torcida do Botafogo não se incorporou à homenagem.
Raramente se vê em um estádio brasileiro uma homenagem póstuma sendo prestada a um ex-jogador. Mas não é a torcida que o esquece. São os dirigentes e a imprensa. Mesmo antes da morte são esquecidos pela vaidade daqueles e a futilidade desta. O cúmulo do esquecimento proposital deu-se não faz muito tempo.
O Internacional de Porto Alegre organizou uma festa para comemorar o título do Mundial Interclubes. O convescote aconteceu pouco tempo depois da conquista e para seletos convidados. Sócios, beneméritos, conselheiros (esses estão em todas) e imprensa festiva lá estavam. Também presentes, os jogadores. Menos um: Adriano Gabiru, que já havia sido dispensado pelo clube, não foi convidado. Pra quem não se lembra, foi dele o gol do título.
Dentro de pouco tempo, ouviremos que o minuto de silêncio que será respeitado antes de um jogo no Beira Rio, é uma homenagem póstuma a um dirigente do clube que participou, sabe-se lá como, da conquista histórica.