sábado, 28 de julho de 2012

Os nerds, o maridão e a mulherada







Há muitos homens que não gostam de mulheres. Não me refiro aos homossexuais que não gostam de mulheres em suas camas, falo dos machões que, mexe e vira, chegam pra gente com estranhos convites; uma pescaria com muita cachaça mas sem a “mulherada pra encher o saco” ou um encontro de amigos para lembrar os velhos tempos quando não havia a “mulherada pra encher o saco”.
O termo “mulherada” já é, para mim, pejorativo, e tão feio quanto o “maridão” que certas senhoras usam para designar uns tipos tronchos que elas exibem como algo que fosse digno de ser mostrado. Aliás, são esses tronchos que falam “mulherada”.
Esse desprezo pelas mulheres sempre existiu apenas ficou envergonhado depois da revolução feminina. Daí os subterfúgios da pescaria e outros que tais.
Com o advento das TVs por assinatura e a profusão de seriados cômicos americanos, ficamos mais expostos a esse tipo de machismo que nos EE.UU é anedótico. Há uma série cômica na qual todo o humor se baseia no horror que o maridão tem de fazer sexo com a mulher. Há várias assim. Em muitos filmes daquele país, o herói jamais troca os amigos por uma mulher e se o faz, no fim da fita são os amigos que o salvam de alguma coisa na qual ele se meteu pela influência maligna da namorada miolo mole. O melhor amigo é uma instituição americana como o hambúrguer e a arma.
Mas o que está fazendo da misoginia um sucesso entre nós é a ascensão dos “nerds”. Esses caras não gostam de mulheres e são os donos da internet, que é hoje, o maior veículo de comunicação do mundo. Sem sair da casa da mamãe os meninos podem disseminar sua cultura de joguinhos “on line” e adorar seus novos deuses, Zuckerberg, Jobs e Bill Gates. Esse mundo de tecnologia é vedado, por eles, às meninas.
Esses meninos, que estão na faixa etária entre os 12 e os 40 anos, têm pouco desejo de vida fora da tela do computador. Um mundo sem perigos e, principalmente, sem mulheres que possam criticar suas coleções de bonequinhos de jornada nas estrelas ou suas roupas (que ninguém ouse chamar de fantasias) de guerra nas estrelas. É desse mundo da lua que vão aliciando novos adeptos de esquisitices. O que até pouco tempo atrás era coisa de retardado mental, agora é o estilo de vida de futuros bem sucedidos empresários no setor da informática ou no ramo dos joguinhos eletrônicos.
Nos seus computadores os “nerds” também podem curtir os seriados misóginos   americanos e cita-los em suas intervenções e comentários no face book.
Muitos desses caras têm futuro promissor nesse mundo da idiotice institucionalizada e vai ficando difícil para eles escaparem do assédio de mocinhas casadoiras que já perderam as esperanças de arrumar um jogador de futebol ou um sertanejo universitário.
Os “geeks” que são uma sub-raça dos “nerds” são os mais fáceis de capturar pelas Marias megabyte pois os “geeks” são algo assim como “nerds” com traquejo social. Ou seja, eles querem se inserir, ainda que para isso tenham de abrir mão de irrecuperáveis horas afastados de seus computadores, revistas em quadrinhos japonesas e seriados de ficção científica.
“Nerds, geeks e outros bichos são filhos do capitalismo neo-liberal e empreendedor. Os feitos da santíssima trindade “nerd”, Jobs, Bill Gates e Zuckerberg, que é ganhar muito dinheiro, são vistos como atos heróicos por esses adoradores de bonequinhos, esquisitos e suspeitos. Não é uma gente que queira mudar o mundo nem extinguir a miséria. Este é o tipo de assunto que não entra em suas conversas no face book. Querem derrotar seus desafetos qual heróis de histórias em quadrinhos que saem do armário detentores de super poderes e roupinhas engraçadas.
Mas a verdade é que os “nerds” saíram definitivamente do armário. Prova disso é a criação do Dia do orgulho nerd, com parada, ala dos números primos, fantasias (desculpem, vestimentas) do jornada nas estrelas e o escambau.
Os “nerds” perderam a vergonha.


quinta-feira, 26 de julho de 2012

O julgamento do mensalão







Dia 2 de agosto, se não chover, começa o julgamento do mensalão. Muitos reclamam da demora, falam de justiça tardia e, com má fé, jogam nos braços do Supremo a responsabilidade pela procrastinação do ato jurídico. Quem acompanhou o processo sabe bem que todo tipo de manobra protelatória foi usada pela defesa dos 38 réus. Neste quesito, os advogados de Roberto Jéferson sobressaíram-se. Em certo momento, irritado pelo proceder dos causídicos, o relator do rumoroso processo, Ministro Joaquim Barbosa, pediu à Corte que tomasse alguma medida junto à OAB para coibir as chicanas que os representantes de Jéferson  vinham perpetrando. O Supremo preferiu não agir a esse respeito pois uma atitude de desdém da entidade classista, poria o STF numa situação embaraçosa.
Todos aqueles que fazem críticas ao judiciário esquecem-se de elogiar as muitas atitudes corretas do Supremo. Os veredictos que os ministros daquela egrégia corte nos deram nos últimos tempos foram da maior importância para a cidadania. Refiro-me a decisão sobre a união estável de pessoas do mesmo sexo e também sobre o aborto de fetos anencéfalos. Sem contar a decisão que garantiu o direito dos que realizavam as marchas da maconha de se manifestarem livremente. 
Entre os maiores inimigos do STF está o Sr. Marco Antônio Villa. Em seus artigos n'O Globo e nas aparições no Jornal da Cultura, ele descarrega tudo o que pode sobre nossa Corte Suprema. Em muitas coisas ele tem razão, o que torna sua argumentação torcida, desnecessária e incompreensível. Villa critica até o que seria digno de elogio. Busca miudezas, como aquele fato fartamente noticiado durante a sessão que aceitou a denúncia do mensalão em que a Ministra Carmen Lúcia trocava mensagens pelo computador com o Ministro Lewandovski, para atacar os ministros e o STF. Ora, a denúncia foi aceita naquela sessão, mas ele queria os ministros de olhos pregados na lousa como estudantes bem comportados. Por fatos triviais como esse, Villa chama aquela sentada de bizarra. Refere-se a verborragia dos bacharéis que se sucederam na tribuna como um problema da Corte, chega às filigranas dizendo que advogados falaram por tempo maior que o regimental. Por pouco não critica as gravatas do Ministro Fux.
Villa diz que o que acontece nas instâncias inferiores é uma vergonha. Está com toda a razão. Em cada sessão do CNJ que assistimos, nos deparamos com os maiores absurdos cometidos por juízes, com as mais disparatadas práticas, com toda espécie de violações da lei que se possa imaginar. Graças ao Conselho alguns juízes têm sido punidos. Diga-se de passagem que a autonomia do CNJ foi garantida, em julgamento recente, pelo STF. Órgãos classistas dos juizes de tudo fizeram para esvaziar o Conselho que se tornou peça chave de nossa magistratura. 
 Grande parte da sociedade se indigna contra o foro privilegiado alegando que deve haver igualdade de direitos para todos os cidadãos, esquece-se porém de verificar o óbvio: os julgamentos do Supremo se dão diante das câmeras de TV. Graças à TV Justiça, sabemos até mesmo das divergências e antipatias que há entre os membros da Corte, conhecemos sua disposição de votar dessa ou daquela maneira sobre determinados temas etc. Quanto às instâncias inferiores, nada sabemos. Os julgamentos realizados ali nos são estranhos. Mal sabemos os nomes dos julgadores, tudo é feito a portas fechadas com o conseqüente jogo de bastidores. Além do mais caso seja condenado pelo STF, ao réu não cabe recurso a não ser embargos de declaração que terão como julgadores os mesmos ministros que o condenaram.
Mesmo antes do julgamento do mensalão, o advogado Márcio Tomás Bastos, que representa o dono do Banco Rural, vem, com grande afã, tentando desmembrar o processo alegando que seu cliente não detém cargo eletivo não podendo pois, ser julgado pelo Supremo. Ora, se o STF é foro privilegiado então por que o cliente do Dr. Bastos não quer ser julgado ali? Por que abre mão de um privilégio? A resposta é simples: para esse tipo de gente não interessa ser julgado longe de seus domínios. É nos municípios e nos estados que eles podem melhor exercer seu poder junto ao judiciário e mesmo que caiam nas mãos de um juiz que atenda aos interesses de seus adversários, eles contam com as apelações possíveis e recursos em sedes superiores. Caso nada lhes valha, seus advogados conseguirão levar o caso ao Supremo alegando o descumprimento de algum preceito constitucional. Até aí anos e anos se foram e muito de seus crimes já terão prescrito. Sem contar com o fato de que se algum réu, que ainda detenha seus direitos políticos assuma cargo eletivo ou outro que lhe dê privilégio de foro, todo o processoé anulado e outro é instaurado no Supremo.
Assim morreu, recentemente, Ronaldo Cunha Lima, sem ter passado um único dia na prisão pelo atentado contra a vida de Tarciso Burity
O foro por prerrogativa de função só privilegia os políticos, isso se vê no baixíssimo índice de condenação destes na história da Corte Suprema. Também é fato que o maior número de decisões desfavoráveis aos detentores de cargos eletivos se deu nos últimos tempos, assinalando, senão uma mudança nos hábitos nacionais, pelo menos uma disposição de dar à cidadania uma satisfação.
Outra questão pré-julgamento chama a atenção. O Ministro Toffoli parece que já renovou seu estoque de óleo de peroba e não vai abdicar de seu direito de julgar o mensalão do PT mesmo tendo sido advogado do partido antes de assumir sua cadeira no Supremo. Vamos esperar pra ver se isso acontece, mas vindo de Toffoli, não me surpreenderia.
 

domingo, 22 de julho de 2012

Capitu







Vou logo dizendo: é uma das minhas personagens femininas favoritas na literatura. Talvez você queira fazer uma correta ressalva que eu nem li tanto assim para começar a fazer listas de favoritos ou algo que o valha. Você tem razão Toda a razão. Mas em minha defesa eu poderia dizer que tantos fazem coisas parecidas que eu nem me acanho. Poderia também recorrer aos exemplos históricos. Li uma vez que Mussolini após ler o “Assim falava Zaratustra” resolveu escrever a história da filosofia ocidental. Acontece que a obra que Nietzsche fora a única que lera que poderia ser considerada, com boa vontade, dentro desse rol. Péssimo exemplo, você dirá, mais uma vez com toda a razão.
Mas sabemos que nem todos os livros e autores comentados foram realmente lidos. Um bom exemplo disso é Borges. Se todos que o citam e elogiam tivessem realmente lido o escritor argentino, sua obra concorreria com a Bíblia em edições e traduções. Não é, nem de longe, o caso.
Pelo menos o “Dom Casmurro” eu li e reli. Claro que a memória já me prega peças e há pouco tempo me dei conta, folheando a obra prima de Machado de Assis, que havia criado um outro capítulo para o “caso das libras esterlinas”. Como não sou crítico e nem tenho a pretensão de analisar nada, mas apenas falar do meu gosto pessoal por personagens, uso dessa frágil memória para mostrar minha simpatia por Capitu.
Como se pode sentir simpatia por uma personagem que não fala a não ser pela boca de seu acusador? Penso que quando nos aproximamos afetivamente de Capitu é porque já julgamos Bentinho. 
Ele é um homem brasileiro do século 19, rico, que estudou na Europa como convinha. Sua condição social lhe marcou a vida desde o nascimento. Prometido pela mãe para o sacerdócio, safa-se das obrigações clericais por sua condição de bem nascido. Sua mãe, ouvindo seu confessor, aceita a solução proposta por este e para cumprir a promessa feita ao santo, irá custear o ensino religioso de um pobre dando assim à igreja o padre que deveria ser o filho. Graças à bolsa dos pais Bentinho está livre para os olhos de ressaca de Capitu.
Quando o veneno da desconfiança se apossa do moço, é ele quem recolhe as provas, formula a acusação, julga, dá o veredicto e dita a sentença. Durante o processo que ele instaura, Capitu só tem o silêncio para nos convencer de sua inocência. Ainda assim duvidamos do acusador que, como homem de seu tempo, lugar e condição social, não aceita réplicas. Sua argumentação, verossímil demais para ser verdadeira, tem a lógica da autoridade com todos os vícios dos bem pensantes. Bentinho nasceu para mandar, seu mundo o obriga, sua condição social o autoriza. Sua posição de bom moço, marido amantíssimo, bem educado e bem formado o torna imune à dúvida e com seu veneno nos inocula. Sem embargo, seguimos simpatizando com Capitu pois mesmo se nos convencemos de seu adultério, ainda temos o poder de dar-lhe o que Bentinho, por sua condição social e temporal, não pode: o perdão.
A dúvida que temos há mais de 100 anos com relação a Capitu, antes de ser uma maldição é um consolo. Com sua certeza Bentinho aniquila a vida de todos os envolvidos no suposto adultério de Capitu, enquanto nós podemos ainda duvidar. Por outro lado se fôssemos crer totalmente na inocência da moça que tem olhos de cigana, oblíqua e dissimulada, estaríamos diante de uma dessas injustiças que nos poderia levar à descrença no amor e ao cinismo.
            Dom Casmurro é uma obra cuja melhor conclusão é a dúvida.






quarta-feira, 18 de julho de 2012

Os torcedores Suelen e Diego







Suelen e Diego se amam e amam e mesmo time. Sempre que podem vão ao estádio do Botafogo, juntos. Esse mês Suelen recebeu o salário primeiro e combinou com Diego a ida ao jogo contra o Bahia. Antes do jogo seria apresentado à torcida a grande contratação do clube para a seqüência do campeonato. Fizeram as contas: 60 reais para as entradas, (se conseguissem as poucas entradas mais baratas) 20 para a cervejinha, 12 para o trem, total 92 reais. Ou 132 se tivessem que comprar as entradas mais caras. A brincadeira estava ficando muito salgada.
O casal também tem em comum, além do amor ao alvinegro, a paixão pelo samba, e uma feijoada na quadra da escola regada a partido alto, sai por !5 pratas o prato e só os homens pagam ingresso. Come-se bem, ouve-se música da melhor qualili e são muito mais horas de diversão. Naquele fim de semana Suelen e Diego preferiram cair no samba. Gastariam menos na escola.. Pegaram o trem pro outro lado.
Diego constatou que o partido alto continua poderoso no Rio, gente versejando que é uma beleza. Suelen disse no pé a tarde toda.
A diretoria do Botafogo parece que não se deu conta que seu estádio está junto à via férrea. Até a estação de trens mudou de nome e agora incorpora o nome do estádio. Os comboios dos ramais de Deodoro, Santa Cruz e Japeri param na sua porta. Talvez os dirigentes do clube tenham comprado o discurso da imprensa esportiva carioca que vive dizendo que o estádio do Botafogo não “pegou” por que é longe. Longe de quem, cara pálida? As vias que estão praticamente dentro do estádio podem trazer gente de populosos bairros cariocas e até de Nova Iguaçu, cidade de mais de 800 mil habitantes. O lebloncentrismo da crônica especializada não sei em que, é que não pode ver isso. Assim como o Maracanã, o estádio botafoguense pode usufruir desse enorme público que só não enche essa praça esportiva devido ao preço dos ingressos.
Os dirigentes do Botafogo, assim como os dirigentes de todos os clubes, por mais populares que sejam, não estão dando bola para os fiéis torcedores, que no Brasil provêem das classes menos favorecidas. Os preços dos ingressos no estádio do alvinegro provam isso; 30 reais, uma pequena parcela dos assentos e 50 reais o resto. No clássico contra o Fluminense foi mais caro.
Os fatos não bastam para mostrar que tal tabela de preços é um absurdo. Quer um exemplo? _ Depois de ir ao sul do país e derrotar o Internacional de maneira brilhante, o Botafogo mandou o jogo seguinte contra a Ponte Preta. O público foi de 6 mil pagantes num estádio que comporta quase 47 mil pessoas. Não é que não houvesse interesse pelo jogo; o time é bom, teve o melhor ataque do campeonato carioca, vinha bem na tabela. O problema é o valor do ingresso. Para o gigantesco público potencial que o clube tem a sua disposição, o ingresso é caro.
Os que podem pagar entradas de 50 reais toda semana, também dispõem de outras opções de entretenimento pelo mesmo valor. Para os que vivem na zona sul da cidade o Engenho de Dentro é longe embora se possa ir de metrô até a Central e lá tomar o trem sem sequer atravessar uma rua. Mas essa gente só gosta de  andar em veículo próprio e não gosta de misturar-se com quem anda de trem. Por isso reclama que é longe e de ter de usar GPS depois do túnel novo.
No clássico do último fim de semana as duas torcidas levaram juntas 17 mil espectadores ao estádio botafoguense. Se os outros 30 mil lugares que ficaram vagos fossem vendidos a 10 reais, a renda do jogo seria acrescida em 300 mil reais. Nada mal para um clube que assumiu um contrato de 18 milhões com seu novo atleta e que recebe da televisão menos da metade do que recebem Flamengo e Corinthians.
Na véspera do jogo contra o tricolor, Diego fez um biscate. Ralou todo o sábado mas arrumou oitentinha e um cara que trabalhou com ele lhe deu uma dica: _No Méier tem uma churrascaria que para competir com o jogo, faz promoção no rodízio, 30 reais por pessoa e criança com menos de 7 anos não paga. E o melhor é que tem telão, dá pra ver o jogo enquanto as picanhas vão desfilando.
Diego propôs e Suelen topou. Levaram o Júnior. Depois de mandar uma grande quantidade de carnes pra dentro. Diego saiu da churrascaria pensando que o Andrezinho  jogava muito e que a Suelen dentro daquele vestidinho, estava batendo um bolão.







quinta-feira, 12 de julho de 2012

Copacabana







Como todo mundo, eu sempre faço aquilo que odeio que os outros façam. Quer ver um exemplo? _ Essa mania de citar uma frase e não se lembrar do autor do dito. Isso é o tipo de coisa que não perdôo. Nos outros.
Ora, uma frase só faz sentido com autoria, endereço e data. Uma afirmação que causa furor ou espanto numa determinada época pode ser uma banalidade uns anos depois. Um depoimento de um general tem sua validade de acordo com o lado em que ele esteve na guerra. O que disse acertadamente uma mulher pode ser uma grosseria na boca de um homem e o que é um achado vindo de um menino será, quase sempre, o sinal de retardamento mental num adulto. Portanto o nome do autor é imprescindível para a compreensão e avaliação de uma assertiva. Se soubermos o nome, saberemos a época, a circunstância e, principalmente, o lado do balcão em que estava o sujeito que proferiu a locução. Mas vamos lá, perpetrar mais essa desfaçatez.
Um escritor bahiano, do qual não lembro o nome, falava anos atrás numa emissora de rádio de sua ligação com São Paulo e arrematou com uma frase que me ficou dentro. Dizia ele que “ninguém passa seus vinte anos num lugar, impunemente”. Eu sempre soubera disso muito embora nunca tivesse pensado no assunto. Para mim essa amarra sentimental, que é mais forte que o cordão umbilical que nos liga à terra natal, me prende ao Rio. Mais especificamente à Copacabana.
Se for contar bem, meus anos no bairro foram poucos. Na cidade maravilhosa eu morei no Méier, Todos os Santos, Benfica, Catumbi, Botafogo, Bairro de Fátima, Santa Teresa, Lapa, Glória e em alguns desses bairros, em mais de um endereço. De todos esses lugares trago boas recordações e pedaços de saudade. No entanto, foi em Copacabana que mais o Rio viveu em mim.
O bairro, que semana passada completou 120 anos, ainda estava longe dos 90 quando me deu seus botequins e sua praia. Suas meninas e suas noites. Suas tardes de sábado, suas manhãs de domingo.
Trabalhei, estudei, morei e bebi em Copacabana. Principalmente, vivi meus 20 anos em Copacabana. Sonhei muito, sofri pra burro. Freqüentei a Galeria Alasca e a Prado Júnior. O Beco da Fome e a 12ª D.P. A Biblioteca Regional e os cinemas.
O primeiro Chaplin foi no Cinema 2. O amor, conheci na Santa Clara.
Já caminhei Copacabana inteira, pela praia, pelos morros, pelos túneis, pelas ruazinhas pouco transitadas e até por cima dos edifícios. Antes eu sabia todos os nomes de ruas que vão dar na Avenida Atlântica, do Leme ao Posto 6. Conhecia os botequins que ficavam abertos até mais tarde e os que abriam mais cedo.
E tinha os cantinhos. O Bairro Peixoto, uma vila na Pompeu Loureiro, o alto da Gastão Bahiana e o Chapéu Mangueira, a favela mais bonita do mundo.
Mas sobretudo, para mim, Copacabana tinha as mulheres. De todas as cores, formas, idades e condição social.  Acho que vi as mulheres mais lindas do planeta em Copacabana, desfilando por suas belas calçadas de pedras portuguesas.
De tudo que vivi no bairro carioca, tenho hoje uma saudade quente. Boa de sentir. Saudade dos vinte anos, a melhor época da vida. Saudade dos amores, os únicos fatos importantes da vida.
No seu aniversário, velho bairro querido, me veio essa saudade, e uma certeza: Só a ti Copacabana eu hei de amar.


terça-feira, 10 de julho de 2012

A novela







Faz mais de dez anos que não assisto TV aberta comercial, ou melhor, assisto o futebol e algum pedaço de noticiário. Mas os humorísticos, programas de entrevistas e novelas, nunca mais vi.
Outro dia, escutei na GloboNews um cara falando da novela que estreara, não sei quem era o cara mas devia ser diretor ou coisa assim. Falou tantas maravilhas do folhetim que eu fiquei curioso. Curioso e bobo, você dirá, afinal, se o cara trabalha na novela, queria que ele dissesse o que?
Li que Gilberto Gil está assistindo o folhetim, creio que mencionou isso no seu depoimento para o Museu da Imagem e do Som. Jabor escreveu que não perde um capítulo. Eu tinha de ver.
Esperei a oportunidade e tentei assistir um capítulo. Bem, quando sintonizei a emissora dos Marinho, o capítulo já estava pela metade, ainda assim foi tempo suficiente para ver que de ineditismos não havia nada. Vi uma moça (a mocinha) lendo umas cartas que lhe haviam escondido tempos atrás e agora chegavam às suas mãos. Lia e chorava. Toda mocinha chora durantes os 168 capítulos iniciais de qualquer novela. Soube também que há uma vingança na trama (em qual não há?) e que o mocinho está de casamento marcado com outra. Oh! E, é claro, tem uma vilã má pra dedéu que durante o decorrer da novela tende a crescer em vilania, promete o autor nas redes sociais.
O rapaz que faz o papel do mocinho é uma dessas pessoas desinibidas que pensa que não ter acanhamento diante das câmeras, faz do exibido um ator. Sua falta de expressividade exige que o diálogo seja explicativo ou não saberíamos o que se passa com ele. Ou talvez, como seu personagem é um jogador de futebol, ele tenha se inspirado no Riquelme, “o homem da máscara de nada”.
Na cena seguinte a mocinha está chegando na casa do mocinho que tem casamento marcado com outra e tão logo ele abre a porta, se lhe atira em cima aos chupões. Não o abraça, o cavalga com as pernas entrelaçadas em torno de seus quadris. Se as tramas das novelas são pouco realistas, o mesmo não se pode dizer dos chupões, estes são hiper-realistas. 9 da noite é a hora do orgasmo, o momento ponto G da Globo.
A cena era tórrida demais para se assistir ao lado do neto de seis anos. Mudei de canal.
Dias depois, li uma entrevista com o autor da novela na revista Veja. Ele falava do sucesso e o creditava à ambientação da trama: o subúrbio carioca em vez da zona sul. Falou dos novos tempos e dos novos ricos, que ele chama de pobres ricos. E falou do subúrbio que ele conheceu quando criança com sua mãe antropóloga. Pareceu-me muito engraçado o fato de um carioca conhecer o subúrbio antropologicamente. Acrescentou que seu subúrbio novelesco é feito de referências literárias.De Lima Barreto e Nelson Rodrigues até Vitor Hugo e Dostoievski.
Para o autor, suburbano tem de falar errado. Segundo ele, se seus personagens falassem um português castiço soaria falso. Mas onde se fala português castiço? Em Ipanema?. Na Rede Globo? Esqueceu-se o Sr. Carneiro, que Lima Barreto era suburbano. Fernanda Montenegro também. Sérgio Cabral, pai, idem. Mas, dizia, sempre que um personagem dessa origem fala mal, alguém corrige. Ainda assim, salientou, tem havido reclamações e ele ia começar a maneirar no linguajar dos incultos. Certamente para não ferir a sensibilidade dos telespectadores das classes altas que falam português castiço e que, ainda segundo ele, também simpatizam com a novela que trata de periféricos.
Seguramente o autor vai reivindicar seu papel na história da tele-dramaturgia por ter dado papel protagonista aos suburbanos.
No começo dos anos 70, a novela “Bandeira 2”, escrita por Dias Gomes, era totalmente ambientada no subúrbio e seus personagens centrais eram os bicheiros Tucão e Jovelino Sabonete. Este último tinha esse apelido por lavar sempre as mãos, pois era traumatizado por ter passado a infância em um lixão. Havia uma taxista, vivida por Marília Pêra, e também um jogador de futebol. Em “O cafona”, outra produção do gênero, o protagonista era um suburbano que enriquecera com seus “Supermercados Ataíde”. O personagem vivido por Francisco Cuoco, bebia a lavanda da mesa como entrada e usava ternos bizarros. E olha que para se vestir bizarramente nos anos 70 o cara tinha de caprichar. Tanto nas produções dos anos 70 como na de agora, o morador do subúrbio é retratado de maneira estereotipada e folclórica.
Ou seja, pelo pouco que vi, não há nada de novo na grande novidade.


sexta-feira, 6 de julho de 2012

Malandro maneiro







Conheci o Joel no botequim que ambos freqüentávamos em Copacabana, no final dos anos 70 ou princípios dos 80. Era um cara baixinho e magro, de uma robustez nordestina, sertaneja. Alagoano, era um típico malandro carioca. Malandro no melhor e mais carioca dos sentidos. Sabia levar a vida. Batalhava sempre e muito. Foi ajudante de pedreiro, apontador de obra, camelô, bicheiro, o diabo.
Fumava um, que comprava sempre na Cidade de Deus. A de Deus, como ele chamava. Também gostava de uma birita e nos tempos duros dividíamos os venenos que o João, sócio do botequim, arranjava pra gente. Esse veneno consistia numa mistura de muitas bebidas pouco pedidas: creme de ovos, vinho de catuaba, bíter, um vermute de marca suspeita e pra completar o copo grande, cachaça barata. Dava pra ficar doidão sem dar prejuízo ao nosso amigo do botequim. No fim do expediente, ajudávamos a lavar a casa e ainda comíamos os bifes de fígado e pedaços de galinha cozida que a clientela havia desprezado. Foi o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, como disse o escritor inglês.
Sua época de prosperidade foi quando vendia plaquê na Av. Copacabana. Como não tinha conta em banco quem guardava seus ganhos era o João. O bar era seu banco. Depois veio um tempo escuro. Joel continuava indo ao bar. Eu também. Nunca o vi reclamar da vida nem pôr a culpa de suas desditas em outro. Levava tudo muito filosoficamente.
 Joel falava o idioma do povo, e nele era mestre. Sua narrativa malandreada do mito bíblico de Sansão e Dalila, foi uma das coisas mais saborosas que já escutei.
Nossos papos, naquelas noites de botequim, não eram sobre a vida de um ou de outro, eram sobre a vida. Joel  não tinha nenhuma afetação nem pose de malandro. O cara não se dizia, era.
Jamais me falou de família, só de momentos bons da infância em Alagoas. Era um cara só. Pelo menos no Rio não contava com ninguém.
Tínhamos uma amizade de botequim, respeitosa e discreta. Nunca soube nada de sua vida amorosa e só conheci um endereço seu quando ele me apresentou a uma amiga com quem tive um caso. Ambos moravam no mesmo prédio no Bairro de Fátima. No meio dessa minha história com essa mulher, houve algo envolvendo bagulho que sujou a barra dele junto a alguém com quem dividia o apartamento ou algo assim. Não lembro bem.
Mesmo depois de já estar casado e não freqüentar mais o botequim de Copacabana, eu sempre encontrava o Joel pelas ruas do Rio. Escrevendo bicho. Quando nos víamos ele abria seu franco sorriso e saudava: _Grande Mineiro. Púnhamos os assuntos em dia e zombávamos da vida. A última vez que o vi foi em 92.
 Em plena era Collor, eu tinha minha banca de camelô próxima ao metrô da Glória. Eu chegava cedo para ver se vendia algo pra alguém indo pro trabalho e aí ficava até o sol se pôr. Na maioria dos dias eu só arrumava pro pão com mortadela e um limão pra limonada. Foram tempos duros.
Um dia vi passar o Joel e o chamei. Tivemos um de nossos papos, falamos daqueles dias bicudos e ele me contou que estava correndo atrás. Havia perdido o emprego numa banca de bicho pois com a queda do movimento o gerente do ponto resolveu despedir um dos escreventes. Joel se prontificou a deixar o trabalho pois o outro cara que escrevia tinha família e precisava mais do salário. Velho malandro maneiro.

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