quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Valores







Gostaria de falar sobre duas coisas rápidas, um feijão com arroz básico. Vou tentar temperar direitinho.
Primeiro: Eu nunca entendi qual a função dos conto infantis tradicionais. Se for só para entreter e atemorizar as crianças, vá lá, acho que cumprem bem sua missão. Mas me parece que contos infantis deveriam trazer algo mais, algum ensinamento, talvez uma lição.
Claro que de muitos contos, conheço apenas traduções de traduções, versões de versões. Chapeuzinho Vermelho se salva mais ou menos; tenta ensinar obediência. Eu digo tenta, pois quando criança, esse ensinamento não me comoveu muito. O que me impressionava na história, eram pessoas inteiras saindo da barriga do lobo.
 E os outros contos, o que tentam ensinar? Será que João e Maria quer ensinar a  crianças abandonadas, sobrevivência na selva? E João e o pé de feijão? Deseja esse conto? Instruir pivetes na arte de roubar gigantes?
Uma vez li algo sobre o significado dessas estórias infantis. Creio que foi num livro do Eric Fromm, mas posso estar misturando as estações. O texto que li, abordava o tema pelo ângulo do significado oculto. Assim que Chapeuzinho Vermelho falaria sobre a menstruação, a menina está virando mulher, daí a cor do chapeuzinho. Não lembro o que se dizia sobre o Lobo Mal, mas dá para imaginar. Quanto à Vovó...
Segundo: Nossa sociedade, como qualquer outra, tem seus valores. Alguns deles, dividimos com outros povos, outros cultivamos sós e a mistura de tudo que temos como nossa maneira de ser nos faz um povo diferente de outros povos.
Um desses valores, eu diria que é a afetividade. Somos beijoqueiros e abraçadores. Nunca tememos demonstrar nosso afeto, nosso carinho mesmo que o objeto desse afeto, desse carinho, seja um desconhecido. Já nos apresentamos aos beijos. Aos dois, aos três, muito estalados. Se estamos entre os nossos essa afetividade se alastra ainda mais, muito mais.
Imagino que isso venha de nossa mistura racial e os outros povos que se formaram da mesma maneira, compartilhem conosco essa maneira de ser. Carinhosa, afetiva e fraterna.
Mas muito nos diferimos dos estadunidenses. Isso fica patente quando assistimos um filme americano. Ninguém nessas fitas se abraça se não tiver um motivo muito grande para isso. Quando o fazem, e não são namorados, a cena é melosa e falsa. Moças e rapazes apertam as mãos quando são apresentados. Se forem descolados, nem isso. Nessas apresentações e despedidas sempre parece que alguém acabou de vender um seguro ou um carro usado para o outro. Nas comédias estilo “city com” esse tema aparece muito e os que são um pouco mais carinhosos são tratados como chatos irrecuperáveis e são evitados.
Agora deixa eu pôr uma farinha nesse arroz com feijão.
Todavia aquelas estórias infantis tradicionais continuam sendo lidas e contadas por pais e avós em suas mais diversas versões. Existe hoje uma tendência às modificações politicamente corretas para não ofender madrastas, anões, feios, velhos, bruxos e principalmente animais. Mesmo assim elas continuam fazendo parte do imaginário infantil.  Mas, sem dúvida, o desenho animado tem hoje muito mais audiência que aqueles contos, estórias e fábulas que atravessaram gerações. Há muito tempo é assim. Acontece que nos dias de hoje com a TV por assinatura e seus canais especializados nesse tipo de diversão infantil 24 horas por dia, a coisa ficou dura pra carochinha.
O mundo infantil de hoje está povoado por personagens made in usa. Ou seja, produzidos com os valores made in usa. Na terra de Marlboro não há lugar para afagos ou afetos. O carinho é raro. Salta-se da grossura para a pieguice mais melosa. Outro dia mesmo eu assistia o Bob Esponja ser esculachado por ter uma marca de baton que sua avó havia lhe deixado no rosto. Todos riam dele, lhe diziam queridinho da vovó. Ao Gunball lhe passou algo pior quando foi obrigado a beijar sua avó Jojô e seus lábios tocaram os da velhinha; ele ficou traumatizado e seu irmão teve que ser muito inventivo para salva-lo da catatonia de que foi acometido.
Lá, na terra dos bravos matadores de índios, o carinho, o afeto, o afago, são mal vistos. Já quando começam a freqüentar a escola, os garotos rechaçam qualquer demonstração de afeto materno.
Eu acho que isso vem da formação religiosa puritana que sempre viu no amor entre as pessoas um empecilho à adoração de Deus. E nossos pequenos vão mamando esse tipo de concepção da pior maneira possível: a maneira engraçada.
Agora, quer um ovo frito? Pois bem.
Muito se tem falado do espaço que poderá ser aberto para a produção de conteúdo nacional na TV por assinatura. Eu espero que possamos ver mais de nós mesmos na televisão que tão caro pagamos. Acontece que não se pode obrigar esses produtores a adotar nem nossa linguagem nem nossos valores.
Outro dia, meu neto e eu assistíamos um episódio de Gui e Estopa, produção nacional de desenho animado, e lá estavam todos os estereótipos americanos que se encontram nas séries animadas daquele país. Os personagens estavam todos envolvidos com um encontro amoroso no melhor estilo “date”. Um dos personagens principais e uma outra personagem seriam apresentados e supostamente namorariam depois. Porém o cachorrinho, ou sei lá o que é aquele personagem, cometia as gafes que faz fracassar o encontro amoroso americano: ele sai do banheiro com um pedaço de papel higiênico preso no sapato, tem algo de comida preso aos dentes e bigode de groselha. Isso, por lá, é inaceitável numa “date”. Sabemos disso, pelas séries de TV para adolescentes e desenhos animados para crianças produzidos naquele pais.
Esse desenho, como já disse, é brasileiro e seu público alvo são crianças que não devem passar dos 7 anos. Pelo visto, seus produtores já estão prontos para o futuro, para o fim da afetividade.

sábado, 13 de outubro de 2012

A eleição de Joaquim Barbosa

                                                                                                                                                                                                       

                Essa semana, em meio ao julgamento da ação penal 470, tivemos a eleição do Ministro Joaquim Barbosa para presidência da mais alta corte do país. Cumpriu-se o rito com a elegância de sempre. Joaquim Barbosa foi eleito por 9 votos contra 1. Para muitos foi apenas uma formalidade já que nome e placar da votação eram sabidos de antemão. Mas enganam-se.
                A eleição de Joaquim Barbosa está repleta de simbolismo e sua formalização tem valor igual ou maior que o selo do Imperador em carta de alforria. Sim, pois é um homem negro que vai ocupar a cadeira de Presidente do Supremo Tribunal Federal.  Um homem negro, e é preciso que assim se diga. Não um afro-descendente ou qualquer outro eufemismo. Um homem negro.  Um descendente daqueles que aqui aportaram tendo grilhões a sujeitar-lhes braços e pernas e que produziram, sem embargo, um milagre cultural nessas terras.
                Assim como Rebouças e Milton Santos, Joaquim Barbosa atinge o ponto mais alto de sua carreira por sua alta capacidade, seu intelecto privilegiado. Mas isso nem sempre é suficiente quando se trata de uma pessoa negra. Há que matar um leão por dia para, simplesmente, afirmar sua humanidade.  
                Pois bem, todos os sacrifícios foram feitos, todas as lutas travadas e hoje temos um homem negro eleito por seus pares para presidir um dos três poderes da Nação. Depois de todas as injustiças sofridas pelos negros em nosso país, um homem negro presidirá a casa guardiã da constituição que reza em seu artigo 5º: “Todos são iguais perante a lei”. Infelizmente não perante a sociedade, daí a importância da eleição de Barbosa, um homem negro.
                Talvez você, meu amigo, queira contestar essa minha insistência quanto à cor da pele do Ministro, recém eleito presidente do STF, opondo o valor maior do currículo de Joaquim Barbosa, sua trajetória brilhante desde a pequena Paracatu até a corte suprema, seu doutorado na Sorbonne ou mesmo o sistema de rodízio dos ministros do Supremo no comando do tribunal. Ora, meu caro, não sejamos hipócritas. Nesse país, que teima em maltratar seus filhos negros, a assunção de Barbosa à cadeira maior da maior das cortes, é um rasgo na história, uma afirmação.
                Tentar omitir a cor de Joaquim Barbosa, em nome da democracia racial, ou seja lá por que motivo, é o mesmo que tentar usar sua escolha para presidir a corte, como argumento contra as cotas raciais nas universidades. E, pode ter certeza, isso será feito.  A vitória desse homem negro, do povo negro, será usada contra ele.
                A luta empedernida contra as cotas raciais nas universidades públicas, que teve até mesmo um partido político como autor de uma ação de inconstitucionalidade, nos deu mostra de como nossa sociedade ainda deseja os privilégios de cor, de raça, de classe.
                A cobertura jornalística da eleição de Joaquim Barbosa padeceu, como era de se esperar, de profundidade. Pouco ou nada se falou de sua importância simbólica. Se não se fala na cor do Ministro, não se faz necessário falar do racismo, esse tema incômodo. Mas há muito que já não espero nada de nossa imprensa nem de nossas elites. Tampouco de nossa classe média que vê os que ascendem socialmente como uma ameaça aos seus mesquinhos privilégios
                Eu prefiro guardar na memória que no dia 11 de outubro de 2012 foi eleito para presidir o Supremo Tribunal Federal, um homem negro.


















sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A lógica do senhor Klein







Na história recente do país, tivemos candidatos muito ruins que saíram vencedores nos mais diversos pleitos. O melhor exemplo é Fernando Collor de Merda que chegou à Presidência em cima de um discurso barato e pose de galã de novela mexicana. Durou pouco seu desgoverno mas ainda causa perplexidade sua eleição.
Enéas também mereceu muitos votos, milhões deles, quando se candidatou ao mais alto cargo da República. Sem contar que muitos candidatos derrotados conseguiram angariar os votos de eleitores incautos que neles votaram sem saber bem por que motivo.
Roberto Jéferson, réu do mensalão, saiu de um programa popularesco de TV e chegou à presidência de uma casa de tolerância com sigla partidária. Do mesmo programa, saiu Wagner Montes que se tornou figura de proa do PDT fluminense. A bola da vez é Celso Russomanno.
Eu defendo esquálida tese de que o apresentador de TV é apenas um balão de ensaio da Igreja Universal visando às eleições presidenciais de 2014. Testam-se estratégias. A campanha do candidato do PRB à prefeitura paulistana é comandada por um pastor da igreja que se licenciou do lucrativo ministério para isso.
Liderando as pesquisas de intenção de votos, a campanha de Russomanno ganhou força própria e a Igreja Universal está muito próxima de comandar politicamente a maior cidade do país. Creio que nem mesmo eles esperassem tão bom desempenho do candidato apresentador. O certo é que os adversários de Russomanno, não.
Serra e Haddad se prepararam para trocar chumbo grosso entre si e, atônitos, assistiram o crescimento da candidatura do homem da Universal sem sequer aperta-lo no que ele tem de mais vulnerável: a ausência de idéias e programa de governo.
Só agora o confrontam com a realidade e Russomanno quando abordou a questão do transporte público da cidade logo expôs sua incapacidade e desconhecimento. Russomanno falou que quem anda mais de ônibus deve pagar mais.
Se a proposta do candidato afronta o bom senso, seja ele o da justiça social ou o da disputa eleitoral, isso se dá pelo seu despreparo político e intelectual. Mas o que me causou graça no episódio foi o que escreveu Cristian Klein para o Valor Econômico de 04/10.
Dizia o articulista que a proposta de Russomanno era “aparentemente lógica, mas perigosa eleitoralmente”.
Ora bolas, como assim “aparentemente lógica”? O normal, o lógico dentro de espírito capitalista é que quem consome mais um produto ou serviço pague menos por ele. Se eu tenho dois filhos na escola particular receberei um desconto na matrícula do terceiro. Se eu mando fazer 100 cartões de visita está claro que o preço por unidade baixará se eu mandar imprimir 500. No supermercado um pacote de café de meio quilo sai mais barato que 2 de 250 gramas.
Seria lógico que quem mais utilize o buzão pague menos por passagem. Além do mais, os moradores da periferia, que são os que mais utilizam o transporte público, não o fazem para visitar amigos ou ir ao futebol. Eles andam em dois ou três transportes em cada viagem para trabalhar, para produzir riquezas para outros.
A direita tradicional e liberal, sempre trata de esconder suas verdadeiras intenções quando dessas questões se trata. Uma vez instalada no poder promove seus despautérios e dá aumento de passagens para as empresas de transporte público que são fortes doadoras de campanha. Nessa Russomanno claudicou e perdeu vários pontos nas pesquisas de intenções de votos. Uma lição para 2014.
Outra lição? Não crer na lógica do senhor Klein.




segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O dia está chegando







Já não são os fatos que me assombram, mas a desfaçatez com que são urdidos. Por que eu deveria me assombrar com a manipulação de imagens e falas feitas pela Rede Globo? Bem, primeiro porque não havia a necessidade de dar mais ênfase ao julgamento do mensalão e depois pelo fato das imagens e áudios que foram montados em ordem diferente de como ocorreram, terem acontecido apenas umas horas antes. De qualquer maneira a TV dos Marinho não deixa de me assombrar.
Nem todos puderam acompanhar aquela sessão do STF que fora realizada à tarde. À noite, em suas casas, aqueles que assistiram um resumo do julgamento no Jornal das Dez da Globo News ou no Jornal da Noite da Globo, seriam convencidos que aquelas frases pinçadas, foram ditas naquela ordem, naquele contexto. Que as imagens que as ilustravam na tela foram colhidas no mesmo instante. Milhões de pessoas foram iludidas, enganadas. Apenas mais uma desfaçatez das emissoras dos Marinho.
Mas o que não deixa de causar assombro é que uma parcela da imprensa, que se diz independente, queira iludir e enganar como aqueles profissionais do ilusionismo jornalístico. Esse é o caso da Carta Maior.
Apenas hoje (2 de outubro), há dois artigos naquela publicação que comparam o caso do mensalão com o caso Dreyfus. Em outro artigo, o Ministro Joaquim Barbosa é tratado como vaidoso e personalista. Dias atrás, o julgamento em si era chamado de BBB. E por aí vai.
Claro que o Dreyfus dos artigos é o ex-Ministro José Dirceu. Seu dia está chegando e os negacionistas do mensalão se adiantam ao veredicto dos Ministros do STF, que não deve ser outro senão o da condenação, para tentar desmoralizar o processo e seus julgadores.
A tese, ainda sustentada pela publicação de Mino Carta, é a de que nunca existiu mensalão, que tudo é uma farsa urdida pela imprensa golpista. Se houve algo, foi apenas um caixa dois de campanha eleitoral. Ainda que haja réus confessos. Mesmo que a devassa promovida pela Polícia Federal nas empresas de Marcus Valério tenha arrebanhado caminhões de documentos. Para tudo há uma explicação capenga.
Em um dos artigos, o jornalista de Carta Maior chega a dizer que as acusações contra Dirceu se baseiam em encontros que este mantivera com banqueiros na qualidade de Chefe da Casa Civil e que isso não constitui crime. Em nenhum dos artigos aparece o nome de Marcus Valério nem o de outro publicitário, Duda Mendonça, que afirmou na CPI dos Correios ter recebido no exterior o que lhe era devido pela atuação nas campanhas do Partido dos Trabalhadores.
O segundo articulista fala de malabarismo jurídico e diz que tudo começou com a denúncia bombástica de Roberto Jéferson, que fizera isso por vingança. Não foi bem assim.
Tudo começou quando arapongas, fazendo-se passar por empresários, filmaram um funcionário dos Correios recebendo uma propina e citando o nome do ex-deputado e ex-gordo, Roberto Jéferson. Diante do vídeo, este teve que partir para o ataque e denunciou o esquema.
Depois, durante a CPI dos Correios, fomos conhecendo os pormenores de como o dinheiro subtraído dos cofres públicos, através das empresas de Marcus Valério e outras, ia parar nas mãos de deputados, tesoureiros e presidentes de partidos que recebiam em espécie para votar com o Governo Federal, matérias de difícil tramitação.
Até agora, os Ministros do Supremo só julgaram a escória política com a qual o PT se misturou em nome da governabilidade. Mas o dia de José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares está chegando.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Lobato e o racismo







Vivemos tempos interessantes, diria um chinês. Apesar do cerco da mais espessa idiotice, aqui e ali aparecem brechas por onde passa alguma luz. Claro que operosos cultores da escuridão logo aparecem com baldes de argumentos supostamente democráticos, vagamente libertários para tapar qualquer crítica que queira alumiar, arejar e remover a poeira do estabelecido. É o caso da obra de Monteiro Lobato.
Não faz muito tempo que alguém chamou a atenção para o conteúdo racista do Sítio do Pica-pau amarelo. Do tratamento dado à Tia Nastácia. Tudo que é contestado na obra lá está desde sempre mas só agora alguém tem a coragem de expor. Durante todos esses anos, autores vêem citando Monteiro Lobato com admiração e dando-o como inspirador e mentor de suas carreiras literárias. Parece que ficava bonito.
Sem embargo, aquela que criou, usando trapos e botões, a contestadora boneca Emília e o sábio Visconde de Sabugosa com uma espiga de milho, é enxovalhada pelo autor. Ainda que seus quitutes sejam louvados, Lobato refere-se a ela como ser desprovido de inteligência, quase infantil ou menos que isso pois o menino Pedrinho afronta os seres de nosso universo mítico com grande desassombro enquanto a negra tem por eles o terror daqueles que tudo ignoram.
Os que viram os problemas na obra de Lobato apenas pediram que o Ministério da Educação não a incluísse entre os livros que compõem a biblioteca infantil que este Ministério distribui para as escolas. Ninguém falou em queima de livros ou censura. Pediu-se algo razoável; que não fossem parar nas mãos de crianças de 6 ou 7 anos uma obra que traz preconceito racial na forma de menosprezo por um de seus personagens.
Acontece que nos achamos diante do grande homem, do grande escritor. Um ser intocável. Mas não deveria ser assim. Lobato foi um dos que à época criticaram a criação de uma estatal petrolífera no Brasil. Americanófilo, preconizava um modelo de exploração de petróleo baseado na iniciativa privada. Capitalista e empreendedor, a cada fracasso nos negócios mais sobrava para Jeca Tatu.
Quando afinal resolveu redimir o caboclo, meteu-lhe umas botinas, curou-lhe das lombrigas e pronto. Nada falou das condições de sua existência nem de seu salário. Meteu-lhe botinas medicinais.
Mas se o grande homem não se mostra tão grande assim, sobrava-lhe a obra literária infantil que alguém resolveu agora criticar. Os defensores de Lobato não admitem a crítica. Quem o faz logo é chamado de censor ou algo pior. Mas essa critica é apenas quanto ao conteúdo manifestamente racista. Creio que a ninguém lhe ocorre tentar diminuir a enorme contribuição de Lobato para a literatura infantil. Sua obra serviria de modelo de didatismo e forma para qualquer jovem escritor que quisesse trilhar o caminho da escrita para crianças. Mas como já disse, não é mais coisa que se entregue nas mãos de crianças que iniciam a leitura.
Recentemente, ouvi na televisão uma senhora que dizia que na França o mesmo se dá com os quadrinhos do Tin Tin que já não são encontrados nas estantes de obras infantis e sim na de adultos devido ao seu caráter colonialista que uma sociedade que se quer multi-étnica e multi-racial já não suporta. Um adulto tem como pôr no seu devido contexto o que ali vem dito, uma criança não.



terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ganso







Antigamente os contratos de jogadores de futebol eram na base de luvas e salários. Um tanto na mão e tanto por mês.
Tem o famoso contrato de Leônidas da Silva no qual havia uns ternos como luvas. Até o tecido da confecção estava explicitado. O Diamante Negro era chegado na elegância e tinha o salutar hábito de papar umas brancas. Ambas as coisas lhe traziam a antipatia da invejosa crônica.
Outro contrato que foi muito falado, foi o da transferência de Gerson do Botafogo para o São Paulo. Dizia-se na época que as luvas recebidas por Gerson davam pra comprar um apartamento na Vieira Souto. Eu, garoto, vivia imaginando o Canhota com vista pro mar e cercado de mulher gostosa por todo o lado.
Daqueles tempos para cá, uma coisa mantém-se igual: os dirigentes continuam sendo uns empresários cheios da grana. Mas a modernidade trouxe para cena o empresário espertinho e outro tipo de empresa para o futebol. Com isso os contratos versam sobre direitos de imagem, participação publicitária e o escambau.
O próprio clube estimula a superexposição do atleta tomando-lhe o tempo dos treinamentos e de dedicação à sua atividade principal.
Mas falo muito e não chego aonde queria chegar. Queria falar do Ganso e do impasse de seu contrato com o Santos.
Ganso recusou, algum tempo atrás, um desses contratos com mais cláusulas que a constituição e ficou chupando o dedo. Ele e seus empresários espertinhos, sabem que rasgaram dinheiro e hoje, devido às contusões e conseqüente queda de rendimento, ele já não tem mercado nos grandes centros futebolísticos da Europa. Criou-se o impasse. A diretoria do Santos, formada por esses neo-empresários, aplica contra o rapaz as regras do mercado que não levam em conta o ser humano, e vira-lhe as costas.
No último jogo do Santos em que atuou, Ganso foi chamado pela torcida de mercenário. À saída do campo, ainda de chuteiras e calções, Ganso demonstrou calma, alegou que recebia um dos salários mais baixos no time mas disse que era assim mesmo, que a cultura de nosso país era essa.
Ora bolas, seu Ganso, que eu saiba, a única cultura que o senhor conhece, alem da brasileira, é a do Vice-Reino do Grão Pará. Em todos os lugares se dá o mesmo. Quando O Figo se transferiu do Barcelona para o Real Madrid, o Galego foi tratado como mercenário e em seu primeiro jogo no estádio catalão ele não podia bater escanteio tamanho o número de objetos jogados nele.
Há poucas semanas, aconteceu com o Van Pierce que teve camisas com seu nome queimadas quando se transferiu para o Manchester e ano passado com o Torres que deixou o Liverpool pelo Chelsea.
Então, seu Ganso, quando estiver na bronca com seu time, com seus empresários espertinhos ou com a diretoria inumana e boçal, não meta o Brasil no meio, não queira enxovalhar nossa cultura, não fale do que não conhece e vá logo esquecendo esse negócio da superioridade cultural européia pois por lá o senhor já não tem chance. Vá pensando em aprender chinês ou árabe. Se oriente rapaz.  


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Reforma ou esculhambação?







Paralimpíadas, jogos paralímpicos, é assim que a emissora que transmite os jogos paraolímpicos está grafando e falando. Ainda hoje, um locutor se corrigiu e usou a forma esquisita. Logo me toquei, tem a ver com a reforma ortográfica.
Aqui deixo uma promessa para você, amigo e leitor: _ Prometo jamais aceitar essa aberração e se alguma vez escrever segundo esse novo códice ortográfico, por favor, ponha na conta de meus incontáveis erros.
Para que precisávamos de uma reforma ortográfica? Falou-se de um acordo ortográfico quando se começou a discussão sobre o tema. A idéia era unificar o idioma. Para que? As diferenças entre o português falado aqui e o falado em Portugal, não impedem a comunicação entre os dois povos. Além do mais, assistindo a TV dos galegos, não vejo nenhuma aceitação da tal reforma. Lá, grafa-se e fala-se como sempre.
O que é diferente na fala dos dois povos é o que enriquece, é o que engrandece o idioma. Nada se perde, tudo se soma.
O português falado no Brasil já é língua. As duas formas (brasileira e portuguesa) já são reconhecidas pelo mundo virtual. A idéia de reforma, unificação, ou que nome se queira dar, apequena, reduz, enfeia. Cria monstrengos
O que deveria chamar a atenção das autoridades que comandam a educação no país é o péssimo português falado por toda espécie de engravatados que durante curtas entrevistas usam a expressão “no sentido de” meia dúzia de vezes. E fazem isso ao pé de lindas bibliotecas, dentro de pulcros laboratórios, diante dos bustos de doutos mestres. Fala-se mal com ares de erudição. Mas você dirá, com razão, que pelo menos o “objetivando” foi pra tumba junto com o “a nível de”. É verdade. Mas por que trocar o sujo pelo mal lavado?
A educação no Brasil é um desastre. Começando pelo ensino do idioma. E o que faz nosso ministro que dormiu “ciência e tecnologia” e acordou “educação”? Bem, primeiro ele fala do uso dos tablets como solução para não sei o que. Obviamente uma ressaca da ciência e tecnologia. Depois propõem uma reforma no ensino médio que acabaria com os professores especialistas e introduziria o professor generalista. As matérias tradicionais seriam acopladas em áreas de conhecimento. Isso já foi tentado quando o ensino primário foi juntado ao ginasial. O resultado foi o fracasso e sete anos depois o governo teve de voltar atrás.
Hoje temos os primeiros quatro anos do ensino fundamental com professores generalistas, como sempre foi, e o restante do curso sendo ministrado por professores especialistas. No caso da introdução da “reforma” proposta para o ensino médio, apenas os alunos das quatro últimas séries do ensino básico teriam professores especialistas. Ou não?
Como sabemos, a única coisa que se aprende com a lição da história é que não se aprende nada com a lição da história. E no Brasil dos últimos tempos, os erros são repetidos com um entusiasmo de fazer inveja aos locutores esportivos.
Parece-me que a idéia central da tal reforma, é formar profissionais que atendam a demanda do mercado. A cultura seria jogada no lixo em nome da competitividade do país. A base de bajulação do governo apóia com alegria e o que deveria ser a oposição, representa justamente os setores industriais que desejam esse tipo de profissional.
Convencer os vagabas do ensino médio que estudar menos matérias é o bicho, é fácil. Difícil será depois formar um povo que valorize a cultura e o conhecimento.
Esse profissional técnico e mal informado já existe entre nós. Há alguns meses atrás um conhecido meu, que é uruguaio, foi ao médico e o “doutor” lhe perguntou se no Uruguai se falava castelhano. Ou seja, basta dar uma mãozinha.